quarta-feira, 14 de dezembro de 2011

[HISTÓRIA: FUTEBOL] PERDIGÃO, Lautheney.Roberto Tavares Mendes: um depoimento para a história


 










Esta matéria foi publicada no tablóide Contexto do jornal Tribuna Independente, Maceió, na edição de  2 de Outubro de 2011

Um pequeno bilhete sobre futebol

         Novamente vamos ao futebol e o Lautheney Perdigão insiste no Centro Esportivo Alagoano. Não é que meu sentimento alvri-rubro sinta-se incomodado, mas o maior cronista do futebol alagoano poderia ser imparcial e dar-nos a  alegria de ver o CRB brilhar nas páginas, pois sempre brilhou no gramado bem mais do que o CSA. Brincadeira (é nada!) com nosso amigo que nos dá o prazer e a honra de manter a parceria sistemática com o Museu dos Esportes. Desta feita, ele nos traz um depoimento sobre Roberto Mendes, amigo e jogador de primeira categoria, técnico e dirigente.

         Talvez a linha de  diferença entre hoje e o tempo do Roberto esteja, em parte, na natureza do espetáculo fora das quatro linhas. A natureza da paixão era diferente; a rivalidade das torcidas era de outro matiz. Eu até sou levado – não é saudosismo – a pensar em uma espécie de estética social do movimento; era bonito ver o povo se deslocando para  o Mutange, para a Pajuçara. Obrigado ao Lautheney e ao Roberto Mendes.

Luiz Sávio de Almeida

alagoas24horas.com.br
Lautheney Perdigão



Roberto Tavares Mendes: um depoimento para a história


                Poucos jogadores defenderam o Centro Sportivo Alagoano com tanto amor como Roberto Mendes. Foi um dos mais credenciados jogadores junto à torcida do clube do Mutange. Seu entusiasmo, sua dedicação e seu carinho pelas cores azulinas o transformavam num verdadeiro líder dentro e fora dos gramados. Corria o campo todo. Desarmava, coordenava o jogo no meio campo, e ainda tinha fôlego para ir ao ataque tentar o gol. Para sua torcida, era um jogador valente, bem ao estilo dos atletas que todos gostariam de ter em seu time. A pequena estatura não preocupava.

Ali no meio, entre a defesa e o ataque, esse detalhe não tinha tanta influência. O essencial era a inteligência, a força e o raciocínio rápido. Era respeitado e admirado por dirigentes, torcedores e companheiros. A raça, a vontade de vencer e o bem querer pelo CSA faziam bem a Roberto Mendes, que transmitia tudo de bom para a torcida do clube do Mutange, a qual o transformou em seu grande ídolo. Roberto prestou um depoimento ao jornalista Lauthenay Perdigão e para os arquivos do Museu dos Esportes. Um depoimento com muita coragem e habilidade. História do seu tempo de atleta, técnico e diretor.

           Roberto Mendes começou jogando futebol na cidade de Palmeira dos Índios no infanto-juvenil do CSE e nos times do Colégio de lá. Quando veio para Maceió, defendeu o juvenil do Ferroviário. Em 1959 foi convidado para ingressar no Clube de Regatas Brasil onde teve uma ligeira passagem. O treinador era Jorge Vasconcelos que o motivou para vestir a camisa alvirrubra. Mesmo assim, jogou apenas uma partida pelo campeonato. Foi na decisão da competição contra o Capelense que venceu o jogo e terminou campeão alagoano. No começo de 1960, ainda jogou pelo CRB na disputa da Taça Mário Lima contra o mesmo Capelense. Era um troféu disputado no início de cada ano entre o campeão e o vice do campeonato anterior. Logo depois, deixou o clube da Pajuçara e parou com o futebol.

           Somente no ano seguinte, depois de conhecer Vicente Bertolini, presidente do CSA, é que Roberto aceitou o convite para voltar ao futebol vestindo a camisa azulina. Encontrou um excelente ambiente com o treinador Eduardo Montenegro, o Dudu. Os jogadores eram bons e a turma unida. Naquele ano, depois de um grande trabalho, o Centro Sportivo Alagoano se consagrou campeão alagoano. Entretanto, um protesto do clube rival, o Clube de Regatas Brasil, fez com que o Tribunal de Justiça Desportiva desse o título para a agremiação da Pajuçara que conquistou o titulo no tapetão.

           Roberto Mendes já era capitão da equipe e, depois de um desentendimento do Boleado com alguns diretores, coube a ele transmitir ao zagueiro que estava dispensado do plantel azulino. O treinador Dudu ficou do lado do atleta e também deixou o Mutange. Roberto lamentou muito a saída do Dudu que era um grande técnico e uma criatura maravilhosa. E foi Dudu o melhor técnico com quem trabalhou. Era amigo dos jogadores, consciente do seu trabalho e entendia tudo de futebol.

Para substituir Dudu, o CSA trouxe Pinguela, um mineiro que trabalhava no futebol baiano e tinha sido jogador do Bangu e do Vitória. Ele soube conquistar a amizade dos atletas e manteve um bom relacionamento com dirigentes e torcedores. Muitas vezes, alguns jogadores jogavam contundidos somente para atender seu treinador Pinguela. E foi assim que Roberto Mendes e seus companheiros conquistaram o título de campeão de 1963. Foi uma campanha sensacional. O CSA venceu o CRB três vezes durante do campeonato e pelo mesmo placar: 3x2. A decisão do campeonato continua viva na memória de Roberto Mendes. Foi em uma melhor de três. No primeiro jogo: CSA 3x2. No segundo: 0x0. Na decisão: CSA 4x2. Na semana que antecedeu a terceira partida, jogadores e técnico do clube do Mutange fizeram um pacto: ganhar o campeonato e dedicar à torcida o título de campeão. Roberto apenas lamenta o que a diretoria do CRB fez com Tonho Lima. No jogo de 0x0, Tonho Lima perdeu um pênalti e foi acusado de ser torcedor do CSA. A verdade é que o CRB tinha um grande time, mas com Tonho Lima jogando. A injustiça veio com o afastamento do craque do jogo da decisão. Quem perdeu foi o CRB.

CSA - 1961
           No ano seguinte, o técnico Pinguela não acertou sua permanência no clube do Mutange e se transferiu para o clube da Pajuçara. Veio Hélio Miranda que também realizou um belo trabalho. O time estava embalado e perdeu o título no último jogo contra o próprio CRB. Para Roberto, o CSA tinha tudo para conquistar o campeonato. Chegou a fazer o primeiro gol. Depois, em um lance de infelicidade da defesa azulina, Dão empatou para o CRB. Um empate de 1x1 na Pajuçara deu o campeonato ao clube de Pinguela. Depois, a partir de 1965, começou a grande fase do Roberto Mendes e do Centro Sportivo Alagoano. Era o início do segundo tetra campeonato para o clube do Mutange. Roberto Mendes ficou até o tri campeonato. Ainda em 1965, houve um problema entre o presidente Nilo Floriano Peixoto e o treinador Hélio Miranda. Como líder e capitão do clube, Roberto ficou como técnico de maneira provisória. Como o time ganhou o Torneio Início com uma boa apresentação, todos insistiram para que Roberto ficasse como jogador e treinador. Com seu carisma e liderança, ele conseguiu uma brilhante campanha que culminou na conquista daquele que seria o primeiro de uma série de quatro títulos que garantiu o tetra. Os jogadores azulinos gastavam a gratificação antes do jogo.

Era uma integração total entre diretoria, torcedores e jogadores. Houve apenas uma derrota. Um tropeço diante do ASA de Arapiraca que venceu por 1x0. O título foi conquistado depois de uma melhor de três com o Capelense. Foram realizados dois jogos. No primeiro: CSA 4x0. No segundo: CSA 3x0. Não havia dúvida da superioridade dos azulinos sobre seus adversários. Roberto ficou como treinador até setembro de 1967. Mesmo assim, continuou ajudando o clube até o início do campeonato de 1968. Estava fazendo o curso de Economia, era deputado e não tinha tempo para se dedicar mais ao futebol.

           No dia sete de setembro de 1967 fez sua despedida num clima de festa no Mutange. Guarda com carinho o tempo que passou defendendo o Centro Sportivo Alagoano dentro e fora dos gramados. Apesar de ter sido profissional, na época, o dinheiro era pouco. Tudo se fazia por amor. Aqueles que tinham sido contratados de outros Estados recebiam o suficiente para se manter. Roberto não precisa do dinheiro do futebol para viver. Fazia parte de uma família de projeção em nossa cidade e não tinha problemas financeiros. Muitas vezes, ajudou companheiros de clubes emprestando dinheiro, que normalmente não tinha retorno. Para ele valeu a pena. Se tivesse que começar tudo de novo, voltaria a trilhar o mesmo caminho.

           Para Roberto Mendes, a concentração é válida. Primeiro, porque o atleta fica junto com os companheiros por uns dois dias para enfrentar um jogo importante. Muitos não gostam da concentração, contudo une mais o plantel. Oferece repouso, recuperação dos treinos e cresce mais a amizade entre os jogadores. Quando se decide um campeonato, isso é fundamental. O que não é bom é a concentração mais longa, porque irrita o jogador que fica longe da família. O maior problema é que a diretoria não tem confiança no atleta, principalmente naqueles que não têm raízes em nossa terra. Esses vêm mais como profissionais, mais pelo dinheiro. Eles não têm amor ao clube. Os da terra ganham dinheiro, entretanto têm amor pelo clube. O ambiente dentro de um plantel é muito importante para conquistar os títulos. É necessário que a torcida sinta a garra no atleta, a vontade de vencer e a vibração ao vestir a camisa do clube.

Campeão 1963

           Roberto Mendes contou alguns casos que ocorreram nas concentrações do Centro Sportivo Alagoano. Em 1965, o CSA concentrava seus jogadores numa casa que ficava na esquina da Rua Ayres Saldanha com a Comendador Palmeira. Os jogadores gostavam de jogar baralho, o que era permitido desde que não tivesse dinheiro no meio. Certa vez, Roberto foi ao quarto onde estavam Canhoteiro, Arcanjo, Ratinho e Zé Cláudio. Ao olhar pelo buraco da fechadura, ele viu os atletas injetando aguardente na fruta caju. Os cajus estavam num tamanho fora do comum. Depois de algum tempo, Roberto resolveu bater na porta. Quando entrou e viu os cajus, disse que era a fruta que mais gostava e nunca tinha visto cajus tão bonitos. E pediu os cajus como presente para levar para casa. Pela liderança e amizade que havia entre o capitão do time e seus companheiros, Roberto recebeu o presente dos atletas que estavam meio sem jeito e com sorrisos amarelos. Outro caso aconteceu com Zé Cláudio. Ele tinha o hábito de comer doce após o almoço. E comia muito. Isso chamava atenção de todos, pois Zé Cláudio comia meia lata de doce como sobremesa. Nos dias de jogos, tentava-se evitar que ele comesse tanto. Todavia, não tinha jeito. Se não comesse, não rendia o que podia. Era um problema psicológico.

           Naquele plantel de 1965, havia dois jogadores da mesma posição que eram muito unidos: Deda e Ratinho. Um dia, um dos dois perdeu a gratificação por indisciplina, e eles resolveram se unir. Exatamente na manhã de um jogo, decidiram ir a um boteco que ficava perto da concentração e começaram a beber. Roberto, alertado, foi até o boteco, viu e não fez nada. Na hora do almoço, os dois chegaram mais ou menos embriagados. Roberto também não disse nada. Na hora do jogo, escalou um e disse para o outro que ele entraria no segundo tempo. E completou: o que jogasse pior seria multado em 60%. Nunca se viu os dois correrem tanto como naquela tarde. Fizeram uma grande partida.

           Roberto não poderia deixar de contar uma viagem maluca que foi feita com a delegação do CSA para a cidade de Barreiros no Estado de Pernambuco. No sábado, os jogadores viajaram de ônibus para jogar no domingo. Era um ônibus velho do torcedor azulino Bonifácio Calheiros. Por várias vezes, o ônibus quebrou e tiveram que dormir na própria condução em Porto de Pedra (divisa com Pernambuco). No domingo, ainda estavam na estrada e com o ônibus na oficina. Com os jogadores cansados e irritados, ficou acertado com o técnico Roberto Mendes que, se o ônibus não ficasse pronto até doze horas e quarenta minutos, todos estariam liberados para tomar banho no rio e beber uma geladinha. Sem ônibus para prosseguir, a liberação foi geral. Ninguém pensava mais no jogo. Acontece que as treze e trinta, o ônibus ficou pronto.

Mesmo sem condições, os jogadores entraram na condução e seguiram para Barreiros. A diretoria tinha viajado para Barreiros de automóvel e pela Via Expressa. Quando a delegação chegou ao hotel, os dirigentes do CSA já estavam aguardando o time. E foi uma cena desagradável. Os jogadores desceram do ônibus trocando as pernas. Envergonhada, a diretoria se afastou. Roberto juntou o grupo e pediu para mostrar que sabiam jogar mesmo naquele estado. Todos fizeram um juramento, trocaram de roupa e foram para o jogo. O CSA jogou muito bem, ganhou o jogo e mostrou que o time daquela época jogava até movido a álcool.

           Para Roberto, os dirigentes às vezes atrapalham. Na sua época até que eram bons. Era mais amor. Hoje o lado profissional pesa muito. Muitas vezes, o dirigente interfere no trabalho do técnico. Muitos desses treinadores aceitam a interferência para sobreviver. É tipo da coisa que o atleta não gosta. Quando era técnico, não permitia palpite de dirigentes, por isso tinha a liderança de seus atletas. Ele sabia que o Coronel Nilo gostava de mandar em tudo. Sabendo disso, procurava manter certa distância, não dando espaço para sua interferência no trabalho de campo. Quando passou a ser diretor, nunca interferiu no trabalho de seus treinadores e lutava, junto à diretoria, pelos direitos dos jogadores. Roberto fez um paralelo entre os presidentes Vicente Bortolini e Coronel Nilo. Bortolini foi o primeiro a trazer jogadores de outros Estados para o plantel do CSA. Era mais aberto e conversava com o resto da diretoria antes de tomar qualquer decisão. Era mais pacato. Coronel Nilo era um presidente mão de ferro. Centralizava tudo para ele. Só ele decidia. O resto da diretoria apenas aceitava. Responsabilizava-se pela parte financeira e terminou pagando caro por isso. Mesmo assim, era um homem bom, um cara maravilhoso. Tudo que ele fazia era por amor ao CSA.

           Quando voltou ao CSA como dirigente, viu tudo com muita tristeza. Houve uma regressão em termo de valores. Encontrou no CSA um ambiente de desconfiança. Os atletas não confiavam na diretoria. Roberto procurou se aproximar dos jogadores e mostrar que ele nunca poderia ser um cartola. Tinha vivido a melhor fase de sua vida como jogador e treinador do clube. Procurou jogar aberto e teve algumas decepções em relação à falta de responsabilidade de certos jogadores. Roberto abriu todas as portas. Brigou nas reuniões com companheiros de diretoria para manter certo critério de comportamento em relação aos atletas, principalmente na parte financeira. Ele conseguiu sensibilizar a diretoria, mas foram os atletas que o decepcionaram. Apesar de tudo, citou três jogadores que o impressionaram: Dequinha, Adeildo e Romel. Atletas de primeira qualidade e muito bons de caráter. Jogavam bem o futebol e eram seres humanos maravilhosos. Se não houvesse concentração, esses três saberiam como se cuidar. Eles eram de inteira confiança.

O mesmo, Roberto não pode dizer dos outros jogadores. Apesar dos problemas que encontrou, chegou com o mesmo entusiasmo do seu tempo de jogador. Exigia dos atletas desta geração, a mesma dedicação para defender o CSA. Jogador que veste a camisa azulina tem que sentir as emoções, a união e força que ela representa. Tudo isso era cobrado por Roberto Mendes. Ele sempre quis um time vencedor.

Nilo Floriano e Roberto Mendes
           Os melhores que viu atuar foram aqueles que participaram com ele nas campanhas do CSA: Elias, Jernan, Sinval, Bernardo, Marinho, Sílvio Mário, Eric, Ratinho, Deda, Arcanjo, Tonho Lima e Canhoteiro. Formavam um plantel que jogava para vencer. Foi com este plantel que Roberto sentiu suas grandes emoções. O campeonato de 1965, ano do sesquicentenário, foi uma emoção diferente. Sentir a torcida invadir o campo e carregar seus ídolos era uma visão maravilhosa. O gramado da Pajuçara se transformou num imenso palco para festa azulina. O título conquistado, a missão cumprida e a torcida feliz. O que poderia querer mais o consagrado Roberto Mendes? Era só comemorar. Manoel Amaro e Cláudio Régis foram os árbitros que mais lhe agradaram. Eles tinham muita coisa parecida. Manoel Amaro foi muito bom, mas a diretoria e torcedores do Clube de Regatas Brasil achavam que era azulino e que errava sempre a favor do Centro Sportivo Alagoano. Os azulinos duvidavam da honestidade de Cláudio Regis que tinha jogado no CRB. O certo, porém, é que os dois eram pessoas maravilhosas e honestas. As desconfianças partiam de torcedores fanáticos.

           Como diretor, ganhou alguns títulos e sempre desejou que o CSA desse oportunidade a seus atletas da base. Os que saíssem dos juniores e não fossem incorporados ao plantel profissional, poderiam ser emprestados para ganhar experiência e, quando voltassem ao Mutange, teriam mais oportunidades no time titular. Roberto tinha o sonho de um dia ver o CSA com o time formado por jogadores do próprio clube. Ele nunca se considerou um cartola. Não se sentia bem quando chegava a hora da renovação de contrato de alguns atletas ou novas contratações. Procurava não participar. Apesar de tudo, reconhece os méritos do presidente João Lyra. Afinal, foi uma diretoria vencedora. Conquistou muitos títulos. Depois que deixou de jogar profissionalmente, Roberto continuou participando das peladas com os amigos. M esmo com mais de cinquenta anos, lá estava Roberto Mendes correndo atrás da bola nos fins de semana. Certamente, deixando a bola correr mais do que ele. Entretanto, o entusiasmo continuava o mesmo. Sem fumar e sem beber, o antigo craque do CSA sabia se cuidar muito bem.






[HISTÓRIA: FUTEBOL:ALAGOAS] PERDIGÃO, Lautheney. DEPOIMENTOS PARA A HISTÓRIA: Alfredo Ramires Bastos




 
Esta matéria foi publicada no tablóide Contexto do jornal Tribuna Independente, Maceió, na edição de  4 de Setembro de 2011

Um bilhete sobre  futebol em Alagoas
Luiz Sávio de Almeida






  
     




























Lautheney Perdigão é um sujeito notável. Entende de futebol, entende de sua história nas Alagoas, e conta desde os primeiro jogos na Rua do Arame. Sua vida foi juntar coisas e peças, escrever aqui e ali, publicar seus livros e deixar um copioso registro, além de ter participado do divertidíssimo Ora Bolas, um programa de humor sobre o esporte e que faz parte da melhor fatia da história das emissoras de Alagoas. Ele será um assíduo colaborador, pela parceria que  Contexto, manterá com O Museu do Esporte que Lautheney criou e teima em manter vivo. É uma honra  contar com sua colaboração.

Hoje, estreando sua participação na equipe que existe por detrás do nome ContextoLautheney nos recorda a participação do Dr. Alfredo Ramires na vida esportiva de Alagoas;  Dr. Alfredo é um dos nomes que a torcida do Centro Sportivo Alagoano jamais poderá esquecer. Eu mesmo, como legítimo torcedor do quase-ex-CRB, baixo a cabeça e aproveito a oportunidade para dar um grande abraço no Dr. Alfredo. Por outro lado, aproveito para novamente dizer da minha admiração pelo Lautheney e, também, que espero o milagre de sua conversão, pois um dia será torcedor do Galo de Campina, o fantástico time do jogo da Sofia que o jogo do Xaxado nem de leve arranhou.

Fico pensando nas tardes de domingo, no Mutange e na Pajuçara, bem antes de existir o Trapichão. Qual teria sido a principal transformação vivida pelo pé na bola alagoano? Para mim, o registro é fácil: a queda do CRB e do CSA como os representantes de nosso poderio futebolístico. O capital decidiu sustentá-lo em outros locais, como Arapiraca, Porto Calvo... Talvez por isso mesmo, o texto do Lauthenay pareça estar tão distante, inclusive, pela revelação que faz sobre um tipo de futebol que deve ter desaparecido.




                               Alfredo Ramires e voleibol: técnico da Fênix


Hino do CSA

        

Pela pátria, na vida esportiva
É que vamos sempre conquistar
Nossa glória da luta deriva
É o campeão dos campeões CSA

Azulinos impávidos e fortes
Enfrentemos os nossos rivais
Nosso time não tem adversários
Não seremos vencidos jamais

Centro Sportivo Alagoano
No Mutange eterno vencedor
Se tremulas a tua bandeira
Alvi-celeste é com amor


Centro Sportivo Alagoano
No Mutange eterno vencedor
Se tremulas a tua bandeira
Alvi-celeste é com amor

Centro Sportivo Alagoano
No Mutange eterno vencedor
Se tremulas a tua bandeira
Alvi-celeste é com amor

Nesse anseio infinito de glória
Esse Centro Sportivo não tem
A vaidade que é sempre ilusória
E que nunca elevou à ninguém

Vamos todos em busca das vitórias
Com o coração na ponta das chuteiras
União e Força CSA
Azul e Branco a vida inteira

Centro Sportivo Alagoano
No Mutange eterno vencedor
Se tremulas a tua bandeira
Alvi-celeste é com amor
 
              





DEPOIMENTOS PARA A HISTÓRIA: Alfredo Ramires Bastos
Lautheney Perdigão


Lautheney Perdigão, o azulino


          Alfredo Ramiro Bastos nasceu no dia 25 de fevereiro de 1923. Formou-se em Medicina em 1948, na Universidade de Recife e se especializou em cardiologia. Também fez curso de especialização em Medicina do Trabalho. Foi professor atuante de Medicina na UFAL, Chefe do Departamento Médico da Clínica Médica do Hospital Universitário e do Serviço Médico da Salgema. Foi treinador do Centro Sportivo Alagoano e médico da Seleção Alagoana. Foi campeão pelo clube azulino no ano de 1952 e no tetracampeonato de 1955 a 1958. Também treinou as equipes de voleibol do Bonfim, CSA e Fênix. Foi campeão pela Fênix e, pelo CSA, conquistou I Jogos Abertos de Voleibol da FADA.
          Existem treinadores que a torcida e o dirigente acreditam que dão sorte. Talvez este seja o caso do Dr. Alfredo Ramiro Bastos. Sempre foi um técnico vencedor, um homem capaz de levar seus comandados a vitórias sensacionais e seu clube a títulos memoráveis. Um desportista que aliava seus conhecimentos técnicos à liderança e à amizade que tinha com os jogadores. Seu grande trunfo era ser um comandante único. Ele treinava, orientava, escalava e comandava seu time sem ajuda de ninguém. Dr. Alfredo era um treinador diferente, um homem enérgico, líder, corajoso, leal e com muita moral. Um técnico que deixou seu nome gravado na história do Centro Sportivo Alagoano.

A formação profissional
          Alfredo Ramiro Bastos é de família tradicionalmente azulina. Seu irmão, Dr. Carlos Ramiro Bastos, chegou a ser Presidente do Centro Sportivo Alagoano. Por isso, logo cedo ele foi levado para jogar nos juvenis do clube azulino. Entretanto, sem muito jeito para praticar o futebol, resolveu parar antes mesmo de começar. Apenas participou de algumas peladas no tempo do colégio. Preferiu os estudos e terminou seu curso de Medicina.
          Quando regressou a Maceió, recém-formado foi logo consultado sobre a possibilidade de aceitar ser Presidente do Centro Sportivo Alagoano. O convite foi recusado. Dr. Alfredo não se achava com qualificações, com o gabarito e a experiência para ser Presidente de um clube como o CSA. Esse conhecimento significou o enfoque para que o jovem médico iniciasse uma atenção toda especial para as atividades do seu clube e também do próprio futebol Alagoano.
A iniciação no CSA

   Foi Segismundo Cerqueira, diretor do CSA, quem começou a levá-lo ao Mutange para observar os treinamentos da equipe azulina. Assim, ele começou a se entrosar com o grupo. Um dia, Dr. Alfredo se descobriu treinador do clube. Foi quase incessível. Segismundo, que treinava o CSA junto com Palito, ex-goleiro do clube, foi aos poucos cedendo seu lugar. Em dado momento, lá estava Dr. Alfredo junto com Palito dirigindo o time azulino. Aliás, a dupla contrastava pela altura. Palito era magro e alto; Dr. Alfredo, baixo e forte.
          Houve momento em que ele já treinava o time e outras pessoas o ajudavam, mas desde o dia em que começou a sentir a responsabilidade de comando da equipe, deixou bem claro que ele seria o treinador único. Existem técnicos que são treinadores, contudo não são comandantes. Dr. Alfredo teve que optar por uma técnica melhor ou um comando único. Ficou definido comandante único. Não iria admitir interferência de ninguém. Ele gostava da expressão “comandante”. Não se considerava um técnico, e sim, um comandante. Aos poucos foi adquirindo conhecimentos técnicos e começou a se desenvolver. Mandar sozinho foi um fator preponderante para ele vencer e o time ser campeão.
          Dr. Alfredo dirigia o time principal e o aspirante. Isso facilitava seu trabalho, porque ele manuseava as duas equipes, utilizando-se, quando necessário, dos jogadores dos aspirantes que eram escalados no time principal sem problemas. As duas equipes jogavam dentro do mesmo sistema e estavam todos sempre jogando. Os aspirantes jogavam nas preliminares do time principal e o CSA chegou a ser hexacampeão alagoano.
          Sua estreia oficial como treinador do CSA aconteceu no dia 5 de agosto de 1952, em uma partida realizada na Pajuçara pelo Campeonato Alagoano contra o Ferroviário. O clube da Rede Ferroviária estava formando uma grande equipe que, nos dois anos seguintes, seria bicampeão. O jogo era muito importante para Dr. Alfredo que sentia uma grande responsabilidade diante da torcida azulina. As lembranças estavam bem vivas para o técnico azulino, principalmente pelas mudanças no marcador: Ferroviário 2x0. CSA 3x2. Ferroviário 3x3 e CSA 4x3. Nesse dia, Dida marcou quatro gols para o time do Dr. Alfredo. A vitória foi um estímulo e um conforto. O time jogou bem e soube sair de um marcador adverso para uma vitória sensacional.

O congraçamento no esporte

       Depois do jogo, Zequito Porto, falando com Segismundo Cerqueira, parabenizava-o pela bela exibição do CSA. Naquele instante, Segismundo foi muito sincero e leal. Ele disse para Zequito que todos os elogios deveriam ser para Dr. Alfredo, o verdadeiro e único responsável pelo sucesso do time do Mutange. Para o comandante dos azulinos, aquilo era gratificante, porque ele sempre considerou Zequito Porto como a maior autoridade do futebol Alagoano, e Dr. Alfredo não poderia deixar de registrar a importância de Zequito na sua participação dentro do futebol. Nas seleções alagoanas, um era o técnico e o outro o médico. Nesse convívio, havia muita conversa, principalmente sobre o futebol, suas táticas e suas técnicas. Tudo aquilo transformou os dois em verdadeiros amigos cuja amizade perdurou até os últimos dias do Zequito.

          Dr. Alfredo já era comandante do time do CSA e, por isso, observava com atenção as instruções dadas por Zequito aos jogadores da Seleção. Era uma maneira diferente daquele que aprendera com Segismundo Cerqueira. Este era um técnico exclusivamente de campo. Zequito reunia essas qualidades e acrescentava a de psicólogo. Mostrava aos jogadores como se colocar em campo, como se defender e atacar. Seu time era bem distribuído e ocupava todos os espaços do campo. Tudo era observado e anotado por Dr. Alfredo e foi de grande utilidade para quando ele retornou ao CSA. Começou a compreender a necessidade da teoria no futebol. Mandou buscar livros que comentavam sobre táticas e técnicas no futebol. Quando grandes equipes do futebol brasileiro jogavam em Maceió, e ele gostava de conversar com seus treinadores para aprender sempre mais.

O gosto pelo teórico

Com o passar do tempo, Dr. Alfredo foi se transformando, de certa forma, em um teórico. Chegou a dominar razoavelmente bem a técnica do futebol. Como comandante, ele considerava-se mais um técnico teórico do que propriamente um treinador prático e tático. Sua grande dificuldade, em determinado momento da partida, era transformar seus conhecimentos técnicos quando tinha que alterar o sistema de jogo da sua equipe. Apesar disso, não deixava transparecer a seus comandados qualquer indecisão de sua parte.

A Sofia e o Xaxado: 4 a 0


Aspirantes de 1953




          Xaxado era a música do momento e com os jogadores do CSA jogando dentro do gramado da Pajuçara e a torcida azulina batendo palmas e gritando Xaxado, Dr. Alfredo viveu um momento de grande emoção no futebol. O jogo era contra o CRB em 1952. Foi um verdadeiro "olé". Jamais se pensou em desrespeitar o adversário. Aquele era o dia do CSA. Tudo dava certo e para Dr. Alfredo era gostoso observar o passeio que os atletas do velho rival estavam levando naquela tarde de 21 de setembro. O CRB comemorava mais um aniversário e o CSA ofereceu o baile. Nesse jogo, aconteceu uma coisa curiosa. Por incrível que pareça, Dr. Alfredo não sabia do caso da Sofia, aquele jogo em que o CRB goleou o CSA por 6x0 em 1939 e, até os dias de hoje, o CSA não conseguiu fazer o mesmo placar. Quando no jogo do Xaxado o marcador marcava 4x0, a torcida começou a pedir mais. Entretanto, ninguém o advertiu que havia uma Sofia atravessada na garganta dos azulinos. Os jogadores azulinos queriam fazer a bola correr de pé em pé, sem se preocupar em fazer mais gols. Muitos foram perdidos. Apesar de não conseguir os 6x0, outra exibição daquela vai ser difícil de acontecer em um campo de futebol.
A força bruta de King
          



 Um dos jogadores mais discutidos do plantel do CSA, na época, era King. Jogava nos aspirantes e muitas vezes era aproveitado no time principal, chegando mesmo a disputar um campeonato inteiro como titular.  Apesar de ser chamado de “grosso”, King sabia fazer gols, muitos gols. Tecnicamente era fraco. Contudo, uma bola lançada em profundidade à frente de King era meio gol. Não era veloz, mas sua robustez, pela sua massa muscular enorme que fazia do centroavante um bloco de músculo, dificilmente era derrubado. Dr. Alfredo gostava de utilizar King no segundo tempo dos jogos. O ataque do CSA era formado por jogadores leves, habilidosos que gostavam de tabelar, driblar. Durante quarenta e cinco minutos, a defesa adversária ficava sentindo a leveza, os dribles, os toques. Quase que não havia o corpo a corpo. No segundo tempo, entrava King e as coisas mudavam. Os zagueiros passavam a serem assediados, molestados. Eles sentiam a diferença e ficavam preocupados com o atacante azulino. King entrava duro, forte, dividia e dificultava as rebatidas dos adversários.

E a luz sumiu



CSA = Campeão 1953 Em pé: Dr. Alfredo. Neu. Joab. Zanélio. Almir. Paulo Mendes. Napoleão e Edezio Leitão. Agachados: Ítalo. Sued. Dida. Netinho e Géo.
                A rivalidade entre CSA e CRB atravessa os anos e todos que passaram pelos dois clubes sentiram de perto fortes emoções e também algumas decepções. Certa vez, Dr. Alfredo fez uma coisa que se fosse hoje não faria. Por isso, ele fez questão de contar o acontecido. Foi em um clássico CSA e CRB que começou atrasado e terminou mais atrasado ainda por falta de energia no campo do Mutange. Naquele tempo, os jogos eram disputados com bola alaranjada. À noite, essas bolas eram pitadas de branco, que com o passar dos minutos, a tinta ia saindo e a redonda não ficava branca nem amarela. O CSA vencia por 1x0 e ficou na defesa para garantir o resultado. O CRB foi todo para o ataque. A iluminação era deficiente. O goleiro azulino passava por dificuldades por causa da bola e dos refletores. Os dirigentes do CSA pediam para a Federação trocar a bola e não eram atendidos. Quando Dr. Alfredo sentiu que as coisas estavam pretas e o CRB podia empatar a qualquer momento, usou de um expediente nada correto.
Chamou Seu Antônio, que tomava conta do Mutange, e ordenou: desligue as luzes e desapareça.  O pai do Peu, que obedecia cegamente ao Dr. Alfredo, não pensou duas vezes. Foi até a Casa de Força e desligou os refletores. Ninguém percebeu o que aconteceu. Todos pensavam que tinha havido um problema com a Força e Luz, hoje Ceal. Com o jogo paralisado, houve tempo para conversar com o árbitro, trocar a bola, esfriar a reação do CRB e acertar alguns detalhes com os jogadores do CSA. Quando Dr. Alfredo achou que estava tudo em ordem, a energia voltou, os refletores voltaram a funcionar, o jogo continuou e o clube azulino manteve o resultado. Dias depois, quando a diretoria do CSA soube o que realmente tinha acontecido, não gostou da atitude do Dr. Alfredo, principalmente Napoleão Barbosa.

A amizade acima de tudo

          Apesar da grande rivalidade, aconteceram casos que mostram que uma grande amizade pode passar por cima de tudo. Dr. Alfredo tinha em Zequito Porto um grande amigo. Um comandante do CSA; outro, treinador do CRB. Além da amizade, existia muita confiança entre os dois. Um exemplo disso está nesse detalhe. Dario Marsiglia, que jogava pela meia esquerda do CRB e era o grande craque do clube da Pajuçara, estava contundido. Era a semana que antecedia o clássico. Zequito levou Dario para Dr. Alfredo curá-lo. Ele trabalhou a semana toda para que o atacante ficasse bom do tornozelo. No dia do jogo, já no campo, Dr. Alfredo, técnico do CSA, enfaixou o pé do Dario e ele jogou normalmente. Esse não foi um caso isolado. Muitos outros jogadores alvirubros eram enviados ao consultório do Dr. Alfredo.
          Depois da conquista do campeonato de 1952, Dr. Alfredo foi aos Estados Unidos para fazer um estágio a fim de aprimorar seus conhecimentos na cardiologia. Quando regressou, voltou ao CSA para conquistar o primeiro tetracampeonato da história do clube azulino. Revendo as fotos dos quatro campeonatos, Dr. Alfredo não destacou nenhuma. Todas foram boas, cada uma dentro da sua temporada. O ambiente foi sempre o mesmo. Havia grandes jogadores, porém a disciplina estava acima de tudo e foi um dos fatores mais importantes para se conquistar o campeonato quatro vezes. A cada título era uma emoção. No esporte, não tem coisa melhor do que sair vencedor em uma competição.
          Dr. Alfredo nunca teve problema com seus comandados. A indisciplina violenta o esporte. Por isso, ganhava a disciplina de seus atletas com exemplo de assiduidade, pontualidade, esforço e boa vontade para resolver os problemas particulares de seus comandados. Dr. Alfredo recebia os atletas e seus familiares no seu consultório sem receber nenhum tostão. Com suas atitudes simples, franca e firmes deixavam os jogadores à vontade e conquistava a amizade e o respeito de todos.

A entrada de Dida no CSA

          Foi Dr. Alfredo quem levou Dida para o CSA. Um dia um jogador chamado Penedo e que atuava nos aspirantes do CSA, convidou o seu treinador para assistir a um jogo de pelada na Praça da Cadeia. Lá jogava um garoto endiabrado chamado Dida. As jogadas do jovem atleta impressionaram Dr. Alfredo, que logo que terminou a pelada, procurou Dida e lhe perguntou se queria jogar no CSA. Dida bem que gostaria, mas ia depender da permissão de seus pais. O médico-técnico não perdeu tempo. Foi junto com Dida até sua casa para conversar com Seu Jaime. Ficou acertado que o CSA, nos dias de treinos e jogos, mandaria um carro para pegar Dida e depois trazê-lo de volta para sua casa, além de pagar seus estudos.
 Na mesma semana, o futuro craque já estava no Mutange como titular da equipe azulina. Muita gente estranhou aquele menino franzino no time principal. Todavia, em uma das primeiras jogadas do treino, Edgar lançou uma bola para área. Dida suspendeu a perna direita, matou a bola lá em cima e quando ela desceu, chutou violentamente de pé esquerdo para o gol dos reservas. Estava ali o jogador que Dr. Alfredo precisava. Ali estava o malabarista, o artista e o futuro campeão do mundo.
          No domingo, o CSA jogaria contra o Auto Esporte, vice campeão do ano anterior e uma das boas equipes do campeonato. Dida foi regularizado às pressas para jogar no domingo. Sua escalação foi uma surpresa para muita gente. Segismundo Cerqueira, que não tinha ido aos treinos do CSA, achava que Dr. Alfredo estava louco. Escalar um garoto para um jogo tão importante. Afinal, Dida era desconhecido e nem tinha passado pelos aspirantes. Depois da partida, com uma excelente atuação, Dida calou a boca dos descrentes. Dida, como todo artista, tinha sentimentos delicados, tinha uma forma toda especial de ser conduzido e, nesse aspecto, parecia frágil, mas não era. Jogava valentemente contra duros zagueiros.
          No início da década de cinquenta, Dr. Alfredo foi médico da Seleção Alagoana e participou de duas memoráveis partidas. Em 1952, contra os sergipanos no famoso jogo dos 163 minutos. Jogo disputado no Mutange e que, além da vitória nos noventa minutos, os alagoanos tiveram que disputar duas prorrogações de trinta minutos e o gol alagoano que definiu nossa classificação veio aos treze minutos da terceira prorrogação. Neste jogo, três fatores decidiram a nossa vitória: disciplina, bom nível técnico dos jogadores e preparo físico. A outra partida aconteceu em 1954 contra os paraibanos. Alagoas perdia de 3x1 e virou o marcador para 4x3 com Dida fazendo dois golaços. Foi o jogo que levou Dida para o Flamengo. Na virada, valeu a raça e a vontade de vencer dos alagoanos. Quando serviu à Seleção Alagoana, Dr. Alfredo era médico e Zequito Porto era o técnico. Foi um período de muito aprendizado para o técnico do CSA. Era muito observador e tirava proveito de tudo de bom que via nas preleções, nas mudanças táticas da seleção durante o jogo e o comportamento de todos. Dr. Alfredo que sempre foi um comandante sério e um técnico teórico habilitou-se a ser um vencedor. O mesmo sucesso também se repetiu no esporte amador quando foi treinador de voleibol.
          Por tudo de bom que aconteceu com ele, valeu a pena ser um comandante no esporte. As amizades que conquistou, as emoções pelas muitas vitórias que viveu e pelo aprendizado que recebeu, Dr. Alfredo agradece ao esporte, hoje, aos 88 anos de idade.

[BANCO DE IMAGEM:CIDADE: CEMITÉRIO: IGREJA NOVA: ALAGOAS] ALMEIDA, Luiz Sávio de. O cemitério de Igreja Nova



Igreja Nova: Paisagem: Cemitério







O texto sobre as fotografias está da forma como foi redigido em campo,  logo após ter sido tirada a foto ou depois, à noite, quando as imagens do dia eram repassadas.






  

Os cemitérios tendem a ficar em parte alta. O de Igreja Nova está bem acima do Boasica, lugarque foi famoso pelo arroz que era produzido. Hoje Igreja Nova é praticamente orfã do arroz.  Esta foto procurando uma documentação panorâmica da cidade, foi tirada, praticamente, do lugar  onde fica o cemitério.









Todo branco, como também é em Piranhas, guarda o mortos rioos e pobres da terra.  Um sinal de vida é a  carroça escorada em sua calçada, como se fosse porto e algum vivente cansado houvesse jogado âncora. A frente parece um estranho forte e a casa colorida ao fundo deve ter sido testemunho de inúmeras passagens de caixão.


 








[BANCO DE IMAGENS: PESSOAL: VIAGEM COM ALUNOS] ALMEIDA, Luiz Sávio de. Uma viagem pelo sertão e pelas beiras do São Francisco.

Pessoal: Viagem: Alunos: Rio São Francisco

O texto foi elaborado no regresso da viagem.




     Este é um pequeno documentãrio sobre uma viagem realizada com amigos, todos eles meus alunos da discplina Formação do Espaço de Alagoas, no Mestrado Dinâmicas do Espaço Habitado., Universidade Federal de Alagoas.  Sempre tive o maior carinho por  eles e merecem. Eu queria que vissem o sertão, coisa meio abandonada e partimos para uma viagem de três dias, parando aqui e ali. Os trabalhos começariam em Traipu. Gostaríamo de sentir as cidades, andar por carroçáveis e conversar com pessoas que poderiam ser consideradas como marginalizadas: prostitutas, homosexuais...



     Chegamos em Traipu e uma parte saiu para fotografias e papos; outra ficou comigo para uma entrevista com um homosexual, uma prosttiuta e um pescador.  É este grupo  de alunos que aparece nas fotografias a seguir. Como essas pessoas iriam se ver naquele espaço, naquela construção social? Eu gostaria  que tivessem um contato direto, gostaria que sentissem mais o drama  humano do que um traçado a simbolizar uma geometria. Quem sabe eu recuperaria em campo, o sentimento que desejava passar nas aulas? 






 
Estas são cenas de um bom almoço, na beira do rio. Ainda foi servido surubim. Raro o restaurante na beira do rio, que o forte seja peixe não  sanfranciscano. A tilápia manobra. 















Após o almoço, fomos ver os trabalho da Secretaria de Cultura






 Outras cenas de viagem:  não me lembro a igreja, penso que é a de São Braz





















Hotel em Propriá






















Casa funerária em Igreja Nova: acho que dei uma bela aula de como se morre sem deixar de ser bonita. A modelo é da minha primoteca, fiha do Regis da Tia Ione e do Tio Lauro. O engraçado é que a dissertação dela será sobre cortejos fúnebres em Maceió e o trabalho de conclusão do curso dela foi sobre cemitérios.




















[BANCO DE IMAGEM: RIO DE SÃO FRANCISCO: CARRAPICHO: SERGIPE] ALMEIDA, Luiz Sávio de. Mais um pouco sobre Carrapicho



 



O texto sobre as fotografias está da forma como foi redigido em campo,  logo após ter sido tirada a foto ou depois, à noite, quando as imagens do dia eram repassadas.



                                                                                            
                               turismosergipe.net



E mais uma vez aparece foto de Carrapicho. Foi na volta. O pessoal subiu. Resolvi ficar. Uma imensa dor de cabeça. Não sei a razão, mas sou fascinado por esta casa que fica na subida. Quem a teria construído?  
Ela não é tão antiga assim, mas também não é tão nova. Na certa quem a fez, não imaginava o quanto de gente iria passar no seu oitão ou por sua frente. Quem sabe,  pensava que o tempo ficaria detido nas cores de suas janelas? O cara buscava simetria e eu acho que as janelas estão altas demais. Será?






Ao lado dela, nada parece com ela. São construções que viram dois mundos em andamento e, portanto, duas Carrapichos. Já li sobre Carrapicho no século XIX e não sei em quem. Será um dos vajantes ou será Halfed? Alguma coisa mudou em Carrapicho? Na certa que sim. O volume da cerâmica não deve ser o mesmo de meu tempo de menino. Eu ía comprar boi de barro, num pedaço da feira de Penedo que era reservado para potes e panelas. Hoje estão barracas de artesanato. Na minha cabeça ficou que era perto do Hotel dos Navegantes. Mas isso não é mais Carrapicho: é Carrapicho em Penedo.


A gente do Carrapicho faz do rio um pouco de tudo. O menino brinca e aponta alguma coisa. As pedras são no porto; o lagedo deve continuar rio a dentro, obrigando a uma curva lá pelos lados da ilha para fazer o caminho seguro do porto. Não se vê marola: não  ventava. O avermelhado da roupa marca um violento contrastate com o azulaverdejado. Seria um menino peixe? Um menino jacaré? Anfíbio não  resta dúvida.



É uma mistura de tudo: cavalo, menino e mulher. Embaixo, um nada construído. Será preciso dizer que sujam-lavam roupas ou seria melhor admitir que o critériodo sujo e do limpo varia? A bacia de alumínio foi embora. Plástico. 






Será que vai levar a roupa para Penedo?  Será que pegou um lavado de roupa? Pode ser preconceito meu, achando que pobre não pode ter roupa.  Elas protegem a cabeça.  Protegem a vida?

[BANCO DE IMAGENS: RIO DE SÃO FRANCISCO: CREPÚSCULO] O Rio São Francisco e o crepúsculo


Alagoas: Paisagem: Crepúsculo: Rio São Francisco: 2009

O texto de comentário sobre as fotografias está da mesma forma em que foi redigido em campo,  logo após ter sido tirada a foto ou depois, à noite, quando repassávamos  as  imagens e selecionávamos as que, realmente, desejávamos guardar.



O Rio São Francisco e o crepúsculo

Luiz Sávio de Almeida




Poucos sentiram a bela sensação de que anoitece e que o Rio de São Francisco não vai e não pode dormir. Nenhum rio dorme e nem mesmo os filetes d'água ou riachos, que são rios meninos e adolecentes conseguem dormir. A gente do rio continua a mexer nas entranhas, como os pescadores que jogam suas redes. Está chegando a hora de parar. Fica perigoso, nada mais se vê. Ainda estamos longe de Traipú, onde desejávamos dormir. Quem sabe a gente fique no primeiro povoado que aparecer e ele será na margem de Sergipe? O barqueiro não poderá ver o que tem por frente, mesmo que sejam acesos os faróis.  Os olhos da lancha são os barqueiros. Onde pararemos?




Para navegar, é preciso estar muito atento. Não é que o São Francisco seja um rio traiçoeiro, mas é que é preciso conhecer bem os trechos e são anos de aprendziado. Uma coisa é ficar por ali nas bandas da foz e e outra bem diferente é subir depois do Penedo e, especialmente quando, depois de Traipu se vai aos poucos para as bandas de Piranhas. Então, é melhor parar. Tenho poucas notícias de lanchas que afundaram aqui no São Francisco.  Mas elas afundam sim. Quando eu era menino, ouvi muito falar de uma lancha que afundou na travessia do Penedo para a Pasagem. Morreu foi gente. Na minha cabeça, ficou a desastrosa imagem das piranhas devorando os afogados. Construíram em mim, um pavor exorbitante: as piranhas eram símbolo do mal. Lembro perfeitamente da primeira que vi.