segunda-feira, 26 de dezembro de 2011

[HISTÓRIA E URBANISMO] Luiz Felipe Leão Maia.O Planejamento Estratégico da Cidade de Maceió: um convite à pesquisa Brandã.



Este texto foi publicado em Espaço, O Jornal, Maceió, no mês de outubro de 2008



O que faz Luiz Felipe!

Arquiteto e Urbanista formado pela Universidade Federal de Alagoas, mestrando em Dinâmicas do Espaço Habitado (DEHA), pela mesma instituição. Desenvolve  dissertação sobre Teorias do Conflito e Pensamento Único no Processo de Planejamento. Também tem interesse nos seguintes temas: Acessibilidade, História da Arte, da Arquitetura e da Cidade e Cinema sobre os quais já apresentou trabalhos em congressos nacionais e internacionais.  Dos poucos livros que leu, gostou da maioria; enquanto dos muitos filmes que assistiu, gostou da minoria. É fã dos Beatles, mas sempre preferiu o Rolling Stones. Este texto foi escrito para a disciplina Formação do Espaço Alagoano, ministrada no Mestrado de Dinâmicas do Espaço Habitado  pelo Professor  Dr. Luiz Sávio de Almeida.



Umas poucas palavras

Luiz Sávio de Almeida


O texto do Luiz Felipe (jovem pesquisador em formação) é instigante:  o que deve ser o planejamento e como deve especificar-se como urbano?  Estamos diante de uma pergunta essencial e no rastro de um perfil  de timbre pavloviano ao se poder inquirir a viabilidade de uma engenharia social montada em razão paramétrica, tendo-se a relação direta entre a existência  da variável e uma conseqüência inexorável: dado x então y. Tendo-se o estímulo correto, tem-se o resultado correto. Estamos também diante da possibilidade de uma falsa democratização ou, até mesmo,  da utilização de instrumentos ditos abertos para atingir, pela manipulação, resultados fechados.

 O que é planejar uma cidade?  E planejar Maceió? Estás são perguntas que necessariamente ficam em relevo quando lemos o texto de  Luiz Felipe e fica, também, uma importante inquietação: como abrir a caixa chamada estratégia para entender o seu verdadeiro  sentido?  Seu texto me foi  apresentado na disciplina  que ministro  e  para efeito de publicação em Espaço, foi  lido, também, pelo Professor Dr.  Flávio Antônio Miranda   de Souza.

 Bom, vale abrir uma boa interrogação sobre a questão do planejamento urbano em Alagoas: o que vem sendo, quais as suas raízes, o que vem propondo e o que se está conseguindo? A sugestão embutida no texto do  autor é que se tome o Plano em questão como objeto de análise, questionando princípios e operações.  Não resta dúvida que o assunto é privilegiado para um trabalho sobre Maceió. A hipótese levantada e os comentários que realizamos privilegiam o chamado Plano Estratégico para matéria de  investigação em trabalhos de pós-graduação, quem sabe em uma boa dissertação de mestrado ou mesmo  - ocorrendo  excelente trabalho teórico -, em  tese de doutorado que,  criticando os princípios, passe pela prática e pela significação do chamado Plano na reorganização de Maceió.  No fundo tentariam responder a umas três questões extremamente simples: o que foi isso, como foi isso, a razão de ter sido e, finalmente, o que é isso e em que resultou... Ta aí uma sugestão.



O  Planejamento Estratégico da Cidade 

de Maceió: um

convite à pesquisa


Luiz Felipe Leão Maia Brandão


Ainda que trabalhos clássicos como o de Jacobs (1961) e Berman (1983) tenham apontado debilidades da abordagem “racionalista” do pensamento moderno sobre as cidades, poucas rupturas com os paradigmas do urbanismo  até então vigentes  parecem ter acontecido  ao longo dos últimos anos. Para Arantes (2000), as mudanças resumiram-se à utilização de jargões como “gerenciamento” e a adoção de uma postura assumidamente empresarial nas administrações públicas.  Dentre as tipologias com essas características e, surgidas ao longo dos últimos anos, está o planejamento estratégico.




O planejamento estratégico tem em suas bases a promoção das cidades como “empresas”, que competem entre si pelos investimentos do mercado global, utilizando o marketing como uma de suas principais ferramentas de ação (SÁNCHEZ, 2003). Impulsionadas pelo sucesso comercial, obtido com o projeto para a cidade de Barcelona na oportunidade em que sediou os Jogos Olímpicos de 1992, várias firmas espanholas de consultoria começaram a atuar nesse campo. Em seguida, diversas administrações municipais brasileiras contrataram direta ou indiretamente  esse tipo de serviço, dentre elas, a de Maceió.

Do interesse de Maceió, resultou o documento intitulado “Projetos Estruturantes” e que foi elaborado entre os anos de 1997 e 2003, na gestão da  Prefeita Kátia Born Ribeiro. Por intermédio de uma parceria público/privada – denominada “Consórcio Plano Estratégico Cidade de Maceió” –  foi contratada a firma catalã, GFE. A assistência prestada pelos espanhóis teve como objetivo definir linhas de atuação, de modo que a cidade tivesse um maior “[...] aproveitamento das potencialidades existentes para a obtenção de um desenvolvimento endógeno e sustentável” (Consórcio: 2003).

Seguindo os procedimentos metodológicos característicos do planejamento estratégico, o documento apontou “eixos de desenvolvimento” e potenciais áreas de investimento. Os  princípios norteadores das ações do planejamento estratégico são amplamente criticados por autores como Maricato (2000) e Claver (2003). As críticas residem, sobretudo, na formação de aparentes consensos em torno das deliberações dos planos, objetivando, essencialmente, atender aos interesses do capital privado em detrimento das reais necessidades das parcelas economicamente menos favorecidas da população.


Segundo Vainer (2000), tais consensos retiram do conflito entre as classes,  seu papel central na formulação de políticas públicas. É natural que os choques de interesse dentro do espaço urbano surjam  das relações sociais e das diferentes demandas dentro da dinâmica da sociedade de classe. Dessa forma, os conflitos têm um papel relevante  por possibilitarem  aos diferentes cidadãos que se expressem  de modo que o território seja organizado e  atendendo a todos de forma mais ampla (CASTRO, 2005). 

O caso alagoano não foge dessa perspectiva de um consenso discutível. Tomando como base relatórios produzidos anteriormente por diversos órgãos públicos, o Plano aponta o turismo como “eixo estruturante” para o desenvolvimento da cidade. Para tal, a revitalização do bairro de Jaraguá e das orlas marítima e lagunar  foram apontadas como caminhos para a cidade. 

Para os críticos do planejamento estratégico, termos como requalificação e reestruturação não passam de eufemismos utilizados para camuflar um processo de gentrificação  (SMITH, 2003).  Esta, nesse caso, seria um fenômeno iniciado quando os cidadãos pobres residentes numa área a ser requalificada são de lá retirados, dando lugar a pessoas e empreendimentos com grande poder financeiro.  Isso se tornaria viável mediante investimentos do setor público em obras de caráter estrutural no local-alvo das propostas.


Almejar-se-ia, desse modo, uma realização de capital privado, a partir de  investimentos públicos (pois as reformas são pagas pelo o Estado e o bônus da valorização fica com os agentes do mercado) e, finalmente, uma homogeneização social do espaço, pela estruturação de áreas pobres e ricas, aprofundando a moldagem do espaço em função da renda.   Requalificando áreas tidas como decadentes, o poder público acaba, então, fazendo uso do erário para valorizar empreendimentos particulares e reenviar os pobres para um local de pobreza.

Ainda que o caso da revitalização do bairro de Jaraguá seja anterior ao Plano Estratégico de Maceió (teve início no final dos anos de 1990), pode ser entendido como um exemplo de tentativa de gentrificação de um espaço maceioense. Parte da localidade é, há muitos anos, ocupada por famílias de pescadores. Quando a prefeitura e o setor privado começaram a enxergar estes moradores como um obstáculo ao sucesso do empreendimento, várias foram as propostas surgidas com o objetivo de retirá-los de lá.

A experiência realizada em Jaraguá acabou sendo um fracasso, haja vista a falência de grande parte das empresas ali estabelecidas. Como conseqüência, foi comum observar comerciários e representantes do setor público nos meios de comunicação, apontando a violência como a razão para o insucesso financeiro do bairro, então recém-reformado. Estaria, então, sugerido que a solução para os problemas seria a remoção das famílias carentes, às quais  era atribuída a culpa pelos altos índices de criminalidade do local.


Esse caso denuncia uma postura preconceituosa e impositiva daqueles que vêem na requalificação de localidades, tidas como potenciais fomentadores de oportunidade e negócios, a solução dos problemas da cidade.   Essa atitude tem reflexo na forma como são conduzidos os processos decisórios nas diversas escalas governamentais. Na elaboração do documento Projetos Estruturantes,  tal dado pode ser bem constatado.

Segundo a Professora Regina Dulce, representante da Universidade Federal de Alagoas (UFAL) no Conselho da Cidade, as decisões tomadas na concepção do plano aconteciam em três diferentes níveis. Num primeiro patamar, estava uma Diretoria Executiva, responsável pelo gerenciamento dos trabalhos. Em condição intermediária, a Coordenação Executiva (da qual a acadêmica fazia parte), que realizava debates sobre o projeto. Por fim, havia um grupo formado por pessoas notáveis da cidade, escolhidas pela Diretoria, que iria colaborar com assessorias em suas respectivas áreas de atuação. Não foi dado o direito de voz, tampouco o de voto, a qualquer representante de movimentos sociais da cidade

Ainda segundo a representante da UFAL, houve uma atuação permanente de alguns membros da Coordenação Executiva no sentido de propor abordagens mais progressistas e uma maior permeabilidade à participação popular ao longo do processo. Contudo, as decisões de fato ocorriam apenas dentro da Direção Executiva, que parecia querer legitimar suas idéias. O conjunto de notáveis reuniu-se poucas vezes e não participou de forma efetiva das discussões nem das decisões.


Na verdade, muitos integrantes desse grupo sequer compareceram a alguma reunião. O Professor Luís Sávio de Almeida afirma ter requisitado sua retirada da lista de colaboradores, por não concordar com a maneira pela qual as atividades vinham sendo conduzidas. Apesar disso, seu nome acabou constando no documento final. O resultado desse processo foi um documento genérico, baseado em diagnósticos já feitos anteriormente e com propostas pouco detalhadas, que apenas reiteram tendências para ações já pensadas antes de sua elaboração. Em suas entrelinhas, há a noção de que cabe ao poder público fazer os investimentos que realizarão o capital.

Parece-nos ser possível prosperar a hipótese de que, desde sua concepção até suas propostas, o plano denominado Projetos Estruturantes tenta se basear em falsos consensos para legitimar propostas que beneficiam, essencialmente, as camadas mais abastadas da sociedade. O conflito e o debate de idéias parecem ter sido evitados, em nome de uma consonância de interesses que parece existir apenas na fala de uma elite interessada em ter uma cidade e não fazer uma cidade com todos.


Referências Bibliográficas

ARANTES, Otília. Uma estratégia fatal: a cultura das novas gestões urbanas IN: ARANTES, Otília; VAINER, Carlos & MARICATO, Ermínia. A cidade do pensamento único: Desmanchando consensos. Rio de Janeiro: Editora Vozes, 2000.
BERMAN, Marshall. Tudo que é sólido desmancha no ar. São Paulo: Cia das Letras, 2004 (1° Ed. 1983).
BORJA, Jordi & CASTELLS, Manuel. La gestión de las ciudades en la era de la información. Madrid: Taurus, 1998.
CASTRO, Iná Elias de. Geografia e Política - Território, escalas de ação e instituições. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 2005.
CONSÓRCIO PLANO ESTRATÉGICO CIDADE DE MACEIÓ. Projetos Estruturantes: Uma contribuição para o desenvolvimento sustentável de Maceió. Maceió, 2003.
JACOBS, Jane. Morte e Vida das Grandes Cidades. São Paulo: Martins Fontes, 2004 (1° Ed. 1961).
SÁNCHEZ, Fernanda. A Reinvenção das Cidades para um mercado mundial. Chapecó: Argos, 2003.
SMITH, Neil. A gentrificação generalizada: de uma anomalia local à “regeneração” urbana como estratégia urbana global IN: BIDOU-ZACHARIASEN, Catherine. De Volta à Cidade: Dos processos de gentrificação às políticas de “revitalização” dos centros urbanos. São Paulo: Ana Blume, 2007.
VAINER, Carlos. Pátria, empresa e mercadoria IN: ARANTES, Otília; VAINER, Carlos & MARICATO, Ermínia. A cidade do pensamento único: Desmanchando consensos. Rio de Janeiro: Editora Vozes, 2000.




[HISTÓRIA: VIOLÊNCIA: ALAGOAS] Luiz Sávio de Almeida. Segurança e Cultura III


Este artigo foi publicado em O Jornal (Maceió), no mês de fevereiro de 2008



         Faz pouco tempo e ouvi o que disse uma  senhora de uma de nossas favelas: entrevista na televisão. Ouvi e vi um senhor policial que havia participado de missão na área e fiquei espantado com os dois. Foi impressionante como o Sururu de Capote poderia ser uma favela do Rio, e uma favela de lá estar na lagoa, mudando o que deve ser mudado, cautela que anteponho para não cair no exagero. Alguma coisa havia acontecido e fez com que se perdesse o senso do local, como se a especificidade tivesse sido anulada. Fiquei sem entender como uma pessoa daqui poderia falar como alguma do Rio falaria. Pelo menos, duas constantes estavam na mesa: polícia, favela, partes de um intrincado labirinto onde segurança e violência se entrelaçam.

         Se o lugar não estava ali, que mágica havia sido realizada capaz de tornar um espaço em algo encantado? Algum procedimento teria anulado as diferenças, de tal modo que a fala de um seria a do outro.  Foi quando comecei a lembrar de uma leitura, faz é tempo, lá pelos idos dos meus vinte anos. Li com má vontade, pelo namoro com Marx e tratava-se de russo branco, teórico de nomeada ocidental. Era Sorokin na sua monumental pesquisa sobre mobilidade social.  Um treco que ele ensaiou, jamais saiu da minha cabeça,  qualquer coisa como se eu pudesse considerar que os pobres de um país fossem mais parecidos com os pobres de outro país, do que com os ricos do seu. Barbaridade.

         Talvez isto refrescasse um pouco a fala da pobreza, mas como refrescar a da polícia que é a fala do  mando dito legitimado? Era exatamente igual a outras ouvidas várias vezes e ligadas ao Rio. E aquele cidadão fardado não existia enquanto pessoa, pois era, na realidade,  o estado real falando como se existisse um outro virtual representado na chamada Constituição.  Não estou dizendo que algum atropelo tivesse sido cometido; não é isso. É a lógica.  É preciso ter claro, que o estado tem muitas faces, são muitos atores que o representam no andar da carruagem política.

         Agora, talvez eu esteja habilitado a discutir um pouco melhor a questão.  Vai parecer frase de efeito, mas não é.  A ausência de significado do estado para a baixa renda tornou possível que de especificidades diferenciadas saísse a mesma fala. O lugar não sumiu, havia, simplesmente, perdido visibilidade na escala do problema. O estado estava em realce, isto sim, na sua presença policial.  E não é ela que é a presença da segurança, embora seja necessária.

         Na verdade, tarefas de repressão – embora necessárias – são partes e não a definição do processo. Se não for visto assim, a idéia de polícia fica prejudicada e atribuída a ela condições  que a tornarão cotidianamente ineficaz, especialmente quando tende a existir a desigualdade. É neste ponto que volta a tese: um estado não pode ir bem, quando a segurança vai mal.  E este argumento estende-se à polícia.  Na estrutura do estado  os fatores sociais de harmonização devem dar lastro à polícia. Não se pode esconder o estado e vilanizar a polícia, embora ela deva passar por total reestruturação. Isto é outra coisa.  São outros quinhentos. O estado tem que reverter sua forma de estar junto à sociedade, e, inclusive,  lançar-se à baixa renda e, jamais, utilizar-se de uma farsa: querer uma polícia que ele não ajuda a existir. Será um grito no vácuo. Pode ser, contudo, que o estado precise não ter esta polícia e, aí, infelizmente ele é o vilão e o chamado pacto constitucional viraria matéria cabalística.

[HISTÓRIA: MEMÓRIA: CULINÁRIA: ALAGOAS] Luiz Sávio de Almeida. O Guia Sávio da Cozinha Alagoana (VII)









O amigo Chaves a quem me refiro neste artigo, faleceu.  O blog presta homenagem à sua vida aventureira como embarcado, à sua mania de encontrar formas em galhos e pedras, a sua apuração de cachaça,no preparo de seu polvo  em São Bento.







O texto foi publicado em O Jornal (Maceió) no mês de outubro de 2007


                                                                                                                             turismo.culturamix.com
             

Um dos mais belos locais de Maceió são  as pedras da Ponta Verde, embora agredido por monstrengo de concreto que enche a área de ângulos.   Os olhos devem levar diretamente  para o horizonte, onde se encontra a África.  Contaram-me  que havia um homem em Maceió e que   sempre vestido de  branco passava o dia sentado na Avenida, olhando para o horizonte.  Quando perguntavam o que fazia, respondia: estou vendo as torres de marfim da África. No caso, o cara  estava invadido pelo marfim e não pela África. Não sei o que se passou com ele; sei apenas que, pelo menos a minha África,  não tem torres de marfim.

O lugar pode ser  contemplado, mesmo sem estar sendo visto. Há uma geografia do potencial; é a que faz parte do imaginário e nele que cada local pode ser  multiplicidade, uma possibilidade sempre aberta. O lugar é diferente do espaço, mas não é hora de discuti-los, é claro que existam um lugar e um espaço das pedras e, portanto, existem as gentes das pedras. Foi o que primeiro me chamou atenção: as gentes. São pessoas que vivem no compasso das marés; gente que pesca,  gente que pega polvo...  Abomino os que usam a água sanitária para fazê-lo sair da toca; não gosto de vê-lo puxado por gancho. Gosto de vê-lo  livre, mas, estranhamente, adoro arroz de polvo. E nisso, vez em quando viajo para São Bento, onde como o melhor polvo das Alagoas, no Bar do Chaves. Vale a pena andar sem parar  l7 léguas e meia para comer o polvo, conversar com o dono, ver suas peças, escutar suas histórias de marinheiro de alto-mar. Já comi polvo em tudo quanto é canto:  o dele recebe o prêmio.
                                                                                                                     seresvivosdorn.blogspot.com
A mututuca


Na minha cabeça e na área das pedras, foi construída  uma estrada  da praia ao pequeno farol.  Penso que a Marinha deve ter feito uma estrada para um jeep passar. Doidice, que ninguém iria fazer uma estrada e nem dar manutenção ao farol usando jeep garassuma.  É que traçei um rumo e a invenção da estrada me ajuda a não esquecê-lo. O farol  é meu objetivo,  mas a pessoa deve ter cuidado com o tempo, não deixar a maré enchendo pegar. Tem-se que ficar de olho na arrebentação, na correnteza que vai se formando e enchendo poças, nos pescadores que saem da arrebentação. No mais, é um extremo cuidado ao pisar, evitando escorrego e os espinhos dos ouriços. Espinho de ouriço somente sai com uma espécie de compressa de querosene  esquentado no fogo; ele quebra que é uma beleza e diz o povo que o querosene puxa. Já experimentei: puxa.

O resto é procurar beleza nos corais, nas pedras e, sobretudo, nas poças, com algumas delas, especialmente à esquerda do farol , sendo de  bom tamanho para um mergulho com direito à máscara, pé-de-pato, respirador.  Claro que não tenho mais condições para tal proeza, mas ainda sei me sentar e ficar pacientemente louvando os peixes que enfeitam as águas.   Um dia, maravilhado vi uma mututuca passando veloz pelos meus pés. Mergulhei e fiquei olhando aquela coisa linda, como é lindo o beiço-de-boi, como é linda a moréia com sua cara de cobra.
                                                                                                                                 antoinacio-rio.com.br
Moreia





Não é da culinária alagoana. Culinária é o polvo do Chaves, mas não posso deixar de dizer que -  no tempo quando não havia a poluição das águas - eu apanhava alface do mar para tomar caldo. É preciso ter cuidado ao apanhar algas, pois dizem que muitas são tóxicas. Apanhava somente a alface que dá um caldo gostoso, depois de devidamente cuidada.  Mas o que eu adorava mesmo, era comer o ouriço cru.  Puxava, quebrava e comia, acompanhando tudo com goles de um bom conhaque. Bom conhaque mesmo. Colocava os pedaços na palma da mão e dava aos pequenos peixes que vinham de todos os cantos.

Cada um tem seu peixe. Peixe é um particular. Apesar de ter sido criado – de acordo com minha mãe – comendo pirão de carapeba, meu peixe é a tainha fresca  e frita. Não tem outro para mim.  Ela deve estar totalmente enxuta, rolada na farinha de mandioca  e jogada no óleo fervendo,  sempre renovado para não pegar ranço.  Depois é farofa d'água com um belo cheiro verde e rasgar a tainha com as mãos, fazendo o que o povo chama de capitão, rompendo com a civilização ocidental colherosa, garfosa e facosa segundo  expressões da  Maria Lopes. Ela desafia a que se diga farofa com a boca cheia de farofa.

[HISTÓRIA: LITERATURA: LAMBE-SOLA] Luiz Sávio de Almeida. A reedição do Mestre Tonho Lambe-sola




Este artigo foi publicado      em O Jornal  (Maceió) , no mês de setembro de 2007











                                                                                                          tododiaumtextonovo.blogspot.com
Mestre Tonho Lambe-sola


A Sociedade dos Amigos de Viçosa encontra-se em expansão, espécie de atalaia cultural sobre o famoso Vale do Rio Paraíba. Ela começou a atuar no espaço de Viçosa e terminou adentrando Atalaia, onde foi encontrar o Mestre Tonho Lambe-Sola.  É muito bom que a Sociedade abra seus braços para compensar a falta de ação ao longo do Vale e, neste caso, com uma legitimidade a toda prova, pois o Mestre Tonho cresceu no Riacho do Meio.  É também de valia registrar, que a Sociedade sabe abrir um bom rol de parceiros, contando, neste caso, com a participação da Federação das Indústrias do Estado de Alagoas através, sobretudo, do interesse do seu Presidente. É importante destacar a Federação das Indústrias neste lançamento. Talvez fosse a oportunidade de seu Presidente examinar a possibilidade de participar mais diretamente da vida editorial alagoana, instituindo - quem sabe? -  uma verba anual para compor no financiamento de impressões  de textos que discutam Alagoas, numa linha editorial sem preconceitos de matizamento ideológico, importando,  apenas, a excelência do texto.  Tudo a partir de uma seleção criteriosa que poderia ser realizada por um Conselho ou coisa semelhante.

O fato é que estamos na 3ª edição dos poemas de Antônio Aurélio de Morais, contando  com uma seleção realizada por Sidney Wanderley, autor, também, de esclarecedora orelha. Mestre Tonho Lambe-Sola aflorou em grande parte no contexto de artistas e intelectuais ligados à esquerda, especialmente do PCdoB. Rara a oportunidade em que se deixava de ouvir o poema Salário Mínimo, declamado pelo Paulo Poeta. Não me parece que Mestre Tonho tivesse radicais inclinações à esquerda. No entanto, a esquerda percebeu a sua genialidade:  parodiando Thompson, ele construía uma poesia tipo from bellow. 

Não resta dúvida que seu poema sobre o salário mínimo, fascinaria a esquerda. 

A irreverência da abordagem e a forma como é montada a grade de situações, torna, sem dúvida, o poema uma espécie de clássico, no sentido de que assume as características do que se costuma chamar de obra-prima. A expressão é chata – não conheço uma obra-tia -  mas o texto é muito bem construído, chega na luta entre o viver e o morrer, numa tensão em que o salário é o motivo. É um texto onde situações reais são levadas ao fantástico e onde, inteligentemente, ele se transforma em uma extraordinária fala sobre a sociedade:

Só tem uma solução
Prá nois pobre brazilêro
É inguli osso intero
Qui nem avestrui ou  ema
Ô antão num cumê mai
Tapa a porta de trai
Tá rizurvido o probrema
Nu mundu tem munta arma
I jeito di matá gente
Porém a arma valente
Qui mata sem cumpaxão
É essa arma infeliz
Qui si chama in meu Paiz
Salaro mimo, patrão.

O livro do Mestre Tonho estará na praça!,  gritou Maria Lopes espevitada, sem se lembrar de que Cascudo já havia estabelecido a inutilidade assumida por um  instrumento que se chamava de espevitadeira. Maria Lopes tem extraordinário bom gosto e toda a minha admiração. Se ela está com o Mestre Tonho Lambe-Sola, que viva a Sociedade dos Amigos da Viçosa. 


Encenação pelo grupo Joana Guajuru

[HISTÓRIA: ECONOMIA: RIO DE SÃO FRANCISCO: TRANSPOSIÇÃO: Luiz Sávio de Almeida ]












Este é um texto antigo e data de 2007.  Foi uma entrevista que deve ter sido publicada em setembro de 2007 em O Jornal.  Pelo menos, é a data em que remeti o imêio para Plínio Lins, que era Editor Geral do periódico. Plínio é um jornalista de primeira linha e a quem devoto admiração. Um cara honesto.  A entrevista foi publicada na página de Economia que era da responsabilidade da Milena Andrade. Ela demonstra e ainda hoje deve ser assim, a verdadeira angústia do povo quando a questão aflora. Eu julgo o texto muito atual. 



                                                                                         blog.tudonahora.com.br
O bom amigo Plínio Lins


Como  acha que se encontra a discussão da transposição?

A transposição do Rio São Francisco parece ter sido retirada da grande pauta do momento político, de evidência na ordem do dia.  Não se escuta mais falar nela, com o alvoroço político que merece. Faz tempo que sou um curioso sobre a questão e um devotado defensor da revitalização.  A história do rio de São Francisco se arrasta na medida em que se teve a montagem da matriz de produção da economia branca;  ela resignifica  as  águas que vão assumir, mormente na metade do século XIX, posição central no processo econômico que lidaria com a idéia de modernização, compra de vapor financiado pelo capital inglês. Depois, as águas assumem a nítida condição de mercadoria,  pois o processo fundamenta a sua ligação com a energia. Posteriormente, elas vão ser objeto das interferências do Poder Público através da idéia de mudança social deliberada e, finalmente, colocada na matriz salvacionista do nada; nada passa a ser um lugar por onde o rio deve satisfazer sua nova história de mercadoria.

Tem lido material interessante sobre o assunto?


Andei começando a querer estudar a questão e, procurando material para ler,  terminei encontrando algo interessante no fundo das coisas da Biblioteca da Secretaria de Planejamento. Trata-se  do resultado de uma sondagem de opinião pública que foi realizada no primeiro semestre de 2005 e cujos resultados, sem dúvida, ainda hoje seriam válidos. Foram ouvidas 494 pessoas em áreas urbanas e rurais vinculadas  ao baixo curso do rio em nosso Estado, mas nada impede de considerar que haveria posição semelhante em Sergipe, afinal de contas o baixo curso tem características homogêneas, não poderia ser considerado um mosaico. O resultado desta pesquisa fala sobre Alagoas e também sobre Sergipe.


Qual foi sua primeira sensação de leitura?

Li com interesse e fiz uma série de anotações. Entendob que os resultados deveriam ser urgentemente repassados para o grande público. Talvez ajudassem a sentir que a população tem algo efetivamente a dizer, que não são as audiências, somente, que trazem a possibilidade da opinião pública se manifestar. E quem sabe, elas podem inclusive esconder a posição de toda uma gente humilde que se espalha nas beiras do rio. Praticamente, todo ano passo uma semana dentro do rio, subindo e depois descendo, conversando com o povo, aprendendo e, sobretudo, ouvindo e vendo as crianças passarem carregando um futuro que tem muito da água e da sede que passam sobre o que fizerem com um rio.


Qual era a característica desta pesquisa?

A amostra do levantamento ou do survey (termo tão ligado à sociologia americana) levantou informações com 494 pessoas tanto da zona rural quanto da zona urbana que estava representando 52% do total. Em termos de gênero, 55% dos entrevistados eram mulheres. Há uma boa proporcionalidade entre os gêneros e também ocorre quanto à localização. É importante verificar como a amostra aponta para a incrível distorção na distribuição da renda regional.  Estamos diante de um rio cujas águas se transformaram em mercadoria acionada para a  riqueza e, na realidade, diante de um povo paupérrimo. Praticamente, a metade da população ganha até um salário mínimo (48%); até dois salários temos 78%. Isto se liga ao nível de escolaridade: 27% de analfabetos e 53% de primário incompleto.  Na verdade, portanto, tem-se na pesquisa uma manifestação - a presumir-se verdadeira - do conjunto da população, com igual possibilidade de expressão dos pobres. Não é uma expressão de confronto como se dá em audiências, passeatas e quejandos: é uma expressão em situação de mais calama, mais ponderação. Infelizmente, os dados não foram cruzados. O relatório é extremamente simples; não se pode comparar posições, mas o peso das escolhas é de tal forma significativo, que parece ter ocorrido homogeneidade. Homem e mulher, jovem e idoso, pobre e rico tendem a pen(s)ar da mesma forma quando se pede posições sobre a transposição do rio.

Qual um ponto vital que a pesquisa enfoca?

Inicialmente, é preciso considerar uma questão que poderia parecer o óbvio: a região não se pode conceber sem o rio. Ele é um elemento que está presente, portanto, na identidade de todo um conjunto da população. Sem rio há um vazio ou, se permite a licença poética, um va(r)io. Praticamente, 100% das pessoas afirmam a importância do rio em suas vidas e, portanto, é possível deduzir como  a transposição está deixando uma imensa expectativa no seio da população. Trata-se de uma população que vê, enfaticamente, piorando as condições de emprego e renda, pesca, meio ambiente. Chamados a ponderar passado e presente,  38% afirmaram que para a renda e emprego a situação não havia mudado e 43% que havia ficado pior. Emprego e renda são elementos que atingem a um largo espectro de informações sobre o processo social.

A transposição é um tema corrente?

A informação de que o governo pretende a transposição circula ao longo do rio. 95% dos entrevistados ouviram  falar da transposição e o grande meio foi a televisão, seguindo uma rede informal de relacionamento, composta por amigos, conhecidos e parentes: respectivamente 51% e 23%. Os meios de comunicação de massa, em conjunto, foram responsáveis por 74% da circulação da  informação.  As duas idéias gerais que foram fornecidas revelam que há uma base sobre a qual se raciocina: água, leito, desvio.  50% das pessoas que se consideraram informadas, definem  a transposição como levar a água do rio para outros locais, enquanto 12% falam em mudança do curso: desvio. É interessante notar que em torno de um terço não sabe definir o que ela significa. Pelo que sinto, jamais houve um trabalho conseqüente de informação e discussão. Vi barqueiro chorar, sem saber o que seria o futuro. Vi homem de oitenta anos, olhando velha foto de uma canoa de tolda com os olhos marejados. É triste.

A população acredita em políticas públicas?

Existe uma tendência que demonstra o modo como a população da área vem sendo tratada. Ela vem dividindo o espaço em categorias de espaço que operam na transposição com uma lógica  a que vou chamar de desespero; quanto maior for o benefício que tenha possibilidade de ocorrer, quanto mais  longe do local ele ocorrerá. Ninguém acha, por conseqüência, que o Estado beneficie o local na medida em que ele argumenta com a transposição; se  por acaso resultar algum benefício ele será improvável e acontecerá longe do local. Também entende a população que o prejuízo corre a ordem inversa: ocorrerá mais perto.  É o que acontece com a visão geral da transposição.  Para a amostra no total (composto por pessoas que sabem e que não sabem o que significa a transposição do rio), 52% acreditam que a área de sua cidade será prejudicada. Quando se trata dos que afirmam saber da transposição, cerca de 88% afirmam que o local  será prejudicado.

O que se delineia, portanto, para a população é um abalo no cotidiano local?

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Não é mole. Em torno de um quinto da população entende que na sua área, infalivelmente acontecerão prejuízos na linha do  cotidiano. Se os dados são verdadeiros, há um sentido plebiscitário nos resultados desta pesquisa. A pesca por exemplo é vista como  radicalmente ameaçada. Ela que já vinha deteriorada pelas transformações introduzidas no rio, agora é vista mais ameaçada ainda: praticamente a totalidade dos que dizem saber da transposição consideram que em seu local a pesca será mais prejudicada ainda. Nesta mesma linha, posiciona-se 70% com relação à agricultura, percentual aproximado (71%) do que se relaciona com emprego e renda. Quanto à navegação e transporte, 81% consideram o local prejudicado. De fato é de se perguntar se o Governo efetivamente ouviu a este povo. Na última viagem que fiz na área, o povo estava espantado com o que poderia acontecer; este foi um dos maiores desrespeitos que já observei em toda a minha vida. 

E a idéia de revitalização como correu na área?

A idéia da revitalização do rio não circulava na região da mesma forma que a da transposição; tanto é que 62% da amostra não ouviram falar desta proposição. Então, é possível pensar que a discussão jamais existiu no volume que merecia e que foi escamoteada. Os que disseram ter ouvido falar na transposição, abrem um verdadeiro leque para a elaboração de um grande processo de recuperação do rio. É interessante como o local ressurge com a revitalização. Com ela, a população encontra benefícios a serem lançados no cotidiano. 90% das pessoas que ouviram sobre a revitalização,  entendiam que o local seria beneficiado e que beneficiaria também os espaços mais abrangentes, como o Baixo São Francisco, o Estado de Alagoas e o Nordeste. É alta também a expressão de confiança na revitalização como alicerçando a pesca local e nos demais espaços. A mesma posição é assumida para com a agricultura e para o emprego e a renda. Taxativamente, o povo do Baixo São Francisco condena a transposição e defende a revitalização.

O que deveria acontecer?

O balanço dado nesta pesquisa sugere que se retome urgentemente a colocação do problema junto ao povo. O povo parece-me que efetivamente jamais foi ouvido. Houve muito barulho, fogo de artifício, mas a julgar pelos dados se realmente o povo fosse ouvido, não se teria uma posição de cúpula atingindo com "mão-de-ferro" toda uma região.  Talvez fosse melhor dizer que  houve tentativa de ouvir e daí a audiência, mas não houve o proposto de escutar e daí a sandice. O povo entende bem o que significa para seu cotidiano a diferença entre o transpor e revitalizar. Pelo menos é o que revela esta pesquisa. Os termos da questão não se modificaram; duvido que este quadro da opinião pública tenha se transformado neste quase um ano. O Governo Federal está absolutamente mesquinho e irreconhecível neste apagar a população para escrever um resultado.

E o que o senhor tem a dizer sobre o Canal do Sertão?

Pouco sei. Possivelmente, estarão construídos em torno de 25 km. Nada indica que obrigatoriamente terá continuidade. E, tendo, nada indica quando e como serão desenvolvidas  obra e suas consequências. Suponho que uma série de definições preliminares jamais foram tomadas.  É preciso que o Governo do Estado esclareça o que de fato quer com a obra. Para mim,  é preciso ter um cuidado imenso e o canal não ser o caso típico da culatra saindo pelo tiro; nem mesmo do tiro saindo pela culatra... Será mais uma composição do capital no campo que poderá desalojar, por exemplo, o pequeno proprietário? Até onde o Estado poderá ir com aportes capazes de neutralizar o poder que o capital terá?  Ou será que o Estado, deliberadamente, está pensando em favorecer o capital que poderá investir em irrigação, sob argumentos cansados como a formação de renda regional?  Passar água por um canal é uma coisa; dar destinação social à água que passa é outra completamente diferente.  Deveria ser aberta uma boa discussão publica; suponho que não seria bom que a discussão ficasse na esfera dita técnica, se é que ela está existindo. Infelizmente, o assunto não vem tendo evidência pública, como merecia ter. É preciso que a sociedade civil assuma o tema.  Melhor agora, do que depois quando Maria já terá ido com as outras.

[HISTÓRIA: MEMÓRIA: PEDAGOGIA: BICAS: MINAS GERAIS] Luiz Sávio de Almeida. Um grupo escolar e a pedagogia da opressão na década de 50 do século XX. A saga de uma professora









Amiga Eneida

Continuo minhas lembranças de Bicas e desta feita são pesadas. Exitei se deveria escrevê-las, mas lembrei-me de algo singular. Bicas não seria um campo isolado e deveria, neste particular da educação, repetir-se por este pais. Bom, quem sabe exagerei, quem sabe minimizei? Somente pode existir uma certeza: na certa lembrei-me.

Não poderia existir outra solução: os Almeidas deveriam sair do quarto, a família ter espaço. Meu pai deveria saber disto mais do que ninguém e conhecia o temperamento de minha mãe, que era uma leoa na defesa das crias. Minha mãe havia herdado o temperamento da velha Dondon, mulher destemida como se chamava no Nordeste, tendo chegado a andar com revolver na cintura quando foi necessário. Papai quando desejava falar grosso, usava de muito cuidado. Um dia ele se aborreceu comigo e falou ríspido. Minha mãe não gostou e a pergunta foi disparada de modo certeiro: O que você quer de nós? O que você quer desse menino? Trancado, sem nada a fazer? O velho caiu em si; murchou como se diz. 


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Depois desta praça, poucas vezes fui;  meu limte ficava  em uma reta imaginária que ía da alfaiataria do  Seu  Edgar,  à casa de um amigo talvez chamado Marcinho

E vai que finalmente a casa aparece. Era modesta, simples e até acanhada, mas dava para a gente e muito bem.  Uma varadinha, uma saleta que eu vejo perfeitamente neste momento. Ela servia de sala de visita e de jantar e era, também, onde eu estudava Os quartos pequenos, banheiro modesto, a cozinha e o quintal. Era branca com as portas e janelas no marrom.  O rádio ficava em cima de um móvel. Era o tempo da índia com os cabelos nos ombros caídos, era do tempo do primeiro amor que logo acabou e só a dor deixou neste peito meu...  Sucessos de Cascatinha e Inhana, o senhor Francisco dos Santos e Ana Eufrosina da Silva. 
Não me lembro da marca do rádio. O que vendemos em Penedo era um Zenith com olho mágico, ondas largas, médias e curtas. A rádio deveria ser de Juiz de Fora ou mesmo do Rio de Janeiro, que não era tão longe assim.  Além do mais, uma imensa antena passava por cima do telhado. Era nova e o dono era nosso vizinho, Seu Mário, que, se não me engano, era organizador de um anárquico bloco de carnaval chamado de Sapolândia.  A concentração era em sua casa. Depois, ele mudou e foi para uma rua no correr do Francisco Peres.

Não sei o nome da rua, ela era sem calçamento e a poeira corria com o vento.   Tenho a certeza de que havia uma boa área sem construção, pelo menos é o que se dava em frente à nossa casa. Não tínhamos vizinhos pela direita, pelo menos próximos.  Bem afastada, estava uma bela casa de uma senhora que parecia ser viúva e tinha dois filhos: um deles era Hugo e o outro era Roney. A casa ficava em um alto e tinha um belo e bem cuidado jardim.
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Para as dimensões que conservei na cabeça, a rua era muito comprida. Ela saia da margem do córrego e ia até à Cooperativa.  Muitas vezes, peguei um carro de boi que passava com o  leiteiro e fui  bater na Cooperativa.  Penso que se descia uma ladeira, onde eu costumava levar minha irmã para passear, a mando de minha mãe, pois a menina precisava tomar sol.  Ali era também onde eu soltava pipa;  não era uma área densamente povoada, casas salpicadas  em um espaço que tinha árvores, talvez mangueiras. A massa verde permaneceu na minha cabeça. 

Eu mesmo fazia as pipas em casa e a briga entre elas era engraçada; um pedaço de gilete no arco. É possível manobrar uma pipa e daí a necessidade de exatidão do cabresto e a proporcionalidade entre peso, forma e tamanho do rabo.  Eu achava que em Bicas havia um avanço na arte.  E era na manivela a que chamavam estrela. Muito mais inteligente,  inclusive pela impossibilidade da linha embolar-se facilmente. A única coisa a discutir, era o atrito que a linha recebia por passar em uma guia de arame. Um pequeno amassado, sem dúvida, provocava o aparecimento de um ângulo. Não sei se ainda fazem aquele inteligente apetrecho em Bicas: um retângulo ao qual se prende internamente um carretel e sofre a ação de uma manivela no momento de  recolher a linha que foi solta.

O caminho regular para minha casa era pegar o oitão do Grupo, seguir em uma reta e tomar a  esquerda. No fundo do quarteirão do grupo tinha uma bodega ou quitanda como se dizia em Bicas. Era muito pobre e quase nada a vender.   Do que viveria aquele pessoal? Dez réis de banana vendida? Em frente à quitanda que se localizava na esquina, a casa em cima de uma colina.

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Se é o Grupo, então...


Na lateral do Grupo, uma pequena casa amarela ficava do outro lado da rua. Um muro baixo, e um pequeno portão. Lembro muito bem, pois havia um aquário e o rapaz que morava lá, era considerado um dos melhores jogadores de sinuca de Bicas. Eu o vi jogando no salão, onde, vez em quando eu peruava. Havia uma platéia grande e em silêncio. Eu ouvia dizer que a aposta era alta. Ficou na minha cabeça, que ele era irmão de uma moça chamada Inês. O aquário ficava perto da janela e deve ter influenciado a minha mania de criar peixe. Parece que a casa era mais baixa do que o nível da rua e realmente não me lembro de qualquer outra construção no seu correr.  Era o Grupo de um lado e um semi-vazio do outro? Acho que sim.

A rua era boa para soltar canoa de papel, quando chovia.  Eu colocava lá perto do Grupo e ficava acompanhando a descida, sinal  evidente de que em algum ponto se teria uma grota, e ela estava por onde eu soltava pipa.  No mais das vezes, o navio era um pequeno pedaço de pau, um graveto que o imaginário transformava em potente embarcação. Do lado do Grupo,  mas dando para a rua de frente, havia uma oficina que concertava bicicleta, e que alugava por hora. Eu era um cliente constante. Na minha geografia sentimental de Bicas, aquele trecho fala muito, até pelo fato de ser um anúncio de chegar em casa e de chegar na escola, um local onde tive grandes das piores experiências de minha vida, nas mãos de uma professora. 

Ela devia ter uns vinte e cinco potes de raiva guardados em casa. Aquela imagem  de uma educação passional permaneceu,  e possivelmente fez com que, bem depois, eu assumisse uma educação diferente, tendo trabalhado em grandes experiências como a do Movimento de Educação de Base e Paulo Freire lá no Rio Grande do Norte. Esqueci  o nome dela. Foi o contrário de uma parenta da Dona Manu, chamada Talma (?), Telma (?).  Ela foi legal, compreensiva, incentivadora. Aquela outra poderia me ter destruído, pelas vergonhas públicas que me fez passar. Eu conheci de perto o que a sala de aula pode representar como local de repressão. Por conta disso, sem dúvida, sempre me agradou o tom anárquico do Ivan Illicht que, aliás, caiu de moda, deixou de ser lido. Parece que era jesuíta e, se foi, era um jesuíta muito do esquisito.

A gente formava, fazia fila e entrava na sala de aula marchando e cantando hinos patrióticos, solenidade que  imagino derivava de um resultado estadonovista.  Estudantes do Brasil sua lição é a maior... Avante camaradas... Qual cisne Branco... Já podeis da Pátria  filhos... Recebe o afeto que se encerra...  E por aí segue e acho mesmo que ainda utilizei o velho caderno Avante e, também, o lápis Faber e a pasta, pois não se usava mochila. Não era gente da alta que estudava comigo. Eu me lembro bem de uma menina que minhas lembranças batizaram como Luíza.  

Fomos uma vez estudar em sua casa, o pai deveria ser ferroviário, morava na beira da linha e na minha cabeça ficou que era de madeira. Casa muito pobre, mas havia um verdadeiro orgulho na mãe que tudo fez para acomodar  no melhor de sua mesa, no melhor de suas cadeiras,  três ou quatro de nós,, tudo limpo.  Pobre é sempre assim:  acha que a limpeza supre a evidência das faltas, da carência. Talvez por isso que minha mãe fosse tão esmerada dona de casa; ela era filha da Dondon, a pobre costureira e mulher do velho Fausto que nunca teve sorte em nada.
Minha mãe, até mesmo vendou  jogo de bicho para ganhar um dinheirinho.  E tanto era a marca de pobre que ao sabê-la namorando meu pai, a minha avó a chamou e disse: “Mas minha filha, você vai casar com um homem mais pobre do que você?”.  Pois casaram na Matriz de Nossa Senhora da Conceição na Capela, onde fui batizado. Tiveram cinco filhos e três morreram, restando uma  que é médica no Recife e este que vos escreve. E viva meu pai, e viva a minha mãe! E viva meus irmãos que estão defuntos e dos quais sinto imensa falta, mesmo não tendo convivido com dois deles.


Este modernoso desvirtua minhas lembranças.  Reputo como uma péssima solução arquitetônica.  Isto aqui era belíssimo. Andei muito pelo oitão da Prefeitura, subindo para casa que ficava frente ao Forum. Nossa segunda casa. A Bicas que eu vivi jamais poderia ser tão feia. Era linda. A Preça nos fundos da Prefeitura, tinha velhas árvores a darem sombra e eu gistava de subir nelas.

Mas voltando à Bicas, o Grupo não era muito grande.  Sei lá, uns 80 metros de fundo. Penso que a gente entrava, passava por um saguão por onde ficava, inclusive, a secretaria, adentrava por uma porta, havia um corredor e as salas que eram poucas, a meu lembrar eram  em torno de cinco a seis. A minha era do lado esquerdo, do lado que dava para a casa do aquário.  Acho que havia um desnível e se descia por uma escada para ter-se acesso ao pátio acanhado, onde ficava, também, um galpão. Na parte de cima e em um canto, ficava o local fatídico da merenda, uma gororoba de pífia categoria.

Era uma sala lotada de crianças, espremidas. Eu me sentava na frente, encostado numa parede e com a cadeira em posição diferente das demais da sala.  Eu estou vendo a professora e seu rosto ficou-me tremendamente feio; ela estava com  meu texto e eu havia cometido um mero engano. Ela pega o pedaço de papel, balança na frente de todo mundo, olha para mim e com um sorriso debochado grita “Nacioná!”. Eu havia simplesmente esquecido o l no final.  Mas ela balançava o papel com uma ira, que não poderia ser normal.  E gritou: “Só pode ser coisa de nordestino! Vá se sentar lá atrás agora! Não pode ficar aqui na frente!”. 


Aqui ficava cheio de carroças e camionetas

                                                                                                                                
Eu me levantei e calado fui. Eu não disse nada e quem sabe me curvei à opressão. Eu não tinha ideia do que era nordestino, mas se eu merecia uma reprimenda daquele tipo, era simples: nordestino não prestava e, por conseqüência, eu não prestava. Saí de cabeça baixa, os meninos se afastaram e eu fui para o meu primeiro lugar social indicado pela repressão. Terminada a aula, curiosamente, ninguém mexeu comigo. Peguei a direção de casa; era coisa de meio dia, panela no fogo e barriga vazia, como a minha mãe brincava. Ela notou que alguma coisa havia acontecido. 
Eu disse que não  iria mais para a escola e chorei. Ela me perguntou a razão. Contei. Minha mãe não disse nada, apenas me puxou para o colo. Fui para o quintal. Com pouco chega meu pai.  Conversam. Ele vem, passa a mão na minha cabeça e não diz nada. Á tarde, eu não peguei nos livros para estudar, fazer o dever.  Minha mãe me chama. Diz que ela e papai estão tristes, mas  que eu deveria superar aquilo tudo.

Segundo minha mãe, era uma lição que eu recebia da professora, muito mais importante do que as aulas que ministrava.  Ela havia me ensinado que existiam pessoas assim e que eu iria lidar com este tipo de gente durante toda minha vida. E me pedia para não desistir, que fosse enfrentar;  se eu desistisse, ela venceria. O carinho de minha mãe foi o que me deu segurança. Eu aprendo a lição. Detesto, ainda hoje, todo comportamento opressor. 
Mas ela continuou. Ela tinha muito pote guardado em casa, o seu estoque era uma coisa impressionante.   Não venceu; pelo contrário. Construiu a minha inclinação natural contra a escola como o lugar privilegiado da educação e isto me fez realizar-me em formas como o Movimento de Educação de Base, o Movimento Paulo Freira, de Pé no Chão também se aprende a ler e mesmo a forma como trato meus alunos que eram do bacharelado e trato os do Mestrado  Dinâmica do Espaço Habitado. Ela me serviu para estabelecer a diferença. 

Outra feita foi na merenda. Sempre me acostumei a andar com uma merendeira. Minha mãe preparava.  E eu levava. Um dia, sem qualquer razão, ela perdeu a compostura na frente dos outros e na sala da merenda. Gritou dizendo que aquilo era um absurdo, que era coisa de rico,  que eu tinha que comer igual aos pobres. Talvez ela tivesse razão na proposição e não na forma. Os outros comiam o mingau sem olhar. Novamente aquilo bateu em mim, mas segundo Maria José de Almeida, eu tinha que aprender a lidar com este povo.  Disse em casa. Desta feita, Maria José de Almeida já estava pelos lados de Bagdá e disse: “Acho que é preciso ter uma conversa com essa mulher!”. 

Nordestino sabe o peso desta expressão. Ter uma conversa é algo muito sério, é para resolver a questão.  E não  adianta ir e não resolver. Naquela época, o comportamento social de um gerente do Banco do Brasil tinha que ser exemplar. Ele não podia dar vexame público. Meu pai me ensinou muita coisa.  Eram estratégias de sobrevivência. Nunca acosse demais um rato; ele não terá alternativa e voará em você. Se você que matar uma cobra, arranque a cabeça. E por aí seguia  o rol  de estratégias aprendidas com gerações nordestinas. O anúncio de uma possível conversa era uma coisa meio forte. Passa tempo, parece que todo mês uma sala se apresentava no intervalo, lá no galpão coberto. Fui escalado para dizer uma poesia.  Ela reclama tanto que eu esqueci e foi outro vexame. Eu não disse mais nada em casa. Mas a coisa pega. 

Como sempre, aluguei uma bicicleta. Havia chovido, a rua de barro estava cheia de poças. Uma delas era funda.  Eu andava com as mãos soltas e os pés no quadro. Embalava e dava o espetáculo. Tinha uma menina e fui me mostrar. Bati numa pedra, caí feio. A bicicleta sobe e cai sobre meu fígado. Uma pancada sem tamanho.  Não sei se disso ou de alguma contaminação, eu tive uma hepatite e fico todo inchado.  Imagine uma doença grave em Bicas àquela época. Foi coisa pesada e praticamente devo a vida a um médico que existia, chamado Dr. Milton, acho que casado com uma senhora cujo nome era Maria Baião,  diretora do Ginásio e uma mulher por quem guardo imensa simpatia e respeito.  

Falavam dela, diziam que era metida a coisa, chata, ríspida. Nada disso, um doce de pessoa que tinha todo o direito de não andar rindo a toa.  Eu gostava demais dela, inclusive a sua gentileza era imensa com os amigos do filho.  Frequentei  a sua casa, perto da telefônica,  pois era amigo do seu filho que se chamava Miltinho.  Ela era uma pessoa delicadíssima e agüentava uma tropa a brincar,  inclusive a jogar futebol sem parar, nas peladas  diárias que chegavam a perto das seis da tarde.  Se o Miltinho for vivo – e espero que sim –,  não deve se lembrar de mim.  Mas fomos bons amigos, andamos muito juntos. Era gente muito fina. A última imagem que guardo dele é de uma noite friorenta em Bicas; nós dois descíamos a ladeira das vizinhanças de sua casa e íamos ao cinema. Nós nos afastamos quando ele foi estudar no Granbery em Juiz de Fora e eu saí de Bicas. Ele e o mais das gentes não  devem  se lembrar de mim,  pois fui episódico. Eu sumi da convivência e seria difícil ser mantido na lembrança.  

Eu fiquei inchado mesmo, deitado numa cama, sem me movimentar.  Dr. Milton cuidou e fiquei bom, mas me liberou cuidadosamente e fui depois de mês, recuperando devagar a rotina da vida. A instrução era que ficasse sem me movimentar no recreio. E a dita cuja encrencou, dizendo que eu deveria sair. Aí, a coisa não ficou boa. Meu pai  disse: “Eu vou sair para ter uma conversa!”.  O nordestino de antigamente sabe perfeitamente o que isto quer dizer. Minha mãe pediu e ele não foi. Mas por milagre tudo cessou. Ela até me chamou para cantar na festa de nossa formatura. Foi no cinema, mas isto é outra história.

Na próxima vez, eu vou falar da melhor pessoa em Bicas para mim, uma das poucas  que fiz questão de me despedir quando saí. Um homem extraordinário e a quem, ainda hoje,  guardo no coração. Penso que era Dr. Bianco.  Era Vicente Bianco; homem decente e bom. Fui lá me despedir com os olhos cheios d’água. Sentamos na varandinha da casa, onde vez em quando  conversávamos. Era como se fosse a substituição de um avô. Eu tinha um respeito imenso.