terça-feira, 27 de dezembro de 2011

HISTÓRIA: POLÍTICA: COMUNISMO: ALAGOAS: GRACILIANO RAMOS] Luiz Sávio de Almeida.A PRISÃO DE UM COMUNISTA QUE PROVAVELMENTE NÃO MILITAVA


Coleção Graciliano

ALMEIDA, Luiz Sávio de. A prisão de um comunista que provavelmente não militava. Graciliano, Maceió, nº 1, 2008

[HISTÓRIA: POLÍTICA: COMUNISMO: ALAGOAS: GRACILIANO RAMOS]


lA PRISÃO DE UM COMUNISTA QUE PROVAVELMENTE NÃO MILITAVA

Luiz Sávio de Almeida

             
           



 É praticamente demonstrado que o Partido Comunista se estruturouem Alagoas a partir de 1928, somando antigos anarquistas de 1919 e novos componentes. É em 1928 que se funda a primeira célula, na rua São José,residência de Américo Sapateiro que, posteriormente, irá pertencer à Ação Integralista. Antes, ocorriam contatos a partir de Recife e Bahia send possível que Américo  tenha realizado a coordenação que resultou na célulaem sua casa.  Após a greve de Jaraguá e dos demais acontecimentos que marcaram a história da esquerda em  Alagoas nos finais da segunda décadado século passado, o movimento operário, segundo apreciação de um jornal defeição comunista (editado esporadicamente, desde 1927) havia perdido força, especialmente após o controle – aduzimos - policial das reuniões operárias e dopacto entre maltistas e democratas para a derrota do socialismo, comungado após Jaragua. Este socialismo deveria ser liquidado em nome dos valoresda civilização cristã ocidental.

               O Proletário falava na necessidade de se retomar o movimento e mencionava o sucesso eleitoral de Otávio Brandão no Rio de Janeiro. O fato éque surge a célula na residência do Américo Sapateiro cuja militância  éconhecida desde 1910, quando pertencia aos quadros da Federação dosTrabalhadores. A célula era denominada AA e dela fazia parte Sérgio Pueirame,Presidente do Sindicato dos Trapicheiros e velho militante na esquerda,José Costa Neto que dirigia O Proletário, Olympio Santana também antigomilitante. Posteriormente, o Partido cresce o suficiente para que se tenha aeleição do primeiro Comitê Regional. Nesta oportunidade, tem-se um grandeproblema interno, pelo  fato de que Américo Sapateiro perde a secretariapara Horácio Gomes de Melo, afasta-se da organização mas continua aliado. Olympio Santana será tesoureiro e são montadas comissões: Juventude, Agrária, Mulher Trabalhadora. Horácio era  também sapateiro; paulatinamente Américo se afasta, passa a ligar-se ao sindicalismo governamental e posteriormente vai se filiar à Ação Integralista, fazendo parte de sua polícia secreta.
Mestre Graça

               A vida do Partido vai ser abalada em razão da Revolução de Trinta, mas ele temcondições de vida orgânica e secreta, emergindo com poder de fogo político noano de 1932, período de intensa disputa na área trabalhista pelas implicaçõesda política governamental na área sindical,  em choque com comunistas eindependentes. É por inspiração de governo que nasce em 1932 a Federação dosTrabalhadores de Alagoas, mas surge, também, a União Geral dos Trabalhadoresque, no dia 1º de Maio faz passeata. Em dezembro de 1932 começam as greves e osmovimentos que levarão a outra formidável ação policialesca, com o tradicionalprende-prende e deportação de liderança.

              
Zé Lins
            


O Partido se retrai, continua a 
Raquel
vida clandestina e viverá o clima de 1935.Antes, contudo,  a vida política de Alagoas ganha complexidade, quando seorganiza em Maceió, pela iniciativa de José Lins do Rego, a Ação Integralista.O encontro de Plínio Salgado, com a platéia alagoana foi realizado na Perseverança, presidido por Domingos Fazio Sobrinho, falando Moacir Palmeira e José Lins do Rego. Evidentemente, os confrontos eram permanentes e é no clima que se delineia depois de 1935 que vai se dar aprisão de Graciliano Ramos.

               Em nenhum momento, o nome de Graciliano aparece nas lutas políticas. Os nomes de intelectuais que se diziam ser comunistas eram  Alberto Passos Guimarães e Waldemar Cavalcanti. Em longas conversas comigo, Alberto jamais mencionou o nome de Graciliano Ramos como militante. Nem a Raquel de Queiroz (trotskista à época) falou de qualquer atividade partidária do Graciliano, e mantivemos alguns bons papos sobre Maceió, embora ela detestasse recordar aquela época pelo imenso sofrimento pessoal que viveu. Num dos papos, conta as versões  corridas sobre prisão de Graciliano e lança:  "Meu filho, somente diga estas coisas depois que eu morrer!".  Fiquei embaraçado, ela notou e arremessou o torpedo: "Fique tranquilo menino, eu morro logo!".  Começamos a rir e falei: "Então não me interessa saber. A conversa não tá gravada, como é que vou provar que você disse? Pode guardar para você as suas coisas!".  E rindo terminamos este telefonema.

         Na verdade, ela desejava fazer alusão ao que circulava: a) prisão por naturezapolítica ideológica; b) prisão em face da fofoca política ou perseguição pessoal; c) prisão em face de problemas pessoais.  Quem sabe tudo não semistura numa aura  que parece misteriosa? O fato é que o pessoal, o político ou ambos  conspiraram para que surgisse um texto que representaria as vidas de encarcerados, numa referência à memória dos que eramditos portadores de pensamento ilegal.  O fato é que, com relação à suaprisão, Graciliano contou o que desejava fosse sabido.



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Meu primeiro contato com Graciliano foi através de Memórias de Cárcere. Depois fuilendo devagar uma coleção editada, caso não me engane, pela José Olympio.Estava nos 17 para a frente. Anos depois, utilizava seus romances para debatercom os alunos temas de sociologia rural. Evidentemente, a escrita não reproduza realidade das vidas, mas Graciliano mergulha de tal maneira no cotidiano quesuas contradições surgem e foi a tensão presente na sua fala sobre arealidade que a ele até hoje me prendeu.

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[HISTÓRIA: MEMÓRIA: PENEDO/ALAGOAS] Luiz Sávio de Almeida, Minhas recordações de Penedo (I)




Matérias esparsas











Esta matéria foi publicada em O Jornal, Maceió, no mês de Dezembro de 2007
         


Não lembro quando cheguei; não recordo da primeira vez em que cumprimentei a cidade.Sei apenas que desci das nuvens em teço-teco, vindo de Pirapora, Minas Gerais,com meu pai  - funcionário do Banco do Brasil –, transferido para ocupar a função de Contador na Agencia. Desta viagem, restaram retalhos na minha cabeça, construções fantasiosas às vezes alimentadas, aqui e ali, por expressões imprecisas que foram ouvidas durante outras quadras de vida, gerando um universo de memória onde fantasia e realidade se encontram. 

         Sei que chegamos. Pelo que contava meu pai, o melhor hotel era o dos Viajantes, mas fizeram reserva no Brasil, um sobrado. Dele, lembro muito pouco. Meu pai falava das péssimas condições de hospedagem, da má vontade e do lançamento da família em quartos do térreo. No dia seguinte, o dono do hotel o teria visto no Banco do Brasil e logo tratou de nos acomodar no primeiro andar. Não sei quanto tempo passamos ali. 

         Ninguém de hoje, consegue imaginar o que seria uma mudança, naquela época ainda imprensada pela guerra. A bagagem demoraria a chegar e se transportava o mínimo possível. Por onde se ia morar, meu pai comprava a mobília barata, indispensável como a mesa, cadeiras, a petisqueira, a cama. A minha cama em Penedo era a Patente, mas dormi muito em cama-de-vento, a melhor dormida que sempre achei.

         Pela Internet, sei que a famosa cama Patente foi desenhada em 1915 por um espanhol;a primeira delas fabricada em Araraquara para a substituição de camas de ferro em hospital. Toda a madeira na Patente era torneada, com as partes encaixadas em ganchos, com dois apoios, havendo a bandeira, o estrado e os pés.  Era tão prática, que até menino montava. A minha era marrom escuro, e ficou na lembrança devidamente guarnecida pela imagem do Anjo da Guarda, a quem eu tinha que rezar de joelhos e mãos postas, pedindo a atenção do meu zeloso protetor. Ele era  pendurado por uma fitinha branca, amarrada na grade da bandeira. 

         A cama-de-vento era para quando a casa estivesse cheia, mas eu arranjava forma de dormir nela, devidamente empacotado em pijama de manga comprida, fizesse ou não calor. A imagem que guardo é de uma cama dobrável, com dois cavaletes nas pontas, a lona embranquecida brochada nas laterais para agüentar a pressão do corpo. Era fresco, talvez mais do que rede e é uma peça notadamente portuguesa, nício da colônia.

         Passamos pouco tempo no Hotel Brasil; se não me engano, fomos para o Hotel dos Viajantese de lá foi alugada casa no Cajueiro Grande, pequena, com os fundos dando para uma ribanceira, cerca de vara no quintal quase em frente ao Hospital. Na verdade, Penedo começa para mim no Cajueiro Grande e estas lembranças assumem em torno de sessenta anos atrás, coisa do imediato do fim da guerra. A rua era extremamente larga e eu era proibido de colocar os pés além  do meio-fio, por conta dos caminhões que ainda chegavam quase que a chorar na rampa, na batida que vinha da subida da praia para o Cajueiro Grande.  Era tempo do Mack, venta cortada, verde, carroceria comprida de madeira, sacos e o mais que se podia, vindo de longe,passando na balsa e ganhando novo mundo na direção do norte, a venta enfeitada por uma estatueta que guarnecia sua busca por destinos.

[HISTÓRIA: MEMÓRIA: COLÔNIA DE LEOPOLDINA/ALAGOAS] Luiz Sávio de Almeida. As ruas da Colônia de Leopoldina.

Matérias esparsas





Este artigo foi publicado em 2007 em O Jornal

  

         

Ernane Santos lançou – com a colaboração de José Araújo de Luna – um livro sobre as ruas de Colônia de Leopoldina. O trabalho tem um grande mérito: aproximar-se da história do local, da vida das pessoas que fazem a cidade, não importa ocaminho que siga. As ruas falam sobre a vida das gentes e das cidades, às vezes homenageando nomes tomados como exemplares, algumas falando sobre acontecimentos; outras tantas e mais encantadas, desvinculam-se do prosaico evão assumir o rumo poético que a própria vida comporta. João do Rio foi fantástico cronista da rua, da sua alma; ele sentiu que a rua pulsa e, portanto, deve ter coração.

         Colôniade Leopoldina tem seus estudiosos; lembro-me que em 1983, apareceu o trabalhode Everaldo Araújo Silva.  E assim, acidade honra a letra de seu hino: SALVE! SALVE! COLÔNIA LEOPOLDINA/REMINISCÊNCIAS DE TEU IMPERADOR/ COM TEUS FILHOS A ESTUDAR/ DOUTORES, POETAS,ESCRITORES/ PARA SUA TERRA SEMPRE HONRAR!.

         Euacho bonito, quando se tem, o senso do lugar. Jorge Pinto Dâmaso desmonta acharada ao falar sobre o povo do Cariri da Boca da Mata das Alagoas. Diz de modomagnífico, que se tratava de chamamento do umbigo. Nada mais nobre e nada maisimportante. O chamamento do umbigo é razão muito forte. Bem queria Alagoas, queem todos os seus municípios surgissem vocacionados pelo umbigo a falarem desuas terras, a dizerem de seus povos, da mesma forma que é bonito quandoColônia de Leopoldina fala do orgulho que tem de seus poetas e escritores.Puxa, dá para a gente se ligar, imediatamente, a Castro Alves quando gabava quemsemeia livros a mão cheia.

         Emtodo canto, parece que a necessidade de homenagear – sem dúvida justa – terminapor suplantar os nomes de rua montados pelo cotidiano. Sem dúvuda, a rua doEsconde Negro vem de longe sustentando o nome que se funda na vida local.  Prefiro a poesia à data; prefiro a recordaçãoao nome.  No caso especial da EscondeNegro, trata-se de uma rua delatora, ensinando por onde meu povo andou se escondendo? Um nome de primeira éRua da Boa Vista; sugere um mundo de beleza, de paisagem aberta. A Rua daAlegria é imponente, com todo mundo feliz, sentado nas calçadas, coçando odedão do pé. Pois são desta forma, as ruas de nossas cidades. 

         Nãoestou escrevendo estas linhas, pelo fato de conhecer o Ernane; fico satisfeitoao ver amigo produzindo; claro que fico satisfeito ao saber que o povo deColônia pode ler sobre suas ruas. Até lembro, saudoso, do velho e genial Félixde Lima Júnior, a quem tanto admirei e que andou escrevendo notas e mais notassobre as ruas desta nossa Maceió. O velho Félix era especial.

         Capelatem muito menino fazendo universidade; uns tantos já chegaram a conversarcomigo. Dois ou três podem fazer o mesmo trabalho; sei que Capela é 99 vezesmaior do que Colônia de Leopoldina, mas com paciência se faz e se pode dar anosso povo o presente que o Ernane deu ao seu.

[HISTÓRIA:MEMÓRIA: RIO DE SÃO FRANCISCO: CACHOEIRA DE PAULO AFONSO] Luiz Sávio de Almeida. A Cachoeira do Paulo e do Afonso


Esta matéria foi publicada em O Jornal, Maceió, em Dezembro de 2007


A sensação de estar em Penedo é sempre agradável. Havia acabado de chegar e era noite quente. Mais ou menos dez, saio e vou para frente da Igreja da Corrente,  fazer o que os antigos chamavam de tomar um deforete.  O som, a música,  jovens bebendo e eu pensava na distância da minha Penedo para a cena.  Tudo ficou mais aceso quando,misteriosamente, comecei a ver o armazém do Fortunato,  a mamona amontoada onde uma moça havia paradosua moto vermelha. As cores confundiram-se: o vermelho da moto e o cinza dapaisagem da mamona.  Neste ir e vir da moça para a mamona, o tempo passava. 


Conversava como Mário Lima,  de repente abri a pasta e comecei a ler anotações em uma caderneta. Curiosamente, uma folha trazia de volta uma conversa com um amigo, o Mauro Feliciano - mora em Sobradinho -,famoso mergulhador, aposentado. O pai foi trabalhar no concreto da PauloAfonso; com nove anos de idade, ele começou a vender cocadas feitas pela mãe; era gente fazendo concreto, era gente fazendo secadeira, era gente comendo cocada. 

O fato é quesão mais de 26 anos de mergulho, tudo começando quando uma cheia imensa empurrou trecos e mais trecos para a tomada d'água da 1ª usina. E gente foi chamada para ajudar a tirar o bagulho das grades. Eram poucos mergulhadores; édaí que Maurão foi fazer um curso e tornou-se o homem que retirou o navio SãoFrancisco, afundado em Petrolina com uma imensidão de toneladas de pedra; o São Francisco mocou e estava empatando a vida do porto.

Maurão passou pormuita coisa pesada, mas a pior de todas foi no Açude Coremas, onde foi fazerrevisão nas grades. Perdeu a brecha; a corda adiantou e ele começou a rezar porSão Francisco que, entendo nesta altura, seria também protetor demergulhadores. Na hora, as nadadeiras entraram na brecha e ele subiu com vida;aflição mesmo foi  salvar o CompadreJoaquim que desceu e não voltou, colado que ficou na boca do tubo. Hoje estávivo para contar e mora na Pariconha.

Foi o Mauroquem me falou de  uma história fantásticasobre o nome da Cachoeira. E ele ouviu de uma família que sempre viveu por ali,  e que descendia do povo que contava a ditacuja história.  Tudo teria acontecidoantes do Delmiro.  Naquele tempo, haviaum imenso pé de manga rosa perto da Cachoeira e uma casa, onde vivia a famíliacriadora de bode, com dois filhos pequenos, mas já em tempo de cuidar dosbichos. Eles estavam fora. Foi quando chegou um bando de gente, não se sabe sebandeirante ou inglês. Faz tempo demais. A mãe começou a chamar pelos filhosaos gritos: Afonso! Paulo! Os viajantes escutaram os gritos e o chefe delesdisse: De hoje por diante, esta cachoeiranão mais se chamará Forquilha. Será Paulo e Afonso.  E assim foi feito. Rebatizada, a Cachoeira dePaulo e Afonso foi perdendo o e, como se a pessoa fosse uma só e não, conformeera naquele tempo de antes do Delmiro, uma parelha de irmão que cuidava dosbodes. Maria Lopes acha que Forquilha não era um nome feio, mas prefere Paulo eAfonso mesmo. Acha que é mais justo.

[HISTÓRIA:MEMÓRIA: AMIGOS: MANOEL CORREIA DE ANDRADE] Luiz Sávio de Almeida. Morre Manoel Correia de Andrade e ele não se finda


Esta matéria foi publicada em O Jornal, Maceió, Julho, 2007











Hoje é um dia triste; sinto um fardo nas costas, como pessoa e cidadão metido a ler. Como pessoa, pelo fato de ter morrido um homem a quem admirava, tomava como exemplo, honrava e devia pelo muito que fez por mim.  Manoel prefaciou um livro meu, foi meu examinador no doutorado e convidou-me para participar de seminários,  quando estava na Fundação Joaquim Nabuco, chegando a publicar  alguma coisa minha. Possivelmente, um de  seus  últimos escritos foi o Prefácio para meu livro sobre a política alagoana na década de trinta do século XIX, passando pela Cabana. Recentemente, mantínhamos um contato constante; ele havia quebrado a perna e estava em casa; não ia  à Cátedra Gilberto Freyre – da qual era titular - na Universidade Federal de Pernambuco.  O assunto das conversas constantes era a necessidade de transformar em livro a minha tese de doutorado, coisa que sempre insistia. Transformar tese em livro é mais difícil do que escrevê-la, mas capitulei e ele me deu um fino texto introdutório de presente.

A última vez em que o vi pessoalmente foi em Maceió, talvez dia e meio antes da chegada da morte. Ele havia recebido homenagem prestada pelo Curso de Geografia (não sei o nome atual) e foi muito bonita: uma sala simples, cheia e  em dia de greve de bus. As homenagens eram o encantamento e o sonho de uma juventude que desejava uma foto a seu lado, como se um superstar estivesse na sala. No fundo, ele era estrela de primeira grandeza a influenciar gerações marcando a vida da região: seu nome ficou associado definitivamente ao Nordeste. Chego mesmo a pensar que foi um dos principais montadores da idéia de uma identidade regional, função excepcional  de seu livro clássico sobre o Nordeste que foi  lançado pela mão de Caio Prado Júnior. A sua carreira de geógrafo deveu-se a Gilberto Freyre conforme contava; antes se dedicava à história e foi neste  vai-e-vem da geografia para a história e da história para geografia que publicou uma contribuição notável para entendimento do país e transformou-se em leitura obrigatória, sinal de que morreu mas jamais findará. Manoel Correia de Andrade ganhou o caminho do infinito.








Era um homem senhor de si, mas simples, capaz. Ouvia atentamente e opinava com parcimônia.  A primeira vez que vi Manoel Correia foi em um elevador, conversando com uns dois estudantes e falando sobre sensualidade das serras. Eu ri e jamais esqueci. Tímido como sou, não aproveitei a oportunidade para me aproximar. Tempos depois, convido para examinador da minha tese. Aceitou e daí nasceu a aproximação entre nós. Lembro  da primeira vez em que nos encontramos e lembro da última coisa que ouvi de sua boca. Ele virou-se -  parece-me que para sua filha Thaís-  e disse: “Este é realmente meu amigo!”. Isto me comoveu, pois na verdade, eu tinha carinho por ele. E fiquei mais uma vez órfão. Eu já estou com um grande aprendizado de orfandade intelectual. Tenho muitos mortos. Manoel Correia de Andrade é um dos principais. Sempre terei saudade, mas sempre saberei onde encontrá-lo.










A EDUFAL vai prestar-lhe uma grande homenagem, mantendo seu nome como patrono da Feira do Livro. E tentará publicar um seu trabalho. Conversando com ele sobre o assunto, disse-me  que se sentiria muito honrado, mas sua preferência seria a publicação do livro do seu filho Joaquim sobre Alagoas. Aliás, o Joaquim (já falecido) tem um filho servindo a Alagoas e que tem o nome do avô: Manoel. Era grande a dedicação de Manoel Correia de Andrade ao nosso Estado. E ele venerava Penedo;  brincava dizendo que a única traição à sua esposa, foi com Penedo,  que era a sua namorada.  Talvez seja a hora de Salles e a Fundação Casa do Penedo que fica na minha inesquecível Rua da Penha, prestem uma homenagem.

segunda-feira, 26 de dezembro de 2011

[HISTÓRIA: ÍNDIOS: ALAGOAS] Luiz Sávio de Almeida. Lançamento de livros


Esta  pequena entrevista foi publicada em O Jornal no nês de agosto de 2008


O Jornal – Sobre o que trata seu livro individual?

                Sobre uma questão antiga: a natureza da formação histórica de Alagoas, tentando vê-la por baixo, no sentido de entender a formação de sociedades alternativas e as matas como personagens do drama do poder. Então, tento dar uma passada diferente pelos fatos, acontecimentos... Tomo como ponto central uma pessoa considerada como facinorosa à época: Vicente de Paula. A partir disto, vou discutindo  e  passo pela cabanada, demorando-me, revisitando. Para o trabalho caminho dialogando com  Manoel Correia de Andrade,  Décio Freitas, Dirceu Lindoso e Clívis Moura. 

O Jornal – Quem o prefacia?

                O velho Manoel  Correia de Andrade. Ele de muito reclamava a publicação deste livro, não sei por qual carga d'água. Finalmenteresolvi publicar e ele se ofereceu para o Prefácio, o que foi uma honra. Éramo samigos e ele sempre me influenciou muito.  É como o Dirceu: sempre dialogo com ele. Concordando ou  discordando, passo por ele. Dirceu é um homem de grandes insights sobre Alagoas. A Taís filha do Manoel, disse-me que foi o último escrito dele. Estava na sua mesa de trabalho. Foi um homem extraordinário: é impossível entender o nordeste sem ler seus textos.

O Jornal – E o livro que o senhor organizou  em parceria com o Professor Amaro Hélio?

                Um conjunto de textos basicamente voltado para os índios de Alagoas. É o décimo volume de uma coleção que estamos alimentando todos os anos. Traz estudo excelentes do Amaro Hélio, da Clarice Mota, da Professora Ester, Jorge Vieira e  outros. Trata sobretudo sobre etnia, política e história. 

O Jornal – Professor, qual o balanço que o senhor dá de seus trabalhos?

                Não posso dar um balanço: vai tudo cair. Não têm sustentação.  Falando sério, nunca parei para avaliar.Desconfio que as novas gerações irão  levar em conta e crescer alguns campos qu e andei trabalhando. Eu somente me satisfarei como historiador, quando já estivertão ultrapassado que for de mau gosto me citar ou, melhor ainda, quando for absolutamente desnecessário. Voltar ao anonimato é um excelente objetivo. 

O Jornal – Qual foi a editora e quem o ajudou nesta empreitada?

                A editora é a da Universidade Federal de Alagoas, fantasticamente dirigida pela pessoa extraordinária que é a Sheila Maluf. O salto de qualidade que ela deu é notável.  A Editora perdeu o ar de paróquia e ganhou espaço nacional. Ela é divisora de águas.  Tenho muito a quem agradecer, po  exemplo  a Sérgio Moreira, pessoa a quemadmiro e é de minha alta estima pessoal. Mas acho que devo tudo a meus filhos.  Eles me deram calma para me dedicar uns seis anos na escrita deste trabalho. Cícero Péricles, Rachel Rocha e Bruno César Cavalcanti são pessoas que me incentivam e desculpam as minhas tontices.  Vivo muito feliz: tenho belos amigos. 

O Jornal – Como vê a historiografia em Alagoas atualmente?

                Muito bem. De fato está havendo uma renovação; até mesmo, o espelho  padrão do intelectual alagoano mudou. Hoje estamos na oportunidade de pessoas que estão tendo o saber testado publicamente em suas especializações, mestrados e doutorados.  É diferente; terminou a fase do intelectual  heróico e autodidata. Mudou e os resultados serão melhores pois, inclusive, mudou a temática.  Além do mais, uma outra  gama de campos foi acrescentado ao da história e quem ganha é Alagoas.

O Jornal – Pode citar alguns nomes?

                    Claro. Sei que vou deixar alguém de lado, mas serei perdoado. No campo da história, a renovação passa por Fernando Mesquita, Ana Cláudia Martins,  Sérgio Onofre,  Osvaldo Maciel . São pessoas novas no cenário que, nesta geração, teve nomes como o Douglas, Élcio, Dirceu, Moacir.   Este campo da história cresce com inúmeras pessoas de outras áreas, que vêm somando conhecimento sobre Alagoas, como é o caso de Cícero Péricles na economia, Bruno Cesar Cavalcante e Rachel Rocha em antropologia, Ruth Vasconcelos em Sociologia e por aí segue toda uma renovação que é impressionante. 

[HISTÓRIA E ESPAÇO] A história almanaquista: explicação senhorial do espaço das Alagoas






Este texto foi publicado em Espaço, O Jornal, Maceió, Out. 2008




O que Moira faz!

Vive o sono eterno: morreu. Chegou  a Presidente da Província das Alagoas em 1836; maiores informações sobre sua vida podem ser obtidas em Abelardo Duarte e José Maria Tenório da Rocha, ambos citados no corpo do artigo.  Moreno Brandão escreveu: “ A biografia deste repúblico é escassamente conhecida. Dele se sabe apenas que é filho do Rio Grande do Norte, representou o Ceará como deputado geral, 1ª e 2ª legislaturas, e faleceu na antiga Província do Rio de Janeiro, a 15 de fevereiro de 1854, com 78 anos de idade, tendo sido inumado na igreja de Nossa Senhora da Conceição, em Niterói.”.


Umas poucas palavras


Luiz Sávio de  Almeida





            Vez em quando  vamos arriscar um artiguinho e, em alguns, reproduzir partes ou texto integral de documentos importantes para o entendimento de Alagoas.  Começamos por Moira, em face de ser um dos pilares da construção teórica sobre nosso Estado e  exemplar do ponto de vista do trato político de nossa história. Faz tempo que nosso pequeno artigo estava redigido e sepultado no fundo do baú. Tomara que sirva para alguma coisa.
Muitos  documentos importantes sobre Alagoas tornaram-se  raros e é preciso divulgar e comentar. O texto de Moira   é um deles e recebeu poucas abordagens, sendo embora sendo essencial para que se verifique como foi a montagem inicial do pensamento sobre Alagoas. Seu livro é interessante, bem como seu objetivo que era, efetivamente, falar sobre Alagoas e sobre, também, os episódios que foram vividos em sua época e em nosso território: a cabanada. Ele estava em Alagoas na oportunidade da chamada guerra dos cabanos.



A história almanaquista: explicação 

senhorial do espaço das Alagoas


O que Moira falou sobre Maceió






            A Cidade de Maceió marítima; moderna Capital da Província, Residência do Presidente; do Chefe de Polícia; do Juiz de Direito, Corregedor da Comarca; reunião da Assembléia Provincial; assento das duas Tesourarias; do Almoxarifado, de uma coletoria, e uma Mesa de Inspeção dos Algodões tem uma cadeira de Latim, e outra de Francês; uma de Lógica; outra de Geometria, e outra de Retórica, duas Aulas de Primeiras Letras, para um e outro sexo. Tem um sofrível quartel para as tropas.

            Esta colocada em uma planície elevada próxima do litoral, e guarnecida da parte do Norte por uma colina longa, que se estende de Leste a Oeste; é mesquinha de água potável, seu terreno árido, e arenoso, fica em uma espécie de península formada pelo Oceano a Leste; Alagoa do Norte à Oeste, e a Barreta ao Sul; de istmo lhe serve todo o lado do Norte, e suas entradas são pelos dois extremos da linha da colina pelo lugar do Poço, e do Bebedouro.

            Compreende no seu Município a Povoação e Arraiais seguintes:
            A Povoação, de Jaraguá bem na praia, defronte do Ancoradouro, aí se acha colocada a Alfândega, o Armazém de depósito de Madeiras do Estado para a Marinha Nacional; vários trapiches; um Estaleiro; é a residência do mestre construtor, empregado encarregado da fiscalização dessas madeiras; do Patrão Mor; é totalmente estéril de água potável, que lhe vem de fora; fica arredada da Cidade para o Nordeste um quarto de légua; grande parte do comércio, aí se acha fixado de 1831 para cá [...]

            O arraial da Freguesia da Pióca 3 léguas distante para o mesmo rumo de Nordeste próximo do litoral.

            O Arraial do Bebedouro, uma légua para o Norte, abundante de boa água potável, por estar à margem de um córrego perene, donde se fornece parte da Cidade; é aqui o pouso ordinário dos tropeiros que conduzem do interior os gêneros de exportação, e consumo da cidade; que ali se demoram com suas tropas, até voltarem carregados com o retorno para as Vilas, Povoações, e Arraiais, fazendas, e engenhos do interior, tem aí um pontilhão  sobre o córrego onde se atravessa porque antes fazia grande atoleiro e tijucal.

            O Arraial do Trapiche uma légua escassa da Cidade para Oeste à margem da Lagoa do Norte interposto das madeiras, e de todos os produtos do interior que descem embarcados pelas lagoas e não querem expor-se ao perigo da Barreta; daqui para a Cidade ou para Jaraguá se conduzem em carros por uma bela estrada; a melhor que na Província e quiçá em muitas outras.

            Cumpre declarar aqui antes de passar a outro Município, que nestes últimos tempos, se empreendeu um canal de comunicação da lagoa do Norte até o interior da cidade de Maceió obra de sumo interesse; e que dá grande impulso ao comércio, e engrandecimento da cidade; pelo que os habitantes concorreram com uma subscrição voluntária; mas a obra não se fez como convinha; porque não se obteve do Governo Geral o auxílio pedido; ao menos de um Engenheiro!! e por isso tem esboroado as terras mal colocadas; pelo que apenas hoje lá entram canoas na preamar que influi na lagoa. A esterilidade de Maceió diminuiria muito se todos os que ocupam os lugares frescos do Cambona próximos da lagoa do Norte, e do Poço, seguissem o exemplo do Cirurgião Mor Antonio Pereira Cardozo, e do Negociante Graça nas chácaras que tem, e podem ser normais.

O que Moira falou sobre Marechal Deodoro




           
  Cidade das Alagoas, antiga Capital da Província légua e meia arredada do litoral, situada à margem sul da Lagoa Manguaba, por uma colina acima e na sua planície; falece aqui, não só o comércio, senão a indústria e as artes; é fértil de água potável dos Arroios Sebaúma, e Utinga que lhe correm ao Sul, e a Leste; abunda de jacás, camarões, e siris de [...]; nos meses de Maio, Junho e Julho nem peixe há, por ser vedada por lei Municipal, a pescaria de arrastão em razão da procriação de peixe nesses 3 meses. Há aqui dois Mosteiros Monacais; um de Franciscanos, para onde destacam dois ou três da Bahia; a casa ainda que muito pequena é menos má, tem boa cerca de pedra e cal murada que encosta na lagoa; o templo é asseado; o outro era de Carmelitas, sito lá para o extremo Sul da Cidade; há muito que se acha pro derelicto e sem Frades, e o Templo está em estado de ruínas! Em quanto ali foi a Capital, o governo aproveitavas a casa para hospital militar, depósitos, armazéns e quartel.

            A Matriz é boa, e está bem colocada. As poucas casas de sobrado que há, são antigas, e feitas sem gostos nem cômodos e pior as térreas. A perspectiva desta cidade é assaz desagradável, e suas ruas sem ordem, nem simetria; e o terreno mal escolhido; só tem de belo alguns golpes de vista da Lagoa. É a residência do Juiz de Direito corregedor da Comarca; tem uma coletoria, uma aula de latim quase deserta; Escolas de primeiras letras para ambos os sexos. Um Palacete feito em 1836, porque antes não o havia, o qual ficou inutilizado, com a mudança da capital.  Na cadeia, e na casa da câmara será bom não falar; naquela para não magoar o coração sensível, e nesta por vergonha...!!

            Contém em si o Município desta Cidade a Povoação e Arraiais seguintes:

            A Povoação de Taperaguá, próxima e a Leste da Cidade; bem se lhe podia chamar um bairro dela, separado por três pontilhões sobre os arroios  Utinga, Sibauma, e o esgoto Maguaba. Tem uma Capela do Sr. Bom Jesus, e alguns sobradetes frágeis, que alguns fazendeiros, residentes em seus engenhos, mandaram lá fazer, só para quando concorriam ali a uma suntuosa festa, que se fazia em outro tempo; hoje porém só resta disso, a triste recordação do passado.

            Nasceu nesta Povoação a Mãe de D. Marcos Antonio de Souza, finado Bispo do Maranhão que segundo a tradição, dali fora para a Bahia.

            O Arraial do Pilar no extremo Oeste da Lagoa Manguaba distante da cidade de 3 para 4 léguas; nada tem de notável, senão ser aí o lugar do embarque dos gêneros produzidos no interior que se levam para Maceió, ou mesmo para a Cidade das Alagoas em canoas ou barcaças.

            O Arraial da Barra de São Miguel o Suplício de D. Pedro Fernandes Sardinha o 1º Bispo da Bahia, que regressava para Portugal no ano de 1556 e fez naufrágio nos bancos de denominam Bancos de D. Rodrigo, que demoram amarados entre a Barra do Rio S. Francisco, e à de Coruripe [...]



O que Moira falou sobre Penedo


             
Cidade do Penedo vantajosamente situada à margem do Rio S. Francisco da parte do Leste, sete léguas acima de sua foz, por uma colina acima cuja rocha lhe empresta o nome, de cima da qual se descortina o curso desse grande Rio duas léguas para baixo e outro tanto para cima; tem bastante comércio, e muito mais teria se a entrada da Barra não esmorecesse os especuladores. Há muito elegantes casas, e bastantes sobrados de um, e de dois andares; pela maior parte edificados ao gosto moderno, e cômodos; um hospital de caridade da invocação de S. Gonçalo Garcia; um belo convento de Franciscanos; a casa da Câmara e Cadeia são as melhores e toda a Província, colocadas na eminência, oferecem uma vista embelezadora, não só do rio, e ilhas que se formam nele, e sua freqüente navegação por chalupas peculiares, se não para esquadrinhar da Província de Sergipe a Vila Nova, que está defronte e à margem oeste do rio, assim como o Arraial do Carrapixo de d’onde se extraem e exportam muito boas pedras de amolar de gran mais ou menos fina.

            A casa da Câmara do Penedo está bem mobiliada, e ornada com riqueza; aí se reverenciam na melhor sala as Efígies do Sr. D. João 6º D. Pedro 1º, e do Sr. D. Pedro 2º. Faz ângulo com este grande edifício outro também de sobrado com grande edifício outro também de sobrado com grande galeria de sacadas de grades de ferro de propriedade da mesma câmara; que serviu em outro tempo de residência aos Juízes de Fora, e hoje anda de aluguer. Esta casa, a mobília, e o ornato da outra casa, bem como o calçamento de toda a cidade, deve-se ao zelo e desvelo do então Juiz de Fora, Luiz Antonio Barboza de Oliveira natural da Bahia, e hoje Desembargador aposentado na Relação do Rio de Janeiro. Tem nesta cidade residência o Juiz de Direito Corregedor da Comarca, uma coletoria, uma mesa de inspeção de algodão, aulas de latim, de lógica, de francês e duas escolas de primeiras letras para um e outro sexo, há uma grande feira semanal nos Domingos, à qual concorrem vivandeiros de toda a parte, para vender e comprar todo o necessário para a vida, não só do circuito da cidade e da Província, senão da de Sergipe que transportam pelo rio; ali aparece de tudo que se produz, quer ao perto quer ao longe, sem excetuar infinidades de sanguessugas produzidas em charcos, e lagoa que para lá há, e que os especuladores, e traficantes deste gênero exótico, tem empenhado todos os meios para desacreditar esta descoberta de um hábil facultativo que por lá andou; mas a verdade vai triunfando da impostura fraudulenta.

            Nota-se nesta cidade uma singularidade destes nossos tempos; e é que ainda não teve lugar ali a menor sedição revolta, ou coisa que se aproxime de Anarquia! Os Povos vivem tranqüilos e pacíficos; obedientes e respeitadores das autoridades, não por covardia; porque em abono da verdade, são eles por caráter os mais valentes em lide; mas por índole, e educação desde a sua origem: não é fácil encontrar-se no Penedo um indivíduo mesmo da plebe que não tenha um ofício liberal econômico, impropriamente chamado mecânico de que subsista honestamente.

            As mulheres são em extremo recolhidas, e tímidas; trajam com gala e riqueza, porém não se deslumbram com exageradas modas de especulação estrangeira por cujo ardil nos tem sutilmente aliviado do peso do ouro com que se ataviavam as nossas belas.

            Os oriundos desta cidade, quase no geral, fornecem bons empregados não só à Província senão para fora dela... Venha em abono desta asserção o seu Decano o Coronel Francisco Manoel Martins Ramos sem receio de contradição.

            É digna de visitar se neste município a formidável fazenda da ilha grande dos Frades Beneditinos, à margem do Rio, entre a cidade e a povoação de Piaçabuçu, é como uma aldeia formada só domésticos, abunda em tudo que é criação principalmente de gados de todas as espécies. Condados há no velho mundo que não valem tanto! e ainda mais seria se andasse melhor administrada.





A famosa geografia  de Moira sobre Alagoas


Luiz Sávio de Almeida

A edição e o editor

            O texto de Moira é essencial para que se perceba a construção paulatina de uma escrita sobre Alagoas. Não há assinatura que se responsabilize por ele: aparece  como de autoria de Hum Brasileiro, tendo sido  publicado no Rio de Janeiro pela Typ. de Berthe e Haring, que funcionava na rua do Ouvidor, nº 123. No ano de 1845, ela estava listada no Almanaque Laemmert.  O Opúsculo encontrava-se registrado no acervo da Biblioteca Nacional sob o nº 11.449, conforme aparece nos Anais de 1881-1882 e havia exemplar na biblioteca do Instituto Histórico e Geográfico de Alagoas, que pode ter ingressado no acervo logo nos começos de vida da instituição. Hum Brasileiro qualifica seu trabalho de opúsculo, livreto, coisa assim. Ele vai ser relmente abordado pela primeira vez em Alagoas por Abelardo Duarte.  Moira escreve em um período em que a idéia da construção de uma história do Brasil ainda não havia delineado um de seus primeiros clássicos:  Varnhagem, 1854.

 Moira escreve passados oito anos da fundação do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro e do Arquivo Nacional, quando o Império procurava transmitir-se, fazendo a história nacional, conforme se pode anotar de Rezink (2008). Aliás, este nacional explodirá em locais, o que vai ser reforçado, posteriormente, com a criação dos Institutos provincianos que  tenderiam à busca do local, como se pode depreender a partir de texto de Callari  (2008). Em sua abordagem, Duarte aproveita a oportunidade para realizar um repasse na produção geográfica em Alagoas e inicia seu trabalho relembrando  que José de Alexandre Passos considerou o Opúsculo como pioneiro e dirá, também,   que Dias Cabral não valorizou o conteúdo do trabalho. Hum Brasileiro foi identificado, segundo Abelardo Duarte, como Moira: tratava-se de Antônio Joaquim de Moira.  Abelardo Duarte é taxativo quanto à qualidade do trabalho no que diz respeito à historiografia, e ressalta que o objetivo de  Moira consistia em dar sua visão sobre a Cabanada.  Duarte não leu o texto, mas assumiu o que havia sido escrito por Dias Cabral.

Uma introdução e o local

            A dedicatória feita por Hum Brasileiro impressiona pela forma carinhosa com que se refere, possivelmente,  à filha (suponho) e, também,  pela visão objetiva quanto à existência de um lugar chamado Alagoas que, na certa, estaria representando qualquer lugar que se determinasse para qualquer Clarinha. Moira  sabe de uma especificidade e sobre ela escreverá numa abordagem em que, de modo descritivo, passará pela topografia, estrutura física, política e história deste lugar que identifica e, portanto, individualiza, separa. Não se trata de um elemento a mais no conjunto do território imperial: há uma província demarcada e para a  qual se tem plantada uma história; é ela, que permite o encontro com o coletivo, por onde se  poderá estar com memória e avós.  É interessante dizer que se identificava com a província, fosse ou não nascido nela e encontrava para Clarinha um local a ser consagrado.
            É assim que Moira propõe individualizações; menciona a existência de memória e fala sobre um tempo avoengo.  Em última análise,  está dito que a individualidade histórica é fundada em um tempo que se encontra com o atributo da memória e de vidas, gerações que fazem com que o lugar exista. É claro que ele não avança nestas considerações e nem estamos aproximando o que ele propõe como memória, ao senso contido em Durkheim e que passa por autores como Halbwacks, conforme discute Pollack (1989).  Possivelmente, nos simples enunciados de Hum Brasileiro, na melhor tradição senhorial, a memória carrega a ideologia que define o grupo e, neste sentido, não se encontram gerações passadas por acaso: há um caminho que leva a um presente que inexistirá ao serem perdidos os  laços de comando.

            Estamos em percurso similar ao realizado por Lindoso. A história teria que ser braço senhorial e, de certa forma, o Opúsculo ensaia uma postura que será definida pelos fins do século XIX, quando poderemos falar de Caroatá e Dias Cabral, matrizes do pensamento alagoano, membros do Instituto Archeologico e Geographico criado em Alagoas nos finais de 1869 e que começa a divulgação de sua escrita em 1872.  Nós estamos próximos de uma linha de discussão que passa por Gildo Marçal Brandão (2007), ao trabalhar o processo histórico relativo a conjuntos e formas de pensamento sobre o viés político da construção do nacional brasileiro.

            À medida que atinge a relação entre escrita e ideologia, Lindoso trabalha com a categoria de classe social nesta ligação entre tempo e história. O sentido tomado pela obra de Moira dentro do contexto historiográfico de Alagoas nunca foi demarcado em profundidade e nem rastreado; aliás, nunca houve um trabalho de fôlego intentando uma visão da historiografia alagoana e de suas linhas genéticas, o que seria extremamente fértil e talvez uma urgente tarefa coletiva.  Hum Brasileiro falava em memória, história, continuidade;  a memória era vista, também, como  fonte de recordação, um local para onde se poderia ir, um corpo de registro, como se o direito de classe estivesse inerente ao de dizer e argumentar com a história. Neste sentido, inclusive o sistema obrigaria a existir, necessariamente, memórias que ficam subterrâneas. O termo subterrâneo é tomado de Pollack  que o implica com o construtivismo.  Na verdade, a escrita de Hum Brasileiro opera, ao mesmo tempo, o evidente e o oculto. 

            É de se levar em conta que, a rigor, a criação senhorial sobre a história edifica mitos, sendo oportuno pensar com Baczko (1985) que a construção mitológica vai bem mais além do que o acontecimento em termos de importância. No caso deste tipo de historiografia, tudo é ampliado, categorizado. Isto implica voltarmos aos paradigmas norteadores da escrita em Alagoas, desenvolvidos por Caroatá e Dias Cabral, conforme já tratamos, até que haja a possibilidade de o subterrâneo aflorar, o que vai acontecer com o nascimento dos filhos do trabalho (2004), representados, grosso modo, simbolicamente, em Pedro Nolasco Maciel.  O subterrâneo estará reagindo, enquanto um modelo de permanência aparentemente se define.  Não fosse assim, a sociedade estaria sem qualquer contradição, sem qualquer disputa em torno do poder.

A dedicatória sentimental que Moira realiza, é tão importante quanto o que foi desenvolvido no corpo do texto. Clarinha para chegar às individualidades de Alagoas tem um caminho definido: a busca dos troncos e o testemunho de memória que tem de ser avivada.  Por outro lado, Hum Brasileiro determina-se de posse das informações corretas sobre o universo das Alagoas. Ele que principia seu texto com um terno oferecimento à Clarinha, termina com uma firme nota de protesto quanto às incorretas informações sobre Alagoas, dadas por um livro intitulado Geographia Brasílica.  

Moira debate a interferência da má informação sobre a juventude e, então, sente a obrigação de dar sua contribuição refazendo o que era dito sobre Alagoas pelo autor da Geographia mencionada. A informação deveria ser a mais correta possível e, nisto, jamais poderia deixar de manter o senso senhorial, mesmo que ele estivesse na categoria de imaginário.  Estava fechado o círculo de Hum Brasileiro, indo do doméstico ao público, com o primeiro simbolizado na Clarinha e o segundo na Geographia Brasilica.




Informes que repassa

            Moira intenta uma ampla descrição da província, intercalada com pequenas informações de natureza econômica. Chama a nossa atenção o fato de que, logo após ter dado os limites, cuide de informes com relação aos portos existentes, classificando-os a partir das embarcações que poderiam suportar, como brigues, escunas, sumacas, embarcações a vela. O brigue caracterizava-se por ter dois mastros redondos, com um inclinado. A sumaca foi o substituto do caravelão de costa, o smak holandês que depois torna-se esmaca e, então sumaca. Era fundamental, logo de início, falar das disponibilidades de pontos para o afunilamento da produção e Moira enfatizará a enseada de Jaraguá.

            Será um relato em que pouco pesarão o semi-árido e o sertão: os dois grandes elementos fisiográficos serão a mata e o litoral, os dois pontos propriamente açucareiros do território. O termo que utiliza para caracterização de toda a província é pingue. Trata-se de uma imagem para chamar a atenção para a fertilidade. É daí que, basicamente, somem sertão e semi-árido. Ele ressalta a mata, a floresta, a indicar riqueza das madeiras provenientes de árvores frondosas. Por outro lado, a água é posta em evidência pelos  cursos e lagoas. É quase como se fosse uma província descrita com a  metade territorial valendo como o todo. Das lagoas dará peso à de Jequiá, Manguaba e Mundaú e, dos rios,  destacará o São Francisco. As serras ou serrotas serão também de mata.

            Ele vê uma matriz de produção já assentada, com regiões de produção correspondendo a tipos de terras, modo de indicar sobre a relação existente  da produção com o ambiente. O açúcar será de terras ditas baixas e frescas; algodão e milho em enxutas e altas. Moira minimiza a função da pecuária. É uma visão que restringe a matriz de produção, esvaziando o couro e outros derivados que tinham, efetivamente, peso na pauta de exportação provincial.

            Na oportunidade,  a justiça provincial estava alocada em cinco comarcas, e nelas distruibuiam-se cerca de três cidades, doze vilas, sete povoações e dezoito arraiais. Do ponto de vista dos negócios eclesiásticos existiam 18 freguesias, que tinham correspondência com cidades e vilas,  existindo  apenas três soltas: Pioca, Camaragibe e São Bento. Era deste modo, por consequência, que se encontravam distribuidos territorialmente os serviços civis e religiosos.

            Não se pode dar absoluta validade  aos dados produzidos por Moira. Ele já se havia afastado de Alagoas e nem havia rigor na coleta de informações, mas sem dúvida traça um retrato a ser levado em consideração. Do ponto de vista da formação do complexo urbano no espaço alagoano, ele é básico. Não importa se as informações estão corretas; importa, isto sim, que ele enuncia portes e deixa antever as amarrações que vão sendo construídas a partir dos arraias às cidades, permitindo pensar-se, também, na qualidade da rede que estava a ser montada e faria o urbano de Alagoas, passando, inclusive e necessariamente, pelo sertão. Moira demonstra muito bem o que poderia àquela época ser considerado como Alagoas do Leste e do Oeste, a basicamente do açúcar e a basicamente do algodão e do gado, embora não avance sobre a pecuária.

            É importante verificar, também, o modo como a economia é enfocada. Como se observa amiúde na escrita oficial – e Moira não foge à regra -, a província é sempre vista em potencial: é a terra onde tudo poderá acontecer, uma eterna possibilidade, mas, na realidade, àquela época do Opúsculo, a matriz de produção de Alagoas já estava construída. Moira tem que ser enquadrado na dinâmica que se procedia, nas definições que iriam sendo feitas e, sobretudo, no impacto na ordem econômica que a reposição do fluxo de mão-de-obra representaria. Ele coloca um impasse singelo: escasseava a mão-de-obra escrava e não podia ser reposta por jornal. Ele entendia que o sistema poderia estar incorporando a força de trabalho indígena, mas dois motivos principais impediam: em primeiro lugar, a natureza era pródiga e, portanto, a alimentação era farta; em segundo lugar, os índios não mais se interessavam pelo jornal, em face de perda do controle que era exercido pelo sistema por intermédio das direções.  Moira então vai argumentar com a solução corrente à época, em face da necessidade de colonização: era preciso colônia, mas ela não poderia ser unicamente exótica. Toma partido, por consequência, da solução, também,  com nacionais.



            Ele tece comentários sobre três pontos sempre demarcados pela historiografia alagoana: o bispo Sardinha, o quilombo e o cabano.  O bispo é ensaiado na faina da selvageria, sendo comentado brevemente na medida em que Moira se refere à Barra de São Miguel. Quilombo e Cabanada jamais poderiam surgir sem estarem atrelados à vida do açúcar,  e nem os negros palmarinos e nem os cabanos poderiam ser vistos como forças políticas.

            Chama atenção o atencioso olhar de Moira para os costumes. Ele passa pela lenda, pelo folguedo e pelo Natal. A lenda nos leva à Barra de São Miguel, o folguedo nos leva ao Quilombo e, finalmente, o natal às margens do São Francisco, no arraial do Piaçabuçu. Não deixa de ser  interessante encontrar estes recortes ao longo de um texto que busca especificar o que é próprio do local.           Uma leitura atenta de Moira dará noção sobre o modo como se poderia conceber Alagoas, em diversos setores, praticamente na metade do século XIX. Aliás, ele apresentou uma Falla e Relatório à Asssembléia Provincial em 10 de janeiro de 1836 (2006), quando substituiu a José Joaquim Machado de Oliveira.  Publicou seu Opúsculo  cerca de oito anos após esta Fala e, como seria de esperar, incorpora sua experiência passada na Presidência da Província, cargo no qual passou pouco tempo.  Não é oportunidade de repassar toda a ciscunstância vivida por Moira, especialmente com a chamada Guerra dos Cabanos, sobre a qual escreve algumas páginas no Opúsculo.
D’Oliveira, seu antecessor na presidência,  menciona a guerra dos cabanos onde encontra hordas de salteadores, irracionais, magotes de salteadores, ferozes canibais... Jamais os cabanos poderiam estar sendo vistos como sujeitos políticos de um processo cuja tensão havia explodido e levado à prolongada luta armada. O que parecia extinção, havia trazido, agora, o perigo de tudo estar sendo reaceso em face dos acontecimentos que se davam em Pernambuco.  O poder fundamentou esta visão de bandidagem  e ela deveria permanecer no legado da escrita histórica, o que vai ser rompido por Manoel Correia de Andrade, quase um século depois.

Terminando a encomenda

Uma leitura de Moira levanta aspectos relevantes sobre um período da história de Alagoas. Ele não pode ser dimensionado somente pelo que afirma, mas sobretudo por seus pontos de partida, pelas suas construções, pelos seus silêncios e sugestões. Esperamos que esta pequena introdução ajude a construir uma boa leitura do documento, imprescindível para a pesquisa em diversas áreas sobre nosso Estado. Claro que poderíamos ter abordado uma vasta linha  de aspectos particulares, mas preferimos assumir uma passagem por uma linha de fronteira, onde estivesse melhor demarcado o compromisso entre texto e ideologia na abertura de uma ciência do social, a partir dos rumos assumidos pelo autor dentro do universo do poder.

Referências


ALMEIDA, Luiz Sávio de (org.). Dois textos alagoanos exemplares. Maceió: FUNESA, 2004.

BACZKO, Bronislaw.  Imaginação social. In: ROMANO, Ruggiero (org.). Enciclopédia Einaudi. Lisboa: Imprensa Nacional; Casa da Moeda, 1985. v. 5.

BRANDÃO, Gildo Marçal. Linhagens do pensamento político brasileiro. São Paulo, Editora Hucitec, 2007.

CALLARI, Cláudia Regina. Os Institutos Históricos: do Patronato de D. Pedro II à construção do Tiradentes. Revista Brasileira de História, São Paulo, v. 21, nº 40, 2001. Disponível: Scielo. Acessado: 02 ag. 2008.

DUARTE, Abelardo. A primeira Geografia alagoana (em torno de um centenário de sua publicação). Revista do Instituto Histórico e Geográfico de Alagoas, Maceió,  v. 24, nº 46,  p. 47-65.

LINDOSO, Dirceu. Interpretação da Província. 2ª ed. Maceió: EDUFAL, 2005, p. 36.

MOIRA, Antônio Joaquim de.  Falla, e Relatório com que abriu a segunda sessão ordinária da Assembléia Legislativa da Província das Alagoas, o Presidente da mesma província Antônio Joaquim de Moira em 10 de janeiro de 1836. Maceió: João Simplício da Silva Maia, 1836. In: BARROS, Luiz Nogueira (Org.). Fallas, Relatórios Provinciais e Mensagens Governamentais de Alagoas: 1835-1930. Volume I Março 1835 – Abril 1853. Maceió: Imprensa Oficial, 2006. Disponível, também,   no site Brazilian Government Document Digitization Project: http://www.crl.edu/content.asp?l1=4&l2=18&l3=33.

POLAK, Michael. Memória, esquecimento, silêncio. Rio de Janeiro, Estudos Históricos, Rio de Janeiro, vol. 2, n. 3, 1989, p. 3-15.

REZINK, Luiz. Qual o lugar da história local? Disponível em www. historialocal. com. br. Acessado:  02 agt. 2008.

ROCHA,  José Maria Tenório. Moira, o desconhecido autor da primeira história de Alagoas. Revista do Instituto Histórico e Geográfico de Alagoas, Maceió, v. XLIV, p. 103-108.