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domingo, 3 de junho de 2012

[História do Futebol] Lautheney Perdigão. . DEPOIMENTO PARA A HISTÓRIA: Eduardo Bezerra Montenegro – Dudu







PERDIGÃO, Lautheney. DEPOIMENTO PARA A HISTÓRIA: Eduardo Bezerra Montenegro – Dudu. Tribuna Independente. Maceió, 03 jun 2012, Contexto. 

Um pequeno bilhete sobre futebol

Lauthenay Perdigão traz uma nova contribuição para a história do futebol alagoano, com este material sobre Dudu. Ele tem sido um colaborador incansável. Contexto agradece e ao mesmo tempo chama atenção para a importância do Museu dos Esportes.  Lauthenay é o responsável por um grande acervo de informações e material sobre nosso futebol;  merece ser elogiado e reconhecido por todos nós. Tudo se deve à sua determinação e disciplina ao longo de anos; ele jogou futebol, foi jornalista, radialista e um homem apaixonado por um Museu que criou e está aí, prestando serviços sem grandes ajudas do poder público ou da iniciativa privada. Contexto sente orgulho ao poder estar com ele vez em quando, trazendo  depoimentos que foram coletados sobre pessoas que marcaram nosso futebol.

Sávio de Almeida



Lautheney  (esquerda) e Dudu


DEPOIMENTO PARA A HISTÓRIA: Eduardo Bezerra Montenegro – Dudu 

Lautheney Perdigão         
                        

 Eduardo Bezerra Montenegro nasceu no dia 22 de setembro de 1924, na Rua Guedes Gondim, 224. Sendo o caçula da família, Dudu era diferente dos demais irmãos. Sua infância foi relativamente fácil, e quase sem nenhuma preocupação. Com isso, procurava se divertir o máximo possível. No seu tempo de garoto, nunca foi matriculado em qualquer Colégio. Assim, não fez nem o curso primário. Porém, não deixou de estudar. Seus pais o entregaram a um professor particular. Dudu nunca esqueceu o nome do seu bom mestre: professor Veras.

Foi na Rua Santa Maria que apareceu um futuro craque de bola. No começo ele era o dono da bola. Já aos sete anos, Dudu mostrava o seu espírito de liderança. Mandava no time e ficava de fora. O tempo foi passando e ele se apaixonou pela posição de goleiro. Sempre jogou no gol, posição que para Dudu era fácil, apesar da grande responsabilidade. Ele sabia que, para vencer como goleiro, precisava de habilidade e sorte. Aos dezessete anos de idade, Eduardo ingressava no Andaray, clube que disputava a segunda divisão do Campeonato Alagoano. Corria o ano de 1941 e Dudu era reserva do segundo time. Esperou pela grande oportunidade que não demorou. Um ano depois já era titular substituindo Tonho. Nesse mesmo ano, apareceu como a grata revelação da temporada. Os jogos do campeonato da segunda divisão eram  disputados no campo do Vergel do Lago que era famoso pelas muitas partidas disputadas e o número de torcedores presentes. O time do Andaray era muito bom e tinha em seu plantel jogadores como Mercí, Roberto, George, Nivaldo Yang Tay, Alziro e outros.

Em 1943, Dudu brigou com dirigentes do Andaray e se transferiu para o Oceano, clube que também disputava o Campeonato da segunda divisão. Era uma equipe de ponta na disputa do título da competição. A estréia do novo goleiro do Oceano foi exatamente contra o Andaray. Antes do jogo, seus antigos dirigentes fizeram a maior gozação afirmando que iam fazer um monte de gols naquele jogo. Dudu ficou furioso e prometeu dar o troco dentro do campo. Veio o esperado clássico, o Oceano venceu por 5x0 e Dudu fechou o gol da sua equipe. O Andaray não se conformou e pediu revanche. Nova derrota. Agora por 5x3 com seu novo goleiro fazendo defesas espetaculares e impressionando aos torcedores pelo seu estilo de jogo. Nesse mesmo ano, o Oceano disputou o Campeonato Alagoano da primeira divisão. Na estréia venceu o C omércio por 3x1 e Dudu continuava melhorando a cada jogo.


1946 - Ariston, Dudu, Miguel


No ano seguinte, houve uma fusão entre Oceano e Andaray. Dessa fusão nasceu o América Futebol Clube, agremiação que durante alguns anos foi à sensação dos Campeonatos que participou. A cor de sua camisa era branca e verde. Carlos Miranda, um conceituado médico e grande desportista, era o Presidente. Jorge Assunção, seu Diretor de Esportes. E foi no América que Dudu começou a ser mais notado por suas defesas elegantes, sua maneira sempre gentil de tratar a todos, fossem companheiros ou adversários. Com isso, ele passou a ser respeitado e admirado por todos. Em 1945, os americanos, que tinham em Dudu uma das grandes figuras da equipe, chegaram ao Vice-Campeonato depois de uma manobra dos bastidores deu o título para o Santa Cruz no jogo contra o Comércio, que entregou os pontos para o clube do  exército. Em 1946 foi um ano especial para Dudu. O América não foi bem, mas atrapalhou o CRB e garantiu o título para o Barroso depois de um empate com o Clube da Pajuçara em 1x1. O time americano era bom: Dudu. Crispim e Nivaldo Yang Tay. Toledo. George e Dirson. Fausto. Raul. Joãozinho. Ferreira e Zé Cruz.

 O prestígio do goleiro era tanto que, quando havia amistosos com equipes de outro Estado que vinha jogar em Maceió, Dudu era sempre chamado para reforçar as equipes alagoanas. Quando jogava pelo América, Dudu nunca teve muita sorte contra o time do Comércio equipe que disputava os campeonatos alagoanos. Em um desses jogos o goleiro foi atingido violentamente pelo atacante Cão e teve que deixar o campo com um profundo corte na cabeça. Depois, cenas lamentáveis aconteceram entre os jogadores dos dois times. O companheiros de Dudu reagiram à violência do atleta do Comércio. Fora do campo, o médico do América fez um curativo no ferimento do goleiro e el e voltou com a cabeça enfaixada.

Agüentou apenas poucos minutos em campo. Desmaiou e os americanos continuaram a partida com apenas dez jogadores. Poucas vezes em nosso Estado, um time teve um conjunto tão homogêneo quanto o do América. Fazia gosto jogar naquela equipe. Apesar da pouca experiência e da falta de sorte sobrava raça, vontade e amor pela camisa que vestia. Na sua maioria eram estudantes com vontade de brilhar no nosso futebol. Muitos jogadores surgiam como verdadeiras revelações.  O trio defensivo: Dudu. Nivaldo Yang Tay e Dirson era o ponto alto do time.

1946 / Entrando em campo contra os baianos


Como todo jogador, Eduardo tinha uma ambição em sua vida: jogar na Seleção da sua terra. Ele não era diferente dos outros e vibrou quando viu seu nome na lista para a Seleção de Franz Gaspar que disputaria o Campeonato Brasileiro. Além de Dudu, outros dois goleiros  foram convocados: Zé Binga e Humberto. O Campeonato Alagoano foi suspenso para que a Seleção começasse os seus treinamentos. Humberto se machucou e saiu da Seleção. No seu depoimento, Eduardo Bezerra Montenegro confirmou que esta foi um das mais bem preparadas Seleções de todos os tempos. O Presidente da Federação era Dr. Paulo Neto e o Diretor de Esportes, o professor Mário Broad. Houve mais de um mês de concentração no Quartel do 20º BC. Havia harmonia entre dirigentes e atletas. Apenas Baiano do Barroso e Barthô do CSA f oram desligados por indisciplina. O nosso personagem se destacava a cada treino e jogo amistoso. Zé Binga também atuava muito bem.

 O treinador Franz Gaspar preferiu colocar Dudu como titular no primeiro jogo contra os sergipanos, jogo este que perdemos por 2x1. Mesmo assim, Dudu e o sergipano Cacetão foram as grandes figuras do jogo. O segundo jogo em Maceió foi ganho pelos alagoanos por 1x0 nos noventa minutos e por 1x0 na prorrogação. Classificados, saímos para enfrentar os baianos em dois jogos em Salvador. Dudu com faringite ficou mais uma vez de fora. Dr. Paulo Neto chegou a internar o goleiro tentando recuperá-lo, mas não foi possível. Perdemos de 5x2 com o goleiro Zé Binga sem culpa nos gols. No segundo jogo, no Estádio da Graça, perdemos de 1x0. Dudu voltou ao time titular e, segundo a imprensa baiana, foi a maior figura da partida. Foi, talvez, a maior atuação do goleiro alagoano em sua carreira de atleta. Depois do jogo Bahia e Vitória se interess aram pelo concurso do Dudu. Alguns dirigentes estiveram no Hotel Meridional para conversar com o goleiro que preferiu ficar em Maceió. Aqui estavam sua família, seu emprego e seus amigos. Dudu sempre lembrava com saudade daquela seleção. Havia união e uma amizade que continuou mesmo depois que os alagoanos perderam para os baianos. Ele cita nominalmente os jogadores: Alziro, Miguel Rosas, Ariston, Castelar, Nezinho, Fausto, Bequinho, Zé Maria, Oscarzinho, Fumaça, Zé Binga, Poty, Baiano e Nivaldo Yang Tay.

Em 1947, o Américo não disputou o Campeonato e Dudu foi para o CRB. Não teve sorte. Adoeceu logo depois de disputar os primeiros jogos e foi obrigado a ficar fora das quatro linhas por muito tempo. A fim de se tratar foi para o Rio de Janeiro onde foi submetido a longo tratamento. Completamente recuperado, retornou a Maceió um pouco gordo e fora de atividade esportiva há muito tempo. No ano seguinte, o Américo voltou a disputar o Campeonato e Dudu retornou aos gramados para defender seu querido clube alviverde que foi campeão do torneio, jogando com: Dudu. Crispim e Nivaldo Yang Tay. Fontino. Zoró e Ivon Cordeiro. Hélio Lobo. Louro. Adávio. Torres e Lenine. A sorte não estava do seu lado. Logo nos primeiros jogos fraturou os menisculos e resolveu desistir do futebol. Ficou apenas disputando o voleib ol pelo Flamengo , clube que ajudou a fundar na Praça Deodoro. Somente em 1950 é que Dudu se encheu de coragem e foi se operar no Recife com Dr. Barros Lima. Dois anos depois por insistência do Dr. Alfredo Ramiro Bastos foi defender o CSA. Disputou o primeiro turno do Campeonato e perdeu apenas uma partida para o Alexandria. Achava que não estava no melhor de sua forma. No período parado, engordou e achou que era o momento de largar o futebol. Nesse ano, o CSA foi Campeão e o time do primeiro turno formou com: Dudu. Bem e Mogi. Oscarzinho. Zanélio e Neu. Cão. Biu Cabecinha. Dida. Edgar e Dengoso.

América


Apesar de não querer jogar mais, sua carreira foi encerrada com uma grande decepção. Ainda vinculado ao CSA, Dudu foi convidado pelos dirigentes do Esporte Clube Alagoas para participar de um amistoso contra o Santa Cruz de Recife. Ele não aceitou, porque sabia que estava fora de forma. Os dirigentes tricolores insistiram e, para colaborar com os amigos, Dudu aceitou. Du du foi o goleiro do Esporte Clube Alagoas naquele amistoso. Quando o Santa Cruz fez dois gols, ele foi substituído por Pirilo. Decepcionado e achando que foi injustiçado, parou de verdade. Dudu sempre foi amador. Nunca assinou contrato com nenhum clube.

Deixando as quatro linhas do granado Dudu continuou trabalhando no futebol. Começou treinando equipes juvenis. Como havia feito com o juvenil do América, quando foi campeão em 1947, passou a orientar a equipe do Deodoro. Foi nessa equipe da Praça Deodoro que Dudu revelou jogadores que logo defenderam grandes clubes alagoanos e até a nossa Seleção. Atletas como Zé Luiz, Boleado, Bá, Lula Monstrinho e outros que se destacaram, mas preferiram os estudos. Quando treinou o Ouricuri, time da Usina do mesmo nome, o clube fez uma boa campanha no Campeonato Alagoano de 1959. Depois aceitou ser técnico do CSA. Organizou o departamento técnico do clube. Melhorou os vestiários azulinos dando higiene e limpeza àquele lugar. Armou  uma boa equipe que chegou a ser Campeão Alagoano de fato em 1960. Entretanto, o CSA perdeu o título nos tribunais esportivos. Apesar dos esforços e tudo que fez pelo clube, os dirigentes começaram a interferir no seu trabalho que era vitorioso. Decepcionado, resolveu se afastar de tudo. Na sua despedida, chegou a se emocionar junto com seus comandados.

Em 1963 foi para o Estivadores que era uma das grandes equipes do nosso futebol. Um plantel com jogadores contratados no futebol pernambucano como Arcanjo, Barbosa, Bibiu, Maurício e Canhoteiro. Apesar do bom time, o clube não tinha campo para treinar, em compensação tinha problemas financeiros e má vontade de alguns jogadores. Canhoteiro queria mandar e escalar o time. Com tantos problemas, mais uma vez Dudu resolve parar. Como técnico de profissionais, sentiu na pele a força maligna da ingratidão, da falta de reconhecimento e do desamor ao esporte. E ele que pensava que o esporte servia apenas para fazer amigos.  Deixou tudo. Tinha que cuidar de seus afazeres como bancário. Era no Banco Econômico da Bahia onde ele ganhava o dinheiro para sustentar sua família. Para todos aqueles que conheceram Dudu, são unânimes em afirmar que foi um grande goleiro, disciplinado e, acima de tudo, honesto com seus dirigentes, companheiros e adversários.

Edu em 1952

 Eduardo Bezerra Montenegro, o Dudu, se destacou no esporte alagoano não somente pelas grandes qualidades de verdadeiro craque, como também pelo cavalheirismo, disciplina, honestidade e lealdade. Era um verdadeiro gentleman. Profundo conhecedor das coisas do futebol, logo cedo começou a treinar equipes de juvenis. Sua dedicação, sua vontade de acertar e seu entusiasmo pelas coisas do esporte, faziam com que seus comandados criassem amor pela camisa que vestiam. A estrela que brilhou para Dudu como goleiro, nunca acendeu como treinador. Quando treinava suas equipes de juvenil se transformava em um verdadeiro paizão. Até problemas financeiros e de doença na família de seus atletas ele procurava resolver junto a seus amigos.

Dudu jogou numa época do futebol autêntico, sem influência das bolinhas, sem interesses financeiros e com muito amor à camisa que vestia. Por ter sido um puro de espírito e de coração. Por ser um verdadeiro desportista. Por sua dedicação ao desporto alagoano, de sua terra e de sua gente, o Governador Divaldo Suruagy lhe dedicou o título de Comendador do Esporte de Alagoas. Para Dudu, tal distinção o envolveu numa auréola de orgulho e o fez tornar a crer, que o esporte, realmente, é um  meio para fazer amigos e que dentro dele, apesar dos pesares, ainda existe desportistas autênticos e leais, exclusivamente por causa deles, os desportos ainda subsistem.

Trazendo no sangue, de berço, o amor aos desportos, Eduardo, ao abandonar o futebol, partiu para um sonho que até então parecia irrealizável: levantar o amadorismo em Alagoas. E de sua grande amizade com inúmeras personalidades do desporto alagoano da época, conseguiu fundar o Flamengo Esporte Clube, tradicional agremiação da famosa Praça Deodoro, clube que já nasceu Campeão no vôlei, basquete e futebol de salão. E dentro de suas raízes estritamente amadoristas, Dudu se entusiasmou na posição de atleta, conseguindo se transformar em um dos melhores cortadores do voleibol. E o Flamengo se tornou uma legenda de sucessos e glórias, arrastando sempre um numeroso público aos seus jogos e elevando o amadorismo a alturas nunca antes atingidas. Aqueles mais velhos lembram de Dudu atuando como “corta dor” da equipe de voleibol do Flamengo. E tudo começou com a quadra sendo marcada na calçada da Praia da Avenida que ficava defronte onde hoje é a sede do clube Fênix Alagoana. Dudu era um daqueles que preparavam a quadra para os jogos.

Flamengo em 1951

Eduardo Bezerra Montenegro, dito assim, esse nome pode nada significar para a juventude de hoje que acompanha o futebol. Mas a verdade é que, o dono desse nome em época distante, já foi um dos maiores ídolos da história do futebol em Alagoas.

Dudu aponta Miguel Rosas como o maior jogador que viu atuar. Afirma que o zagueiro foi um extraordinário craque de bola. Na seleção de 1946 o nosso goleiro jogou ao lado do mestre Miguel. Era uma tranqüilidade para todos seus companheiros de equipe. E foi nesse mesmo ano que Dudu conheceu aquele que pode se classificado como seu melhor treinador: o húngaro Franz Gaspar. Era o técnico do CRB e comandou a melhor seleção alagoana de todos os tempos. Apesar de ter um bom plantel e dificuldade de se comunicar com seus atletas Franz Gaspar sabia como comandar. Dudu aprendeu muito com ele e quando foi trabalhar como técnico se utilizou do aprendizado que colheu no tempo da seleção de 1946. No setor da arbitragem aponta Agustim Farrapeira como um bom arbitro. Também tinha Waldomiro Brêda. Eram árbitros qu e a grande maioria dos dirigentes e jogadores confiavam. Para escalar os melhores jogadores que viu atuar Dudu teve dificuldade. Cada craque tem sua época, seu momento. Com a nossa insistência resolveu fazer a sua seleção: Bandeira, Ariston e Miguel Rosas. Poty. George e Tomires. Milton Mongôlo. Bequinho. Dida. Oscarzinho e Fumaça. 

E em um sábado de carnaval quando muitos já estavam se divertindo, caindo na farra por conta da folia carnavalesca, nós ficamos em casa cuidando de atualizar nossos arquivos. E foi assim que recebemos a triste notícia do falecimento do meu amigo Dudu. Com o impacto da informação, parece que sentimos os tamborins pararem de tocar, as vozes dos cantores se calarem, os foliões fazerem um minuto de silêncio para homenagear Eduardo Bezerra Montenegro. Meu pai sempre me dizia: “Fazer amizade é fácil. O difícil é saber mantê-la”. Nossa amizade com Dudu durou mais de quarenta anos. Com ele aprendi muito. Ensinamentos no esporte e na vida. Com ele conheci os caminhos corretos para viver com dignidade. Ele me mostrou que as grandes amizades são os maiores tesouros que temos em nossas vidas. Mais vale um a grande amizade do que dinheiro no Banco, dizia Dudu. Infelizmente, a morte não tem hora para chegar. É uma dor sem remédio. Fica apenas a saudade e a eterna lembrança de uma figura querida por todos.




quarta-feira, 14 de dezembro de 2011

[HISTÓRIA: FUTEBOL] PERDIGÃO, Lautheney.Roberto Tavares Mendes: um depoimento para a história


 










Esta matéria foi publicada no tablóide Contexto do jornal Tribuna Independente, Maceió, na edição de  2 de Outubro de 2011

Um pequeno bilhete sobre futebol

         Novamente vamos ao futebol e o Lautheney Perdigão insiste no Centro Esportivo Alagoano. Não é que meu sentimento alvri-rubro sinta-se incomodado, mas o maior cronista do futebol alagoano poderia ser imparcial e dar-nos a  alegria de ver o CRB brilhar nas páginas, pois sempre brilhou no gramado bem mais do que o CSA. Brincadeira (é nada!) com nosso amigo que nos dá o prazer e a honra de manter a parceria sistemática com o Museu dos Esportes. Desta feita, ele nos traz um depoimento sobre Roberto Mendes, amigo e jogador de primeira categoria, técnico e dirigente.

         Talvez a linha de  diferença entre hoje e o tempo do Roberto esteja, em parte, na natureza do espetáculo fora das quatro linhas. A natureza da paixão era diferente; a rivalidade das torcidas era de outro matiz. Eu até sou levado – não é saudosismo – a pensar em uma espécie de estética social do movimento; era bonito ver o povo se deslocando para  o Mutange, para a Pajuçara. Obrigado ao Lautheney e ao Roberto Mendes.

Luiz Sávio de Almeida

alagoas24horas.com.br
Lautheney Perdigão



Roberto Tavares Mendes: um depoimento para a história


                Poucos jogadores defenderam o Centro Sportivo Alagoano com tanto amor como Roberto Mendes. Foi um dos mais credenciados jogadores junto à torcida do clube do Mutange. Seu entusiasmo, sua dedicação e seu carinho pelas cores azulinas o transformavam num verdadeiro líder dentro e fora dos gramados. Corria o campo todo. Desarmava, coordenava o jogo no meio campo, e ainda tinha fôlego para ir ao ataque tentar o gol. Para sua torcida, era um jogador valente, bem ao estilo dos atletas que todos gostariam de ter em seu time. A pequena estatura não preocupava.

Ali no meio, entre a defesa e o ataque, esse detalhe não tinha tanta influência. O essencial era a inteligência, a força e o raciocínio rápido. Era respeitado e admirado por dirigentes, torcedores e companheiros. A raça, a vontade de vencer e o bem querer pelo CSA faziam bem a Roberto Mendes, que transmitia tudo de bom para a torcida do clube do Mutange, a qual o transformou em seu grande ídolo. Roberto prestou um depoimento ao jornalista Lauthenay Perdigão e para os arquivos do Museu dos Esportes. Um depoimento com muita coragem e habilidade. História do seu tempo de atleta, técnico e diretor.

           Roberto Mendes começou jogando futebol na cidade de Palmeira dos Índios no infanto-juvenil do CSE e nos times do Colégio de lá. Quando veio para Maceió, defendeu o juvenil do Ferroviário. Em 1959 foi convidado para ingressar no Clube de Regatas Brasil onde teve uma ligeira passagem. O treinador era Jorge Vasconcelos que o motivou para vestir a camisa alvirrubra. Mesmo assim, jogou apenas uma partida pelo campeonato. Foi na decisão da competição contra o Capelense que venceu o jogo e terminou campeão alagoano. No começo de 1960, ainda jogou pelo CRB na disputa da Taça Mário Lima contra o mesmo Capelense. Era um troféu disputado no início de cada ano entre o campeão e o vice do campeonato anterior. Logo depois, deixou o clube da Pajuçara e parou com o futebol.

           Somente no ano seguinte, depois de conhecer Vicente Bertolini, presidente do CSA, é que Roberto aceitou o convite para voltar ao futebol vestindo a camisa azulina. Encontrou um excelente ambiente com o treinador Eduardo Montenegro, o Dudu. Os jogadores eram bons e a turma unida. Naquele ano, depois de um grande trabalho, o Centro Sportivo Alagoano se consagrou campeão alagoano. Entretanto, um protesto do clube rival, o Clube de Regatas Brasil, fez com que o Tribunal de Justiça Desportiva desse o título para a agremiação da Pajuçara que conquistou o titulo no tapetão.

           Roberto Mendes já era capitão da equipe e, depois de um desentendimento do Boleado com alguns diretores, coube a ele transmitir ao zagueiro que estava dispensado do plantel azulino. O treinador Dudu ficou do lado do atleta e também deixou o Mutange. Roberto lamentou muito a saída do Dudu que era um grande técnico e uma criatura maravilhosa. E foi Dudu o melhor técnico com quem trabalhou. Era amigo dos jogadores, consciente do seu trabalho e entendia tudo de futebol.

Para substituir Dudu, o CSA trouxe Pinguela, um mineiro que trabalhava no futebol baiano e tinha sido jogador do Bangu e do Vitória. Ele soube conquistar a amizade dos atletas e manteve um bom relacionamento com dirigentes e torcedores. Muitas vezes, alguns jogadores jogavam contundidos somente para atender seu treinador Pinguela. E foi assim que Roberto Mendes e seus companheiros conquistaram o título de campeão de 1963. Foi uma campanha sensacional. O CSA venceu o CRB três vezes durante do campeonato e pelo mesmo placar: 3x2. A decisão do campeonato continua viva na memória de Roberto Mendes. Foi em uma melhor de três. No primeiro jogo: CSA 3x2. No segundo: 0x0. Na decisão: CSA 4x2. Na semana que antecedeu a terceira partida, jogadores e técnico do clube do Mutange fizeram um pacto: ganhar o campeonato e dedicar à torcida o título de campeão. Roberto apenas lamenta o que a diretoria do CRB fez com Tonho Lima. No jogo de 0x0, Tonho Lima perdeu um pênalti e foi acusado de ser torcedor do CSA. A verdade é que o CRB tinha um grande time, mas com Tonho Lima jogando. A injustiça veio com o afastamento do craque do jogo da decisão. Quem perdeu foi o CRB.

CSA - 1961
           No ano seguinte, o técnico Pinguela não acertou sua permanência no clube do Mutange e se transferiu para o clube da Pajuçara. Veio Hélio Miranda que também realizou um belo trabalho. O time estava embalado e perdeu o título no último jogo contra o próprio CRB. Para Roberto, o CSA tinha tudo para conquistar o campeonato. Chegou a fazer o primeiro gol. Depois, em um lance de infelicidade da defesa azulina, Dão empatou para o CRB. Um empate de 1x1 na Pajuçara deu o campeonato ao clube de Pinguela. Depois, a partir de 1965, começou a grande fase do Roberto Mendes e do Centro Sportivo Alagoano. Era o início do segundo tetra campeonato para o clube do Mutange. Roberto Mendes ficou até o tri campeonato. Ainda em 1965, houve um problema entre o presidente Nilo Floriano Peixoto e o treinador Hélio Miranda. Como líder e capitão do clube, Roberto ficou como técnico de maneira provisória. Como o time ganhou o Torneio Início com uma boa apresentação, todos insistiram para que Roberto ficasse como jogador e treinador. Com seu carisma e liderança, ele conseguiu uma brilhante campanha que culminou na conquista daquele que seria o primeiro de uma série de quatro títulos que garantiu o tetra. Os jogadores azulinos gastavam a gratificação antes do jogo.

Era uma integração total entre diretoria, torcedores e jogadores. Houve apenas uma derrota. Um tropeço diante do ASA de Arapiraca que venceu por 1x0. O título foi conquistado depois de uma melhor de três com o Capelense. Foram realizados dois jogos. No primeiro: CSA 4x0. No segundo: CSA 3x0. Não havia dúvida da superioridade dos azulinos sobre seus adversários. Roberto ficou como treinador até setembro de 1967. Mesmo assim, continuou ajudando o clube até o início do campeonato de 1968. Estava fazendo o curso de Economia, era deputado e não tinha tempo para se dedicar mais ao futebol.

           No dia sete de setembro de 1967 fez sua despedida num clima de festa no Mutange. Guarda com carinho o tempo que passou defendendo o Centro Sportivo Alagoano dentro e fora dos gramados. Apesar de ter sido profissional, na época, o dinheiro era pouco. Tudo se fazia por amor. Aqueles que tinham sido contratados de outros Estados recebiam o suficiente para se manter. Roberto não precisa do dinheiro do futebol para viver. Fazia parte de uma família de projeção em nossa cidade e não tinha problemas financeiros. Muitas vezes, ajudou companheiros de clubes emprestando dinheiro, que normalmente não tinha retorno. Para ele valeu a pena. Se tivesse que começar tudo de novo, voltaria a trilhar o mesmo caminho.

           Para Roberto Mendes, a concentração é válida. Primeiro, porque o atleta fica junto com os companheiros por uns dois dias para enfrentar um jogo importante. Muitos não gostam da concentração, contudo une mais o plantel. Oferece repouso, recuperação dos treinos e cresce mais a amizade entre os jogadores. Quando se decide um campeonato, isso é fundamental. O que não é bom é a concentração mais longa, porque irrita o jogador que fica longe da família. O maior problema é que a diretoria não tem confiança no atleta, principalmente naqueles que não têm raízes em nossa terra. Esses vêm mais como profissionais, mais pelo dinheiro. Eles não têm amor ao clube. Os da terra ganham dinheiro, entretanto têm amor pelo clube. O ambiente dentro de um plantel é muito importante para conquistar os títulos. É necessário que a torcida sinta a garra no atleta, a vontade de vencer e a vibração ao vestir a camisa do clube.

Campeão 1963

           Roberto Mendes contou alguns casos que ocorreram nas concentrações do Centro Sportivo Alagoano. Em 1965, o CSA concentrava seus jogadores numa casa que ficava na esquina da Rua Ayres Saldanha com a Comendador Palmeira. Os jogadores gostavam de jogar baralho, o que era permitido desde que não tivesse dinheiro no meio. Certa vez, Roberto foi ao quarto onde estavam Canhoteiro, Arcanjo, Ratinho e Zé Cláudio. Ao olhar pelo buraco da fechadura, ele viu os atletas injetando aguardente na fruta caju. Os cajus estavam num tamanho fora do comum. Depois de algum tempo, Roberto resolveu bater na porta. Quando entrou e viu os cajus, disse que era a fruta que mais gostava e nunca tinha visto cajus tão bonitos. E pediu os cajus como presente para levar para casa. Pela liderança e amizade que havia entre o capitão do time e seus companheiros, Roberto recebeu o presente dos atletas que estavam meio sem jeito e com sorrisos amarelos. Outro caso aconteceu com Zé Cláudio. Ele tinha o hábito de comer doce após o almoço. E comia muito. Isso chamava atenção de todos, pois Zé Cláudio comia meia lata de doce como sobremesa. Nos dias de jogos, tentava-se evitar que ele comesse tanto. Todavia, não tinha jeito. Se não comesse, não rendia o que podia. Era um problema psicológico.

           Naquele plantel de 1965, havia dois jogadores da mesma posição que eram muito unidos: Deda e Ratinho. Um dia, um dos dois perdeu a gratificação por indisciplina, e eles resolveram se unir. Exatamente na manhã de um jogo, decidiram ir a um boteco que ficava perto da concentração e começaram a beber. Roberto, alertado, foi até o boteco, viu e não fez nada. Na hora do almoço, os dois chegaram mais ou menos embriagados. Roberto também não disse nada. Na hora do jogo, escalou um e disse para o outro que ele entraria no segundo tempo. E completou: o que jogasse pior seria multado em 60%. Nunca se viu os dois correrem tanto como naquela tarde. Fizeram uma grande partida.

           Roberto não poderia deixar de contar uma viagem maluca que foi feita com a delegação do CSA para a cidade de Barreiros no Estado de Pernambuco. No sábado, os jogadores viajaram de ônibus para jogar no domingo. Era um ônibus velho do torcedor azulino Bonifácio Calheiros. Por várias vezes, o ônibus quebrou e tiveram que dormir na própria condução em Porto de Pedra (divisa com Pernambuco). No domingo, ainda estavam na estrada e com o ônibus na oficina. Com os jogadores cansados e irritados, ficou acertado com o técnico Roberto Mendes que, se o ônibus não ficasse pronto até doze horas e quarenta minutos, todos estariam liberados para tomar banho no rio e beber uma geladinha. Sem ônibus para prosseguir, a liberação foi geral. Ninguém pensava mais no jogo. Acontece que as treze e trinta, o ônibus ficou pronto.

Mesmo sem condições, os jogadores entraram na condução e seguiram para Barreiros. A diretoria tinha viajado para Barreiros de automóvel e pela Via Expressa. Quando a delegação chegou ao hotel, os dirigentes do CSA já estavam aguardando o time. E foi uma cena desagradável. Os jogadores desceram do ônibus trocando as pernas. Envergonhada, a diretoria se afastou. Roberto juntou o grupo e pediu para mostrar que sabiam jogar mesmo naquele estado. Todos fizeram um juramento, trocaram de roupa e foram para o jogo. O CSA jogou muito bem, ganhou o jogo e mostrou que o time daquela época jogava até movido a álcool.

           Para Roberto, os dirigentes às vezes atrapalham. Na sua época até que eram bons. Era mais amor. Hoje o lado profissional pesa muito. Muitas vezes, o dirigente interfere no trabalho do técnico. Muitos desses treinadores aceitam a interferência para sobreviver. É tipo da coisa que o atleta não gosta. Quando era técnico, não permitia palpite de dirigentes, por isso tinha a liderança de seus atletas. Ele sabia que o Coronel Nilo gostava de mandar em tudo. Sabendo disso, procurava manter certa distância, não dando espaço para sua interferência no trabalho de campo. Quando passou a ser diretor, nunca interferiu no trabalho de seus treinadores e lutava, junto à diretoria, pelos direitos dos jogadores. Roberto fez um paralelo entre os presidentes Vicente Bortolini e Coronel Nilo. Bortolini foi o primeiro a trazer jogadores de outros Estados para o plantel do CSA. Era mais aberto e conversava com o resto da diretoria antes de tomar qualquer decisão. Era mais pacato. Coronel Nilo era um presidente mão de ferro. Centralizava tudo para ele. Só ele decidia. O resto da diretoria apenas aceitava. Responsabilizava-se pela parte financeira e terminou pagando caro por isso. Mesmo assim, era um homem bom, um cara maravilhoso. Tudo que ele fazia era por amor ao CSA.

           Quando voltou ao CSA como dirigente, viu tudo com muita tristeza. Houve uma regressão em termo de valores. Encontrou no CSA um ambiente de desconfiança. Os atletas não confiavam na diretoria. Roberto procurou se aproximar dos jogadores e mostrar que ele nunca poderia ser um cartola. Tinha vivido a melhor fase de sua vida como jogador e treinador do clube. Procurou jogar aberto e teve algumas decepções em relação à falta de responsabilidade de certos jogadores. Roberto abriu todas as portas. Brigou nas reuniões com companheiros de diretoria para manter certo critério de comportamento em relação aos atletas, principalmente na parte financeira. Ele conseguiu sensibilizar a diretoria, mas foram os atletas que o decepcionaram. Apesar de tudo, citou três jogadores que o impressionaram: Dequinha, Adeildo e Romel. Atletas de primeira qualidade e muito bons de caráter. Jogavam bem o futebol e eram seres humanos maravilhosos. Se não houvesse concentração, esses três saberiam como se cuidar. Eles eram de inteira confiança.

O mesmo, Roberto não pode dizer dos outros jogadores. Apesar dos problemas que encontrou, chegou com o mesmo entusiasmo do seu tempo de jogador. Exigia dos atletas desta geração, a mesma dedicação para defender o CSA. Jogador que veste a camisa azulina tem que sentir as emoções, a união e força que ela representa. Tudo isso era cobrado por Roberto Mendes. Ele sempre quis um time vencedor.

Nilo Floriano e Roberto Mendes
           Os melhores que viu atuar foram aqueles que participaram com ele nas campanhas do CSA: Elias, Jernan, Sinval, Bernardo, Marinho, Sílvio Mário, Eric, Ratinho, Deda, Arcanjo, Tonho Lima e Canhoteiro. Formavam um plantel que jogava para vencer. Foi com este plantel que Roberto sentiu suas grandes emoções. O campeonato de 1965, ano do sesquicentenário, foi uma emoção diferente. Sentir a torcida invadir o campo e carregar seus ídolos era uma visão maravilhosa. O gramado da Pajuçara se transformou num imenso palco para festa azulina. O título conquistado, a missão cumprida e a torcida feliz. O que poderia querer mais o consagrado Roberto Mendes? Era só comemorar. Manoel Amaro e Cláudio Régis foram os árbitros que mais lhe agradaram. Eles tinham muita coisa parecida. Manoel Amaro foi muito bom, mas a diretoria e torcedores do Clube de Regatas Brasil achavam que era azulino e que errava sempre a favor do Centro Sportivo Alagoano. Os azulinos duvidavam da honestidade de Cláudio Regis que tinha jogado no CRB. O certo, porém, é que os dois eram pessoas maravilhosas e honestas. As desconfianças partiam de torcedores fanáticos.

           Como diretor, ganhou alguns títulos e sempre desejou que o CSA desse oportunidade a seus atletas da base. Os que saíssem dos juniores e não fossem incorporados ao plantel profissional, poderiam ser emprestados para ganhar experiência e, quando voltassem ao Mutange, teriam mais oportunidades no time titular. Roberto tinha o sonho de um dia ver o CSA com o time formado por jogadores do próprio clube. Ele nunca se considerou um cartola. Não se sentia bem quando chegava a hora da renovação de contrato de alguns atletas ou novas contratações. Procurava não participar. Apesar de tudo, reconhece os méritos do presidente João Lyra. Afinal, foi uma diretoria vencedora. Conquistou muitos títulos. Depois que deixou de jogar profissionalmente, Roberto continuou participando das peladas com os amigos. M esmo com mais de cinquenta anos, lá estava Roberto Mendes correndo atrás da bola nos fins de semana. Certamente, deixando a bola correr mais do que ele. Entretanto, o entusiasmo continuava o mesmo. Sem fumar e sem beber, o antigo craque do CSA sabia se cuidar muito bem.






[HISTÓRIA: FUTEBOL:ALAGOAS] PERDIGÃO, Lautheney. DEPOIMENTOS PARA A HISTÓRIA: Alfredo Ramires Bastos




 
Esta matéria foi publicada no tablóide Contexto do jornal Tribuna Independente, Maceió, na edição de  4 de Setembro de 2011

Um bilhete sobre  futebol em Alagoas
Luiz Sávio de Almeida






  
     




























Lautheney Perdigão é um sujeito notável. Entende de futebol, entende de sua história nas Alagoas, e conta desde os primeiro jogos na Rua do Arame. Sua vida foi juntar coisas e peças, escrever aqui e ali, publicar seus livros e deixar um copioso registro, além de ter participado do divertidíssimo Ora Bolas, um programa de humor sobre o esporte e que faz parte da melhor fatia da história das emissoras de Alagoas. Ele será um assíduo colaborador, pela parceria que  Contexto, manterá com O Museu do Esporte que Lautheney criou e teima em manter vivo. É uma honra  contar com sua colaboração.

Hoje, estreando sua participação na equipe que existe por detrás do nome ContextoLautheney nos recorda a participação do Dr. Alfredo Ramires na vida esportiva de Alagoas;  Dr. Alfredo é um dos nomes que a torcida do Centro Sportivo Alagoano jamais poderá esquecer. Eu mesmo, como legítimo torcedor do quase-ex-CRB, baixo a cabeça e aproveito a oportunidade para dar um grande abraço no Dr. Alfredo. Por outro lado, aproveito para novamente dizer da minha admiração pelo Lautheney e, também, que espero o milagre de sua conversão, pois um dia será torcedor do Galo de Campina, o fantástico time do jogo da Sofia que o jogo do Xaxado nem de leve arranhou.

Fico pensando nas tardes de domingo, no Mutange e na Pajuçara, bem antes de existir o Trapichão. Qual teria sido a principal transformação vivida pelo pé na bola alagoano? Para mim, o registro é fácil: a queda do CRB e do CSA como os representantes de nosso poderio futebolístico. O capital decidiu sustentá-lo em outros locais, como Arapiraca, Porto Calvo... Talvez por isso mesmo, o texto do Lauthenay pareça estar tão distante, inclusive, pela revelação que faz sobre um tipo de futebol que deve ter desaparecido.




                               Alfredo Ramires e voleibol: técnico da Fênix


Hino do CSA

        

Pela pátria, na vida esportiva
É que vamos sempre conquistar
Nossa glória da luta deriva
É o campeão dos campeões CSA

Azulinos impávidos e fortes
Enfrentemos os nossos rivais
Nosso time não tem adversários
Não seremos vencidos jamais

Centro Sportivo Alagoano
No Mutange eterno vencedor
Se tremulas a tua bandeira
Alvi-celeste é com amor


Centro Sportivo Alagoano
No Mutange eterno vencedor
Se tremulas a tua bandeira
Alvi-celeste é com amor

Centro Sportivo Alagoano
No Mutange eterno vencedor
Se tremulas a tua bandeira
Alvi-celeste é com amor

Nesse anseio infinito de glória
Esse Centro Sportivo não tem
A vaidade que é sempre ilusória
E que nunca elevou à ninguém

Vamos todos em busca das vitórias
Com o coração na ponta das chuteiras
União e Força CSA
Azul e Branco a vida inteira

Centro Sportivo Alagoano
No Mutange eterno vencedor
Se tremulas a tua bandeira
Alvi-celeste é com amor
 
              





DEPOIMENTOS PARA A HISTÓRIA: Alfredo Ramires Bastos
Lautheney Perdigão


Lautheney Perdigão, o azulino


          Alfredo Ramiro Bastos nasceu no dia 25 de fevereiro de 1923. Formou-se em Medicina em 1948, na Universidade de Recife e se especializou em cardiologia. Também fez curso de especialização em Medicina do Trabalho. Foi professor atuante de Medicina na UFAL, Chefe do Departamento Médico da Clínica Médica do Hospital Universitário e do Serviço Médico da Salgema. Foi treinador do Centro Sportivo Alagoano e médico da Seleção Alagoana. Foi campeão pelo clube azulino no ano de 1952 e no tetracampeonato de 1955 a 1958. Também treinou as equipes de voleibol do Bonfim, CSA e Fênix. Foi campeão pela Fênix e, pelo CSA, conquistou I Jogos Abertos de Voleibol da FADA.
          Existem treinadores que a torcida e o dirigente acreditam que dão sorte. Talvez este seja o caso do Dr. Alfredo Ramiro Bastos. Sempre foi um técnico vencedor, um homem capaz de levar seus comandados a vitórias sensacionais e seu clube a títulos memoráveis. Um desportista que aliava seus conhecimentos técnicos à liderança e à amizade que tinha com os jogadores. Seu grande trunfo era ser um comandante único. Ele treinava, orientava, escalava e comandava seu time sem ajuda de ninguém. Dr. Alfredo era um treinador diferente, um homem enérgico, líder, corajoso, leal e com muita moral. Um técnico que deixou seu nome gravado na história do Centro Sportivo Alagoano.

A formação profissional
          Alfredo Ramiro Bastos é de família tradicionalmente azulina. Seu irmão, Dr. Carlos Ramiro Bastos, chegou a ser Presidente do Centro Sportivo Alagoano. Por isso, logo cedo ele foi levado para jogar nos juvenis do clube azulino. Entretanto, sem muito jeito para praticar o futebol, resolveu parar antes mesmo de começar. Apenas participou de algumas peladas no tempo do colégio. Preferiu os estudos e terminou seu curso de Medicina.
          Quando regressou a Maceió, recém-formado foi logo consultado sobre a possibilidade de aceitar ser Presidente do Centro Sportivo Alagoano. O convite foi recusado. Dr. Alfredo não se achava com qualificações, com o gabarito e a experiência para ser Presidente de um clube como o CSA. Esse conhecimento significou o enfoque para que o jovem médico iniciasse uma atenção toda especial para as atividades do seu clube e também do próprio futebol Alagoano.
A iniciação no CSA

   Foi Segismundo Cerqueira, diretor do CSA, quem começou a levá-lo ao Mutange para observar os treinamentos da equipe azulina. Assim, ele começou a se entrosar com o grupo. Um dia, Dr. Alfredo se descobriu treinador do clube. Foi quase incessível. Segismundo, que treinava o CSA junto com Palito, ex-goleiro do clube, foi aos poucos cedendo seu lugar. Em dado momento, lá estava Dr. Alfredo junto com Palito dirigindo o time azulino. Aliás, a dupla contrastava pela altura. Palito era magro e alto; Dr. Alfredo, baixo e forte.
          Houve momento em que ele já treinava o time e outras pessoas o ajudavam, mas desde o dia em que começou a sentir a responsabilidade de comando da equipe, deixou bem claro que ele seria o treinador único. Existem técnicos que são treinadores, contudo não são comandantes. Dr. Alfredo teve que optar por uma técnica melhor ou um comando único. Ficou definido comandante único. Não iria admitir interferência de ninguém. Ele gostava da expressão “comandante”. Não se considerava um técnico, e sim, um comandante. Aos poucos foi adquirindo conhecimentos técnicos e começou a se desenvolver. Mandar sozinho foi um fator preponderante para ele vencer e o time ser campeão.
          Dr. Alfredo dirigia o time principal e o aspirante. Isso facilitava seu trabalho, porque ele manuseava as duas equipes, utilizando-se, quando necessário, dos jogadores dos aspirantes que eram escalados no time principal sem problemas. As duas equipes jogavam dentro do mesmo sistema e estavam todos sempre jogando. Os aspirantes jogavam nas preliminares do time principal e o CSA chegou a ser hexacampeão alagoano.
          Sua estreia oficial como treinador do CSA aconteceu no dia 5 de agosto de 1952, em uma partida realizada na Pajuçara pelo Campeonato Alagoano contra o Ferroviário. O clube da Rede Ferroviária estava formando uma grande equipe que, nos dois anos seguintes, seria bicampeão. O jogo era muito importante para Dr. Alfredo que sentia uma grande responsabilidade diante da torcida azulina. As lembranças estavam bem vivas para o técnico azulino, principalmente pelas mudanças no marcador: Ferroviário 2x0. CSA 3x2. Ferroviário 3x3 e CSA 4x3. Nesse dia, Dida marcou quatro gols para o time do Dr. Alfredo. A vitória foi um estímulo e um conforto. O time jogou bem e soube sair de um marcador adverso para uma vitória sensacional.

O congraçamento no esporte

       Depois do jogo, Zequito Porto, falando com Segismundo Cerqueira, parabenizava-o pela bela exibição do CSA. Naquele instante, Segismundo foi muito sincero e leal. Ele disse para Zequito que todos os elogios deveriam ser para Dr. Alfredo, o verdadeiro e único responsável pelo sucesso do time do Mutange. Para o comandante dos azulinos, aquilo era gratificante, porque ele sempre considerou Zequito Porto como a maior autoridade do futebol Alagoano, e Dr. Alfredo não poderia deixar de registrar a importância de Zequito na sua participação dentro do futebol. Nas seleções alagoanas, um era o técnico e o outro o médico. Nesse convívio, havia muita conversa, principalmente sobre o futebol, suas táticas e suas técnicas. Tudo aquilo transformou os dois em verdadeiros amigos cuja amizade perdurou até os últimos dias do Zequito.

          Dr. Alfredo já era comandante do time do CSA e, por isso, observava com atenção as instruções dadas por Zequito aos jogadores da Seleção. Era uma maneira diferente daquele que aprendera com Segismundo Cerqueira. Este era um técnico exclusivamente de campo. Zequito reunia essas qualidades e acrescentava a de psicólogo. Mostrava aos jogadores como se colocar em campo, como se defender e atacar. Seu time era bem distribuído e ocupava todos os espaços do campo. Tudo era observado e anotado por Dr. Alfredo e foi de grande utilidade para quando ele retornou ao CSA. Começou a compreender a necessidade da teoria no futebol. Mandou buscar livros que comentavam sobre táticas e técnicas no futebol. Quando grandes equipes do futebol brasileiro jogavam em Maceió, e ele gostava de conversar com seus treinadores para aprender sempre mais.

O gosto pelo teórico

Com o passar do tempo, Dr. Alfredo foi se transformando, de certa forma, em um teórico. Chegou a dominar razoavelmente bem a técnica do futebol. Como comandante, ele considerava-se mais um técnico teórico do que propriamente um treinador prático e tático. Sua grande dificuldade, em determinado momento da partida, era transformar seus conhecimentos técnicos quando tinha que alterar o sistema de jogo da sua equipe. Apesar disso, não deixava transparecer a seus comandados qualquer indecisão de sua parte.

A Sofia e o Xaxado: 4 a 0


Aspirantes de 1953




          Xaxado era a música do momento e com os jogadores do CSA jogando dentro do gramado da Pajuçara e a torcida azulina batendo palmas e gritando Xaxado, Dr. Alfredo viveu um momento de grande emoção no futebol. O jogo era contra o CRB em 1952. Foi um verdadeiro "olé". Jamais se pensou em desrespeitar o adversário. Aquele era o dia do CSA. Tudo dava certo e para Dr. Alfredo era gostoso observar o passeio que os atletas do velho rival estavam levando naquela tarde de 21 de setembro. O CRB comemorava mais um aniversário e o CSA ofereceu o baile. Nesse jogo, aconteceu uma coisa curiosa. Por incrível que pareça, Dr. Alfredo não sabia do caso da Sofia, aquele jogo em que o CRB goleou o CSA por 6x0 em 1939 e, até os dias de hoje, o CSA não conseguiu fazer o mesmo placar. Quando no jogo do Xaxado o marcador marcava 4x0, a torcida começou a pedir mais. Entretanto, ninguém o advertiu que havia uma Sofia atravessada na garganta dos azulinos. Os jogadores azulinos queriam fazer a bola correr de pé em pé, sem se preocupar em fazer mais gols. Muitos foram perdidos. Apesar de não conseguir os 6x0, outra exibição daquela vai ser difícil de acontecer em um campo de futebol.
A força bruta de King
          



 Um dos jogadores mais discutidos do plantel do CSA, na época, era King. Jogava nos aspirantes e muitas vezes era aproveitado no time principal, chegando mesmo a disputar um campeonato inteiro como titular.  Apesar de ser chamado de “grosso”, King sabia fazer gols, muitos gols. Tecnicamente era fraco. Contudo, uma bola lançada em profundidade à frente de King era meio gol. Não era veloz, mas sua robustez, pela sua massa muscular enorme que fazia do centroavante um bloco de músculo, dificilmente era derrubado. Dr. Alfredo gostava de utilizar King no segundo tempo dos jogos. O ataque do CSA era formado por jogadores leves, habilidosos que gostavam de tabelar, driblar. Durante quarenta e cinco minutos, a defesa adversária ficava sentindo a leveza, os dribles, os toques. Quase que não havia o corpo a corpo. No segundo tempo, entrava King e as coisas mudavam. Os zagueiros passavam a serem assediados, molestados. Eles sentiam a diferença e ficavam preocupados com o atacante azulino. King entrava duro, forte, dividia e dificultava as rebatidas dos adversários.

E a luz sumiu



CSA = Campeão 1953 Em pé: Dr. Alfredo. Neu. Joab. Zanélio. Almir. Paulo Mendes. Napoleão e Edezio Leitão. Agachados: Ítalo. Sued. Dida. Netinho e Géo.
                A rivalidade entre CSA e CRB atravessa os anos e todos que passaram pelos dois clubes sentiram de perto fortes emoções e também algumas decepções. Certa vez, Dr. Alfredo fez uma coisa que se fosse hoje não faria. Por isso, ele fez questão de contar o acontecido. Foi em um clássico CSA e CRB que começou atrasado e terminou mais atrasado ainda por falta de energia no campo do Mutange. Naquele tempo, os jogos eram disputados com bola alaranjada. À noite, essas bolas eram pitadas de branco, que com o passar dos minutos, a tinta ia saindo e a redonda não ficava branca nem amarela. O CSA vencia por 1x0 e ficou na defesa para garantir o resultado. O CRB foi todo para o ataque. A iluminação era deficiente. O goleiro azulino passava por dificuldades por causa da bola e dos refletores. Os dirigentes do CSA pediam para a Federação trocar a bola e não eram atendidos. Quando Dr. Alfredo sentiu que as coisas estavam pretas e o CRB podia empatar a qualquer momento, usou de um expediente nada correto.
Chamou Seu Antônio, que tomava conta do Mutange, e ordenou: desligue as luzes e desapareça.  O pai do Peu, que obedecia cegamente ao Dr. Alfredo, não pensou duas vezes. Foi até a Casa de Força e desligou os refletores. Ninguém percebeu o que aconteceu. Todos pensavam que tinha havido um problema com a Força e Luz, hoje Ceal. Com o jogo paralisado, houve tempo para conversar com o árbitro, trocar a bola, esfriar a reação do CRB e acertar alguns detalhes com os jogadores do CSA. Quando Dr. Alfredo achou que estava tudo em ordem, a energia voltou, os refletores voltaram a funcionar, o jogo continuou e o clube azulino manteve o resultado. Dias depois, quando a diretoria do CSA soube o que realmente tinha acontecido, não gostou da atitude do Dr. Alfredo, principalmente Napoleão Barbosa.

A amizade acima de tudo

          Apesar da grande rivalidade, aconteceram casos que mostram que uma grande amizade pode passar por cima de tudo. Dr. Alfredo tinha em Zequito Porto um grande amigo. Um comandante do CSA; outro, treinador do CRB. Além da amizade, existia muita confiança entre os dois. Um exemplo disso está nesse detalhe. Dario Marsiglia, que jogava pela meia esquerda do CRB e era o grande craque do clube da Pajuçara, estava contundido. Era a semana que antecedia o clássico. Zequito levou Dario para Dr. Alfredo curá-lo. Ele trabalhou a semana toda para que o atacante ficasse bom do tornozelo. No dia do jogo, já no campo, Dr. Alfredo, técnico do CSA, enfaixou o pé do Dario e ele jogou normalmente. Esse não foi um caso isolado. Muitos outros jogadores alvirubros eram enviados ao consultório do Dr. Alfredo.
          Depois da conquista do campeonato de 1952, Dr. Alfredo foi aos Estados Unidos para fazer um estágio a fim de aprimorar seus conhecimentos na cardiologia. Quando regressou, voltou ao CSA para conquistar o primeiro tetracampeonato da história do clube azulino. Revendo as fotos dos quatro campeonatos, Dr. Alfredo não destacou nenhuma. Todas foram boas, cada uma dentro da sua temporada. O ambiente foi sempre o mesmo. Havia grandes jogadores, porém a disciplina estava acima de tudo e foi um dos fatores mais importantes para se conquistar o campeonato quatro vezes. A cada título era uma emoção. No esporte, não tem coisa melhor do que sair vencedor em uma competição.
          Dr. Alfredo nunca teve problema com seus comandados. A indisciplina violenta o esporte. Por isso, ganhava a disciplina de seus atletas com exemplo de assiduidade, pontualidade, esforço e boa vontade para resolver os problemas particulares de seus comandados. Dr. Alfredo recebia os atletas e seus familiares no seu consultório sem receber nenhum tostão. Com suas atitudes simples, franca e firmes deixavam os jogadores à vontade e conquistava a amizade e o respeito de todos.

A entrada de Dida no CSA

          Foi Dr. Alfredo quem levou Dida para o CSA. Um dia um jogador chamado Penedo e que atuava nos aspirantes do CSA, convidou o seu treinador para assistir a um jogo de pelada na Praça da Cadeia. Lá jogava um garoto endiabrado chamado Dida. As jogadas do jovem atleta impressionaram Dr. Alfredo, que logo que terminou a pelada, procurou Dida e lhe perguntou se queria jogar no CSA. Dida bem que gostaria, mas ia depender da permissão de seus pais. O médico-técnico não perdeu tempo. Foi junto com Dida até sua casa para conversar com Seu Jaime. Ficou acertado que o CSA, nos dias de treinos e jogos, mandaria um carro para pegar Dida e depois trazê-lo de volta para sua casa, além de pagar seus estudos.
 Na mesma semana, o futuro craque já estava no Mutange como titular da equipe azulina. Muita gente estranhou aquele menino franzino no time principal. Todavia, em uma das primeiras jogadas do treino, Edgar lançou uma bola para área. Dida suspendeu a perna direita, matou a bola lá em cima e quando ela desceu, chutou violentamente de pé esquerdo para o gol dos reservas. Estava ali o jogador que Dr. Alfredo precisava. Ali estava o malabarista, o artista e o futuro campeão do mundo.
          No domingo, o CSA jogaria contra o Auto Esporte, vice campeão do ano anterior e uma das boas equipes do campeonato. Dida foi regularizado às pressas para jogar no domingo. Sua escalação foi uma surpresa para muita gente. Segismundo Cerqueira, que não tinha ido aos treinos do CSA, achava que Dr. Alfredo estava louco. Escalar um garoto para um jogo tão importante. Afinal, Dida era desconhecido e nem tinha passado pelos aspirantes. Depois da partida, com uma excelente atuação, Dida calou a boca dos descrentes. Dida, como todo artista, tinha sentimentos delicados, tinha uma forma toda especial de ser conduzido e, nesse aspecto, parecia frágil, mas não era. Jogava valentemente contra duros zagueiros.
          No início da década de cinquenta, Dr. Alfredo foi médico da Seleção Alagoana e participou de duas memoráveis partidas. Em 1952, contra os sergipanos no famoso jogo dos 163 minutos. Jogo disputado no Mutange e que, além da vitória nos noventa minutos, os alagoanos tiveram que disputar duas prorrogações de trinta minutos e o gol alagoano que definiu nossa classificação veio aos treze minutos da terceira prorrogação. Neste jogo, três fatores decidiram a nossa vitória: disciplina, bom nível técnico dos jogadores e preparo físico. A outra partida aconteceu em 1954 contra os paraibanos. Alagoas perdia de 3x1 e virou o marcador para 4x3 com Dida fazendo dois golaços. Foi o jogo que levou Dida para o Flamengo. Na virada, valeu a raça e a vontade de vencer dos alagoanos. Quando serviu à Seleção Alagoana, Dr. Alfredo era médico e Zequito Porto era o técnico. Foi um período de muito aprendizado para o técnico do CSA. Era muito observador e tirava proveito de tudo de bom que via nas preleções, nas mudanças táticas da seleção durante o jogo e o comportamento de todos. Dr. Alfredo que sempre foi um comandante sério e um técnico teórico habilitou-se a ser um vencedor. O mesmo sucesso também se repetiu no esporte amador quando foi treinador de voleibol.
          Por tudo de bom que aconteceu com ele, valeu a pena ser um comandante no esporte. As amizades que conquistou, as emoções pelas muitas vitórias que viveu e pelo aprendizado que recebeu, Dr. Alfredo agradece ao esporte, hoje, aos 88 anos de idade.