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quinta-feira, 20 de junho de 2013

Memória do Rio de São Francisco, 1879] ROMARIZ, Antônio. . Scenas Rio de São Francisco



O velho Rio São Francisco

Luiz Sávio de Almeida





         

            Não há como negar o fascínio que o Rio São Francisco carrega com suas águas.  e não são poucas as horas, as tintas, os escritos que foram dedicados a ele.  Eu estava  pesquisando um antigo jornal que circulava em Alagoas, século XIX, e me deparei com uma crônica extremamente sensível  e escrita sobre ele. Era de autoria de Antônio Romariz. Achei interessante o modo poético como trazia o rio e seus costumes e então resolvi partilhar.O Orbe foi um jornal que começou a circular em Alagoas, no ano de 1879. Saía segunda, quarta e sexta, sendo propriedade de José  Leocádio Ferreira Soares, tendo sua redação situada na Rua da Boa Vista, 55, sendo impresso na Typographia Mercantil, que deveria sr do mesmo proprietário, pois ela tinha sede no mesmo número da antiga Boa Vista..
      Quem ama o Rio São Francisco, irá sentir-se em casa ao palmilhar o texto.
                                                                              http://www.joaodesousalima.com

Scenas  Rio de São Francisco

Antônio Romariz


 ( Ao Sr. Guido Duarte )

O Orbe. Maceió. 23 mar. 1879.

Opara— chamavam os aborígenes ao rio Francisco.

É um rio magestoso o meu pátrio rio

Quem nâo o conhece, ao menos, pela voz da fama?

A natureza deu-lhe um lugar distincto entre os systemas hydrographicos do ímperio.

A portentosa cachoeira de Paulo Affonso é o ponto luminoso, para onde convergém as vistas de toda a Europa.
Magestoso rio !

Mollemente  espreguiçado sobre o seu leito de areias, estende os braços o gigante do norte, e num estremoso abraço, a' dormece, soluçando beijos de espumas nos braços das cinco provincias que banha. São as suas bellas amantes. Quando a lua cheia derrama sobre a terra as suas amphoças de luz, o rio adormece, corno o somnambulo pela força de vontade do magnetisador; uma boia de prata fluctua nas águas: é a lua que dorme a estremecer no espelho liquido.


O silencio vagueia nos nos ares, no rio e no lago, no prado e no monte; apenas quebrado pelo chorar da mareia nas ribas, pelo cahir das folhas seccas sobre as pedras dos morros, pelo chiar e rangir da voga ou da zinga da canoa, que sobe a corrente, pela cantiga do sertanejo, repassada de  ternura, ungida de melodia, vaga como o pensamento do cantor, que a concebeu; porque muitas vezes o homem
dos sertoes, o cantor d'essas trovas tão nacionaes é  um poeta, rude, é verdade, mas original. A natureza é a sua amante a naturalidade, a sua arte. E, no meio de tudo isso, o cahir das   folhas e a voz do sertanejo despertam os eccos dormentes das serras, nas quebradas.

          De espaço a espaço, as araras gargalham nos morros sobre os ramos dos angicos ou dos mandacarús; a siriema solla uma escala chromatica, tão afinada, do grave ao agudissimo e viceversa, que dir-se-hia uma clarinella tocada por musico exímio.

         
Aquellas serras sào como que exercitos enfileirados, que lhe fazem continência  e lhe velam o dormir.

          Mais abaixo, sobre um penedo, a rainha daquellas águas mira-se enamorada nos chrystaes do rio. E' a noiva d'aquelle sultão que deita a fronte nas Canastras e lava os pés no mar.

          Corramos agora uma cortina sobre esses brilhos da lua.

É uma noite sem estrelas.

O  mar, do sua trompa oceânica  tira sons roucos, como as tempestades o que veem com os ventos tos das procellas morrer-nos aos ouvidos, sete léguas acima da foz, ou antes, expirar no regaço da  rainha daquellas aguas.

Uma toalha negra cobre a superfície do rio.

Para as bandas do sertão, montanhas de nuvens cobrem os ceos, negras, como os demônios da tradiccão.

De quando em vez, uma estrellinha espia por entre uma fresta de nuvem, e dá um beijo de luz no rio que se agita.
O relâmpago abre-se, o ronquejar do trovão rola e rola e uma lingueta de fogo,  tortuosa lambe as negridões.

É o raio que brinca.

O S. Francisco reflete essas imagens com uma fidelidade artislica.

Imagine o leitor uma immensa chapa de prata polida, no
meio das trevas, e allumiada por um incêndio de pólvora, e terá o relâmpago no S. Francisco.

O vento cresce de forca; o rio cava-se; a chuva cahe a
principio do peneira; engrossa-se, e chia sobre os telhados, as calçadas das ruas e sobre o rio e o trovão ribomba: é a harmonia espantosa da trovoada,

Ao fusilar dos relâmpagos, desenham-se as  formas fantásticas, enormes, negras, como a noite mesma: são os morros o as serras d'alem.

No dia seguinte, as  negruras e aos furores da noite sucedem os brilos de um ceo azul, franjado de brancas nuvens e dourado por um sol mais claro. 

As enxurradas passam descendo  as ruas da cidade heroica de uma extremidade á outra, como cachoeiras taes, que impedem o transito publico. 

As trovoadàS são a origem das enchentes. 

O Pajeú e o Moxotó, dois tributários do S. Francisco, recebendo as copiosas águas dos céus, engrossam-se, e as despejam aos pés .do grande senhor,  que principia a entumecer-se.

Depois: as chuvas sempre  a crescer o rio sempre a engrossar,  arrojam-se às suas águas sobre a grande penedia da cachoeira; esta por sua vez salta como um rebanho de alvíssimos liões sobre o grande abismo do baixo S. Francisco e causando, segundo [...] um estrondo que [...] muitas léguas, faz levantar uma nuvem de vapores, tão espessa, que assemelha-se a rolos de fumaça de um grande incêndio. 


Então, o rio rompe as ribanceiras, pula o álveo, e inunda os campos. 

Então, Penedo está com as ruas baixas todas alagadas.

As canoas servem de gondolas venezianas.

Os terrenos adjacentes são um lago-mar!

Agora o prazer das regatas. 

    Escaleres, canoas, jangadas, com as velas pandas, e ornadas de bandeírolas de diversas cores, levam músicos, homens, mulheres...

E partem. Os vivas, os foguetes, a grita de alegria vêm morrer aos ouvidos dos espectadores das margens.

São ãs regatas.

Mais tarde, o prazer para muítos converte-se em desgostos em molestias.

O rio vasou. As sezões, chamadas, tomam o seu lugar... Homem; palidos, mulheres descoradas; a moléstia não escolhe; faz-lhes pagar os banhos nas ruas em noites de luar. . .

Bello espectaculo na verdade o do S. Francisco transbordado I

     Quando se poderá contar com o auxilio do paiz para o impedimento das águas dentro da cidade?

E' interesse publico; será preciso que amadureçam séculos?

O sol entrou em capricórnio. O céu é de fogo, o ar é de fogo, o rio está como que incendiado. A Tabanga, em frente á vila do Traipu, assemelha-se a uma enorme baleia á flor d'agua e aí o calor é abafador.

O rio tem  faíscas electricas á vista.

O sol reclina-se sobre as ^montanhas da margem direita em frente á cidade  heróica, dizendo o ultimo adeus ás águas, aos montes e a cidade.  O rio tem sobre si uma toalha de pedras. O céu iria-se; as nuvens franjadas d’ouro e escarlate vão passando em  caravanas para  o sertão; bandos de aves selvagens descem o rio e somem-se para o mar.


O sol escondeu-se.  A claridade do sol sucede  a claridade da lua. Os ventos suspiram trazendo das vagas [...]

quinta-feira, 8 de novembro de 2012

[Memória] Luiz Sávio de Almeida. A redação: vício maravilhoso


O Jornal. Maceió. 06.11.2012. p. 6


A redação: vício maravilhoso

 

 

 

Luiz Sávio de Almeida

 

 

 


                Volto a escrever para jornal; para mim, é difícil viver fora de uma redação, mesmo que indiretamente. Foi em jornal que comecei a escrever, convivendo com bons companheiros como Arlindo, Marcos Guerra, Manoel Chaparro e tantos outros nas instalações de A Ordem, em Natal, Rio Grande do Norte, enfiadas no prédio que viria a ser a nova catedral da Arquidiocese.  Contudo, trabalhei mesmo em um pequeno jornal e que apurou a minha forma de escrever. Trata-se de Vida Rural, editado pelo Serviço de Assistência Rural, também em Natal e ligado à Igreja. Além do mais, fui redator da Emissora de Educação Rural, com noticiários voltados ao homem do campo.
No mais, também para o campo, escrevi o que se chamava de rádio-teatro e tive a companhia de Nazira Vargas e Socorro Santos; atualmente, a primeira é antropóloga e a segunda médica. Arlindo continua jornalista, Marcos é advogado, Chaparro é professor de jornalismo na USP. Acho que o jeito de escrever ficou pronto naquele tempo, depois que tive a coragem de publicar dois folhetos de feira. Um deles, por acaso, encontrei em um site sobre a esquerda católica e o outro se escafedeu. O primeiro foi uma encomenda de D. Eugênio Sales para uma campanha de consciência no voto e trabalhou um bordão da CNBB: “Voto não se vende, consciência não se compra”.  O segundo escrevi com um compadre meu, infelizmente morto. Era um cantador de viola: Chico Traíra. O título era A fachada do gigante ou as dores do Brasil, vendido por ele e por mim nas feiras do interior do Rio Grande do Norte. O apurado se transformava em carne de bode, cachaça  e cerveja.
Posso dizer que fui criado, intelectualmente, entre redações de rádio e jornal. E não posso deixar de reconhecer que foi uma época maravilhosa, talvez a melhor pelo que se juntava de boemia e camaradagem. Minhas redações sempre foram angélicas; não me lembro de problema e nem de algum cavalheiro do mal. Nenhuma encrenca; apenas o dissabor do suicídio de um grande e bom amigo, mas ele já estava em São Paulo, trabalhando na Editora Abril. Isso sem falar no desmanche de 1964.
Aqui em Maceió, colaborei com O Semeador, o jornal do Freitas Neto, o Jornal de Hoje, Correio de Maceió, Jornal de Alagoas, Gazeta de Alagoas e outros, mas meu envolvimento mesmo foi com O Jornal e Tribuna Independente, dois projetos que falam, sobretudo, para o futuro. Foi aqui onde nasceu Espaço, uma experiência de encontro com a imensa massa de matrícula universitária existente atualmente em Alagoas. Espaço gerou livro, citações.  Seus temas formam um denso painel sobre Alagoas e muitos nomes novos foram mostrados ao público leitor.
É a fenomenal atração pela redação, que me carrega para este novo encontro que espero seja fértil, bom, humano. É um diálogo diferente, mas interessante, pelo menos para mim. Dá uma ideia de disciplina, saber que toda terça tenho a obrigação do texto, mas maravilhoso mesmo é o cheiro da redação que passo a revisitar.

domingo, 27 de maio de 2012

[Urbanização: Memória: Penedo] Luiz Sávio de. A Penha em Penedo: uma rua em preto e branco e suas janelas coloridas




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ALMEIDA, Luiz Sávio de. A Penha em Penedo: uma rua em preto e branco e suas janelas coloridas. Tribuna Independente. Maceió, 22 abr. 2012. Contexto.
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Um pequeno bilhete sobre uma Rua em Penedo

       Estamos desenvolvendo um trabalho de documentação sobre Penedo e nosso destaque é a memória da Rua da Penha. Sem dúvida, é um trabalho que passa por nossa vida pessoal, desde que fomos criança naquele pedaço da cidade. Contexto presta hoje, uma homenagem à cidade de Penedo e convida para esta espécie de crisma da Rua da Penha, este ente maravilhoso do urbano penedense.
      Este trabalho, graças ao Professor Sérgio Onofre, teve condições de se desenvolver com a participação de duas alunas de turismo da Universidade Federal de Alagoas, campus daquela cidade: Laissa Maria da Silva e Francismara Costa Torres.  Ambas são a coluna mestra de nossa edição e merecem o nosso reconhecimento e o nosso elogio pelo modo sério como encararam este grande exercício de evocação que anda na fronteira entre uma etnografia urbana visual e a imagem como relação histórica e estimulante da evocação. Este número bem poderia chamar-se Rua da Penha: evocação nº 1.

Sávio de Almeida



Laise Maria da Silva: estudante de turismo da UFAL  no campus de Penedo e Coordenadora Estudantil de nosso Projeto. Parte do material fotográfico publicado é de sua autoria. Vice-Coordenadora do Projeto Piassabuçu







Francismara Costa Torres. Coordenadora do Projeto  Memória de  Piassabuçu. Estudante de Turismo da UFAL, campus de Penedo.  Coordenadora Adjunta do nosso projeto em Penedo. Parte das fotos publicadas é de sua autoria. 



A Penha em Penedo: uma rua em preto e branco e suas janelas coloridas

Luiz Sávio de Almeida






Os começos da Rua da Penha


       O que seria uma rua? O que estaria significando? Difícil conseguir uma forma de juntar todas as possibilidades que a palavra abre, com vistas ao enfoque a dar ao texto e às experiências vividas.  Temos a rua como artéria, mas temos e densamente, a rua como vida e experiência coletiva.  Em nosso caso, interessa uma rua que é componente da articulação do território da cidade e que integra parte de suas áreas centrais baixas e altas.  Aliás, diga-se de passagem, é pela Rua da Penha que circulam, também, os que saem de Penedo em direção a norte e ramificações a oeste e leste. A Rua da Penha é um tronco.

A rua e nosso lugar

Adentrando a Rua da Penha






Desde que me entendo de gente, que a rua é uma subida e a descida sempre foi pelas Rosário estreita, a que vai desembocar no largo antes da Catedral. Isto é sinal que a cidade de Penedo é montada em partes altas e baixas. O Cajueiro Grande, de rua larga, possibilitava ser mão dupla e o trânsito pesado vindo do ou para o rio bifurca-se na praça do coreto. A Rua da Penha é uma linha que acompanha uma colina, rua plantada em corte e guardando correspondência ao Rosário Estreito e a intimidade entre ambas é testemunhada pela declividade do Beco da Preguiça, ele mesmo uma ladeira.  A rua começa no oitão do Gabino Besouro e vai até a Praça, mas, na minha geografia urbana de Penedo, ela entra sem cerimônia pela Praça e para na altura do Colégio das Freiras, onde sempre demarquei o início do Cajueiro Grande.


Área da Casa do Penedo

Eu morei quase defronte do Beco da Preguiça; entre ele e a casa dos meus pais, ficavam a bodega do Seu Cazuza e a casa do Dr. Agnelo; na verdade, era somente atravessar a rua e já estaríamos no Beco da Preguiça; na minha contagem, morávamos no terceiro quarteirão, contando após a subida acentuada da ladeira em frente ao Ginásio Diocesano que o povo chamava, não sei a razão, de Jegue Doido, na magia de transformar o gê em ji. Vindo da parte baixa, a rua seria alimentada pelo trânsito pesado que passasse pela frente do Jegue Doido, subisse a ladeira à esquerda – não tinha como ir direto – e dobrasse à direita, na entrada ao lado do Gabino Besouro; poderia vir pelo ramo do Convento, mas seria trânsito leve de carro de passeio, como ainda hoje se dá. 

O encontro com o Beco da Preguiça

Cada casa é um caso



O tempo mudou a Rua da Penha; o belo sobrado em frente à Igreja caiu; algumas fachadas sentem o peso do desgaste do tempo, mas ela, seja como for, sempre teve o poder de evocar, de ser uma evocação.  Em que reside e se funda este poder, a não ser na possibilidade das lembranças sobre ela e por via delas, a rua torna-se repartida, comungada pelos que vivem e viveram seu mundo. Na Rua da Penha existem atualidades, desatualidades e transições. A rua pressupõe algum tipo de comunhão sobre o passado e é uma comunhão sobre a diversidade de vidas e soluções. Deste modo, nenhuma casa repetiria a outra ou, em outras palavras, em cada casa uma história ou cada casa é um caso e, como sabemos, cada caso é um caso de tal modo que evocar, no caso, exige a filigrana das particularizações.

       A diversidade de vidas na rua a transforma em um mosaico do que se costuma chamar de destino, situações individuais de vidas, numa série de imponderáveis que obrigatoriamente irão fazendo sentido no fracionamento e algumas vezes no conjunto.  E quanto mais a vida passa pela rua, quanto mais vidas vão se formando, equacionando, propondo.  Jamais nós poderíamos pensar que um casarão cheio de troféus do Santa Cruz fosse um dia transformado em restaurante, que uma casa seria transformada em centro de memória e nem mesmo jamais poderia pensar, quando morávamos na Rua da Penha,  que iríamos buscar-nos nela e ela teria o que nos responder.  A rua seria cativa da memória? Esta é uma pergunta que martela as fotografias que foram produzidas nesta andada pela fronteira entre uma etnografia urbana visual e a imagem como relação histórica. Também se trata de uma andada entre uma relação pessoal e o produzido por terceiro, de tal modo que o individual entra pela descaracterização das cores e pelos cortes, a evocação necessitando do toque de quem evoca no aprofundamento da relação entre o sujeito e sua história.

Chegando na  Praça

As famílias e os casos

A Rua da Penha demanda unidades de habitação e nelas, via de regra, estão as famílias. A casa tem uma história, a família também e ambas são um conjunto definido. São muitas as vidas que passam em uma casa, e muitas as casas que fazem uma rua. As histórias das casas e das famílias podem se cruzar de modo intenso, ou apenas superficialmente no conjunto dos seus membros ou na particularidade de alguns. Mormente quando as amizades eram traçadas com os pais de família, tinha-se muito mais do que apenas a vizinhança; haveria o vizinho, mas haveria, também, o amigo das famílias. Por via dos meus pais, a grande ligação na Rua da Penha foi com Seu Pontes e Dona Virgínia; a ramificação secundária foi com o Dr. Agnelo e Dona Ida.  Um era o vizinho do lado direito e, por sua vez, vizinho da Bodega do Seu Cazuza: este era o Dr. Agnelo cujo consultório funcionava  na sala da frente de sua residência. O vizinho da frente era Seu Pontes e morava na casa que antes fora da Dona América que, ao enviuvar, foi morar mais abaixo com  seus pais.

O senso da evocação


O engraçado é que o nome Penha me faz interligá-la a Luiz Gonzaga e à Igreja da Penha no Rio de Janeiro. Sempre dou este salto de Penedo para o Rio de Janeiro e lembro a virada de carro que Luiz Gonzaga sofreu, merecendo um baião composto parece que por seu irmão Zé Gonzaga: “Luiz Gonzaga não morreu, nem a sanfona dele desapareceu, seu automóvel na virada se quebrou, o zabumba se amassou, mas o Gonzaga não morreu”. Disso veio o agradecimento de Luiz Gonzaga em outro baião: “Demonstrando a minha fé, vou subir a Penha a pé, pra fazer minha oração...”. Ligo dois elementos importantíssimos em minha formação: Penha e Luiz Gonzaga.
 O sanfoneiro foi à Penha para demonstrar a sua fé; eu vou à Penha para me encontrar no velho calçamento, um imenso sabor de minha experiência como alagoano, numa espécie de referência teórica de que identidade é uma construção por via de experiências vividas: identidade é uma vivência. Na minha arqueologia pessoal, juntam-se calçamento e Luiz Gonzaga no grande abrigo de vida que é a rua. É que tudo evoca.  Estou dentro de uma arte que foi dominada por Nelson Ferreira em dois de seus frevos magistrais, justamente chamados de Evocação 1 e 2. Nelson Ferreira sai chamando pelos nomes: Felinto, Pedro Salgado, Guilherme, Fenelon... Individualiza para perguntar sobre os blocos famosos. Os nomes naquele senso imenso de carnaval estão ligados a blocos. Todos os nomes de minha Rua da Penha estão ligados a uma determinada situação, a uma determinada condição.

Evocar... Quem sabe todos estes nomes que surgem são infinitamente postos na história de uma rua, que, na verdade, em parte era o resultado de um caminho, de uma saída da cidade que se formava. Cada nome chama o que se recorda, e a rua passa a ter uma vida espalhada e todo um imaginário se trança por uma lógica que aquele que evoca nem mesmo conhece e nem percebe. Há todo um imaginário da Rua da Penha que se dilui no tempo, como se as representações que se decorrem fossem determinadas pela coletivização de um tempo que depois vai ser evocação.  É que seguindo mais de perto a discussão de Doise ou talvez a ampliando, na ordem das representações, o tempo é o elemento fundamental.  A rede que se estabelece numa rua, tende a ser efêmera enquanto representação e permanente enquanto evocação. É por isso, que a linguagem popular cria uma fórmula genial para desatar este nó teórico que nosso texto vai dando: No meu tempo...!  Os tempos então se confundem: o tempo da rua será o tempo que era nosso e, interessante, por este trabalho tenho a noção de que continua sendo.

A rua é uma rede, como qualquer outra, ou seja, um modo específico de relações e, neste sentido, tudo da rua é um relativo a tudo na rua.  Como se nota, há uma matriz que se apropria ao chamá-la de minha rua, algo bem mais forte do que a rua em que moro. Quando o tempo a destaca de mim, quando os entrelaçamentos ficam vazios da experiência atual, quando ela se torna uma evocação ela assume uma condição específica na linha da memória. Toda rua tem seus Felintos; é por isso que sempre foi belíssima a pergunta cheia de homenagens feita por Nelson Ferreira: “Cadê Mário Mello?”. A experiência atual se acaba quando o poeta diz: “Partiu para a eternidade!”. A eternidade que pode ser evocada. Depois, o poeta frevístico traz a resultante da evocação ou o que vamos chamar processo de evocacionalização na fórmula do lá vem Mário. Mário Mello foi encontrado, assim como encontro a Rua da Penha, numa das formas de sua vida.



Cadê a Rua da Penha? O que existe de permanente na rua enquanto ela existir é a própria rua, e ela é um composto pelo tempo; quando vou à Rua da Penha, vou a uma história e viabilizo a mim mesmo nesta história.  Neste passo, eu sou também a alma da rua, elemento com o qual João do Rio teve um belíssimo encontro. A rua certamente tem alma e a rua é um universo de memória. É esta mistura de arrazoado teórico e evocação, que me levou a querer documentar sistematicamente a Rua da Penha, aquela rua suave, apesar de ser uma artéria de denso tráfico, uniformemente plasmada em renda, se bem, que se diferencie de padrão nas cercanias da pobre igreja, cujo teto me fascinava nos tempos de menino, com a santa nos olhando na missa, estivéssemos onde estivéssemos.
Neste ponto, vejo-me diante de uma categoria que Graciliano Ramos ressaltou: o sentir. Ele escrevia ao poder sentir. Isso é parte da minha fascinação pela Rua da Penha: eu consigo efetivamente senti-la. O sentir dava longo curso à escrita do Graciliano Ramos; desejo apenas comparar o sentir, pois qualquer outra seria descabida. Eu evoco a Rua da Penha por poder senti-la. Tem algo a ver comigo e então eu posso percebê-la. E a ela dou a minha dimensão pessoal. Será que eu sou a Rua da Penha? Seguramente uma parte de mim é.



Um pouco sobre o trabalho

Sérgio Onofre conseguiu duas estudantes para trabalharem e partimos para ensaiar a documentação da Rua da Penha, começando pelas fotografias e vídeos, depois cadastrando para realizarmos entrevistas com os moradores mais antigos da rua, em busca de suas evocações. O trabalho tem como título provisório: Memorial da Rua da Penha. Começamos e do material do primeiro teste que foi realizado, escolhemos umas poucas fotos, transformando algumas em preto e branco e realizando cortes, de tal modo que fosse traçado o contraste entre a grandeza panorâmica sobre a rua e o detalhe das janelas das casas, considerando a janela como um limite entre o público e o privado. É daí o nome desta matéria, que publicamos em homenagem, à velha e querida cidade do Penedo, deixando a rua em branco e preto e dando o tom colorido de suas casas, a partir das janelas, bem como evidenciando a espécie de mistério entre a casa e seu caso.





É preciso levar em conta, a espécie de alquimia que se realiza: enquanto as fotos são produzidas na atualidade do fotógrafo, pela intervenção nas cores e na composição, nos as desatualizamos. É uma forma de possibilitar a evocação que sempre leva a um passado misturado com o tempo, sinal, mais uma vez, de que a memória é um processo e não a cristalização de uma informação. A evocação vai pinçar o traço que se torna a bem dizer fundante da busca da experiência ou da vivência que é bem mais do que o vivido: é a circunstância do vivido. A escrita com a luz – que é a fotografia, mas aqui com as implicações da infografia na marcha da tecnotrônica, termo de Darci Ribeiro –, foi continuada na medida em que tudo se desloca para o processo da evocação. O que foi produzido não tem compromisso com a realidade, embora indique sobre ela; na verdade, o grande objetivo seria transformar a rua num senso ubíquo com ele sendo estendido ao tempo e relativo aos casos da própria rua. A utilização aqui e ali de casas e casos não é um divertimento com a linguagem, mas uma indicação da singularidade no coletivo urbano da rua que nos interessa. A rua passou a ser uma população de possibilidades e dela retiramos a amostra da evocação. Será que a rua foi virtualizada? A evocação necessariamente virtualiza? Ampliar a discussão seria fugir ao objetivo deste texto que é simples: uma viagem na Rua da Penha.



As fotos transformadas em preto e branco foram trabalhadas em contraste e brilho, visando direcionar o olhar, pedir interrogação, dar sentido coletivo à imagem. A foto colorida recebeu apenas o corte, procurando levar uma pergunta: se a janela fosse aberta, que filme se iria ver, considerando que se cada casa é um caso, cada janela abre para um processo de natureza acentuadamente misteriosa? No momento, é o que nós temos a oferecer: Laissa Maria da Silva, Francismara Costa Torres, eu e também e com toda razão: Sérgio Onofre.
A rua foi trabalhada sistematicamente; foi fotografada no início e depois, em intervalos regulares de passos, o pesquisador formava um ponto e na posição leste fotografava o extremo oposto, olhava noroeste e passava para a posição oposta, dando-se a mesma sequência, mudando o que deve ser mudado. Cada foto foi registrada em ficha específica, constando a data em que foi tirada, o autor e a hora. Somente as que fizeram parte do teste em sua totalidade foram trabalhadas; algumas poucas janelas não pertencem a este conjunto. O primeiro resultado do projeto está aqui.  Contexto quer agradecer a parceria do curso de turismo da Ufal, a Sérgio Onofre e, sobretudo, a estas duas meninas que trocaram lazer por conhecer, por enfrentar o campo, exercitar o olhar. É o começo da vida acadêmica que se esboça.
Agora, ande na Rua conosco. 

sexta-feira, 20 de janeiro de 2012

[Crônica] Luiz Sávio de Almeida. Bicas. Minas Gerais. Cinema, carnaval, namoro e a professora do preconceitrio rides again


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ALMEIDA, Luiz Sávio de. Bicas. Minas Gerais. Cinema, carnaval, namoro e a professora do preconceitrio rides again
http://www.blogger.com/blogger.g?blogID=8820169997764778745#editor/target=post;postID=6235621321778893673

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A namorada vestida de baiana

Eneida pergunta sobre a namorada. Não sei como tudo começou, apenas que havia namoro. Ela morava do outro lado da linha, um lugar onde nunca fui. Acho que da calçada do grupo se avistava a casa dela. Não sei quem eram os pais e nem como tudo começou; sei apenas que nos encontrávamos no cinema, dia de sábado (?), nas matinais. Falar em cinema, é preciso reduzir ao tamanho de Bicas, um quase nada de cidade àquela época. Dele, eu guardo recordação da paçoca que era vendida, um pacotinho cuidadosamente feito com papel de embrulho e na forma de cone. Eles eram cuidadosamente armazenados em um tabuleiro que um menino portava.

O que era namorar? A ingenuidade é algo extremamente fantástico. Namoro significava ela guardar lugar para mim no cinema e então eu me sentava e ficava ali, vendo o filme e conversando miolo de pote. Não sei se é verdade, mas penso que o cinema ficava vizinho a uma lanchonete, tinha somente uma bilheteria. Entrávamos, direita ou esquerda e me parece que não havia um corredor pelo centro: para acesso às filas, usávamos as laterais;

Ela sentava pelo centro e eu ia andar pela redondeza, meio pavão, meio numa dança animal limitada pela cultura prevalecente, pelo elemento civilizatório.  Fico pensando na solenidade do namoro e o que estaria significando guardar a cadeira. Um belo código deveria estar estabelecido com significado para o casal e para o público.  Publicamente, era um sinal de compromisso, pois ela deixava evidente que era comprometida, que alguém sentaria a seu lado e o sinal era simples: o assento encostado e, também, vez em quando ao sentir-se ameaçada, a mão na cadeira vazia.  De vez em quando um olhar e a hora de sentar era quando se dava a projeção.

Era assim, mas pegava-se na mão. Pelo menos, da minha parte, seria o gesto, mas audacioso. Ela era uma menina franzina, ligeiramente morena e restou como dois olhos extremamente bonitos. Mas não é do cinema, que a guardo nitidamente. É de outro lugar e para mim foi inesquecível. Não sei até  hoje,  a razão de ter ficado tão nítido na cabeça. Não sei se ela está viva, eu espero que sim; não sei se estando viva, lerá estas mal traçadas linhas. Vou dizer o nome por um simples motivo:  as coisas eram de uma natureza tão angélica que o segredo, este sim, seria pecaminoso.

Comecei a lembrar de uma musiquinha cantada pelo Paulinho da Viola: “Era dia de carnaval...” Exatamente em uma tarde de carnaval, em um baile vespertino foi que se deu o inesquecível. Era em um sobrado, um Clube: Bicas não sei o que lá. Ela estava vestida de qualquer-coisa.  Não posso definir se era uma baiana, mas tinha turbante e dançava meio a la Carmem Miranda com remexidos de mão e de quadris. Dançamos a tarde toda. Consigo vê-la, mas  não consigo ver a mim mesmo. A mãe deveria estar observando, sentada em algum lugar, com certeza orgulhosa da filha estar vestindo a fantasia que ela deve ter bolado e talvez confeccionado. O fundo musical, contudo, não se harmonizava com tanta insistência em dançarmos. Naquele carnaval, fez sucesso uma marchinha que falava sobre um gago:

É ou não é

Piada de salão?

Se acham que não  é,

Então não conto não!

Um sujeito que era gago

Procurou um botequim,

Chegou perto do gerente,

Outro gago bem ruim

E disse assim:

Eu tô, to, tô

Aonde é que tá, tá, tá?

Mas o outro gaguejou...

Chi! Trá, lá, lá, lá, lá

Eu não posso garantir que esta era a música,  mas foi ela que me ficou na cabeça ao me lembrar da Carmem Miranda a la biquense,  requebrando em minha frente no seu abafado de roupa de baiana feita para meia estação. Claro que a minha história não é tão romântica quanto a do beijo final em Casablanca, mas satisfaz.  O nome é Sheila e espero que esteja muito feliz. Seu noivo, marido, companheiro jamais a guardará como eu guardo: sambando numa tarde de carnaval.


Ainda a  pedagogia da opressão



As encrencas da professora com os potes de ódio reservados em casa, não terminaram, só que passaram a  muxoxos, mais baixo, sem a demonstração pública evidentíssima como eram as anteriores. Não sei mesmo o que aconteceu. É montada a festa da formatura do primário. E ela resolve que haja uma dança; uns meninos vestidos de pele-vermelha,  fantasia de índios americanos. Imaginem o surreal da composição. Bicas, Minas Gerais, Brasil. Somente a cabeça daquela Mestra poderia conceber o espalhafato de palco que seria meus colegas índios americanos a dançarem ao som do Jingle Bell  e realizando uma coreografia que era fundada nos passos de dança de guerra que aparecia nos filmes em que os heróis brancos americanos eliminavam sistematicamente os índios.

Ela queria me forçar a dançar de índio e deu-me um verdadeiro esporro baixo. Perguntou se eu conhecia a música e eu disse que não e a ideia dela foi simples: coisa de quem vinha das brenhas. Eu fiquei com cara de idiota e vontade de ir embora, pois já não era mais aluno dela. Já havia acontecido outro entrevero. Havia um álbum a ser preenchido por todos os formandos e o burro aqui foi o único que escreveu errado. Meu Deus do Céu, o mundo desabou e ela não se conteve; foi outra declaração da minha mais absoluta ignorância. Havia ódio e não duvido que ela babava. Terminei tendo que ir à sua casa, ficava numa transversal que dava para a praça da Matriz, para ver se concertava o erro. Haja burrice nordestina.

Vai então que sou mandado a uma missão, dentro do programa da festa. Eu teria que me transformar em gaucho, vestir bombacha e tudo mais e cantar rodando um  laço, acompanhado por um regional.  Lembro da música:



Quando adormeço, começo a rir

Eu sonho que vejo

Juntinho de mim a garoa  cair

E a cavalgada com seu laçador

Para os campos partir.



Neste sonho, vejo tudo

O que me encanta

É a gaúcha,

a rezar juntinho santa



Vai que eu entro no palco e começo a cantar. Olho para o regional e o maestro balança negativamente a cabeça.  Fico olhando para ele e tentando me ajustar ao que ele queria; finalmente ele balança a cabeça com um sim e um sorriso imenso no rosto. Ele havia sido testemunha das agonias em ensaios. Desta feita, quando terminei foi palma demais; muita palma. Olhei para baixo: o maestro batia e sorria para mim. Jamais esqueci do seu rosto ou inventei um para simbolizar a solidariedade. Não devo negar, que saí triunfante; mas nem falei com a madame, passei por ela como passaria na frente do Gargamel daquele antigo desenho que passava na Globo.

Havia um rapaz em Bicas que era considerado como um grande cantor, um tenor de nomeada biquense. Estudava no Ginásio. Não recordo o nome; ele morava na rua que dava direção ao sítio da Dona Manu. Cantou na festa e veio andando comigo pela rua, comentando quanto eu havia me saído bem. Despedimo-nos, pequei a lateral do grupo e ele continuou. Meus pais vinham atrás. Chegamos em casa, logo na entrada meu pai deu um tapinha na minha cabeça e disse: Venceu!

Depois disso, jamais procurei saber onde andava a Mestra, mas ela não sumiu da minha vida.  Continua presente da mesma forma a partir da qual me ensinou a vê-la:  a representação física da intolerância, a demonstração do professor que eu jamais me deveria ser.

Eu estou me lembrando agora, dos estudos sobre sociologia ou história da educação que passam por cima desses acontecimentos, para se aterem ao que vou chamar de grandes variáveis: a classe, o estado, e coisas semelhantes. Fico pensando um pouco, na history from bellow de Thompson. Há uma relação direta de vida entre a educação que recebi naquele grupo escolar e o modo de ser professora daquela senhora. É claro que ela não esgotava o grupo, mas é claro que ela somente existia por ter permissão para existir e estava, sem dúvida, calçada pelo poder.

Não sei o nome dela, não quero saber. Posso contrastar com uma figura de professora, da qual jamais esqueci. Era uma mulher franzina, carregando luto fechado, deveria ser viúva. Ensinava canto orfeônico e trabalhos manuais. Deveria ser pobre, e ganhar uma migalha de nada por mês como professora. Parece que era Beatriz, o seu nome. Bisonha, mas honesta no seu relacionamento. Eu gostava dela; sabia me tratar, não desdenhava dos meus trabalhos manuais. Ainda hoje, não sei o que é traçar uma linha reta. Com ela eu aprendi e jamais esqueci o hino do Ginásio Francisco Peres. Apendizado muito importante da minha vida. Diz o hino: “Nossa escola nos dá o ensino, de que carecem os nossos misteres...” Será? A escola é a vida. Aquela senhora me ensinou bem mais do que o seu be-a-bá mal enunciado. Quem tinha razão era minha mãe. Você vai encontrar muitas pessoas iguais a ela.