quarta-feira, 28 de dezembro de 2011

[URBANISMO: MACEIÓ: MIRANTE: PAISAGEM] Cynthia Nunes da Rocha Fortes. As casas-mirante da Ladeira da Catedral: o olhar e a paisagem







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ESTE FOI O PRIMEIRO ARTIGO PUBLICADO EM ESPAÇO


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FORTES,  Cynthia Nunes da Rocha. 
As casas-mirante da Ladeira da Catedral: o olhar e a paisagem. O Jornal, Maceió, 14 set. 2008.
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Umas poucas palavras

Luiz Sávio de Almeida

 Iniciamos Espaço com texto de jovem pesquisadora dedicada ao entendimento do  processo de urbanização de Maceió e, atualmente,  cursando o Mestrado Dinâmicas do Espaço Habitado da Ufal. A abordagem é interessante  e  pelas modificações acontecidas em determinado processo de construção do espaço.  
Trabalho de pesquisadora em forma
ção aborda temática sui generis no conjunto 

de estudos elaborados sobre Maceió. 
Aliás, a preocupação atual de Cynthia é 
com a condição das ladeiras associada ao 
desenho urbano de Maceió, à montagem 
da área especifica do bairro do Farol. 
tema da Ladeira da Catedral foi abordado 
em seu trabalho de conclusão de curso, 
orientado pela Professora Dra. Josemary 
Ferrare que fez a gentileza de ler e opinar 
sobre este texto que publicamos e 
que, também, recebeu nossa orientação 
ao ser apresentado à disciplina que ministro 
no mestrado mencionado.

Há muito trabalho importante produzido pelos estudantes em Alagoas e a grande maioria dorme nas prateleiras.  Espaço tentará recuperar alguns, trazendo a público material interessante e de bom nível, capaz de demonstrar como vai se modificando o perfil do intelectual e do cientista em nossa terra. No campo da formação de sua inteligência, Alagoas sem dúvida tem se modificado e para melhor.  Espaço tenta manter uma linguagem entre o acadêmico e a divulgação, o que não é fácil. Iremos aprendendo, mas jamais os textos desta espécie ficarão livres de cacoetes acadêmico o que, necessariamente, não é mau, mas, sem dúvida, o leitor deve estar atento ao fato.





O que Cynthia faz


      Arquiteta e Urbanista pela Ufal, mestranda do Programa de Pós-Graduação Dinâmicas do Espaço Habitado - DEHA/Ufal. Participou em 2007 da equipe executora do Inventário do Patrimônio Arquitetônico na Sede Urbana de Porto de Pedras. Atualmente é integrante do Grupo de Pesquisa Representações do Lugar (Relu) da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Ufal, desenvolvendo projetos de pesquisa para compor um banco de projetos para o Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional - Iphan 17ªSR (Alagoas). Foi finalista regional do 20º Concurso Nacional de Trabalhos Finais de Graduação em Arquitetura e Urbanismo Ópera Prima 2008, com o trabalho orientado pela prof.ª Josemary Ferrare e intitulado O Registro da Memória e o Exercício do Olhar na Ladeira da Catedral e suas "Casas-mirante", que serviu de base fundamental para este texto, apresentado à disciplina Formação do Espaço Alagoano, ministrada pelo Professor Luiz Sávio de Almeida e sob sua orientação.


As casas-mirante da Ladeira da Catedral: o olhar e a paisagem

Cynthia Nunes da Rocha Fortes










Paisagem, sujeito e coletividade

Todos os sentidos são fundamentais e cada um cumpre uma determinada função. Considerando o olhar, Cullen (1983) afirma que a localização do observador desempenha papel fundamental na apreensão da paisagem. A partir dessas observações podemos desvendar a singularidade das paisagens e, em nosso caso, a que se refere à Ladeira da Catedral. A sua posição topográfica de intermediação entre dois planos produz espaços privados (casas) e públicos (mirantes), capazes de possibilitarem captação panorâmica da paisagem litorânea. Fosse no século XIX, seria lugar privilegiado para  ver a que o  missionário Kidder, de passagem por Maceió,  considerou como mais bela do que a visão dos mares do sul.

É na simultaneidade de estar ali e de estar além que se pode desfrutar da paisagem. É essa contemplação que revela a forma típica de ela ser para o sujeito, que, ao apreendê-la sob o aspecto visual, culturalizando-a, estabelece relações de posse e reconhecimento. Em função desse processo de culturalização,  a paisagem deve, também, ser compreendida a partir das experiências individuais e coletivas dos seus observadores. Como diz Sandevile Júnior (2004, p. 2), “[...] o melhor modo de começar o estudo de uma paisagem [...] está [...] no reconhecimento que a traz para  o   universo da cultura e concebe seu sentido dependente de experiências partilhadas”.

A Ladeira proporciona visão de parte da orla de Maceió e refere-se à estreita relação que as cidades litorâneas e seus habitantes têm com o mar. Esta relação varia historicamente. É o que se deu com a área onde se consolidará a idéia urbana de uma ladeira a chamar-se da Catedral; e neste movimento histórico, o antigo Farol foi elemento fundamental pela função econômica e pelo fato de ter nucleado população, dando-lhe unidade. A Ladeira vai se tornar um traço urbano de ligação entre uma região consolidada e uma área de expansão, o Alto do Jacutinga, que será posteriormente conhecido como bairro do Farol. A condição de eixo urbano começa a estruturar-se  a partir dos inícios do século XX.






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 A Ladeira da Catedral

Todos os sentidos são fundamentais e cada um cumpre uma determinada função. Considerando o olhar, Cullen (1983) afirma que a localização do observador desempenha papel fundamental na apreensão da paisagem. A partir dessas observações podemos desvendar a singularidade das paisagens e, em nosso caso, a que se refere à Ladeira da Catedral. A sua posição topográfica de intermediação entre dois planos produz espaços privados (casas) e públicos (mirantes), capazes de possibilitarem captação panorâmica da paisagem litorânea. Fosse no século XIX, seria lugar privilegiado para  ver a que o  missionário Kidder, de passagem por Maceió,  considerou como mais bela do que a visão dos mares do sul.

É na simultaneidade de estar ali e de estar além que se pode desfrutar da paisagem. É essa contemplação que revela a forma típica de ela ser para o sujeito, que, ao apreendê-la sob o aspecto visual, culturalizando-a, estabelece relações de posse e reconhecimento. Em função desse processo de culturalização,  a paisagem deve, também, ser compreendida a partir das experiências individuais e coletivas dos seus observadores. Como diz Sandevile Júnior (2004, p. 2), “[...] o melhor modo de começar o estudo de uma paisagem [...] está [...] no reconhecimento que a traz para  o   universo da cultura e concebe seu sentido dependente de experiências partilhadas”.

A Ladeira proporciona visão de parte da orla de Maceió e refere-se à estreita relação que as cidades litorâneas e seus habitantes têm com o mar. Esta relação varia historicamente. É o que se deu com a área onde se consolidará a idéia urbana de uma ladeira a chamar-se da Catedral; e neste movimento histórico, o antigo Farol foi elemento fundamental pela função econômica e pelo fato de ter nucleado população, dando-lhe unidade. A Ladeira vai se tornar um traço urbano de ligação entre uma região consolidada e uma área de expansão, o Alto do Jacutinga, que será posteriormente conhecido como bairro do Farol. A condição de eixo urbano começa a estruturar-se  a partir dos inícios do século XX.

Sabe-se que terras no Planalto do Jacutinga pertenceram a Bento Ferreira Guimarães e à sua esposa, com parte doada ao Governo Imperial em 1834 para construção do farol e fortificações necessárias à defesa da vila, segundo Lima Júnior em seu livro O Planalto do Jacutinga,  Publicado em 1974. Possivelmente não ocorria densidade de habitações no planalto e, ainda de acordo com o autor mencionado, não constavam ruas em relação dos logradouros da cidade datada de 30 de abril de 1869.

Adentrando o século XX, o Jacutinga ainda não havia densamente sido povoado na década inicial do século XX. As primeiras ruas abertas no planalto do Jacutinga . seguindo Lima Júnior na mesma obra . parecem ter sido a do Arame (Ângelo Neto), a das Vacas (Comendador Palmeira), a do Seeger (Aristeu de Andrade) e a São Gonçalo (Oswaldo Sarmento); ele Considerava que a primeira Ladeira foi a do Farol, por dá acesso a essas ruas. A ocupação da Ladeira que configurou o seu atual perfil ocorreu basicamente durante o século XX. No anterior, esta ocupação resumia-se a casebres, às casas dos faroleiros e ao antigo paiol.



A continuidade do processo de ocupação da área da Ladeira da Catedral levou a que o lado esquerdo de quem sobe fosse marcado por lotes pequenos e estreitos, enquanto o oposto, por lotes de grande testada e profundidade.

Através da análise do perfil atual do espaço edificado na Ladeira observa-se que a tipologia das casas do lado oposto à encosta corresponde, em sua maioria, a um pavimento, enquanto as do lado da encosta, com vista para o mar, encontram-se .soltas. nos lotes. A construção alinhada com a rua, sobre os limites laterais do lote, coladas com as vizinhas e no fundo do terreno, a presença de quintais são características do século XVIII e início do século XIX.

Reconhecidamente,de acordo com Reis Filho (2004) esta forma de implantação vem da tradição portuguesa, baseada no urbanismo medieval-renascentista. Com efeito, alguns elementos arquitetônicos nas fachadas de casas no lado oposto à encosta, construídas ou reformadas no século XX, são tipicamente do Segundo Império, embora apresentem partido de meia-morada, compatível com suas fachadas de porta e janela, produto de características de implantação no lote típica do legado da colonização portuguesa. É o caso do que era chamado .Vila Gerbásio. e da casa que existiu no lugar do prédio da Associação dos Servidores da  Secretaria Executiva da Fazenda (ASSEFAZ), antiga residência com entrada lateral e alpendre, características das habitações do Segundo Império. Outras, apesar de manterem a forma de implantação, parecem ter tido suas fachadas reformadas para se atualizarem aos novos tempos, apresentando composições geométricas em um estilo limpo em adornos.

Dá-se o contrário com as edificações que se situam do lado da encosta, que são em geral limpas e/ou muradas, sendo notadamente modernas, o que é comprovado pela implantação a partir da década de 1950, após o desmoronamento da barreira. Este fato é exemplificado pela presença de uma das obras de arquitetura moderna do desenhista José Nobre, de grande atuação e renome na cidade durante as décadas de 1950 e 1960, de acordo com Silva (1991), Estamos mencionando a antiga residência de JoséLoyola, datada de 1959.




A CATÁSTROFE DE 1949: um marco temporal para a Ladeira


Grosso modo, poder-se-ia dizer que existe uma Ladeira da Catedral antes e uma depois de 1949, especialmente falando no que toca ao espaço edificado, pois no dia 19 de maio deste mesmo ano, chuvas torrenciais caíram em Alagoas, levando Maceió a viver uma das suas mais marcantes tragédias. Resultado dessa catástrofe foi a transferência do antigo farol para o bairro do Jacintinho, sendo inaugurado em 1951.

Em documento por nós obtido na Capitania dos Portos de Maceió consta que, após a transferência do Farol, em 1953, o Ministro da Marinha foi a Maceió encontrar o Governador do Estado para tratar das questões referentes ao terreno da Marinha onde esteve o farol que, diante da tromba d´agua, perdeu sua função. Após o encontro ficou decidido que o terreno da Marinha deveria ser aplanado para a segurança dos moradores e fins urbanísticos.



Os Mirantes e a Ladeira

Os mirantes são um dos tipos de espaço urbano onde se processa a culturalização da paisagem e se ganha o sentido público. Notadamente, o São Gonçalo e a Praça Rosalvo Ribeiro foram . durante a segunda metade do século XIX . lugares da união do sagrado e profano, palco da tradicional festa de São Gonçalo do Amarante. As modificações acontecidas  a economia, cultura e sociedade maceioense mudaram o sentido dos mirantes e dos usos, pesando para isso, inclusive, a acentuada violência urbana e a falta de manutenção por parte da administração da cidade. O Mirante de São Gonçalo é o mais visitado por turistas que mobilizam pequenos comerciantes informais a se instalarem na Praça Rosalvo Ribeiro. Já o Mirante da Praça Dom Ranulpho tornou-se ocioso. São poucos os que o utilizam durante o dia, ficando o local, durante a noite, à mercê da violência.

Contrariamente, conta Dilma Fortes, ex-moradora da Ladeira na década de 1960, que o  Mirante D. Ranulpho foi um espaço .vivo. onde as crianças costumavam ir brincar, os adultos apreciarem  a paisagem e casais, namorar. É semelhante ao relato de Salete Santos Campos de Lima, também ex-moradora, ao afirmar que a praça D. Ranulpho era utilizada pelos estudantes dos colégios do Farol para namorar: Era, porque os estudantes desciam pra ir ali namorar. Era! Iam namorar... E ainda quando não tinha muito ladrão, muito cheira cola, muito assaltante, os carros paravam, ficavam namorando. Era o motel das estrelas (risos). Paravam ali e o casal de namorados ficava no carro. Hoje quem for ficar, já viu!





Relações entre espaço e a captação da paisagem


Antes da existência do Mirante D. Ranulpho, por servir como espaço público, o antigo Farol foi também local de lazer, quando observar a paisagem fazia parte do cotidiano; e em seguida à sua demolição, o espaço do mirante que surgiu após a tromba d.água de 1949 funcionou da mesma forma que o antigo farol, não deixando de ser um espaço público de captação da  paisagem, mesmo que por poucos e de forma esporádica. Entretanto, faltava-lhe o ícone.

Como o lado da encosta da ladeira propriamente dita somente foi ocupado após 1955, ano da demolição da base do Farol, as casas do lado contrário tinham, em parte, vista para o mar, devido à grande barreira em que se encontrava implantado o antigo farol. A captação da paisagem se fazia a partir das janelas do segundo pavimento ou então a partir do primeiro, pois ele se encontra em nível superior ao da Ladeira na maior parte das edificações.

Este perfil da ladeira foi alterado com a implantação de novas residências no lado da encosta, quando a barreira foi planada. Ainda assim, as casas do lado oposto à encosta continuaram tendo vista para o mar. Entretanto, em um outro momento, como algumas casas do lado da encosta ganharam mais um pavimento, a captação da paisagem foi comprometida para os moradores das casas do lado oposto à encosta. As casas do lado da encosta têm a seu favor a forma de implantação “solta”no lote, como recurso de captação da paisagem, graças ao tamanho dos terrenos, de grande testada, que geram espaços externos favorecedores de uma apreciação da paisagem sem obstáculos visuais, somando-se a vantagem de localização na borda do tabuleiro. O grande número de janelas e a presença de varandas e terraços que compõem as fachadas que ficam no fundo dos lotes são outros indícios de que os projetos dessas edificações levaram em consideração a paisagem, que poderia ser potencialmente captada.

A geomorfologia característica do sítio permitiu que grande parte dos quintais das casas do lado oposto à encosta estivesse num patamar mais alto que a casa, constituindo-se assim pequenas  barreiras. Esta posição foi aproveitada por alguns moradores ou familiares para apreciar a vista do mar no passado, mas hoje o quintal é pouco utilizado, pois boa parte se transformou na área de serviço da casa ou, mesmo, eliminou-se a declividade para a construção de edículas.

Dessas análises conclui-se que a casa é também lugar privilegiado de culturalização da paisagem litorânea, tanto no lado da encosta quanto no contrário, sendo a captação da paisagem nela privatizada. Há, inclusive, uma lógica de aproveitamento e um andamento histórico em todo este processo. Diz um morador, quando perguntado se usava o  mirante:

Não, não. Veja aqui, que ao lado da minha casa. Isso aqui tem um mirante. Aí o mirante da casa tem uma vista melhor do que o dali da praça. Então pra quê! Então quando eu quero, eu boto uma mesinha, numa  noite de lua cheia, fico conversando com minha esposa. Às vezes se toma um vinho, se toma uma cerveja, come-se um churrasco.[...] Fica-se namorando olhando pra praia, pro mar.






terça-feira, 27 de dezembro de 2011

[TEMÁTICA INDÍGENA: PRODUÇÃO ACADÊMICA: UNIVERSIDADE: ALAGOAS] Luiz Sávio de Almeida. Indígenas e historiografia em Alagoas

 Esta matéria foi publicada em O Jornal, junho de 2008

            A semana passada estive na  Universidade Federal de Campina Grande para participar de seminário patrocinado pelo Laboratório de Estudos em Movimentos Étnicos e que tratava sobre Indígenas e Quilombolas: Perspectivas Cruzadas. Participei de uma mesa de trabalho sobre História Indígena e tratei do caso de Alagoas, tentando ser necessariamente provocativo para que fôssemos um caso a possibilitar reflexão sobre o Nordeste.  Talvez por acaso, atingi o problema, mostrando que o crescimento dos estudos indígenas em Alagoas tem ocorridop or via das ciências sociais e, por outro lado, a historiografia tem se mantidoa pática. Na verdade, comparando as produções nas duas áreas, a historiografiat em sido insignificante.

            Quala razão? Difícil de responder.  O fato é ue os índios foram retomados em Alagoas pelas ciências sociais, o que ficac laro, desde a redemocratização, ao aparecerem os trabalhos pioneiros de Clóvis Antunes e Vera Calheiros, com o primeiro contendo maior tônica política e as egunda enquadrando-se com maior propriedade na área acadêmica,  desde que se doutorou  com temática relativa aos Kariri-Xocó do PortoReal do Colégio.  A retomada veio acompanhada de  acentuada mudança no modo de ver e de encarar os índios.  Os estudos anteriores eram determinados pela visão do índio sem posição na correlação de força política,  herdeiros que eram das vertentes historiográficas de Caroata e Dias Cabral.

Os estudos posteriores entenderam-se como participantes da própria luta política dos povos indígena sem busca de nova posição, face ao contexto da chamada sociedade nacional. As ciências sociais em Alagoas captaram este momento, mas a historiografia não, o que se deve, talvez, ao perfil ideológico presente nos dois grupos: uma ciência social politicamente avançada e de compromissos com a própria redemoctaização e uma historiografia conservadora, sem maior compromisso com a transformação quese dava, o que transperecia nos momentos políticos internos do CHLA na UFAL. É preciso ter cautela com estas colocações, pois as generalizações podem ser njustas.

Por outro lado,  a história cuidou menos de  se renovar do que as ciências sociais; a pós-graduação chegou bem mais cedo no âmbito da sociologia,  da política,  da antropologia.  Evidentemente,  isto não é determinante,  mas interfere significativamente, de modo que se deram dois contextos distintos com relação aos estudos relativos a índios.  Uma pessoa fundamental na incorporação do índio ao cotidiano da Universidade foi a professora Sílvia Martins que marcou presença junto aos alunos e mantém um grupo vivo, já tendo encaminhado estudantes para a pós-graduação. Hoje a Universidade conta com pelo menos três grupos ligados aos índios. Cada um contribui e, de certa forma, a Universidade Federalde Alagoas é, possivelmente, a que mais tem produzido sobre o assunto no Nordeste.

Pesam nomes  como Clarisse, Sílvia,  Siloé, Nascimentoe outros tantos, inclusive, com ampliação para o campo da saúde. No  momento, parece-nos alto o interesse da área de Nutrição quanto aos índios, na medida em que trabalha a questão da segurança alimentar. Anteriormente, esta preocupação foi notável na área da medicina, coma contribuição extraordinária da Dra. Rosana Vilela. É  que as ciências sociais souberam – ao cresceramno campo indigenista-  manter diálogo com outras áreas da universidade, enquanto a história permaneceu enquistada. Há uma esperança: o que vem  sendo organizado cientificamente nos campi da UFAL e da UNEAL.  Quem sabe conseguirão que a história se engaje? É possível, não resta dúvida.

[HISTÓRIA: MEMÓRIA: CEMITÉRIO: PALMEIRA DOS íNDIOS: ALAGOAS] Luiz Sávio de Almeida. Graciliano Ramos, o cemitério e a Maria Topada

Este artigo foi publicado em O Jornal, no mês de junho de 2008



            Sempre tive curiosidade sobre o cemitério de Palmeira, por conta dos famosos relatórios do Graciliano Ramos. Tenho dois tios enterrados no São Gonçalo (Joel e Júlio Calisto), mas enterro de parente não possibilita a busca dos réis do prefeito.  Ontem fui a Palmeira  para ver o cemitériodo Graciliano  e  fui na companhia do Ricardo Amorim, o bom doutor em meteorologia,  Fernando Rizzotto, o bom designer, Isaias, o bom motorista e Capelo, o bom fotógrafo. Estava na companhia de homens bons: anda com os bons e serás um deles. Nunca consegui ser.



Palmeira dos Índios

A Capela dos meus pais
 No caminho, a parada para ver o leito doParaíba nos lados do Escuro, carroças mergulhadas na água e animais morrendo sob o peso indomável da areia molhada. Na Viçosa, o local da casa do pai do Graciliano;  depois, marchar e ver um pouco do que teria sido Quebrangulo e rever a casa de meus pais, o local ondef uncionava o Atheneu Quebrangulense, invenção grecobrangulense do meu pai, o velho Manoel de Almeida, professor de nomeada na região.  No meio do caminho, a necessária passagem por Capela, o cumprimento às águas encachoeiradinhas do Paraíba, a demanda ao reino do Cajueiro, a parada no Escuro.

 O cemitério de Palmeira é emendado: o velho com o novo. A parte antiga é para cima e a parte para baixo é nova. Existe vestígio do antigo muro, espécie de estemunho: pequena enfieira de catacumbas. Ali, maravilhosos túmulos-igreja surgem do encantado da morte,  com três exemplares que a prefeitura deveria conservar.  Estamos no campo da arte e  arquitetura cemiterias, coisa que lembra um velho e falecido amigo,  o Clarival do Prado Valadares, especialista no assunto.

Conversa vai e vem, conheci a figura notável que é a coveira Neuza, simpática,  agradável no meio dos corredores de túmulo.  Veio dos lados de Pão de Açúcar tangida pela seca e agarrada ao marido.  Ele virou coveiro e foi querendo adoecer e terminou doente e findou morrendo. Ela foi ajudá-lo: uma coisinha aqui e outra ali, terminou cavando cova. Virou viúva e,com toda a justiça, ficou no lugar do marido ocupando a vaga existente.

O bom amigo Clarival
Nenhum os coveiros até aquele momento havia cumprimentado alguma assombração.  Como a maioria dos cemitérios, os mortos ficamem paz.  Neuza me disse que  a situação mais triste por ela presenciada foi a chegada de corpos despadaçados em desastre na Serra da Pia. Pedaços lançados na cova aberta, pessoas espatifadas. Neuza jamais esqueceu, mas, na realidade,  foi difícil lembrar-se de ter ocorrido uma situação triste, como se a convivência com a morte a fizesse separar-se da imensidão de dor que  passou por perto dos seus olhos.

            Mais depressa, lembrou-se de história engraçada dos mundos do São Gonçalo. MariaTopada entrou bêbeda,  foi andando e desviando das covas por aqui e por acolá. Viu um lugar bom, deitou,  dormiu. Os coveiros não viram Maria Topada, trancaram o portão e saíram por volta das cinco horas da tarde. Ela acordou pelas cinco da manhã e o portão trancado. Ficou na espera de um salvador e nisto veio o pãozeiro com o balaio na cabeça. Quando ele passou pelo portão, Maria Topada disse agoniada: "Me tire daqui!". O pãozeiro saiu correndo até o açude,  em um derrubar  balaio do pão até chegar e lá embaixo. O açude nada entendeu, mas o pãozeiro caiu e quebrou a padaria como diriam os antigos.

[HISTÓRIA: MEMÓRIA: GEOGRAFIA: IMAGINÁRIO: BANHOS: MACEIÓ] Luiz Sávio de Almeida. A hidrografia saudosa da bela Maceió




Esta matéria foi publicada em O Jornal em 2008




            Faz tempo que procuro lembrar de alguns lugares desta Maceió. Parece que se invultaram...  Sei que ainda existem, mas não sei por onde continuam a começar e a terminar, com novos nomes e novas paisagens;  mesmo sumidos, estão em mim, pegados como o inexorável da recordação. Por onde passava a velha estrada do contrabando? Por onde se entrava para Duas Bocas?  Não sei mais!  E, aliás, nunca soube direito que contrabando era esse... Talvez barriga branca, como chamavam o saco de açúcar sem marcação. E ainda martela a pergunta sobre as Duas Bocas... Seria um antigo engenho pertencente ao território da Comarca de Maceió?

O asfalto, as casas, as construções atropelam a lembrança; o novo embaraça o velho, o urbano se faz e refaz, significações acontecem e às vezes espantam pelo inusitado.

Tudo mudou, a rodagem mudou, a pista mudou, as entradas mudaram e eu mesmo mudei.

Há um senso grego nesta minha cisma: ninguém toma banho duas vezes no mesmo rio, princípio da contradição: o ser não é, está sendo. É espantoso como o princípio está arraigado no prosaico da vida, na feitura do cotidiano. Eis que tudo mudou na Maceió que me viu nascer, em plena noite de guerra e no mais escuro e acautelador black-out.

Tenho para mim que as estradas deveriam seguir para os lados atuais do Benedito Bentes, pegar os rumos da Cachoeira do Meirim e talvez caminharem para os lados da Saúde. Elas seguiam em busca do litoral, como as águas do riacho da Caveira, vez em quando por mim freqüentado. Nada melhor do que a água fria de riacho em tempo quente: estimula e naquela era não havia poluição, com a gente se molhando no que era cristalino, vendo piabas fugidias a correrem em bando pelas beiradas do leito estreito.

Maceió possuía banhos de bom calibre. O Banho da Grota da Caveira me deu  namoros. Ali pelos lados da Serraria existiam lugares de primeira: o Banho da Grota da Palha que ficava pelos lados do Ecopark; o da Caveira nas bandas do Benedito II; o Poço Azul pelos lados do atual Jardim Petrópolis; o Banho do Rio do Meio anda absolutamente poluído nas vizinhanças do Bendito I.  Penso que persiste o Banho do Pratagy. Parece que havia, também, o Banho do Rio da Prata.

A saudade do banhos bateu quando estava numa conversa com dois amigos: o José Mário Barbosade Lima e o Isaías Batista de Lima conhecedores dos meandros do Tabuleiro, motoristas profissionais, acostumados a andarem de farol alto ou baixo pelo mundo e carregando cargas e cargas, com o primeiro jogando caçambas de areia de praia nas terras do Stela Maris e o segundo carregando material de construção na mesma área.

Chego a ver a água branca, a areia que parecia efetivamente lavada; nada daquela laminha chata. Nada de isopor e de isonor; a garrafa ficava na água que dava conta de esfriar. Nunca fui de cerveja; sempre achei que ninguém bebe cerveja: urina-se.Sempre gostei de uma cachaça e com caju sempre foi especial.  Hoje, chego perto apenas do caju. Cajarana também era gosto fino e combinava. Água, caju, cachaça e companhia eram coisas do bom e do melhor. Como diriam os antigos, eram da pontinha da orelha, tudo azul.

Andei por umbanho na Mata do Rolo e andei no Catolé. O Catolé era soberbo, bem tratado,  a piscina de pedra, a sensação do mergulho...Mas a Grota da Caveira e seu riacho eram o mais bom do mais melhor. O chato eraapenas a ladeira, mas somente na subida pois na descida todos os santos ajudavam.Ao subir era preciso ser cavalheiro e dar a mão e ao descer era o desembestoabraçado.  Moral da história: p'ra baixotodo santo, realmente, ajuda, mesmo que exista uma caveira e seja estranha anamorada.

[HISTÓRIA: POLÍTICA: LEGISLATIVO: CRISE: ALAGOAS] Luiz Sávio de Almeida. O Poder Legislativo deve sair fortalecido!

Esta mantéria foi publicada em O Jornal em 2008





 



As coisas sempre devem estar em seus devidos lugares;  é importante verificara distinção entre Assembléia Legislativa e Poder Legislativo.  Ela é  parte da estrutura do Estado. O PoderLegislativo é sustentação da democracia,  não podendo ser confundido com o que se faz com a Assembléia e jamais se poderia pensar que tudo o que se faz numa Assembléia expresse, obrigatoriamente,  este Poder.     Esta é uma diferença que, embora óbvia, deve ser examinada com cuidado.  O Poder Legislativo tem que ser preservado; sem ele inexiste a possibilidade de democracia. O que se deseja é a existência de uma Assembléia que responda à sustentação democrática expressando a integridade constitucional do Poder.

Numa democracia, as crises são por demais importantes e as soluções encontradas devem consolidar o caminho do futuro estadual. Desta crise, a imagem do Legislativo tem que sair fortalecida. Há diferença entre uma Assembléia Legislativa configurada constitucionalmente e a prática que nela se pode realizar. Jamais se poderia entender que desmandos sejam praticados pela Assembléia Legislativa do Estado de Alagoas, sendo fácil entender a possibilidade de que desmandos sejam cometidos na Assembléia que opera em Alagoas. Há uma diferença singular e radical. Se por ventura uma administração chega a praticar ilícitos, isto não seria imputável nem ao Poder  e nem à Assembléia.  Pelo contrário: eles seriam prática antilegislativo, pelo fato de que ele é o poder responsável pelo que se deve qualificar como legítimo. 



Deve sempre ser questionado o que se faz na Assembléia, o que faz o Deputado, pois é quem monta a performance histórica da instituição. Nossa prática de Assembléia deve ser radicalmente criticada, ela mesma – a prática – eivada de fraude logo na primeira eleição que ocorreu no século XIX, dando-se movimento de grande proporção contra alguns dos eleitos. Aliás, foi convocada segunda eleição em face da reação de Câmaras; nem todos os primeiros eleitos foram mantidos.

O que está em jogo é a forma de administração de uma Assembléia com indicações de ilegalidade, robustas o suficiente para gerarem situação a ser esclarecida pelo judiciário, Poder que fala quanto à legitimidade das circunstâncias.  A Polícia Federal é apenas uma forma de intermediação, um instrumento, no caso, do Executivo da órbita federal. Ela não decide: instrumentaliza, apóia. Jamais poderia ir além disto.

            Estes comentários decorrem de conversa com um motorista de taxi, que  se referiu a mote muito escutado atualmente.  Estávamos em corrida e uma notícia invadiu o taxi. Ele  disse: "Por isto que não voto mais!". Eu ri e retruquei: "Talvez por isto meu amigo, é que o senhor jamais deva deixar de votar!". E fiquei pensando como a população estaria reagindo, o que estava passando na cabeça do chamado povão. Não sei! Sei apenas que a Assembléia Legislativa do Estado de Alagoas deve ser preservada  Ela não é uma fraude, podem fraudar, minimizar a função, mas a dignidade da representação direta do Legislativo é matéria intocável.   O Poder Legislativo é fundamental na democracia. O cidadão tem que respeitar seu deputado e ele dar-se a respeito. Estamos diante de algo muito simples. Devo confessar, contudo, que tenho saudade do tempo em que se dizia Vossa Excelência com extremo orgulho. Uma grande Excelência foi Melo Mota, não importa o que pensava: importa a dignidade de ser e estar Deputado. Uma grande Excelência foi Dilton Simões e tem-se muitos nomes. O mundo não se resume à loucura da maldade nem ela qualifica e determina o político

HISTÓRIA: POLÍTICA: COMUNISMO: ALAGOAS: GRACILIANO RAMOS] Luiz Sávio de Almeida.A PRISÃO DE UM COMUNISTA QUE PROVAVELMENTE NÃO MILITAVA


Coleção Graciliano

ALMEIDA, Luiz Sávio de. A prisão de um comunista que provavelmente não militava. Graciliano, Maceió, nº 1, 2008

[HISTÓRIA: POLÍTICA: COMUNISMO: ALAGOAS: GRACILIANO RAMOS]


lA PRISÃO DE UM COMUNISTA QUE PROVAVELMENTE NÃO MILITAVA

Luiz Sávio de Almeida

             
           



 É praticamente demonstrado que o Partido Comunista se estruturouem Alagoas a partir de 1928, somando antigos anarquistas de 1919 e novos componentes. É em 1928 que se funda a primeira célula, na rua São José,residência de Américo Sapateiro que, posteriormente, irá pertencer à Ação Integralista. Antes, ocorriam contatos a partir de Recife e Bahia send possível que Américo  tenha realizado a coordenação que resultou na célulaem sua casa.  Após a greve de Jaraguá e dos demais acontecimentos que marcaram a história da esquerda em  Alagoas nos finais da segunda décadado século passado, o movimento operário, segundo apreciação de um jornal defeição comunista (editado esporadicamente, desde 1927) havia perdido força, especialmente após o controle – aduzimos - policial das reuniões operárias e dopacto entre maltistas e democratas para a derrota do socialismo, comungado após Jaragua. Este socialismo deveria ser liquidado em nome dos valoresda civilização cristã ocidental.

               O Proletário falava na necessidade de se retomar o movimento e mencionava o sucesso eleitoral de Otávio Brandão no Rio de Janeiro. O fato éque surge a célula na residência do Américo Sapateiro cuja militância  éconhecida desde 1910, quando pertencia aos quadros da Federação dosTrabalhadores. A célula era denominada AA e dela fazia parte Sérgio Pueirame,Presidente do Sindicato dos Trapicheiros e velho militante na esquerda,José Costa Neto que dirigia O Proletário, Olympio Santana também antigomilitante. Posteriormente, o Partido cresce o suficiente para que se tenha aeleição do primeiro Comitê Regional. Nesta oportunidade, tem-se um grandeproblema interno, pelo  fato de que Américo Sapateiro perde a secretariapara Horácio Gomes de Melo, afasta-se da organização mas continua aliado. Olympio Santana será tesoureiro e são montadas comissões: Juventude, Agrária, Mulher Trabalhadora. Horácio era  também sapateiro; paulatinamente Américo se afasta, passa a ligar-se ao sindicalismo governamental e posteriormente vai se filiar à Ação Integralista, fazendo parte de sua polícia secreta.
Mestre Graça

               A vida do Partido vai ser abalada em razão da Revolução de Trinta, mas ele temcondições de vida orgânica e secreta, emergindo com poder de fogo político noano de 1932, período de intensa disputa na área trabalhista pelas implicaçõesda política governamental na área sindical,  em choque com comunistas eindependentes. É por inspiração de governo que nasce em 1932 a Federação dosTrabalhadores de Alagoas, mas surge, também, a União Geral dos Trabalhadoresque, no dia 1º de Maio faz passeata. Em dezembro de 1932 começam as greves e osmovimentos que levarão a outra formidável ação policialesca, com o tradicionalprende-prende e deportação de liderança.

              
Zé Lins
            


O Partido se retrai, continua a 
Raquel
vida clandestina e viverá o clima de 1935.Antes, contudo,  a vida política de Alagoas ganha complexidade, quando seorganiza em Maceió, pela iniciativa de José Lins do Rego, a Ação Integralista.O encontro de Plínio Salgado, com a platéia alagoana foi realizado na Perseverança, presidido por Domingos Fazio Sobrinho, falando Moacir Palmeira e José Lins do Rego. Evidentemente, os confrontos eram permanentes e é no clima que se delineia depois de 1935 que vai se dar aprisão de Graciliano Ramos.

               Em nenhum momento, o nome de Graciliano aparece nas lutas políticas. Os nomes de intelectuais que se diziam ser comunistas eram  Alberto Passos Guimarães e Waldemar Cavalcanti. Em longas conversas comigo, Alberto jamais mencionou o nome de Graciliano Ramos como militante. Nem a Raquel de Queiroz (trotskista à época) falou de qualquer atividade partidária do Graciliano, e mantivemos alguns bons papos sobre Maceió, embora ela detestasse recordar aquela época pelo imenso sofrimento pessoal que viveu. Num dos papos, conta as versões  corridas sobre prisão de Graciliano e lança:  "Meu filho, somente diga estas coisas depois que eu morrer!".  Fiquei embaraçado, ela notou e arremessou o torpedo: "Fique tranquilo menino, eu morro logo!".  Começamos a rir e falei: "Então não me interessa saber. A conversa não tá gravada, como é que vou provar que você disse? Pode guardar para você as suas coisas!".  E rindo terminamos este telefonema.

         Na verdade, ela desejava fazer alusão ao que circulava: a) prisão por naturezapolítica ideológica; b) prisão em face da fofoca política ou perseguição pessoal; c) prisão em face de problemas pessoais.  Quem sabe tudo não semistura numa aura  que parece misteriosa? O fato é que o pessoal, o político ou ambos  conspiraram para que surgisse um texto que representaria as vidas de encarcerados, numa referência à memória dos que eramditos portadores de pensamento ilegal.  O fato é que, com relação à suaprisão, Graciliano contou o que desejava fosse sabido.



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Meu primeiro contato com Graciliano foi através de Memórias de Cárcere. Depois fuilendo devagar uma coleção editada, caso não me engane, pela José Olympio.Estava nos 17 para a frente. Anos depois, utilizava seus romances para debatercom os alunos temas de sociologia rural. Evidentemente, a escrita não reproduza realidade das vidas, mas Graciliano mergulha de tal maneira no cotidiano quesuas contradições surgem e foi a tensão presente na sua fala sobre arealidade que a ele até hoje me prendeu.

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[HISTÓRIA: MEMÓRIA: PENEDO/ALAGOAS] Luiz Sávio de Almeida, Minhas recordações de Penedo (I)




Matérias esparsas











Esta matéria foi publicada em O Jornal, Maceió, no mês de Dezembro de 2007
         


Não lembro quando cheguei; não recordo da primeira vez em que cumprimentei a cidade.Sei apenas que desci das nuvens em teço-teco, vindo de Pirapora, Minas Gerais,com meu pai  - funcionário do Banco do Brasil –, transferido para ocupar a função de Contador na Agencia. Desta viagem, restaram retalhos na minha cabeça, construções fantasiosas às vezes alimentadas, aqui e ali, por expressões imprecisas que foram ouvidas durante outras quadras de vida, gerando um universo de memória onde fantasia e realidade se encontram. 

         Sei que chegamos. Pelo que contava meu pai, o melhor hotel era o dos Viajantes, mas fizeram reserva no Brasil, um sobrado. Dele, lembro muito pouco. Meu pai falava das péssimas condições de hospedagem, da má vontade e do lançamento da família em quartos do térreo. No dia seguinte, o dono do hotel o teria visto no Banco do Brasil e logo tratou de nos acomodar no primeiro andar. Não sei quanto tempo passamos ali. 

         Ninguém de hoje, consegue imaginar o que seria uma mudança, naquela época ainda imprensada pela guerra. A bagagem demoraria a chegar e se transportava o mínimo possível. Por onde se ia morar, meu pai comprava a mobília barata, indispensável como a mesa, cadeiras, a petisqueira, a cama. A minha cama em Penedo era a Patente, mas dormi muito em cama-de-vento, a melhor dormida que sempre achei.

         Pela Internet, sei que a famosa cama Patente foi desenhada em 1915 por um espanhol;a primeira delas fabricada em Araraquara para a substituição de camas de ferro em hospital. Toda a madeira na Patente era torneada, com as partes encaixadas em ganchos, com dois apoios, havendo a bandeira, o estrado e os pés.  Era tão prática, que até menino montava. A minha era marrom escuro, e ficou na lembrança devidamente guarnecida pela imagem do Anjo da Guarda, a quem eu tinha que rezar de joelhos e mãos postas, pedindo a atenção do meu zeloso protetor. Ele era  pendurado por uma fitinha branca, amarrada na grade da bandeira. 

         A cama-de-vento era para quando a casa estivesse cheia, mas eu arranjava forma de dormir nela, devidamente empacotado em pijama de manga comprida, fizesse ou não calor. A imagem que guardo é de uma cama dobrável, com dois cavaletes nas pontas, a lona embranquecida brochada nas laterais para agüentar a pressão do corpo. Era fresco, talvez mais do que rede e é uma peça notadamente portuguesa, nício da colônia.

         Passamos pouco tempo no Hotel Brasil; se não me engano, fomos para o Hotel dos Viajantese de lá foi alugada casa no Cajueiro Grande, pequena, com os fundos dando para uma ribanceira, cerca de vara no quintal quase em frente ao Hospital. Na verdade, Penedo começa para mim no Cajueiro Grande e estas lembranças assumem em torno de sessenta anos atrás, coisa do imediato do fim da guerra. A rua era extremamente larga e eu era proibido de colocar os pés além  do meio-fio, por conta dos caminhões que ainda chegavam quase que a chorar na rampa, na batida que vinha da subida da praia para o Cajueiro Grande.  Era tempo do Mack, venta cortada, verde, carroceria comprida de madeira, sacos e o mais que se podia, vindo de longe,passando na balsa e ganhando novo mundo na direção do norte, a venta enfeitada por uma estatueta que guarnecia sua busca por destinos.