quarta-feira, 18 de janeiro de 2012

[HISTÓRIA: MUSEU: COMÉRCIO: ASSOCIAÇÃO COMERCIAL: MACEIÓ: ALAGOAS] Benedito Ramos..MUSEU DO COMÉRCIO DE ALAGOAS – A REALIZAÇÃO DE UM SONHO





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RAMOS, Benedito. Museu do Comércio de Alagoas – A realização de um sonho. Tribuna Independente. Maceió, 18 set. 2011 . Contexto.
http://www.blogger.com/blogger.g?blogID=8820169997764778745#editor/target=post;postID=4036388933515586806
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Um pequeno bilhete sobre uma Associação

Sávio de Almeida



          A Associação Comercial de Maceió mantém dois museus e Contexto vai visitá-los, a partir de um texto de Benedito Ramos, Coordenador de Ação Cultural e Social da entidade.  Contexto parabeniza a instituição pela iniciativa; muitas outras entidades poderiam estar no mesmo caminho, ajudando a valorizar o que nos pertence como herança e como atualidade. Contexto publica  em anexo, parte de um relatório com menções à economia de Alagoas para o ano de 1868.  É de notar a preocupação da entidade com a guerra do Paraguai e com o desempenho do algodão e do açúcar, mercadorias que eram fundamentos essenciais da geração da renda e produto da economia provincial, distintas em seus processos de acumulação, mas interligadas em um mesmo  e único processo econômico e político em andamento na formação histórica.
            A  Presidência da Associação Comercial entrou em parceria com Contexto e solicitou a publicação de material sobre os museus e  sobre a documentação que  a entidade pode disponibilizar para a pesquisa, o que está sendo redigido, também, pelo Benedito Ramos. É intuito de Geminiano Jurema publicar esta documentação no primeiro semestre do próximo ano. Aproveitaremos a oportunidade para adiantarmos textos sobre a formação histórica de Alagoas, utilizados como notas de aula no Mestrado sobre Dinâmica do Espaço Habitado (UFAL) e um deles trata da Associação Comercial.





MUSEU DO COMÉRCIO DE ALAGOAS – A
 REALIZAÇÃO DE UM SONHO

Benedito Ramos

INTRODUÇÃO

Quem vê o Palácio do Comércio não pode imaginar que alguma outra entidade tenha tanta participação na história de Alagoas como a Associação Comercial de Maceió que ali  reside desde 1928, quando o prédio foi inaugurado, após cinco anos de construção. A existência  da Associação remonta a 22 de julho de 1866, quando alguns comerciantes se reuniram, sob a liderança de José Joaquim de Oliveira, no salão da Antiga Sociedade Dramática Particular Maceioense, para planejarem a fundação de uma associação. Três meses depois, em 7 de setembro de 1866 estavam realizando a primeira assembleia, com 100 participantes, sendo que pelo menos 46 eram do ramo algodoeiro.

Restaurado em 1999, o prédio foi aberto ao público em 2000 com a promessa de uma participação também nos destinos culturais de Alagoas. De lá para cá, dois museus foram criados: o de Tecnologia do Século 20 e o Museu do Comércio de Alagoas. Este último estava prometido havia 81 anos, um sonho do presidente Homero Galvão, a quem coube inaugurar o Palácio do Comércio na memorável noite de 16 de junho de 1928.

A promessa de criação do museu do comércio ficou adormecida até 2000 quando a Associação contratou um Coordenador de Ação Cultural e Social, para criar e administrar o espaço que se destinaria ao público visitante. Havia um compromisso neste sentido, com o Banco Interamericano de Desenvolvimento – BID, após a restauração. A biblioteca surgiu primeiro, quando foi renovada com duas doações importantes de acervo: do escritor, advogado, membro da Academia Alagoana de Letras e Instituto Histórico, Paulo de Castro Silveira e do Industrial Maurício Gondim. A formação desta biblioteca com mais de 4 mil volumes e, cerca de 30 mil títulos, sobretudo de autores alagoanos, tem sido acrescida de outras doações importantes, como a do advogado Floriano Ivo Junior e agora, recentemente, do Engenheiro Químico, Luiz de Medeiros Novaes, cuja contribuição ao setor sucroalcooleiro veio preencher uma lacuna na demanda das pesquisas sobre esse tema. A biblioteca de Novaes, após inventariada faz parte, separadamente, das estantes do Museu de Tecnologia do Século 20, juntamente com outras contribuições nesta área.

A vocação do Palácio do Comércio como local de exposições surgiu logo no princípio de 2000 quando abrigou o acervo do Museu Théo Brandão, enquanto o prédio daquele Museu estava sendo restaurado. Outras exposições, inclusive a do acervo da pinacoteca da Caixa Econômica e do Museu Histórico Nacional estiveram no seu salão principal. Mas paralelamente começou a ser feita uma verdadeira campanha no sentido de buscar entre os comerciantes e população um acervo destinado a criação do Museu do Comércio. Não demorou muito e havia uma sala cheia de máquinas e equipamentos, computadores antigos, telefones, rádios e tudo o que podia compor uma bela exposição de tecnologia, mas nada que pudesse inspirar um circuito museológico destinado ao comércio. E foi o que aconteceu. Alguns meses depois estava sendo inaugurada a exposição temporária “Tecnologia do Século 20”, que recebeu a participação da coleção de máquinas fotográficas antigas, do acervo particular do fotógrafo e jornalista José Ronaldo. A mostra terminou e foi criado o Museu do mesmo nome, até por conta da importância que teve o século 20 no desenvolvimento tecnológico que inspirou o terceiro milênio.

Mesmo sem museu o comércio era representado por uma sala contígua à Biblioteca, onde ficavam os móveis administrativos da antiga Associação Comercial de Maceió, com as escrivaninhas altas os livros de estatísticas, mesas de trabalho, estantes e alguns outros retirados do uso ainda hodierno. Era um escritório-museu que bem representava as atividades do início do século na entidade.

Outra contribuição importante veio da exposição realizada em 2005 com tema: Jaraguá – História e Urbanidade. Foi nesta ocasião que muitas imagens importantes foram ampliadas e plotadas. Algumas ainda hoje fazem parte do Museu do Comércio de Alagoas, como a foto da inauguração do prédio e a reunião que decidiu a sua construção.

A FORMAÇÃO DO MUSEU DO COMÉRCIO

         Para cumprir o desejo do presidente Homero Galvão, o Museu do Comércio ainda deveria ser criado. No entanto, o tema parecia muito amplo para o desenvolvimento de um circuito num dos pavilhões laterais, composto por quatro salas. Não havia porque abordar o comércio primitivo ou a história dos fenícios. O mundo ocidental, sobretudo as Américas tinham iniciado sua relação com a Europa por conta do comércio. Foi a busca do caminho marítimo para as índias que motivaram as viagens de Vasco da Gama em 1498 e de Pedro Alvares Cabral em 1500. Enfim a busca das especiarias para atender ao mercado europeu seria o mote perfeito para iniciar o circuito da Sala Novo Mundo. Nela o visitante percebe não só a situação política de Portugal, através de suas bandeiras como a trajetória administrativa da colonização, numa cronologia marcada pelas datas dos acontecimentos mais importantes. Dois mapas ampliados da Capitania de Pernambuco mostram Alagoas, já representada pelo seu principal rio – O São Francisco e suas duas lagoas Mundaú e Manguaba. A Capital Santa Maria Magdalena das Alagoas do Sul, juntamente com Porto Calvo e Penedo aparecem nas reproduções das gravuras, assim como na cartografia, de autoria de Franz Post, que acompanhou Maurício de Nassau durante a invasão holandesa.

Continuando o circuito chega-se à Sala Comércio e Desenvolvimento a partir da ação pirata no contrabando do pau-brasil, seguindo pelo tráfico de africanos até a transferência da Família Real Portuguesa e criação do Reino Unido do Brasil a Portugal e Algarves. É com a presença de Dom João VI que o comércio brasileiro começa a ser sistematizado. Até então todas as exportações eram feitas diretamente a Corte Portuguesa e com a abertura dos Portos o Brasil é livre para negociar com outros mercados. É nesta ocasião que são criadas as Juntas de Comércio. Uma coleção de decretos, leis, alvarás, cartas régias e editais faz parte de um acervo disponível ao pesquisador, no próprio museu.

A independência do Brasil é marcada pela nova bandeira da nação brasileira e o início do primeiro e segundo império. Uma rica iconografia mostra a família real e o Imperador em tamanho natural. Mais adiante as inovações tecnológicas que transformam o antigo engenho em usina, onde a primeira delas, a Usina Brasileiro é mostrada juntamente com seu fundador o Barão de Vandesmet, juntamente com sua família.

De forma muito tímida a indústria têxtil aparece através da imagem da Fábrica União Mercantil, fundada por José Antônio de Mendonça, o Barão de Jaraguá. No entanto, em pesquisa recente, observamos que a participação do algodão na economia de Alagoas tem uma importância vital, a ponto de motivar a própria criação da Associação Comercial de Maceió,  razão pela qual, brevemente estaremos corrigindo este favoritismo ao setor açucareiro.
Ainda nesta sala, considerando a cronologia do circuito, aparece a fundação da Associação Comercial de Maceió, cuja ata da primeira assembleia abre a sala seguinte, em letras graúdas, junto ao retrato de seu fundador José Joaquim de Oliveira. Uma pequena vitrine protege a memória da entidade em pequenos objetos, documentação, cartas, pena, mata-borrão e primeiras edições do estatuto da entidade.

A sala seguinte é da Associação Comercial de Maceió, reservada a guardar os móveis de expediente, com suas escrivaninhas, birô, cadeiras e livros de estatística da entidade. Ao entorno uma mostra iconográfica dos acontecimentos que marcaram a vida da Associação, como as fotografias ampliadas, da inauguração do Palácio do Comércio, a reunião de 17 de maio de 1921, que iria defender a construção do edifício, assim como o banquete oferecido a Getúlio. Tem-se, também,  a fotografia de Mons. Capitolino de Carvalho, senador da província e  que no exercício do governo estadual, sancionou Lei  que permitiu a retenção de 100 réis por volume exportado,  para fins da construção da sede da Associação. E esteve presente na festa de inauguração do Palácio, onde ocupou lugar de honra, à cabeceira da mesa, junto com Álvaro Paes e Costa Rego, dois outros governadores de Alagoas. Também em imagem original, está o presidente Antônio de Melo Machado que se tornaria deputado da Constituinte no Governo Getúlio Vargas.

Uma coleção de moedas mostra ao visitante as mudanças do padrão monetário de réis para cruzeiro. E ainda uma curiosidade: as moedas utilizadas dentro dos limites dos engenhos ou usinas de açúcar, para compra nos chamados “barracões”.

Dois outros retratos marcam o espaço: o primeiro do fundador, num desenho a pastel, realizado pelo artista Rosivaldo Reis e outro do segundo presidente, o comendador Manoel de Vasconcelos, sócio do Barão de Jaraguá, na Fábrica União Mercantil, pintado em Paris no Atelier de Vienot e Morriset, juntamente com dois outros retratos em tamanho natural, do Imperador Pedro II e do Visconde de Sinimbu, os dois últimos colocados na Galeria dos Presidentes no terceiro piso.

É nesta sala, onde ficam guardados os 11 livros de ata da Associação Comercial de Maceió, a partir de 1866. Hoje estes livros estão sendo transcritos, digitados e colocados a disposição do pesquisador, graças a uma parceria entre a Braskem, Associação e Universidade Federal de Alagoas, com a participação de duas estagiárias do curso de história, com conhecimento de paleografia. Esta ação tem permitido a Coordenadoria de Ação Cultural reescrever a história da entidade e conhecer documentos importantes como a coleção de telegramas para Liverpool, principal praça importadora do algodão alagoano, desde 1874, após a implantação do telegrafo na cidade. Outros documentos importantes são os livros de registro das exportações e importações realizadas, este último com revelações inéditas sobre a vida social, através dos produtos que chegavam aos empórios da capital.

A última sala, denominada Jaraguá, representa na sua iconografia a evolução da sociedade e da urbe, profissões ou trabalho junto aos principais trapiches ou ao comércio local. Um quadro plotado em larga escala faz uma cronologia do bairro a partir de 1611. É uma sala destinada a atender pesquisadores. Para isso existe uma mesa monumental cercada por cadeiras antigas, sempre personalizadas com o símbolo da entidade. Uma coleção de Leis e Decretos do Governo Republicano está exposta sobre uma grande escrivaninha, também a disposição do pesquisador.

BIBLIOTECA, PESQUISA E PUBLICAÇÕES

      Colocar a Associação Comercial de Maceió em sintonia com a Universidade Federal de Alagoas, faculdades e escolas, promovendo e incentivando a pesquisa sobre economia regional, tem sido uma tarefa gratificante. A maioria dos professores e pesquisadores desconhecia o acervo, bibliográfico, documental e iconográfico da entidade. Depois a ausência de formalidades no atendimento, a facilitação do acesso às obras, mesmo as consideradas raras. Para os documentos antigos sempre é oferecido luva de tecido e local apropriado para consulta, assim como a possibilidade do pesquisador agendar sua bibliografia antecipadamente. Enfim o fornecimento de imagens digitalizadas, textos e livros digitais de bibliotecas importantes como: Biblioteca Nacional de Portugal, Biblioteca Nacional, USP, Instituto Camões e outras. Tudo pode ser cedido gratuitamente através de arquivo digital.

No início de 2011 foi lançado o primeiro número do encarte O PALÁCIO, com oito páginas em papel jornal, formato A4, com aparência dos antigos jornais tipográfico da década de 1950. Já na sexta edição, hoje inscrito no Instituto Brasileiro de Informação em Ciência e Tecnologia, o encarte tem como linha editorial a publicação de artigos de cunho científico, notadamente na pesquisa histórica, preferencialmente de alunos e professores, privilegiando os temas regionais e o Bairro de Jaraguá. Esta publicação tem o apoio de diversas empresas que garantem com seus anúncios a tiragem mensal de 1500 exemplares, durante o ano inteiro.

Alguns trabalhos de pesquisa realizados por alunos da UFAL, no Palácio do Comércio estão publicados, assim como diversas contribuições de intelectuais alagoanos. Com uma distribuição garantida, a partir da remessa dos boletos de pagamentos dos associados, também aos anunciantes que recebem uma cota mensal de 10 exemplares, havendo ainda circulação entre alguns equipamentos culturais como: Casa do Patrimônio (IPHAN), Arquivo Público, Museu Théo Brandão, Fundação Municipal de Ação Cultural, Secretaria Municipal de Turismo, Academia Alagoana de Letras, Instituto Histórico e Geográfico de Alagoas, UFAL e outras entidades. O encarte também pode ser encontrado na recepção do Palácio do Comércio, na Rua Sá e Albuquerque, 467 em Jaraguá.

A instituição também admite voluntários, nas áreas de biblioteca, arquivo, pesquisa e paleografia, através de contrato temporário, com a garantia de certificação de sua passagem pelo setor. Hoje a entidade possui cinco funcionários,  dois deles na biblioteca e três no setor de pesquisa.

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 Um documento e tópicos sobre a vida das Alagoas em 1868


Relatório da Junta de Direção da Associação Commercial de Maceió. Apresentado à Assembleia Geral em 22 de Julho de 1868.
(Grafia conforme consta no documento)

[...]

Situacção Commercial

[...] a prolongação de guerra [...] com a Republica do Paraguay [...] tem concorrido para a paralização do commercio em geral, e esta Provincia tem-se rescentido, como é natural [...]. A baixa do cambio nas praças do Rio de Janeiro e Pernambuco com quem temos estreitos relações commerciais, tem feito e continua a fazer grande mal ao commercio pelo panico e paralização que d’ahi tem originado: não tem porem havido fallencia.

Agricultura

Apesar da Falta de braços escravos de que a Agricultura há muito rescente, e [...] de braços livres que tem sido tirados para a guerra, é vos lisongeiro dizer-vos que a produção agricola da provincia não tem diminuido, principalmente garanto os dois ramos da cultura mais importantes que temos – algudao e assucar – [...].

Algudão 34

A entrada [...] foi superior a dos annos anteriores. [...]  Este genero continua a merecer boa reputação nos mercados extrangeiros depois da instalação da Inspeção Commercial, porque pelas ultimas cotações tem elle estado superior em preços ao da Bahia, sendo digno de louvar o empregado do commercio, que tem sabido corresponder a confiança n’elle depositada.

[...]

Estabelecimento de Credito

O único que existe é a Caixa Commercial o qual tem limitado suas tranzações, dando todavia a um accionista o devidendo  6% por semestre. Sua acções porem sem motivo plausivel estao com desconto de 10 a 15% .

Companhia União Mercantil

Esta companhia [...] axa-se  bem montada e trabalha regularmente. consome annualmente cerca de 2:530 arrobas de algudão, produzindo pouco mais ou menos  7024 pessas com 175:581 varas de panno de diversas qualidades apropriado principalmente para roupa de escravos, e para saccas de assucar. É para extranhar que o panno desta fabri- ca não tenha muito consumo nesta Provincia, sendo quase toda exportada para Pernambuco onde tem prompta extracção, sendo até preferido por sua qualidade as de algumas outras fa bricas do paiz, que para hali é exportado. Esta companhia não tem ainda dado devidendo a nois accionistas porque tem sido seos lucros empregado em obras e machinas, verão porque suas acçoes soffrem desconto nesta praça.

Via Ferrea e Navegação entre Maceió e o Pilar, e Porto de Desembarque

A facilidade das vias de communicação e transportes é inconstetavelmente um grande elemento do progresso para a vida commercial.  É por isso que nos congratulamos em vos annunciar que o grito da locomotiva já se faz ouvir nesta cidade, e que dentro em poucos dias teremos o (?) do vapor a espancar a velha rotina de navegação da Lagoa Manguaba. A companhia Bahiana de Navegação a Vapor com quem o Governo tinha contratado a navegação da Lagoa Manguaba e uma via Ferrea urbana, q ligasse o porto de Jaraguá a esta cidade, e ao Trapiche da Barra, já realizou parte do seo contracto abrindo ao tranzito publico a secção da via ferrea de Jaraguá e Maceió, e e dentro e pouco o fará o Trapiche da Barra. O vapor que tem de sulgar as aguas d’aquella Lagoa brevidamente sahirá do estalleiro e principiará a funcionar: é questão de dias. Enquanto a Ponte de Desembarque em Jaraguá ainda não tem principio, tendo aquella Companhia obtido um praso para reliazar este grande melhoramento.

[...]








terça-feira, 17 de janeiro de 2012

[HISTÓRIA:IMAGEM: CARTÃO POSTAL: ALAGOAS] Douglas Apratto Tenório e Carmen Lúcia Dantas.Redescobrindo o passado: cartofilia alagoana


Publicado em 4 de Janeiro de 2009



























Umas poucas palavras

Luiz Sávio de Almeida





É densa a contribuição de Douglas aos estudos sobre Alagoas. São múltiplos os temas que desenvolve. Ele terminou seu doutorado com tese sobre o período de Muniz Falcão e produziu dois outros textos essenciais para que se discuta o século XX em Alagoas, sendo um sobre a implantação das ferrovias e outro sobre os desdobramentos políticos do período oligárquico. Carmem Lúcia Dantas vem se destacando como museóloga,  pesquisadora ligada á cultura popular e, agora, está na companhia de Douglas, no que vou chamar de relação entre história, memória e fotografia.
Realizaram um belo trabalho sobre cartões-postais em Alagoas, consultando coleções em vários estados. Aliás, a fotografia como um todo, parece estar despertando interesse atualmente em Alagoas; tenho informações de que o Instituto Histórico e Geográfico vai publicar sua coleção e consta-me que há tese de doutorado em desenvolvimento - arquitetura em Recife - que privilegia o cartão-postal.


      

Cartão-postal e fotografia sempre me interessaram; nem por isto, considero-me um conhecedor. A fotografia traz em si a possibilidade de uma escrita com a luz, redução da química à ordem da imagem, gerando um novo campo de registro e de criação. Sua invenção incrementou a possibilidade de anotações sobre a vida em todos os seus aspectos, sendo um dos grandes instrumentos legados pelo século XIX e nos apanha alagoanamente e nos registra quando se tem os finais da transição do escravismo, refazendo o capital e existindo a possibilidade de desssacralização de valores consagrados no meio senhorial, o que a república parecia apontar e até mesmo possibilitar. Aliás, pelo que percebo, a fotografia teria em Alagoas umas quatro fases: a do ingresso, a da consolidação dos estúdios com os retratos, o  rompimento através da possibilidade em massa do que se chamou de instantâneo, desde seus começos incipientes com as máquinas caixão  que generalizou o nome Kodak, complexo que termina por isolar os estúdios e criar os pontos de recepção para o grande capital internacional; finalmente, o momento da digitalização, onde, basicamente, a tecnotrônica (lembrar do Darcy Rinbeiro) passa a ser dominante. Bater uma chapa vai sendo coisa do passado, passando pelo instantâneo e chegando na possibilidade da computação fotográfica.
        O cartão-postal fascina, mormente quando matéria de comércio, algo, portanto, posto em mercado. Há todo um processo de decisão implicado nesta configuração, pois a imagem passa a ter agregação de valor, capaz de dar-lhe a condição de mercadoria; além do mais, a decisão passar pelo processo de conceber aquilo que é vendável ou como nos podem  consumir, pensando-se, no caso, em como a produção local se argumenta face a mercado e, então, obviamente sobre lucro. . Guardo com um carinho imenso, a coleção dos negativos de vidro do velho Fiel do famoso Foto Fiel; toda a sua coleção de postais, demonstrando o modo como desejou retratar Alagoas para vender as imagens que concebia. Os negativos de vidro ainda estão perfeitos. Aliás, tenho suas primeiras fotos na Atalaia. Um mestre na paisagem e que depois viria a ser um grande retratista, justamente no tempo em que havia o mimo do  retrato, oferecido aqui e ali.
Parte do trabalho de Douglas e Carmem Lúcia está aqui em estreia; uma introdução. É ler para ter vontade de esperar.




Redescobrindo o passado: cartofilia alagoana

Douglas Apratto Tenório e Cármen Lúcia Dantas


Entre as formas de comunicação à distância, o cartão-postal se destaca pela aceitação e multiplicação em todos os paises, apesar do avanço e rapidez dos meios de transmissão que surgiram no século XX, sobretudo depois da informática. Sua história é acompanhada cuidadosamente pêlos cartofílistas desde seu início, nos idos de 1869, na Áustria, com a criação do Correspondenzkarte, idealizado por Emmanuel Hermann. A partir daí, logo se espalhou pelo mundo e foi sendo aperfeiçoado em praticidade e estética.

Nos primeiros cartões só havia espaço para as mensagens. A gravura, o desenho e a fotografia chegaram para melhor ilustrar essa correspondência pelo mundo e levar mensagens
rápidas que podiam ser lidas por todos que os tinham nas mãos, sem a privacidade que as cartas oferecem aos seus destinatários. Por isso mesmo, foram muito usados nas duas grandes guerras mundiais, já que passavam rápido pela revista das mensagens que saíam das casernas e por serem de fácil manuseio e dispensar envelopes. No Brasil, o bilhete postal, como era conhecido no início, trazia estampadas as Armas do Império, o que lhe concedia o caráter oficial por ter sido impresso pelo Correio, a mando do imperador D. Pedro II, um entusiasta das inovações. Em poucos anos, porém, devido à grande aceitação, os postais impressos por empresas particulares começaram a aparecer e a circular livremente; alguns deles, sobretudo os mais antigos, foram impressos na Europa.
             Fotógrafos de apurado olhar lhes dedicaram um espaço especial, formulando séries temáticas que hoje enriquecem coleções e são disputadas como peças de rara importância. Entre esses fotógrafos destacam-se, aqui no Brasil, Guilherme Gaensly, Marc Ferrez e Augusto Malta, citados por José Carlos Daltozo em seu livro .Cartão-Postal, Arte e Magia.. O autor detalha a direção do olhar de cada um deles, voltado para a simplicidade da vida cotidiana de São Paulo, Rio de Janeiro e outras capitais brasileiras, entre elas Maceió, em uma época em que o dia-a-dia dessas grandes cidades ainda possuía uma atmosfera de romantismo e de tranquilidade.
Alagoas também se inseriu nessa trajetória e foi fotografada nesse período, detendo a cartofília uma memória histórica da fisionomia arquitetônica, social e cultural da sua capital e de outras cidades interioranas. Cartões de bela feição gráfica mostram as cheias do Rio São Francisco, a Boca de Maceió, os antigos engenhos banguês, a dança do coco no meio rural, populares candidamente conversando nas ruas vazias de automóveis de Maceió.
O professor emérito e também cartofilista António Miranda, de Brasília, lembra que as mais importantes bibliotecas do mundo reservam espaço de destaque para o acervo de cartões-postais. Em nosso Estado, com exceção de um CD produzido pelo Museu da Imagem e do Som, nenhum trabalho existe com o propósito de catalogar essas peças, embora se tenha
conhecimento da grande circulação dessas mensagens postais em nosso território. Suas  imagens abrem um leque de possibilidades para estudos em varias linhas de pesquisa como
fonte complementar de informação nas áreas de história, arquitetura, paisagismo, sociologia, geografia, arte e fotografia, para citar apenas as mais importantes.
Inúmeros postais sobre Alagoas foram reunidos, gentilmente cedidos por colecionadores importantes, como Elysio de Oliveira Belchior, do Rio de Janeiro; Luiz António Barreto, de Aracaju; José Luiz Mota Menezes, de Recife, e os alagoanos Eduardo Guimarães, Everaldo Gama, Maria Rocha, Milton Henio Gouveia, Fernando Antonio Netto Lobo, Lysia Ramalho Marinho, da Fundação Raymundo Marinho, e Francisco Alberto Sales, da Casa do Penedo. Pretendem os autores que este livro contribua para a preservação da memória local.


POSTAIS DE ALAGOAS





Em uma perspectiva semiótica se pode traduzir o processo histórico como um processo de comunicação durante o qual o fluxo de informação não cessa de condicionar reações-respostas em um destinatário social. (Uspenskij) Acreditamos ser esta a primeira vez que se publica, em Alagoas, um trabalho sobre os antigos postais. O fazemos na certeza de que a preserva ção dos nossos valores e bens culturais é fundamental para afirmação de nossa identidade e que ampliará sua atuação na medida em que possamos utilizar instrumentos auxiliares inovadores, múltiplos e flexíveis como a cartofília, tão bem afinada com o conceito de paisagem cultural.
É uma afirmação bem aceita hoje que a história e a cultura de um país, uma região ou uma cidade podem socorre-se das imagens fixadas em cartões-postais, uma vez que estes representam verdadeiros documentos da trajetória material de uma sociedade, dos seus monumentos e seu urbanismo. Não por acaso, o historiador Vicente Chermont afirma em um
trabalho sobre o tema que a história é mais conhecida pelas imagens que pela escrita. Elas permitem não só uma volta ao passado recente, ou longínquo, mas igualmente a identificação objetiva de sucessivos fatos, em etapas diversas, que ajudarão os pesquisadores em seus estudos sobre determinados sítios.
Elas apontam transformações que não persistiram e outras que vingaram, ainda que em contradição com o projeto original. O cartão-postal - ou selo postal, como era conhecido - surgiu na Europa na segunda metade do século XIX e. com força avassaladora, tornou-se um privilegiado instrumento de comunicação. Sua idade de ouro, segundo os especialistas, situa-se entre os anos 1880-1920, o que no Brasil coincide com a fase de consolidação do novo regime instituído em 15 de novembro de 1889 pelo marechal Deodoro da Fonseca.

Uma era política turbulenta, de tensões sociais acumuladas, mas ao mesmo tempo de ufanismo, do brilho da belle époque, de incontida esperança no futuro, um período de transição de uma sociedade eminentemente agrária em seu anseio de ingressar no ciclo industrial. Fiado nos ideais republicanos e na presença de novos atores na ribalta política, como os militares, o povo buscava participar de alguma forma das decisões do pais, até então restritas às grandes famílias rurais e à nobiliarquia monárquica.
No ocaso do império e na alvorada republicana, Alagoas saía de seu casulo senhorial e passava a ter. como as demais unidades federativas recentemente constituídas. Aspirações cosmopolitas. Apesar de sua admissão tardia no mundo urbano nessa época, o uso dos  postais indica o aggionarmento da antiga pequena província imperial, agora um novo Estado federado. Através deles podemos vislumbrar lugares, prédios, hábitos que tiveram importância. Eles retraíam o que era a antiga parte austral da capitania de Pernambuco no período que vai dos últimos presidentes provinciais - os primeiros governadores republicanos - até a revolução de 1930 e o chamado ciclo dos interventores.



















A VIDA DA ANTIGA  COMARCA

Como seria a vida da antiga Comarca das Alagoas na época do advento dos postais.? Qual a paisagem da província naqueles momentos em que o processo de urbanização surgia finalmente deixando para trás três séculos de isolamento e vida agrária soberana? È  interessante determo-nos sobre aquelas décadas vigorosas. O surgimento dessa novidade pode ser visto como um pano de fundo sobre o qual se desenvolve o processo de ruptura com nosso passado colonial, com nosso passado imperial ou monárquico, passando a constituir-se em uma novidade, fundamental para a reconstrução do presente e porque não podemos dizer do inicio de uma caminhada rumo a democratização de parcelas cada vez mais amplas da população- do acesso ao conhecimento histórico e artístico, num real processo de inserção social.
            Vários estudiosos já se referiram as enormes transformações materiais ocorridas no Império brasileiro na segunda metade do século XIX e nas primeiras décadas da República, comparando-as com outros períodos históricos. Se desejar-mos vê-las num estudo de caso regional, vamos encontrar com facilidade essas transformações em Alagoas, tendo como epicentros Maceió e os seus pólos do centro comercial, Bebedouro e principalmente Jaraguá .porto e porta. dessas mudanças. Tudo o que a nova era apresentou de mais significativo podemos encontrar na capital alagoana nessa época, tendo como vitrine privilegiada o seu bairro portuário e o seu centro da rua do Comércio: o transporte ferroviário, serviço de trainway entre os seus três bairros principais, começando no Trapiche da Barra, a navegação a vapor, ponte de ferro de embarque e desembarque, ruas iluminadas por lampiões a gaz kerosen, a expansão das casas bancárias e seguradoras, calçamento das ruas mais transitadas, estabelecimento de uma rede telegráfica em comunicação com o país. jardins nas praças, como o construído na Praça Nossa Senhora Mãe do Povo e as principais repartições públicas instaladas em prédios sólidos e vistosos como o Consulado Provincial, a Alfândega, com a repartição do Selo e a Capitania do Porto.

A exportação, antes mais ou menos parcimoniosa, aumento gradualmente no Segundo Império, saindo do porto enseada de Jaraguá e crescendo substancialmente com a chegada das casas inglesas que lideravam esse tipo de comércio junto com seus colegas de outros países do Velho Mundo. Se por um lado era benéfico o movimento exportador por outro lado provocava o aumento dos preços dos géneros básicos, cujo cultivo foi posto de lado, provocando dificuldade nas classes menos favorecidas, não gozando os benefícios dos lucros de exportação, as quais lutavam com dificuldades para a sua subsistência. A redução nos índices de produção nos géneros agrícolas de alimentação popular determina o aumento desenfreado do custo de vida, causando inquietação social e até agitação em Maceió.Pão de Açúcar, Imperatriz, Murici e Quebrangulo. fazendo Alagoas provar ao lado das benesses e novidades surgidas, do gosto amargo da crise brasileira. Junto com essa fase de esplendor material a revolta popular nas feiras das vilas, contra a mudança do sistema métrico, dos pesos e medidas.
Por outro lado, embora a Província estivesse colocada entre os dois grandes pólos econômicos e comerciais da região - Bahia e Pernambuco - através dos quais exportavam
boa parte de sua produção, o porto de Jaraguá, desde décadas passadas, tinha demonstrado não ser uma peça desprezível no taboleiro do xadrez económico, zarpando dele com regularidade navios de bandeiras europeias, carregados de produtos locais, em demanda dos portos da Europa. O nível dos produtos exportados e o consumo dos importados foi aumentando gradativamente, a ponto de na década de 7U do século XIX, ser inaugurada a navegação direta e regular com o Velho Continente.
            Açúcar, algodão, madeira, carne, couro, coco. azeite de mamona, arroz. aguardente, e outros itens eram enviados a portos do poderoso império inglês, tais como Cowes, Falmouth,
Liverpool, Gibraltar, Alexandria e Londres. Outras nações mantiveram também intercâmbio regular com o porto de Alagoas- como Portugal, Estados Unidos. Bélgica. Áustria, Itália e Alemanha. Alguns gêneros esquisitos como .paina de barriguda,  sebo em rama, vinhático, óleo de copaíba, pau brasil, pedra de amolar, complementavam a nossa pauta.
            Tendo como via de acesso o porto de Jaraguá, o comércio alagoano foi inundado por artigos como tecido de algodão, chita, objetos de lã e seda, bacalhau, farinha de trigo, vinhos variados, ferragens, azeite de oliva, sal, drogas medicinais, todos procedentes dos portos europeus todos inseridos na febre de vender e exportar inaugurada pela revolução industrial. Mas se importavam também géneros nacionais como charque, moeda metálica, charuto, panos
de algodão, rapé e café. O comércio de confecções era dos mais dinâmicos e sofisticados, anunciando .paletós de casimira de diversos padrões, paletós de alpaca para meninos e  meninas,   paletós de brim de linhos de cor, chapéus franceses, de pelo, de copa alta, modernos, chapéus de sol e seda e chita de percalinas muito finas,  como anunciavam  O Progressistas e outros jornais da época.
            Maceió, que era quase uma aldeia crescida ao abandono público, quando iniciara sua vida como capital da Provinda em 1839, sem os serviços básicos de uma edilidade, como coleta de lixo, saneamento, água encanada, calçamento, iluminação, transporte, e também pobre de construções públicas, modificou bastante sua feição naqueles anos de  transformações que alcançavam o pais. sintonizada, claro, com as mudanças que ocorriam no
mundo, tendo como veículo condutor o seu privilegiado porto natural. Tantas inovações despertavam espanto, ás vezes criticas e objeções. Novidades que surgiam inicialmente com desconfianças para uma população conservadora, mas que pouco a pouco iam caindo no gosto dos mais abertos e no final a adesão da maioria. O trem de ferro, as embarcações modernas, a praça, estimulava a convivência, a troca de informações, o consumo, a moda dos grandes centros. O postal foi uma dessa novidades trazidas do além mar e mais rapidamente ganhou a simpatia das classes mais abastadas e depois de parte mais ampla de seus habitantes. Caía no gosto da população como um produto bonito, funcional, de baixo custo e charmoso.

            IMAGENS QUE  ENCANTAM E FICAM

O postal, portanto, passou a fazer parte da vida cotidiana da maioria das pessoas, evidentemente que nos setores letrados, como os computadores hoje. Mas boa parte da população o conhecia, manuseava ou fazia uso dele. Inicialmente produzido na Europa, passou a ser confeccionado no sul do pais e alguns, muito mais adiante, em Maceió. Pela Typographya Commercial e a Typographya Trigueiros. Podemos dizer que no estado de Alagoas o conceito de turismo começou a ser desenhado com a chegada desse instrumento de comunicação, pois além de conhecer as belezas famosas de outros lugares do Brasil e do mundo, o postal despertou a sensibilidade do alagoano para as nossas paisagens e atrativos.
Imagens campestres de um engenho bangúê, da praia de Ponta Verde, com o Gogó da Ema, da cachoeira de Paulo Afonso, do casario colonial de Penedo, do pôr do sol da lagoa no Trapiche da Barra, colorizadas e salientadas em ângulos deslumbrantes, eram motivos de orgulho para os locais e formas de sedução para os de fora. Os primeiros atrativos para os
apreciadores e de notável repetição entre os confecionadores eram, porém, os edifícios - alguns ainda mantêm inalteradas suas linhas, como o Palácio dos Martírios, o Teatro Deodoro, a Intendência Municipal - e logradouros interessantes da capital - a ponte de ferro de Jaraguá, a Praça Deodoro, o Tribunal de Justiça, a Rua do Comércio, a Estação de Ferro Central, o Hotel Bela Vista, as casas imponentes de Bebedouro, o Canal da Levada.
            0 historiador é um investigador atento, interessado e persistente. De certa forma, também é um colecionador que procura escolher e identificar informações recolhidas ao longo dos tempos para que sejam acessíveis a um maior número possível de pessoas. Ao buscar e selecionar cartões postais de Penedo, Viçosa, São Miguel, Rio Largo e, claro, da capital, Maceió, estamos incentivando, de forma didática, o grande público à prática da organização da memória,  salvando do esquecimento precioso material, para permitir à geração atual - e às futuras - um mergulho fascinante no passado através das várias coleções consultadas.
Luis Antônio Barreto, ilustre intelectual nordestino, chamou a atenção em uma de suas palestras para o prejuízo inestimável e irrecuperável para a história de seu Estado o fato de várias coleções de fotografias terem se perdido para sempre, tomando mais pobre a memória da capital de Sergipe. Dizia ele que mesmo nas cidades de pequeno e médio porte, que vivem ritmo frenético de mudanças, onde é comum que as famílias troquem seu hábito de morar deixando as casas amplas para acomodar-se em apartamentos de proporções limitadas, ou em condomínios urbanos que verticalizam a paisagem, .para trás ficam não apenas as lembranças das ruas, mas também pertences que sobram por falta de espaços nas novas moradias, livros, revistas, objetos, retratos, fotografias em geral, incluindo cartões-postais que são perdidos ou vão parar nas lixeiras ou nas casas que reciclam papel.
Hoje cada um tende a viver para si, enredado por seus múltiplos problemas. Diferente de épocas passadas, quando as pessoas tinham tempo e enorme zelo pelo acervo familiar, verdadeiro tesouro acumulado de gerações, e as visitas eram convidadas assim que chegavam às casas dos amigos a folhear o álbum de fotos da família onde os postais tinham lugar destacado. Na sala principal, convidados e donos da casa, ao tempo em que provavam as delícias dos doces caseiros e elogiavam o talento da cozinheira, pacientemente compulsavam
as bem cuidadas coleções,  orgulho da família, lembranças de parentes queridos ou de lugares inesquecíveis, referências visuais, imagens nostálgicas, catalisadoras de símbolos e desejos, remetidos com afeto por alguém distante.
E foi assim que os próprios moradores de urbes como Maceió, Pilar e Penedo, amortecidos pelo plácido dia-a-dia de suas quietas cidades, com o aparecimento das primeiras fotografias e a provocação colorida dos selos postais, dos álbuns familiares, passaram a conferir mais valor aos atrativos locais, exaltando suas belezas, despertando a sensibilidade da sociedade para suas edificações principais, como o prédio da edilidade, o teatro, a praça ou paisagens bonitas de suas praias e lagoas.
No interessante trabalho .A Fotografia em Maceió., dos mestres Luiz Lavenére e Moacir Medeiros de Santana, ensaio publicado na Revista do Arquivo Público de Alagoas, em
1962, há subsídios importantes sobre o aparecimento e trajetôria da arte fotográfica em Alagoas, desde o surgimento dos daguerreótipos e dos fotógrafos ambulantes, no final do sé-
culo XIX,  pioneiros e precursores de uma atividade hoje tão valorizada. O mais antigo registro, segundo Santana, data de 1858, em um anúncio da edição do Diário de Alagoas de 13 de novembro. Nele, o daguerreotipista, sediado na Rua da Boa Vista, n. 26, informa que .tira-se em qualquer tempo e em curto espaço esplêndidos e magníficos retratos, os mais fiéis e perfeitos que têm aparecido.  A nova invenção não era de domínio dos locais, e a tecnologia não estava ao alcance de amadores. Franceses e italianos disputavam a praça alagoana de forma intensa, mas sazonal. Augusto Morean, Henriques Júnior, Albino Pereira de Magalhães,
E, Lê Monnier, João Goston, Julien Bouquel, Vidal Pratas são alguns nomes que ofereciam seus serviços profissionais ao público nas páginas dos jornais ou nos almanaques da província, em Maceió, como retratistas e fotógrafos .prontos a exercer sua arte das nove horas da manhã ás quatro da tarde, em salão próprio para receber famílias..
            Não se tem notícia efetiva sobre incursões dos citados na produção de cartões ou selos postais, embora uma pesquisa mais profunda possa trazer alguma surpresa. De um deles, porém, o italiano Guilherme Rogato. natural de San Marco Argentano, sabe-se que depois de trabalhar na Bahia, São Paulo e Rio de Janeiro, radicou-se em Alagoas, aqui permanecendo até o último dia de sua vida, em 9 de setembro de 1966. Exímio artista da fotografia, ele foi também um dos pioneiros da cinematografia nordestina. Em sua rica história de vida. Regato produziu uma série de postais sobre Alagoas e outros estados, como Sergipe, marcando uma nova etapa da cartofília alagoana que ultrapassava as fases anteriores, quando eram confeccionados na Europa ou no Rio de Janeiro. Mais adiante, a Typographya Ramalho e a Typographya Trigueiros foram as produtoras de postais nessa fase de afirmação da província, época em que imprensa e cultura procuravam adaptar-se a um novo tempo que chegava.


O selo postal que surge na capital do Império, proposto pelo Ministério da Agricultura em 28 de abril de 1880, quando a província era presidida pelo baiano Cincinato Pinto da Silva, vem numa época de profundas transformações com formas de pensar e costumes elegantes, quando as cidades maiores e as capitais ingressam na chamada .belle époque tropical.. Passadas as agitações dos Cabanos e dos Quebra-Quilos e a epidemia de cólera-morbo no interior, Maceió, pelo Porto de Jaraguá, se vê inundada pêlos tecidos de algodão, chitas, objetos de lã e seda. Charque, charutos, rapé e café.  Anunciavam-se no comércio paletós de casimira e de alpaca, chapéus franceses de pêlo e copa alta, tudo .muito fino, de gosto moderno..
            A imprensa se irradia, com dezenas de jornais em todos os lugares. O trem de ferro, que vai de Maceió até a zona do açúcar e do algodão, e a navegação a vapor nas lagoas do Norte e do Sul e no litoral se constituem no símbolo da tecnologia moderna dos transportes. A abolição é um corte profundo na vida do país em 1889. O império agoniza e morre. A República nascente cambaleia com a turbulência dos anos iniciais, mas se consolida em seguida. O cartão-postal é vendido nos estabelecimentos da Rua do Comércio e em Jaraguá, na Rua Sá e Albuquerque. É manuseado delicadamente por senhores bem vestidos que mostram com orgulho a seus colegas as noticias de parentes e amigos distantes nas portas da Maison Elegant, da Casa Eugene Gostestchel, da Casa Zanotti, do High Life ou do Café Colombo, antes de levá-los para suas residências e exibi-los para a família. Alguns os carregavam no bolso para exibir como prova de status no Prado Alagoano. mais conhecido como Jockey Clube, discutindo as belezas do Rio de Janeiro, Recife, Lisboa, Roma ou Paris.



O postal é uma novidade de além-mar que pouco a pouco vai ser misturada com o sabor das coisas tropicais. Ele chega a Maceió como um dos símbolos dos novos tempos que vão mudando os costumes antigos da época colonial e do império, em meio a tantas outras novidades que são discutidas e aceitas pela elite urbana que frequenta diariamente os cafés, livrarias, confeitarias e bilhares do centro da capital alagoana.



domingo, 15 de janeiro de 2012

[CRONICA] Luiz Sávio de Almeida. Arengas com Gildo Marçal Brandão (I). A memória e o umbigo







Os começos de nossa amizade



Gildo, a minha cabeça ficou devendo à fantástica contadora de causos, que era a minha mãe, Maria José de Almeida. Talvez, o causo  tenha sido a forma encontrada para carregar a família, matar a saudade e, ao mesmo tempo, nos lembrar de nossas origens na beira do Rio Paraíba, nas bandas de Cajueiro, Atalaia e especialmente da Capela estudada pelo primo Wenceslau de Almeida com sua historiografia ligada ao local. 

Então, em minha geografia particular, eu nunca saí da Capela. Você, seu Gildo Marçal Brandão, dizia que eu via o mundo pelo meu umbigo e que ele, o mundo, para mim, começava na Capela. Era a sua forma de me agastar, dizendo  do meu paroquialismo radical, coisa de irmão futucando a cabeça do outro. Além do mais, afirmava que nunca tive coragem de sair do útero materno e, portanto,  jamais  eu deixaria Maceió.   Durma-se com um barulho deste!

Por isso tudo, quando o furor intelectual atingia ao máximo,  você me acusava de fundar a República Popular Livre e Independente das Alagoas. Claro que o pau rolava e uma vez, você espatifou um coco na calçada na praia, devidamente infernizado pelo calor do sol e da discussão. No entanto, terminada a brincadeira,  você  admitia candidamente que tinha uma canela enterrada em Mata Grande, com eira e beira sertaneja e duvido que tudo não passasse pela cabeça de Dona Eva e de Seu Brandão.

Esse negócio do telúrico é fogo.  Eu vivi para cima e para baixo e nunca me desamarrei de Alagoas. Penso que isto se encontra ligado ao fato de Alagoas sempre ter viajado comigo na crônica da tradição familiar. Foi da tradição que derivou a ideia de passar a vida estudando e discutindo isto aqui. Alguma coisa aderiu,  grudou. 

Além de  minha mãe, meu pai gostava de, também, estar com essa conversa. Por ele vinha o Zé de Almeida, meu tio, seu Manezinho e eram histórias que saíam do São Francisco e batiam na mata. Não tive muita conversa agrestina ou sertaneja. Somos gente da mata, anfíbios, misturados com as traíras e jundiás do Paraíba, do Paraibinha com suas ingazeiras e por isso talvez eu dê a vida por um ingá caixão, aquela doçura peculiar que somente é divina na beira de um rio. E você quer que eu saia daqui ou desmonte o mundo dando-lhe outro centro que não seja a Capela? E o ingá?

Hoje, com ou sem razão, seu Gildo, eu acho que a terra da gente é o lugar que a gente inventa, acredita nele e vive. Ele é real, pleno de memória. Para mim, a memória é aquilo que  nos vincula diretamente à história que se evoca, como se pasasse pela consciência de um tempo.   Claro que com ela ajudamos a fundar um local. Vou parar por aqui Gildo, sei que vai complicar e vai dar meia-hora de lenga-lenga.

Claro,  Gildo, que há umbigo!   Tanto é que você no  complicado de metropolitano, no meio dos seus imensos afazeres de Anpocs e USP,  babava quando eu saía daqui e ía  conversar potoca na sua casa em São Paulo.  Você precisava dos amigos daí,  mas me disse que iria construir um edifício e chamar Denis e  a mim para morarmos nele, juntando as Alagoas-mundo e o São Paulo-dos-seus. 
O que é que eu sei fazer, a não ser conversar potoca, miolo de pote? Me deixa na Capela! E você provocava, pois chegava, ao me ver calado, batia no meu ombro e falava: "Vai Luiz Sávio, diz!".  Podíamos brigar à vontade, pois  sabíamos da vida um do outro, amizade de uns 40 anos sem nunca falhar. Nossas mulheres terminaram sendo íntimas, nossos filhos também.  É incrível como nossas famílias se entrelaçaram.  Há uma raíz para isto tudo? O  Bar do Chopp,  o galeto avagabundado da Toca, o Cabeça de Touro. Você fundou raíz em São Paulo, eu não tenho dúvida. A sua amizade pelo pessoal que você sabe,  era imensa, sua admiração, seu carinho, seu reconhecimento. Não tenho dúvida, mas fundar jamais poderia significar que esquecesse os velhos fundamentos.  Viu que os nossos  são de bares? Não se agaste, que tou brincando.
Vamos voltar para o umbigo. Veja seu Gildo Marçal, onde você desejou que ficassem as suas cinzas? Barra de São Miguel. Na verdade, toda vez que eu olho nosso mar, eu vejo um pouco de você. Acredite, o senhor me honra muito ao considerar-me um dos fundadores  da República Popular Livre e Independente das Alagoas, o lugar que você  mesmo decidiu para ficar com suas cinzas. Existe ou não existe umbigo?
Eu tenho uma saudade imensa, seu cara. Vamos tomar sorvete.  Você paga?


quinta-feira, 12 de janeiro de 2012

[BANCO DE IMAGEM: URBANISMO: MACEIÓ: AVENIDA DONA CONSTANÇA: 2012]




Esta é uma área que foi remexida pelo viaduto João Lyra.  As fotos são recentes e tiradas neste mês de janeiro de 2012. O Banco de Imagem testemunha um tempo e deve ser utilizado para posteriores comparações. As fotos são de Luiz Sávio de Almeida.


Fins da Avenida Dona Constança














Rua Álvaro Otacílio