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terça-feira, 18 de dezembro de 2012

[Cinena Mudo] Luiz Sávio de Almeida. Capela das Alagoas: o maestro e o cinema mudo





Capela das Alagoas: o maestro e o cinema mudo


Luiz Sávio de Almeida



         Hollywood é algo presente em nossa vida, como símbolo do cinema que nos bombardeia desde a época do cinema mudo. Depois passou pelo falado e depois pelo colorido. São três ênfases tecnológicas em nossa vida. Do cinema mudo, restaram-me algumas coisas contadas por meu pai, que me transmitiu o culto por Carlitos. Acho que tenho quase tudo que Carlitos filmou;  vez em quando curto alguma coisa. Lembro das histórias do Cine Ceci na Capela, com o maestro Chico Caetano tocando piano, valsa nas partes tristes, chorinhos nas alegres.





Chico Caetano era músico de primeira, militar ferido em Canudos e tocava no Cine Ceci. Conheci muito a Naná, que morava na linha do trem em uma casinha simpática, aqui em Maceió. Dizem que ela puxava ao pai: alta e magra. Nana trabalhou muito em teatro e era ligada a Os Dyonísios, grupo do Bráulio Leite Júnior. Chico Caetano tinha composições e eu somente conheço uma, que ouvi ser cantada por suas de suas filhas, quando conversávamos em Maceió. Otávio Cabral estava comigo. A letra era a seguinte:


Mamãe tem, papai tem

Todos têm

A barriga empinada.



Muito se contava de Chico Caetano. Meu avô Fausto era o bilheteiro do cinema. Ir ao cinema era uma preparação. Não se ía maloqueiro e nem com a roupa das festas, mas com a roupa para ir para os cantos, arrumado. Me disse papai que teve cinema engraçado: as pessoas levavam suas próprias cadeiras, mas não foi o caso de Capela. Era um salão, cadeiras e a tele; um piano do Chico Caetano. Uma coisa triste, lá vinha o dolente de uma valsa. Uma valsa dolente é coisa que sumiu.  Saudades do Matão é dolente. Acho bonito, viajo quando a escuto e é uma forma de me lembrar de casa, de uma história que tive, como se o passado nunca se acabasse e fosse imediatamente uma situação de agora. Faz pouco, descobri que sou um ser que revive permanentemente. E que as pequenas coisas são senhoras de mim.


tom mix


Contam, que Chico Caetano tomou um meio porre e foi ao piano, mais pra lá do que pra cá. Um idílio aparece na tela e a música deveria passar para um vivace, quem sabe um “feroce”, e a cana trazia o Chico Caetano para longe das luzes de Hollywood e espremia contra as pedras do Rio Paraíba.  Veio uma embolada:



Chuleia o besouro, Iaiá

Bem chuleadinho, Iôiô

O besouro avoa, Iaiá

E é bonitinho,  Iôiô.



A plateia caiu na gargalhada, mas o Chico Caetano, veterano de guerra, jamais se perturbaria mantendo a embolada a martelar nas teclas do piano,  o besouro avoando sobre o amor da tela. Acho fantástica esta desconstrução capelense, este ajuste de contas entre os peixes do Paraíba e as estrelas que depois farão a propaganda de sabonete. As meninas do Paraíba tomavam banho de cuia ou tibungavam no Poço do Pai Pedro. O beijo e o besouro chuleado ficaram enlaçados retomando para a Capela, o tempo que Hollywood parecia roubar-lhe.

Mas não foi somente esta façanha, que foi atribuída ao Maestro, antes do cinema falado chegar na Capela, exigindo a atualização do cinema em seu equipamento. Gente da Capela pegava o trem e vinha ouvir o cinema em Maceió. E isso dava o tom da ligação entre o trem e a possibilidade das novidades. Ms o Maestro tinha outra que se contava. Era Semana Santa e em um dos dias foi passada a vida de Cristo. O Maestro esqueceu dos tempos de trevas, entornou umas cinco e lá vai a cena comovente da cruz  sendo levantada e, com ela, o corpo de Cristo. Era o encontro do sagrado da tela com o profano do piano. O Maestro não se conteve e saiu:



Tatu subiu no pau

E na mata ninguém viu!



buck jones
Isto tudo devia ser mangação, brincadeira de quem não tinha o que fazer. Não importa, contudo, a verdade,  mas o modo como se construía com o humor uma personagem urbana e, com ela, vinha o anedótico e o jocoso desconstruindo valores. Sei que do meio do universo do cinema, ficaram na cabeça de meus pais o Boca Larga, Carlito, Tom Mix, Buck Jones.

Eu gosto do cinema mudo.


sexta-feira, 20 de janeiro de 2012

[Crônica] Luiz Sávio de Almeida. Bicas. Minas Gerais. Cinema, carnaval, namoro e a professora do preconceitrio rides again


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ALMEIDA, Luiz Sávio de. Bicas. Minas Gerais. Cinema, carnaval, namoro e a professora do preconceitrio rides again
http://www.blogger.com/blogger.g?blogID=8820169997764778745#editor/target=post;postID=6235621321778893673

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A namorada vestida de baiana

Eneida pergunta sobre a namorada. Não sei como tudo começou, apenas que havia namoro. Ela morava do outro lado da linha, um lugar onde nunca fui. Acho que da calçada do grupo se avistava a casa dela. Não sei quem eram os pais e nem como tudo começou; sei apenas que nos encontrávamos no cinema, dia de sábado (?), nas matinais. Falar em cinema, é preciso reduzir ao tamanho de Bicas, um quase nada de cidade àquela época. Dele, eu guardo recordação da paçoca que era vendida, um pacotinho cuidadosamente feito com papel de embrulho e na forma de cone. Eles eram cuidadosamente armazenados em um tabuleiro que um menino portava.

O que era namorar? A ingenuidade é algo extremamente fantástico. Namoro significava ela guardar lugar para mim no cinema e então eu me sentava e ficava ali, vendo o filme e conversando miolo de pote. Não sei se é verdade, mas penso que o cinema ficava vizinho a uma lanchonete, tinha somente uma bilheteria. Entrávamos, direita ou esquerda e me parece que não havia um corredor pelo centro: para acesso às filas, usávamos as laterais;

Ela sentava pelo centro e eu ia andar pela redondeza, meio pavão, meio numa dança animal limitada pela cultura prevalecente, pelo elemento civilizatório.  Fico pensando na solenidade do namoro e o que estaria significando guardar a cadeira. Um belo código deveria estar estabelecido com significado para o casal e para o público.  Publicamente, era um sinal de compromisso, pois ela deixava evidente que era comprometida, que alguém sentaria a seu lado e o sinal era simples: o assento encostado e, também, vez em quando ao sentir-se ameaçada, a mão na cadeira vazia.  De vez em quando um olhar e a hora de sentar era quando se dava a projeção.

Era assim, mas pegava-se na mão. Pelo menos, da minha parte, seria o gesto, mas audacioso. Ela era uma menina franzina, ligeiramente morena e restou como dois olhos extremamente bonitos. Mas não é do cinema, que a guardo nitidamente. É de outro lugar e para mim foi inesquecível. Não sei até  hoje,  a razão de ter ficado tão nítido na cabeça. Não sei se ela está viva, eu espero que sim; não sei se estando viva, lerá estas mal traçadas linhas. Vou dizer o nome por um simples motivo:  as coisas eram de uma natureza tão angélica que o segredo, este sim, seria pecaminoso.

Comecei a lembrar de uma musiquinha cantada pelo Paulinho da Viola: “Era dia de carnaval...” Exatamente em uma tarde de carnaval, em um baile vespertino foi que se deu o inesquecível. Era em um sobrado, um Clube: Bicas não sei o que lá. Ela estava vestida de qualquer-coisa.  Não posso definir se era uma baiana, mas tinha turbante e dançava meio a la Carmem Miranda com remexidos de mão e de quadris. Dançamos a tarde toda. Consigo vê-la, mas  não consigo ver a mim mesmo. A mãe deveria estar observando, sentada em algum lugar, com certeza orgulhosa da filha estar vestindo a fantasia que ela deve ter bolado e talvez confeccionado. O fundo musical, contudo, não se harmonizava com tanta insistência em dançarmos. Naquele carnaval, fez sucesso uma marchinha que falava sobre um gago:

É ou não é

Piada de salão?

Se acham que não  é,

Então não conto não!

Um sujeito que era gago

Procurou um botequim,

Chegou perto do gerente,

Outro gago bem ruim

E disse assim:

Eu tô, to, tô

Aonde é que tá, tá, tá?

Mas o outro gaguejou...

Chi! Trá, lá, lá, lá, lá

Eu não posso garantir que esta era a música,  mas foi ela que me ficou na cabeça ao me lembrar da Carmem Miranda a la biquense,  requebrando em minha frente no seu abafado de roupa de baiana feita para meia estação. Claro que a minha história não é tão romântica quanto a do beijo final em Casablanca, mas satisfaz.  O nome é Sheila e espero que esteja muito feliz. Seu noivo, marido, companheiro jamais a guardará como eu guardo: sambando numa tarde de carnaval.


Ainda a  pedagogia da opressão



As encrencas da professora com os potes de ódio reservados em casa, não terminaram, só que passaram a  muxoxos, mais baixo, sem a demonstração pública evidentíssima como eram as anteriores. Não sei mesmo o que aconteceu. É montada a festa da formatura do primário. E ela resolve que haja uma dança; uns meninos vestidos de pele-vermelha,  fantasia de índios americanos. Imaginem o surreal da composição. Bicas, Minas Gerais, Brasil. Somente a cabeça daquela Mestra poderia conceber o espalhafato de palco que seria meus colegas índios americanos a dançarem ao som do Jingle Bell  e realizando uma coreografia que era fundada nos passos de dança de guerra que aparecia nos filmes em que os heróis brancos americanos eliminavam sistematicamente os índios.

Ela queria me forçar a dançar de índio e deu-me um verdadeiro esporro baixo. Perguntou se eu conhecia a música e eu disse que não e a ideia dela foi simples: coisa de quem vinha das brenhas. Eu fiquei com cara de idiota e vontade de ir embora, pois já não era mais aluno dela. Já havia acontecido outro entrevero. Havia um álbum a ser preenchido por todos os formandos e o burro aqui foi o único que escreveu errado. Meu Deus do Céu, o mundo desabou e ela não se conteve; foi outra declaração da minha mais absoluta ignorância. Havia ódio e não duvido que ela babava. Terminei tendo que ir à sua casa, ficava numa transversal que dava para a praça da Matriz, para ver se concertava o erro. Haja burrice nordestina.

Vai então que sou mandado a uma missão, dentro do programa da festa. Eu teria que me transformar em gaucho, vestir bombacha e tudo mais e cantar rodando um  laço, acompanhado por um regional.  Lembro da música:



Quando adormeço, começo a rir

Eu sonho que vejo

Juntinho de mim a garoa  cair

E a cavalgada com seu laçador

Para os campos partir.



Neste sonho, vejo tudo

O que me encanta

É a gaúcha,

a rezar juntinho santa



Vai que eu entro no palco e começo a cantar. Olho para o regional e o maestro balança negativamente a cabeça.  Fico olhando para ele e tentando me ajustar ao que ele queria; finalmente ele balança a cabeça com um sim e um sorriso imenso no rosto. Ele havia sido testemunha das agonias em ensaios. Desta feita, quando terminei foi palma demais; muita palma. Olhei para baixo: o maestro batia e sorria para mim. Jamais esqueci do seu rosto ou inventei um para simbolizar a solidariedade. Não devo negar, que saí triunfante; mas nem falei com a madame, passei por ela como passaria na frente do Gargamel daquele antigo desenho que passava na Globo.

Havia um rapaz em Bicas que era considerado como um grande cantor, um tenor de nomeada biquense. Estudava no Ginásio. Não recordo o nome; ele morava na rua que dava direção ao sítio da Dona Manu. Cantou na festa e veio andando comigo pela rua, comentando quanto eu havia me saído bem. Despedimo-nos, pequei a lateral do grupo e ele continuou. Meus pais vinham atrás. Chegamos em casa, logo na entrada meu pai deu um tapinha na minha cabeça e disse: Venceu!

Depois disso, jamais procurei saber onde andava a Mestra, mas ela não sumiu da minha vida.  Continua presente da mesma forma a partir da qual me ensinou a vê-la:  a representação física da intolerância, a demonstração do professor que eu jamais me deveria ser.

Eu estou me lembrando agora, dos estudos sobre sociologia ou história da educação que passam por cima desses acontecimentos, para se aterem ao que vou chamar de grandes variáveis: a classe, o estado, e coisas semelhantes. Fico pensando um pouco, na history from bellow de Thompson. Há uma relação direta de vida entre a educação que recebi naquele grupo escolar e o modo de ser professora daquela senhora. É claro que ela não esgotava o grupo, mas é claro que ela somente existia por ter permissão para existir e estava, sem dúvida, calçada pelo poder.

Não sei o nome dela, não quero saber. Posso contrastar com uma figura de professora, da qual jamais esqueci. Era uma mulher franzina, carregando luto fechado, deveria ser viúva. Ensinava canto orfeônico e trabalhos manuais. Deveria ser pobre, e ganhar uma migalha de nada por mês como professora. Parece que era Beatriz, o seu nome. Bisonha, mas honesta no seu relacionamento. Eu gostava dela; sabia me tratar, não desdenhava dos meus trabalhos manuais. Ainda hoje, não sei o que é traçar uma linha reta. Com ela eu aprendi e jamais esqueci o hino do Ginásio Francisco Peres. Apendizado muito importante da minha vida. Diz o hino: “Nossa escola nos dá o ensino, de que carecem os nossos misteres...” Será? A escola é a vida. Aquela senhora me ensinou bem mais do que o seu be-a-bá mal enunciado. Quem tinha razão era minha mãe. Você vai encontrar muitas pessoas iguais a ela.






segunda-feira, 12 de dezembro de 2011

[HISTÓRIA E MEMÓRIA] Rua da Penha: vedetes, política e costumes



A rua da Penha: vedetes, política e costumes

Luiz Sávio de Almeida



A VEDETE E O PRESIDENTE


bahdigital.com.br
A música rival de A Balzaquiana aparece com Francisco Carlos, El Broto e foi muito cantada na Penha. Curiosamente, os autores eram Luiz Gonzaga e Humberto Texeira. A palavra brotinho, segundo Ziraldo – com o significado que assumiu – vem de A Normalista de David Nasser. Chama atenção o espírito carnavalesco que o Seu Lula e Humberto Texeira conseguiram produzir. O brotinho aparece em outra marchinha: Sassaricando, cantada pela Virgínia Lane, as mais belas pernas do Brasil e bem conhecidas por Getúlio Vargas. A própria Virgínia contou seus 15 anos de amor com Gêgê e garantiu que estava no Catete no dia da morte dele, afirmando que ele jamais se matou. Durma-se com um tiro desse! Ela não era bonita, mas sem dúvida suas pernas eram um vestígio da primitiva Eva, embora que, na minha cabeça, Eva devia ser automodável, ora ficando belíssima ou dragão. Adão deve ter escolhido na hora certa e a Serpente foi a primeira cafetina do mundo. Se Adão tivesse mexido em Eva sem a interferência da Serpente, haveria pecado original?
 
catracalivre.folha.uol.com.br







 Um dos grandes sucessos da vedete foi Sassaricando. Para mim, Sassaricando e a Chiquita Bacana são ícones de folia. A primeira faz surgir um verbo maravilhoso e sabe que todo mundo leva a vida no arame; a segunda, cria um poderoso ser a vestir-se com a casca de uma banana nanica e somente fazia o que o coração mandava. Resultado: para sassasaricar mesmo, somente uma Chiquita Bacana dita existencialista,palavra que nos versos é pessimamente utilizada, mas que ficou com formoso hit carnavalesco.Dessas revistas famosas, nada vi, mas sim as suas versões cinematográficas, conforme entendo que tenham sido as chanchadas. No entanto, cheguei a ver o grande Mesquitinha e acho que foi no Recreio no Rio, levado pelo meu pai que adorava o que vou chamar de burlesco, para não me referir a uma safadeza inteligente. Pois foi quando conheci o Mesquitinha e acho que eu já estava morando em Bicas, Minas Gerais, cidade perto do Rio de Janeiro.
 

 almanaquedahora.com.br


 



O interessante é que não me lembro de ter visto as chanchadas em Penedo. Na certa vi,  pois nomes como Grande Otelo e Oscarito não eram desconhecidos por mim: eram os dois maiores comediantes do Brasil. Mas eu forço e forço e o cinema nacional não aparece na cabeça. Não sou especialista, mas acho que na linguagem do cinema repete-se a concepção das revistas, especialmente no que era chamado de filme deCarnaval. Repito que não me lembro dele em Penedo, aliás, eu suponho recordar que filme nacional não era tão bem visto assim pela molecada, pois o negócio efetivamente era o cowboy e os seriados, passando  pelos piratas.

guiadoscuriosos.com.br







De Getúlio, lembro de sua ida à Rua da Penha, entrando numa casa verde que ficava em frente a do pai da Dona América. Era muita gente. Fiquei vendo da porta lá de casa; não me deixaram ir. Também me lembro da ida do Brigadeiro; esse, papai nos levou e tiramos até uma fotografia. Era o Brigadeiro Eduardo Campos. Foi no aeroporto em Penedo; não recordo do que fez na cidade. A fotografia ainda existe. Getúlio e Brigadeiro ficaram na minha cabeça, com suas candidaturas em 1950.



cineconhecimento.com



























 
Existia uma marchinha de Carnaval que falava no pirata da perna de pau. É uma gravação de 1947 com Nulo Roland e o compositor era o famoso João de Barro, o Briguinha. Lembro que se cantava contra o Gêgê uma paródia dessa música. Ouvi muito também o seguinte, mas pela rádio:

Borombombom, estourou o foguete
Borombombom,  o  Gêge tá no Catete!



As vedetes que me restaram
                                                             navarandacomlanynha.blogspot.com
Luz del Fuego

 






As vedetes ficaram famosas no teatro de revista e durante anos representaram padrões de desejos. Uma ultra famosa foi Luz del Fuego e ela realmente era merecedora e se fez presente no imaginário penedense da época. Foi em 1944 que começou a bailar com suas serpentes em um circo no Rio de Janeiro e é aí que começa a vedete. Belíssima, dominava a cena comseu tipo nacional. Irmã de um senador da República devia ser um calo no sapato político dele, especialmente depois que publica seudiário, deixando inúmeros inconvenientes expostos, escancarados. Ela tinha cabeça e enfrentava com suas propostas públicas; não era apenas uma vedete, mas uma vedete que atanazava. É uma figura que merece um belo estudo, mas sua vida era absolutamente podada pelas senhoras que viam o pudico ser levado no deboche. Ela terminou tragicamente morta na década de sessenta, já sem a riqueza, o prestígio e a beleza.

                                                                                               retrovamoslembrar.blogspot.com
Elvira Pagã


















                                                                                                                     todosossitespravc.blogspot.com
Mara Rúbia




 
Outra mulher de cuja existência se sabia, mas que não poderia por vias oficias tornar-se penedense, era a Elvira Pagã, dita a primeira mulher a usar biquíni no Rio de Janeiro, em Copacabana, 1950; Rainha do Carnaval no Rio de Janeiro, morreu meio caduca. Era uma turma de primeira linha, como Mara Rúbia e tantas outras, consideradas assim como o diabo em pessoa. Mas elas existiam como prova de que a luxúria se fazia nas fraldas de Penedo.

 



fernandomachado.blog.br


Não chegavam ainda a me atentar. A Companhia Walter Pinto me atentou pelos anos finais dos cinqüenta e começo dos 60, com as vedetes maravilhosas em espetáculos, por exemplo, na Festa da Mocidade do Recife. Títulos como Tem Bububu no Bobobo, É Xiquexique no Pixoxó não podem sair da lembrança. Walter Pinto alterou o teatro de revista que se esboça nos finais do século XIX, teatro que em grande parte e junto com as emissoras, será responsável na montagem de um cenário de profissionalização do músico brasileiro.




funarte.gov.br
O elenco do tem Xiquexique no Pixoxó


E voltando ao sebite

s10.zetaboards.com
 



Acho este termo sebite de propriedade espantosa. Quem já viu um sebite, sabe da propriedade de aplicá-lo à mulher amostrada, exibida. O sebite é frenético, jamais para; baixa e levanta, olha e desolha... Eu particularmente acho que é um belo pássaro, estando desaparecido como a garrincha, aquela espécie de casaca de couro pequena.

     Não se escuta mais o pitiguari. É a casaca de couro que, como fala a genial música de Rui de Moraes e Silva, cantada pelo Jackson do Pandeiro vive de combinação: Cantando as duas na telha. Mas a parte da saudade de pássaros será em outro lugar. Eu gosto de mexer com música. Entendo perfeitamente as recordações que faziam o
Lincoln Cavalcante publicar uma coletânea. Minha irmã tinha uma coleção de cadernos cheios de letras e mais letras.

    Aliás, a primeira letra de música que ficou na minha cabeça – não que eu me recordasse, mas pela história repetidamente contada por minha mãe – é dá influência da II Guerra Mundial, ela levando a uma fala particular sobre o amor. Foi cantada pelo Gilberto Alves pela Odeon. A letra era de Roberto Martins. Eu não estava em Penedo, mas em Pirapora (1944), Minas Gerais e esse era tempo mesmo de guerra:

Pra mostrar que braço é braço,
Eu conquistei Cecília
Enfrentei balas de aço,
Mas conquistei Sicília.

A guerra e meu nascimento

      Madrugada e tudo escuro, com o medo dos submarinos alemães atacarem; era o famoso blackout. Rua Mato Grosso, a casa ainda está em pé. Lá dentro, minha irmã, minha tia Nini, meu pai. Tio Lauro saiu no meio do escuro para buscar o médico: João
Azevedo. Tia Nini estava ali para ajudar a minha mãe: solidariedade de irmã. Chega o médico; situação feia. Sou arrancado a fórceps e ainda conservo a marca do ferro na testa. Já estava numa situação precária, quase roxo, e como se diz, a tripa enrolada no pescoço. O médico pega e não choro; é um custo e berro, ainda obstinado para viver. Entrei no mundo à custa de um fórceps. Olhei a vida durante um blackout.

     Quase que imediatamente fui colocado em um trem para Capela, assim que o resguardo da minha mãe permitiu. Passei um tempo sob os cuidados da Tia Nini e fui batizado na Matriz da Capela, tendo ela como madrinha, Tio Isaís como Padrinho, José Edson (filho da Nini) como padrinho e a Leda (filha), madrinha. Da forma como minha família pensava, eu fui entregue à responsabilidade da Tia Nini que passou a ser a Dindinha, modo como fui acostumado a tratá-la. Da Capela, voltei para Maceió e peguei um Ita com direção ao Rio de Janeiro e de lá para Pirapora foi de trem. Em suas memórias, meu pai conta sobre a viagem. Na volta, o navio era afundado. Guerra. Eu estive perto ao nascer no blackout, ao comer no mais absoluto escuro, ao andar no que foi afundado.
A doença do cai-cai

                                                                                  jinaldo.bloguepessoal.com
  
   Contava um amigo e sisudo cidadão, algo que deve ficar registrado e que faz parte da história miúda, daquele picado do dia-a-dia. E é sobre a guerra. Dizia ele que na área de Jaraguá aconteceu uma violenta transformação, com as tropas aliadas  acampando por lá. Segundo ele, a maioria de “americanos” era feita de filipinos e a tropa invadiu a região de Jaraguá, a tal ponto que até posto médico aliado havia na região.
                                                                                                        
   Com isso, aconteceu uma pesada interferência no mercado. A cotação de um programa em Jaraguá antes da minvasão era de vamos supor, Cr$ 10,000. A conquista faz aumentar desesperadamente o preço, colocando a população


nativa fora do páreo: o negócio agora era dollar e a vinte paus. Pronto; havia
Maceió sido atingida duramente em sua vida. Quem podia? Preço duplo e ainda
mais em dollar? Havia sido um golpe fatal na luxuria urbana. Então, houve
uma brilhante e inteligentíssima reação.



     Correu como um raio a notícia de que filipino transmitia uma doença chamada de cai-cai; era fatal, pior do que gonorréia, cancro duro, cancro mole e outros azares


do desregramento, artes do cão. E foi assim que a cai-cai interferiu e quem
fizesse programa com filipino estava marcada, que ninguém era tolo de se
arriscar. O nacional voltou ao mercado com o preço adequado ao seu tamanho
de renda.


     Não sei na realidade, como chamar a essa coisa que é a molecagem coletiva.


Alguém deveria tratá-la. Maceió é cheia disso. Aquilo surge e de uma hora para
a outra está em pleno uso, cutucando aqui, mexendo ali. A grande maioria é
feita por situações engraçadas, como, por exemplo, as histórias do Celite; elas
beliscavam o machismo alagoano, dando até confusão pesada, segundo se
dizia, na Rua do Comércio. Ela é fantástica e a meu ver contraria o repouso no
padrão, e mostra como tudo é possível nos limites de ser efetivamente provável,
por mais extraordinária que seja. Não seria possível caso inexistisse Maceió e
caso inexistisse um tempo de Maceió. Será que eu poderia dar a Maceió o nome
de espaço amostral, onde tudo seria possível e, então, liquidar com a ideia do
absurdo? Mas o que seria Maceió sem aquilo que não era ele e que permite que
ele seja? O que fica liquidado, em qualquer dos casos, é Maceió ou o absurdo?
Vamos cair fora da confusão, mas vou dizer uma coisa: eu jamais apostaria,
mesmo com todas as possíveis vantagens, que aconteceria o caso Celite em
Maceió.


Celite foi o pavor de muita reputação de macho em Maceió. Eram diversas as


abordagens, mas a coisa acontecia mais ou menos assim. O espírito de porco
chegava e dizia: “Olha, eu sou seu amigo e sou obrigado a contar um negócio que
vai deixar você ficar bravo!”. Em seguida perguntava: “Você conhece o Celite?”. A
resposta era não e o espírito de porco dizia: “Aquilo não vale nada; tava dizendo
que você sentava nas pernas dele!”.


Daí vinha o fio dessa, o fio daquela outra... O espírito de porco dizia: “Pois a


Rua do Comércio tá cheia, não sei quantas pessoas vieram me falar. Eu tinha
que te dizer!”. Lá vinha: “E onde esse cara tá, para eu dar-lhe um tiro nos
cornos!”. “Diz!”. E diziam que gente foi bater na casa São Luiz atrás de um
empregado chamado Celite e quase morre de raiva ao saber que Celite era a
marca de um vaso sanitário.


Termina a guerra; papai consegue transferência para Penedo. Como voltar? Havia um dono de teco-teco que vinha para estes lados. Chamava-se Euclides Paletó. Viemos praticamente por cima do rio. Chovia, teto encoberto; sem ver a terra, Euclides Paletó estava perdido. Decide descer, precisava ver onde se


encontrava, o combustível estava acabando.


Desce, olha, estávamos em cima da Paulo Afonso. Não sei como ele pousa. Dormimos por ali. No outro dia, levantamos vôo, chegamos a Penedo à tarde e de nada me lembro. Da viagem restam fotos, mas eu não lembro Fomos para o Hotel Brasil e logo subimos para uma casa no Cajueiro Grande, bem em frente ao Hospital. Somente quando vou para a Rua da Penha é que surge a real percepção de uma


rua.


Não deve ter sido fácil para minha mãe; o desacerto com papai deveria ser quase imediato. Ela vivia de se adaptar e sair. Foi levada para os sertões de Minas Gerais; mal arrumou, mal viajava, se bem que era para perto da família. Talvez pelo estilo de vida, os filhos da Dondon se uniam, procuravam estarem juntos. A tragédia da vida do meu pai, não deu tanta aproximação assim com sua família. Parte estava na baixada fluminense em Duque de Caxias, o pessoal da Donana, tinha gente em


Neves no Rio de Janeiro, tio Joel perdido pelo meio do mundo, tio Arlindo bem de vida no Recife, Tia Eluzanira casada com o Júlio Calixto na Igreja Nova, na região da Palmeira, acho que chegada para Quebrangulo.


Da parte da mamãe, Tia Lurdes, Tio Lourenço e a mãe deles se encontravam em


Arapiraca, depois de terem passado por Limoeiro de Anadia. Fim de ano, arranjava-se
uma forma de ir para a Capela, casa da minha avó, onde moravam Dindinha Nini e Dindinho Isaías. Acasa enchia; primo para todo lado. Tio Isaís era administrador de um engenho, parece que o Pitimiju e todos os dias montava em um cavalo, saía pela manha, depois voltava à tardinha. Sentava, tomava café, conversava bem pouco e se preparava para a jornada do dia seguinte. Tempos depois, ele larga a cana e vai plantar fumo na Lagoa do Peleve, depois de uma experiência que não deu muito certo: o sisal.