terça-feira, 17 de janeiro de 2012

[HISTÓRIA:IMAGEM: CARTÃO POSTAL: ALAGOAS] Douglas Apratto Tenório e Carmen Lúcia Dantas.Redescobrindo o passado: cartofilia alagoana


Publicado em 4 de Janeiro de 2009



























Umas poucas palavras

Luiz Sávio de Almeida





É densa a contribuição de Douglas aos estudos sobre Alagoas. São múltiplos os temas que desenvolve. Ele terminou seu doutorado com tese sobre o período de Muniz Falcão e produziu dois outros textos essenciais para que se discuta o século XX em Alagoas, sendo um sobre a implantação das ferrovias e outro sobre os desdobramentos políticos do período oligárquico. Carmem Lúcia Dantas vem se destacando como museóloga,  pesquisadora ligada á cultura popular e, agora, está na companhia de Douglas, no que vou chamar de relação entre história, memória e fotografia.
Realizaram um belo trabalho sobre cartões-postais em Alagoas, consultando coleções em vários estados. Aliás, a fotografia como um todo, parece estar despertando interesse atualmente em Alagoas; tenho informações de que o Instituto Histórico e Geográfico vai publicar sua coleção e consta-me que há tese de doutorado em desenvolvimento - arquitetura em Recife - que privilegia o cartão-postal.


      

Cartão-postal e fotografia sempre me interessaram; nem por isto, considero-me um conhecedor. A fotografia traz em si a possibilidade de uma escrita com a luz, redução da química à ordem da imagem, gerando um novo campo de registro e de criação. Sua invenção incrementou a possibilidade de anotações sobre a vida em todos os seus aspectos, sendo um dos grandes instrumentos legados pelo século XIX e nos apanha alagoanamente e nos registra quando se tem os finais da transição do escravismo, refazendo o capital e existindo a possibilidade de desssacralização de valores consagrados no meio senhorial, o que a república parecia apontar e até mesmo possibilitar. Aliás, pelo que percebo, a fotografia teria em Alagoas umas quatro fases: a do ingresso, a da consolidação dos estúdios com os retratos, o  rompimento através da possibilidade em massa do que se chamou de instantâneo, desde seus começos incipientes com as máquinas caixão  que generalizou o nome Kodak, complexo que termina por isolar os estúdios e criar os pontos de recepção para o grande capital internacional; finalmente, o momento da digitalização, onde, basicamente, a tecnotrônica (lembrar do Darcy Rinbeiro) passa a ser dominante. Bater uma chapa vai sendo coisa do passado, passando pelo instantâneo e chegando na possibilidade da computação fotográfica.
        O cartão-postal fascina, mormente quando matéria de comércio, algo, portanto, posto em mercado. Há todo um processo de decisão implicado nesta configuração, pois a imagem passa a ter agregação de valor, capaz de dar-lhe a condição de mercadoria; além do mais, a decisão passar pelo processo de conceber aquilo que é vendável ou como nos podem  consumir, pensando-se, no caso, em como a produção local se argumenta face a mercado e, então, obviamente sobre lucro. . Guardo com um carinho imenso, a coleção dos negativos de vidro do velho Fiel do famoso Foto Fiel; toda a sua coleção de postais, demonstrando o modo como desejou retratar Alagoas para vender as imagens que concebia. Os negativos de vidro ainda estão perfeitos. Aliás, tenho suas primeiras fotos na Atalaia. Um mestre na paisagem e que depois viria a ser um grande retratista, justamente no tempo em que havia o mimo do  retrato, oferecido aqui e ali.
Parte do trabalho de Douglas e Carmem Lúcia está aqui em estreia; uma introdução. É ler para ter vontade de esperar.




Redescobrindo o passado: cartofilia alagoana

Douglas Apratto Tenório e Cármen Lúcia Dantas


Entre as formas de comunicação à distância, o cartão-postal se destaca pela aceitação e multiplicação em todos os paises, apesar do avanço e rapidez dos meios de transmissão que surgiram no século XX, sobretudo depois da informática. Sua história é acompanhada cuidadosamente pêlos cartofílistas desde seu início, nos idos de 1869, na Áustria, com a criação do Correspondenzkarte, idealizado por Emmanuel Hermann. A partir daí, logo se espalhou pelo mundo e foi sendo aperfeiçoado em praticidade e estética.

Nos primeiros cartões só havia espaço para as mensagens. A gravura, o desenho e a fotografia chegaram para melhor ilustrar essa correspondência pelo mundo e levar mensagens
rápidas que podiam ser lidas por todos que os tinham nas mãos, sem a privacidade que as cartas oferecem aos seus destinatários. Por isso mesmo, foram muito usados nas duas grandes guerras mundiais, já que passavam rápido pela revista das mensagens que saíam das casernas e por serem de fácil manuseio e dispensar envelopes. No Brasil, o bilhete postal, como era conhecido no início, trazia estampadas as Armas do Império, o que lhe concedia o caráter oficial por ter sido impresso pelo Correio, a mando do imperador D. Pedro II, um entusiasta das inovações. Em poucos anos, porém, devido à grande aceitação, os postais impressos por empresas particulares começaram a aparecer e a circular livremente; alguns deles, sobretudo os mais antigos, foram impressos na Europa.
             Fotógrafos de apurado olhar lhes dedicaram um espaço especial, formulando séries temáticas que hoje enriquecem coleções e são disputadas como peças de rara importância. Entre esses fotógrafos destacam-se, aqui no Brasil, Guilherme Gaensly, Marc Ferrez e Augusto Malta, citados por José Carlos Daltozo em seu livro .Cartão-Postal, Arte e Magia.. O autor detalha a direção do olhar de cada um deles, voltado para a simplicidade da vida cotidiana de São Paulo, Rio de Janeiro e outras capitais brasileiras, entre elas Maceió, em uma época em que o dia-a-dia dessas grandes cidades ainda possuía uma atmosfera de romantismo e de tranquilidade.
Alagoas também se inseriu nessa trajetória e foi fotografada nesse período, detendo a cartofília uma memória histórica da fisionomia arquitetônica, social e cultural da sua capital e de outras cidades interioranas. Cartões de bela feição gráfica mostram as cheias do Rio São Francisco, a Boca de Maceió, os antigos engenhos banguês, a dança do coco no meio rural, populares candidamente conversando nas ruas vazias de automóveis de Maceió.
O professor emérito e também cartofilista António Miranda, de Brasília, lembra que as mais importantes bibliotecas do mundo reservam espaço de destaque para o acervo de cartões-postais. Em nosso Estado, com exceção de um CD produzido pelo Museu da Imagem e do Som, nenhum trabalho existe com o propósito de catalogar essas peças, embora se tenha
conhecimento da grande circulação dessas mensagens postais em nosso território. Suas  imagens abrem um leque de possibilidades para estudos em varias linhas de pesquisa como
fonte complementar de informação nas áreas de história, arquitetura, paisagismo, sociologia, geografia, arte e fotografia, para citar apenas as mais importantes.
Inúmeros postais sobre Alagoas foram reunidos, gentilmente cedidos por colecionadores importantes, como Elysio de Oliveira Belchior, do Rio de Janeiro; Luiz António Barreto, de Aracaju; José Luiz Mota Menezes, de Recife, e os alagoanos Eduardo Guimarães, Everaldo Gama, Maria Rocha, Milton Henio Gouveia, Fernando Antonio Netto Lobo, Lysia Ramalho Marinho, da Fundação Raymundo Marinho, e Francisco Alberto Sales, da Casa do Penedo. Pretendem os autores que este livro contribua para a preservação da memória local.


POSTAIS DE ALAGOAS





Em uma perspectiva semiótica se pode traduzir o processo histórico como um processo de comunicação durante o qual o fluxo de informação não cessa de condicionar reações-respostas em um destinatário social. (Uspenskij) Acreditamos ser esta a primeira vez que se publica, em Alagoas, um trabalho sobre os antigos postais. O fazemos na certeza de que a preserva ção dos nossos valores e bens culturais é fundamental para afirmação de nossa identidade e que ampliará sua atuação na medida em que possamos utilizar instrumentos auxiliares inovadores, múltiplos e flexíveis como a cartofília, tão bem afinada com o conceito de paisagem cultural.
É uma afirmação bem aceita hoje que a história e a cultura de um país, uma região ou uma cidade podem socorre-se das imagens fixadas em cartões-postais, uma vez que estes representam verdadeiros documentos da trajetória material de uma sociedade, dos seus monumentos e seu urbanismo. Não por acaso, o historiador Vicente Chermont afirma em um
trabalho sobre o tema que a história é mais conhecida pelas imagens que pela escrita. Elas permitem não só uma volta ao passado recente, ou longínquo, mas igualmente a identificação objetiva de sucessivos fatos, em etapas diversas, que ajudarão os pesquisadores em seus estudos sobre determinados sítios.
Elas apontam transformações que não persistiram e outras que vingaram, ainda que em contradição com o projeto original. O cartão-postal - ou selo postal, como era conhecido - surgiu na Europa na segunda metade do século XIX e. com força avassaladora, tornou-se um privilegiado instrumento de comunicação. Sua idade de ouro, segundo os especialistas, situa-se entre os anos 1880-1920, o que no Brasil coincide com a fase de consolidação do novo regime instituído em 15 de novembro de 1889 pelo marechal Deodoro da Fonseca.

Uma era política turbulenta, de tensões sociais acumuladas, mas ao mesmo tempo de ufanismo, do brilho da belle époque, de incontida esperança no futuro, um período de transição de uma sociedade eminentemente agrária em seu anseio de ingressar no ciclo industrial. Fiado nos ideais republicanos e na presença de novos atores na ribalta política, como os militares, o povo buscava participar de alguma forma das decisões do pais, até então restritas às grandes famílias rurais e à nobiliarquia monárquica.
No ocaso do império e na alvorada republicana, Alagoas saía de seu casulo senhorial e passava a ter. como as demais unidades federativas recentemente constituídas. Aspirações cosmopolitas. Apesar de sua admissão tardia no mundo urbano nessa época, o uso dos  postais indica o aggionarmento da antiga pequena província imperial, agora um novo Estado federado. Através deles podemos vislumbrar lugares, prédios, hábitos que tiveram importância. Eles retraíam o que era a antiga parte austral da capitania de Pernambuco no período que vai dos últimos presidentes provinciais - os primeiros governadores republicanos - até a revolução de 1930 e o chamado ciclo dos interventores.



















A VIDA DA ANTIGA  COMARCA

Como seria a vida da antiga Comarca das Alagoas na época do advento dos postais.? Qual a paisagem da província naqueles momentos em que o processo de urbanização surgia finalmente deixando para trás três séculos de isolamento e vida agrária soberana? È  interessante determo-nos sobre aquelas décadas vigorosas. O surgimento dessa novidade pode ser visto como um pano de fundo sobre o qual se desenvolve o processo de ruptura com nosso passado colonial, com nosso passado imperial ou monárquico, passando a constituir-se em uma novidade, fundamental para a reconstrução do presente e porque não podemos dizer do inicio de uma caminhada rumo a democratização de parcelas cada vez mais amplas da população- do acesso ao conhecimento histórico e artístico, num real processo de inserção social.
            Vários estudiosos já se referiram as enormes transformações materiais ocorridas no Império brasileiro na segunda metade do século XIX e nas primeiras décadas da República, comparando-as com outros períodos históricos. Se desejar-mos vê-las num estudo de caso regional, vamos encontrar com facilidade essas transformações em Alagoas, tendo como epicentros Maceió e os seus pólos do centro comercial, Bebedouro e principalmente Jaraguá .porto e porta. dessas mudanças. Tudo o que a nova era apresentou de mais significativo podemos encontrar na capital alagoana nessa época, tendo como vitrine privilegiada o seu bairro portuário e o seu centro da rua do Comércio: o transporte ferroviário, serviço de trainway entre os seus três bairros principais, começando no Trapiche da Barra, a navegação a vapor, ponte de ferro de embarque e desembarque, ruas iluminadas por lampiões a gaz kerosen, a expansão das casas bancárias e seguradoras, calçamento das ruas mais transitadas, estabelecimento de uma rede telegráfica em comunicação com o país. jardins nas praças, como o construído na Praça Nossa Senhora Mãe do Povo e as principais repartições públicas instaladas em prédios sólidos e vistosos como o Consulado Provincial, a Alfândega, com a repartição do Selo e a Capitania do Porto.

A exportação, antes mais ou menos parcimoniosa, aumento gradualmente no Segundo Império, saindo do porto enseada de Jaraguá e crescendo substancialmente com a chegada das casas inglesas que lideravam esse tipo de comércio junto com seus colegas de outros países do Velho Mundo. Se por um lado era benéfico o movimento exportador por outro lado provocava o aumento dos preços dos géneros básicos, cujo cultivo foi posto de lado, provocando dificuldade nas classes menos favorecidas, não gozando os benefícios dos lucros de exportação, as quais lutavam com dificuldades para a sua subsistência. A redução nos índices de produção nos géneros agrícolas de alimentação popular determina o aumento desenfreado do custo de vida, causando inquietação social e até agitação em Maceió.Pão de Açúcar, Imperatriz, Murici e Quebrangulo. fazendo Alagoas provar ao lado das benesses e novidades surgidas, do gosto amargo da crise brasileira. Junto com essa fase de esplendor material a revolta popular nas feiras das vilas, contra a mudança do sistema métrico, dos pesos e medidas.
Por outro lado, embora a Província estivesse colocada entre os dois grandes pólos econômicos e comerciais da região - Bahia e Pernambuco - através dos quais exportavam
boa parte de sua produção, o porto de Jaraguá, desde décadas passadas, tinha demonstrado não ser uma peça desprezível no taboleiro do xadrez económico, zarpando dele com regularidade navios de bandeiras europeias, carregados de produtos locais, em demanda dos portos da Europa. O nível dos produtos exportados e o consumo dos importados foi aumentando gradativamente, a ponto de na década de 7U do século XIX, ser inaugurada a navegação direta e regular com o Velho Continente.
            Açúcar, algodão, madeira, carne, couro, coco. azeite de mamona, arroz. aguardente, e outros itens eram enviados a portos do poderoso império inglês, tais como Cowes, Falmouth,
Liverpool, Gibraltar, Alexandria e Londres. Outras nações mantiveram também intercâmbio regular com o porto de Alagoas- como Portugal, Estados Unidos. Bélgica. Áustria, Itália e Alemanha. Alguns gêneros esquisitos como .paina de barriguda,  sebo em rama, vinhático, óleo de copaíba, pau brasil, pedra de amolar, complementavam a nossa pauta.
            Tendo como via de acesso o porto de Jaraguá, o comércio alagoano foi inundado por artigos como tecido de algodão, chita, objetos de lã e seda, bacalhau, farinha de trigo, vinhos variados, ferragens, azeite de oliva, sal, drogas medicinais, todos procedentes dos portos europeus todos inseridos na febre de vender e exportar inaugurada pela revolução industrial. Mas se importavam também géneros nacionais como charque, moeda metálica, charuto, panos
de algodão, rapé e café. O comércio de confecções era dos mais dinâmicos e sofisticados, anunciando .paletós de casimira de diversos padrões, paletós de alpaca para meninos e  meninas,   paletós de brim de linhos de cor, chapéus franceses, de pelo, de copa alta, modernos, chapéus de sol e seda e chita de percalinas muito finas,  como anunciavam  O Progressistas e outros jornais da época.
            Maceió, que era quase uma aldeia crescida ao abandono público, quando iniciara sua vida como capital da Provinda em 1839, sem os serviços básicos de uma edilidade, como coleta de lixo, saneamento, água encanada, calçamento, iluminação, transporte, e também pobre de construções públicas, modificou bastante sua feição naqueles anos de  transformações que alcançavam o pais. sintonizada, claro, com as mudanças que ocorriam no
mundo, tendo como veículo condutor o seu privilegiado porto natural. Tantas inovações despertavam espanto, ás vezes criticas e objeções. Novidades que surgiam inicialmente com desconfianças para uma população conservadora, mas que pouco a pouco iam caindo no gosto dos mais abertos e no final a adesão da maioria. O trem de ferro, as embarcações modernas, a praça, estimulava a convivência, a troca de informações, o consumo, a moda dos grandes centros. O postal foi uma dessa novidades trazidas do além mar e mais rapidamente ganhou a simpatia das classes mais abastadas e depois de parte mais ampla de seus habitantes. Caía no gosto da população como um produto bonito, funcional, de baixo custo e charmoso.

            IMAGENS QUE  ENCANTAM E FICAM

O postal, portanto, passou a fazer parte da vida cotidiana da maioria das pessoas, evidentemente que nos setores letrados, como os computadores hoje. Mas boa parte da população o conhecia, manuseava ou fazia uso dele. Inicialmente produzido na Europa, passou a ser confeccionado no sul do pais e alguns, muito mais adiante, em Maceió. Pela Typographya Commercial e a Typographya Trigueiros. Podemos dizer que no estado de Alagoas o conceito de turismo começou a ser desenhado com a chegada desse instrumento de comunicação, pois além de conhecer as belezas famosas de outros lugares do Brasil e do mundo, o postal despertou a sensibilidade do alagoano para as nossas paisagens e atrativos.
Imagens campestres de um engenho bangúê, da praia de Ponta Verde, com o Gogó da Ema, da cachoeira de Paulo Afonso, do casario colonial de Penedo, do pôr do sol da lagoa no Trapiche da Barra, colorizadas e salientadas em ângulos deslumbrantes, eram motivos de orgulho para os locais e formas de sedução para os de fora. Os primeiros atrativos para os
apreciadores e de notável repetição entre os confecionadores eram, porém, os edifícios - alguns ainda mantêm inalteradas suas linhas, como o Palácio dos Martírios, o Teatro Deodoro, a Intendência Municipal - e logradouros interessantes da capital - a ponte de ferro de Jaraguá, a Praça Deodoro, o Tribunal de Justiça, a Rua do Comércio, a Estação de Ferro Central, o Hotel Bela Vista, as casas imponentes de Bebedouro, o Canal da Levada.
            0 historiador é um investigador atento, interessado e persistente. De certa forma, também é um colecionador que procura escolher e identificar informações recolhidas ao longo dos tempos para que sejam acessíveis a um maior número possível de pessoas. Ao buscar e selecionar cartões postais de Penedo, Viçosa, São Miguel, Rio Largo e, claro, da capital, Maceió, estamos incentivando, de forma didática, o grande público à prática da organização da memória,  salvando do esquecimento precioso material, para permitir à geração atual - e às futuras - um mergulho fascinante no passado através das várias coleções consultadas.
Luis Antônio Barreto, ilustre intelectual nordestino, chamou a atenção em uma de suas palestras para o prejuízo inestimável e irrecuperável para a história de seu Estado o fato de várias coleções de fotografias terem se perdido para sempre, tomando mais pobre a memória da capital de Sergipe. Dizia ele que mesmo nas cidades de pequeno e médio porte, que vivem ritmo frenético de mudanças, onde é comum que as famílias troquem seu hábito de morar deixando as casas amplas para acomodar-se em apartamentos de proporções limitadas, ou em condomínios urbanos que verticalizam a paisagem, .para trás ficam não apenas as lembranças das ruas, mas também pertences que sobram por falta de espaços nas novas moradias, livros, revistas, objetos, retratos, fotografias em geral, incluindo cartões-postais que são perdidos ou vão parar nas lixeiras ou nas casas que reciclam papel.
Hoje cada um tende a viver para si, enredado por seus múltiplos problemas. Diferente de épocas passadas, quando as pessoas tinham tempo e enorme zelo pelo acervo familiar, verdadeiro tesouro acumulado de gerações, e as visitas eram convidadas assim que chegavam às casas dos amigos a folhear o álbum de fotos da família onde os postais tinham lugar destacado. Na sala principal, convidados e donos da casa, ao tempo em que provavam as delícias dos doces caseiros e elogiavam o talento da cozinheira, pacientemente compulsavam
as bem cuidadas coleções,  orgulho da família, lembranças de parentes queridos ou de lugares inesquecíveis, referências visuais, imagens nostálgicas, catalisadoras de símbolos e desejos, remetidos com afeto por alguém distante.
E foi assim que os próprios moradores de urbes como Maceió, Pilar e Penedo, amortecidos pelo plácido dia-a-dia de suas quietas cidades, com o aparecimento das primeiras fotografias e a provocação colorida dos selos postais, dos álbuns familiares, passaram a conferir mais valor aos atrativos locais, exaltando suas belezas, despertando a sensibilidade da sociedade para suas edificações principais, como o prédio da edilidade, o teatro, a praça ou paisagens bonitas de suas praias e lagoas.
No interessante trabalho .A Fotografia em Maceió., dos mestres Luiz Lavenére e Moacir Medeiros de Santana, ensaio publicado na Revista do Arquivo Público de Alagoas, em
1962, há subsídios importantes sobre o aparecimento e trajetôria da arte fotográfica em Alagoas, desde o surgimento dos daguerreótipos e dos fotógrafos ambulantes, no final do sé-
culo XIX,  pioneiros e precursores de uma atividade hoje tão valorizada. O mais antigo registro, segundo Santana, data de 1858, em um anúncio da edição do Diário de Alagoas de 13 de novembro. Nele, o daguerreotipista, sediado na Rua da Boa Vista, n. 26, informa que .tira-se em qualquer tempo e em curto espaço esplêndidos e magníficos retratos, os mais fiéis e perfeitos que têm aparecido.  A nova invenção não era de domínio dos locais, e a tecnologia não estava ao alcance de amadores. Franceses e italianos disputavam a praça alagoana de forma intensa, mas sazonal. Augusto Morean, Henriques Júnior, Albino Pereira de Magalhães,
E, Lê Monnier, João Goston, Julien Bouquel, Vidal Pratas são alguns nomes que ofereciam seus serviços profissionais ao público nas páginas dos jornais ou nos almanaques da província, em Maceió, como retratistas e fotógrafos .prontos a exercer sua arte das nove horas da manhã ás quatro da tarde, em salão próprio para receber famílias..
            Não se tem notícia efetiva sobre incursões dos citados na produção de cartões ou selos postais, embora uma pesquisa mais profunda possa trazer alguma surpresa. De um deles, porém, o italiano Guilherme Rogato. natural de San Marco Argentano, sabe-se que depois de trabalhar na Bahia, São Paulo e Rio de Janeiro, radicou-se em Alagoas, aqui permanecendo até o último dia de sua vida, em 9 de setembro de 1966. Exímio artista da fotografia, ele foi também um dos pioneiros da cinematografia nordestina. Em sua rica história de vida. Regato produziu uma série de postais sobre Alagoas e outros estados, como Sergipe, marcando uma nova etapa da cartofília alagoana que ultrapassava as fases anteriores, quando eram confeccionados na Europa ou no Rio de Janeiro. Mais adiante, a Typographya Ramalho e a Typographya Trigueiros foram as produtoras de postais nessa fase de afirmação da província, época em que imprensa e cultura procuravam adaptar-se a um novo tempo que chegava.


O selo postal que surge na capital do Império, proposto pelo Ministério da Agricultura em 28 de abril de 1880, quando a província era presidida pelo baiano Cincinato Pinto da Silva, vem numa época de profundas transformações com formas de pensar e costumes elegantes, quando as cidades maiores e as capitais ingressam na chamada .belle époque tropical.. Passadas as agitações dos Cabanos e dos Quebra-Quilos e a epidemia de cólera-morbo no interior, Maceió, pelo Porto de Jaraguá, se vê inundada pêlos tecidos de algodão, chitas, objetos de lã e seda. Charque, charutos, rapé e café.  Anunciavam-se no comércio paletós de casimira e de alpaca, chapéus franceses de pêlo e copa alta, tudo .muito fino, de gosto moderno..
            A imprensa se irradia, com dezenas de jornais em todos os lugares. O trem de ferro, que vai de Maceió até a zona do açúcar e do algodão, e a navegação a vapor nas lagoas do Norte e do Sul e no litoral se constituem no símbolo da tecnologia moderna dos transportes. A abolição é um corte profundo na vida do país em 1889. O império agoniza e morre. A República nascente cambaleia com a turbulência dos anos iniciais, mas se consolida em seguida. O cartão-postal é vendido nos estabelecimentos da Rua do Comércio e em Jaraguá, na Rua Sá e Albuquerque. É manuseado delicadamente por senhores bem vestidos que mostram com orgulho a seus colegas as noticias de parentes e amigos distantes nas portas da Maison Elegant, da Casa Eugene Gostestchel, da Casa Zanotti, do High Life ou do Café Colombo, antes de levá-los para suas residências e exibi-los para a família. Alguns os carregavam no bolso para exibir como prova de status no Prado Alagoano. mais conhecido como Jockey Clube, discutindo as belezas do Rio de Janeiro, Recife, Lisboa, Roma ou Paris.



O postal é uma novidade de além-mar que pouco a pouco vai ser misturada com o sabor das coisas tropicais. Ele chega a Maceió como um dos símbolos dos novos tempos que vão mudando os costumes antigos da época colonial e do império, em meio a tantas outras novidades que são discutidas e aceitas pela elite urbana que frequenta diariamente os cafés, livrarias, confeitarias e bilhares do centro da capital alagoana.



domingo, 15 de janeiro de 2012

[CRONICA] Luiz Sávio de Almeida. Arengas com Gildo Marçal Brandão (I). A memória e o umbigo







Os começos de nossa amizade



Gildo, a minha cabeça ficou devendo à fantástica contadora de causos, que era a minha mãe, Maria José de Almeida. Talvez, o causo  tenha sido a forma encontrada para carregar a família, matar a saudade e, ao mesmo tempo, nos lembrar de nossas origens na beira do Rio Paraíba, nas bandas de Cajueiro, Atalaia e especialmente da Capela estudada pelo primo Wenceslau de Almeida com sua historiografia ligada ao local. 

Então, em minha geografia particular, eu nunca saí da Capela. Você, seu Gildo Marçal Brandão, dizia que eu via o mundo pelo meu umbigo e que ele, o mundo, para mim, começava na Capela. Era a sua forma de me agastar, dizendo  do meu paroquialismo radical, coisa de irmão futucando a cabeça do outro. Além do mais, afirmava que nunca tive coragem de sair do útero materno e, portanto,  jamais  eu deixaria Maceió.   Durma-se com um barulho deste!

Por isso tudo, quando o furor intelectual atingia ao máximo,  você me acusava de fundar a República Popular Livre e Independente das Alagoas. Claro que o pau rolava e uma vez, você espatifou um coco na calçada na praia, devidamente infernizado pelo calor do sol e da discussão. No entanto, terminada a brincadeira,  você  admitia candidamente que tinha uma canela enterrada em Mata Grande, com eira e beira sertaneja e duvido que tudo não passasse pela cabeça de Dona Eva e de Seu Brandão.

Esse negócio do telúrico é fogo.  Eu vivi para cima e para baixo e nunca me desamarrei de Alagoas. Penso que isto se encontra ligado ao fato de Alagoas sempre ter viajado comigo na crônica da tradição familiar. Foi da tradição que derivou a ideia de passar a vida estudando e discutindo isto aqui. Alguma coisa aderiu,  grudou. 

Além de  minha mãe, meu pai gostava de, também, estar com essa conversa. Por ele vinha o Zé de Almeida, meu tio, seu Manezinho e eram histórias que saíam do São Francisco e batiam na mata. Não tive muita conversa agrestina ou sertaneja. Somos gente da mata, anfíbios, misturados com as traíras e jundiás do Paraíba, do Paraibinha com suas ingazeiras e por isso talvez eu dê a vida por um ingá caixão, aquela doçura peculiar que somente é divina na beira de um rio. E você quer que eu saia daqui ou desmonte o mundo dando-lhe outro centro que não seja a Capela? E o ingá?

Hoje, com ou sem razão, seu Gildo, eu acho que a terra da gente é o lugar que a gente inventa, acredita nele e vive. Ele é real, pleno de memória. Para mim, a memória é aquilo que  nos vincula diretamente à história que se evoca, como se pasasse pela consciência de um tempo.   Claro que com ela ajudamos a fundar um local. Vou parar por aqui Gildo, sei que vai complicar e vai dar meia-hora de lenga-lenga.

Claro,  Gildo, que há umbigo!   Tanto é que você no  complicado de metropolitano, no meio dos seus imensos afazeres de Anpocs e USP,  babava quando eu saía daqui e ía  conversar potoca na sua casa em São Paulo.  Você precisava dos amigos daí,  mas me disse que iria construir um edifício e chamar Denis e  a mim para morarmos nele, juntando as Alagoas-mundo e o São Paulo-dos-seus. 
O que é que eu sei fazer, a não ser conversar potoca, miolo de pote? Me deixa na Capela! E você provocava, pois chegava, ao me ver calado, batia no meu ombro e falava: "Vai Luiz Sávio, diz!".  Podíamos brigar à vontade, pois  sabíamos da vida um do outro, amizade de uns 40 anos sem nunca falhar. Nossas mulheres terminaram sendo íntimas, nossos filhos também.  É incrível como nossas famílias se entrelaçaram.  Há uma raíz para isto tudo? O  Bar do Chopp,  o galeto avagabundado da Toca, o Cabeça de Touro. Você fundou raíz em São Paulo, eu não tenho dúvida. A sua amizade pelo pessoal que você sabe,  era imensa, sua admiração, seu carinho, seu reconhecimento. Não tenho dúvida, mas fundar jamais poderia significar que esquecesse os velhos fundamentos.  Viu que os nossos  são de bares? Não se agaste, que tou brincando.
Vamos voltar para o umbigo. Veja seu Gildo Marçal, onde você desejou que ficassem as suas cinzas? Barra de São Miguel. Na verdade, toda vez que eu olho nosso mar, eu vejo um pouco de você. Acredite, o senhor me honra muito ao considerar-me um dos fundadores  da República Popular Livre e Independente das Alagoas, o lugar que você  mesmo decidiu para ficar com suas cinzas. Existe ou não existe umbigo?
Eu tenho uma saudade imensa, seu cara. Vamos tomar sorvete.  Você paga?


quinta-feira, 12 de janeiro de 2012

[BANCO DE IMAGEM: URBANISMO: MACEIÓ: AVENIDA DONA CONSTANÇA: 2012]




Esta é uma área que foi remexida pelo viaduto João Lyra.  As fotos são recentes e tiradas neste mês de janeiro de 2012. O Banco de Imagem testemunha um tempo e deve ser utilizado para posteriores comparações. As fotos são de Luiz Sávio de Almeida.


Fins da Avenida Dona Constança














Rua Álvaro Otacílio







[FOLCLORE: CRENDICES E SUPERSTIÇÕES: CHÃ PRETA: ALAGOAS] Luiz Sávio de Almeida.






Um pequeno aviso

Esta coleta foi realizada pelo Pedro Teixeira  e por mim, na década de sessenta. Pedro tinha família assentada em Chã Preta, zona da mata e andamos quase que semanalmente, com sede na Fazenda Medina, realizando coleta de material.  É assim que surge esta listagem, publicada em um dos Boletins da Comissão Alagoana de Folclore. Recentemente, encontrei o material listado no site www.jangadabrasil.com.br. Decide trazê-lo para o blog, como curiosidade sobre uma época dos estudos relativos ao folclore no Brasil.  Era um tempo de força da Comissão Nacional e do papel, em Alagoas, de Theo Brandão no incentivo deste tipo de coleta.

Não tive tempo ou mesmo desejo de comentar o material e decidimos apenas divulgar a listagem.  Ela deve ter uns 40 anos de idade. Um pedaço de tempo que é grande. Será que alguém diz a mesma coisa ainda em Chã Preta? Ou mesmo algo similar?  Não sei. Apenas fui criado ouvindo algumas tantas vezes certas recomendações.  Muitas vezes me foi esclarecido  que não deveria andar de costas, pois estava agourando minha madrinha; que não deveria passar por cima das pernas de minha irmã pequena, para não enguiçar. A lista era imensa e levada a sério pela minha mãe, que ao mesmo tempo em que considerava tolice, procurava fazer com que fosse observado o rol de prescrições.

Acho que todo menino do meu tempo ouviu coisa similar.
Você ouviu?
Se ouviu, coloque, no comentário,  o que era dito, onde era dito, em que época era dito. Acho que estamos renovando o velho espírito de coleta de material. Será que isto desaparece? Será de raiz? O que você acha?

Bom, está aí, o que circulava em Chã Preta à época.

Luiz Sávio de Almeida



                                                                                                         chapretanossaterra.blogspot.com



CRENDICES E SUPERSTIÇÕES DAS ALAGOAS

                                                                                                                                    

                                                                                                                                   animais.culturamix.com 

Acidente - O galo cantar fora de hora, prenúncio de acidente. A mesma coisa acontece quando um beija-flor canta dentro de casa.



Agouro

- Se a pessoa abrir os braços na porta da casa ou cruzar as mãos e colocá-las sobre a cabeça, está agourando os pais.
- A galinha cantando como galo está agourando o dono da casa; um tamborete com os pés para cima, também.
- Cachorro latindo de modo diferente do costumeiro está agourando o dono.
- Candeeiro na cabeceira da cama está agourando o doente.
- Vindo um enterro, se o caixão do defunto parar em frente a uma casa, agoura alguém daquela família; idem se um besouro preto entrar numa residência.


Alma
- Não se deve dormir de rede, pois as almas vêm balançá-la.
- A dona da casa indo dormir sem lavar os pratos, as almas vêm lambê-los.
- As almas vêm, de noite, buscar as boninas que estão nos jarros.
- Se uma pessoa dá uma topada com o pé direito, é sinal de que as almas estão vagando.
- Nos dias de sexta-feira as almas estão vagando.
- As almas bebem os restos que ficam nas xícaras de café.
- Quem passa pelos cemitérios, à meia-noite, vê visagem.
- Se o cavalo ou burro não sair do canto, é que está a ver visagem.


Animais
- Papagaio que vê defunto não fala.
- Quando se avista uma cobra, chama-se por São Bento e ela corre.
- Caso uma mulher enguice uma cobra, o animal morre.
- Assobiar de noite chama cobra.
- Cachorro que tem boca preta morde defunto.
- O cachorro, arrodeando três vezes a casa do dono, vai ficar doido.
- Quando se quer fazer um boi ficar enfezado dá-se um nó na camisa ou então joga-se um punhado de sal no fogo.
- Se a pessoa passar por cima de uma escama de peixe, cria peixe na barriga.
- Todos os macacos têm sete cabelos de cão.
- Se alguém pisar, com sal, numa cachorra, o animal nunca mais dá cria.
- Se o sapo morder uma pessoa, somente larga quando o sino bater.


Anjo da Guarda
- Deixar a camisa toda abotoada dentro do guarda roupa prende o anjo da guarda.

Atraso
- Quem mata gato, beija-flor ou sapo tem sete anos de atraso; quem mata lavadeira ou urubu tem cinco.
- Bater com um calçado no outro atrasa a pessoa.
- Pimenta espalhada em casa atrasa a família.
- Cupim dentro de casa atrasa o dono.


Azar
- Dá azar:
passar por baixo de escada ou construção.
ver ou andar atrás de gato preto.
ver galinha preta.
fazer mudança na segunda-feira.
morar em casa de numeração ímpar.
colocar planta dentro de casa.
varrer a casa da cozinha para a porta da rua.
varrer a casa com vassoura não pertencente à família.
levar candeeiro aceso de uma casa para outra.
parar numa encruzilhada.
guardar bombo ou pé de brilhantina dentro de casa.
chinelo cruzado.
achar um bilro fechado ou botão com quatro furos.
viajar com padre em trem ou ônibus.
fazer negócio em dia de segunda-feira.
uma pessoa admirar uma coisa e não dizer "Benza-te Deus".
derrubar sal dentro de casa.
queimar lixo na frente da casa.

enguiçar sapo.
- colocar areia preta dentro de um jarro.
- pular janela.
- criar pombo.
- deixar roupa pelo avesso.
- encontrar com um urubu.
- colocar um ramo de imbé dentro de uma garrafa.
- areia de cemitério no telhado de casa.
- Sexta-feira, dia 13, é dia de azar.
- Tratar peixe e jogar as escamas na rua dá azar ao pescador.



Casamento
Não casa a mulher que:
passar por baixo de escada.
botar chapéu de padre na cabeça.
pisar em rabo de gato.
deixar varrer os pés.
lavar os pés com sabão.
pisar em corda que amarra cavalo.
ir ao cemitério e não mudar a roupa.

Sinal:
cravo branco na janela.
encontrar cobras brigando.
partir coco da Bahia bem certinho.
avistar quatro urubus.
Se a noiva comer na panela, chove no dia do casamento.
Se a noiva colocar Santo Antônio de cabeça para baixo dentro de um pilão, casa logo.
Se a grinalda da noiva cair, ela não é virgem.
Menina que brinca com flores casa cedo.
Quebrar louça na véspera do casamento dá sorte.
Quem escreve o nome do noivo no embainhado do vestido, casa logo.
A noiva não deve matar galinha na véspera do casamento.


Corpo aberto
- Um homem não pode passar por baixo de uma cerca com o chapéu na cabeça, porque fica de corpo aberto.
- Também fica de corpo aberto quem passa por baixo de arame farpado, sem se benzer.
- Sentar em cima de pilão faz ficar com o corpo aberto.

Coisas de amor
- Cair pimenta dentro de casa é sinal de que o casal vai brigar.
- Se o homem estiver dormindo e a mulher enguiçá-lo, ele fica perdido de amores por ela e vice-versa.
- Se o homem amado estiver distante, coloca-se o retrato dele de cabeça para baixo com perfume, a fim de prendê-lo.
- Quando a casa estiver queimando lenha, e uma pessoa colocar a ponta da lenha no fogo, é sinal de o homem brigar com a mulher. A mesma coisa quando se leva um galho de pimenta para casa.
- Quando o galo canta fora de hora, é moça roubada.
- Se a mulher casada colocar um pente na cabeça, não é séria.
- Se a mulher vestir camisa do marido, ele fica dominado.
- Espelho quebrado, noivado acabado.
- Se a moça, noite de Santo Antônio, colocar um pouco d’água dentro de um prato, à meia-noite o rosto do homem amado reflete-se na água
- Se a mulher colocar um botão da roupa do marido na roupa dela, nada do que ele fizer dá certo.
- Amarrar a medida da cintura do marido na cintura da esposa, tira as forças dele.



Criança
- Menino que carrega trempe urina na cama e não sente.
- Menino que brinca com fogo faz xixi na cama.
- Para menino deixar de chorar, bota-se farinha de mandioca debaixo do travesseiro.
- Quando o menino bate na mãe, ao ser enterrado fica com a mão do lado de fora da cova chamando ela.
- Para menino andar depressa, passa-se o joelho dele no rastro de um cavalinho.
- Botar urupema na cabeça pára o crescimento.
- Se uma criança deitar-se despida, o mal pode estar por perto e entrar no corpo.


Desastre
- Se a pessoa sair de casa com o pé esquerdo, acontece um desastre com ela.


Dinheiro
- Estatueta de elefante deve ficar com o rabo para a porta da rua, a fim de atrair dinheiro.
- Coceira na mão esquerda é sinal de dinheiro.
- A pessoa levar um corte é sinal de riqueza.
- Quando o grilo canta na sala de visita é dinheiro que vai chegar.
- Quando a pessoa leva um tombo, tem dinheiro enterrado no local onde cai.
- Aranha com cinco pernas, fortuna perto.
- Quando o menino nasce com o umbigo para baixo, é sinal de ser pobre.
- Quem dá esmola através da janela fica pobre.


Esperança
- Se uma esperança verde pousar no ombro da pessoa, ela consegue obter aquilo que está desejando.
- Achar lenço verde = esperança.


Faz mal
- Pessoa velha enguiçar criança.
- Tomar café, e, logo após, pentear o cabelo.
- Varrer casa de noite.
- Cobrir-se com lençol pelo avesso.
- Judiar com sapo.
- Comprar sal de noite.
- Comer cantando ou usando chapéu.
- Costurar em dia de domingo.
- Pentear o cabelo de noite.
- Varrer casa quando o pai ou mãe viajar.
- Sentar na porta da casa do vizinho e colocar a cadeira para dentro.
- Tesoura aberta dentro de casa.
- Deixar faísca com o gume para cima.
- Andar com o candeeiro no meio da rua.
- Ficar zarolho quando o galo canta.
- Plantar norma.
- Comer flor de coco.
- Tomar banho sem se benzer.
- Comer e não rezar.
- Pular pela janela.
- Comer com dinheiro em cima da mesa.
- Acender cigarro em candeeiro.
- Colocar candeeiro na porta da casa.
- Bater em criança com peri-peri.
- Emprestar sal, ou vendê-lo de noite.
- Deixar prato quebrado dentro de casa.
- Enfiar palito em sabão.
- Mulher subir em fruteira.
- Comer banana, abacaxi e beber água.
- Comer tapioca e beber leite.
- Comer banana e tomar leite.
- Tomar café quente e, em seguida, beber água.
- Chupar manga e tomar leite; a mesma coisa com relação ao caju.
- Comer jaca e beber água ou leite.
- Comer pirão escaldado e beber água.
- Chupar cana e tomar leite.


Felicidade
- A abelha voando dentro de casa traz felicidade; a mesma coisa grilo cantar, besouro bater na vidraça, pisar em pedra saliente.


Fome canina
- Quem mata galo de campina fica com fome canina. O mesmo para quem come canário ou garrincha.


Gravidez
- A mulher sentando-se em um balaio, o menino nasce morto.
- Quem manga de mulher buchuda fica com terçol.
- Se a mulher passar por baixo de arame de cerca, a criança fica atravessada.
- Se a mulher grávida colocar uma flor ou folha no seio, a criança nasce com sinal correspondente.
- A mulher grávida, sentando em batente de porta, tem um parto ruim.


Guerra
- Coruja quando quebra ovo é sinal de guerra.


Mau-olhado
- Tira mau-olhado um galho de pião roxo dentro de uma garrafa d’água.
- Um vintém em cada canto da sala impede que o mau-olhado entre em casa.


Morte
- Quando se bota as mãos entre uma parede e outra, a mãe morre.
- Quando a fogueira não pega, quem tentou acender morre.
- Quando duas pessoas falam na mesma hora, morrem ao mesmo tempo.
- Dizer que os dias estão passando depressa encurta o tempo de vida.
- Quem varre casa de noite, morre.
- Quem vai a um enterro e não chega ao cemitério, morre após uma semana.
- Derramar café na toalha, luto.
- Quem enterra um sapo, morre com três dias.
- Botar vassoura em cima da casa, é morte certa.
- Quando morre uma pessoa, não se varre a casa.
- Quando a pessoa arma guarda-chuva dentro de casa, o pai ou a mãe morre.
- Sapo dentro de casa é morte.
- Quando o céu está enevoado, morre moça.
- Quando as nuvens se separam,. quer dizer morte.

(ALMEIDA, Luiz Sávio de; TEIXEIRA, Pedro. Em Boletim da Comissão Alagoana de Folclore, 1962-1969)



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quarta-feira, 11 de janeiro de 2012

[BANCO DE IMAGEM: RELIGIÃO: AFROBRASILEIRA: MACEIÓ: ALAGOAS]

ABAÇA DE ANGOLA OYA BALE
Fotos de Bianca Barth e Anke Nikolaus
Maceió-Alagoas
Janeiro - 2012





As  fotos foram tiradas durante uma festa promovida pela Mãe Vera. O Abaça é um terreiro que fica em uma das áreas de extrema pobreza em Maceió, mantendo trabalho cutural e social. O primeiro é realizado através de capoeira, coco de roda e maracatu. O segundo é especialmente dedicado à menores que se prostituiram. As fotografias mostram um pouco do ambiente em que se deu o toque, aspectos como o peji e o congá. Os cortes foram nossos, bem como a transformação em preto e branco.