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domingo, 29 de janeiro de 2012

[HISTÓRIA: DOCUMENTAÇÃO: ACERVO] Benedito Ramos. O tesouro da Associação Comercial de Maceió. Tribuna Independente..






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RAMOS, Benedito. O tesouro da Associação Comercial de Maceió. Tribuna Independente. Maceió, 29 jan.2012. Contexto.
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Um pequeno bilhete sobre um acervo documental





Continuamos divulgando matéria sobre o acervo da Associação Comercial de Maceió e, desta feita, Contexto fala da documentação que ela dispõe sobre a vida alagoana, boa fonte de pesquisa e que vem sendo colocada, paulatinamente, à disposição pública. Seria interessante que as organizações em Alagoas se habituassem a tratar daquilo que é importante para a sua história e para a da sociedade.  A Associação Comercial de Maceió vem dando um exemplo com relação ao assunto e mantendo a sua posição orgânica  dentro do que se costumou a identificar como classes produtoras.

Benedito Ramos é um dedicado gestor cultural, sendo responsável pela organização e manutenção do arquivo da Associação que é presidida por José Geminiano Acioli Jurema. No fundo, atualmente, a Associação representa com maior ênfase  a pequena e média empresas, integrando-se a outras unidades municipais dentro de uma Federação também presidida por José Geminiano.

Sávio de Almeida


Cine Delícia. Aqui foi criada a Associação Comercial


 
Jornal de Alagoas de 17 de Julho de 1928

A festa supimpa
O Palácio do Commercio illuminou-se como para uma apparição phantastica de sonho de Sherezade. Para elle, logo as vinte horas, começaram a correr conduzindo a nossa sociedade elegante e requintada em toilletes riquíssimas, todos os automóveis da capital e algumas dezenas de outros que vieram do interior do estado. As escadarias de mármore espalhavam as gambiarras das gigantescas cortinas luminosas que cahiam do frontão da alta columnata. Através dos vitrais de colorido e rendilhado oriental era um incêndio nababesco de imprevistas irradiações cambiantes. E as musicas militares tocam no vasto hall, onde os primeiros criados ostentavam as suas fardas verdes cheias de alamares dourados.Mas la por cima o luxo se multiplicava em luzes tantas em tão custosos móveis e em tamanhos adornos de alfaias e tapeçarias, que dir-se-ia o alcazar ou o alhambra, de quaesquer das grandes cidades meridionaes da Peninsula Iberica  ao tempo da invasão mourisca: a impressão era de que estavamos num imenso salão de embaxadores, onde as próprias paredes, pela suave tonalidade dos reflexos era de porcellana a mais fina.
         Os serviços, fidalgos, como jamais melhores.
          Tres grandes orchestras que se revesavam initerruptamente faziam a delicia dos bailados. E os outros creados  impeccaveis na sua indumentaria e disciplina a todo instante passavam com as bandejas largas de prata pezadas de bebidas finas e de doces raros.
          Desejariamos, para completar esta reportagem que infelizmente não podemos lançar a altura do acontecimento, referir uma lista de assistencia.           
Mas o que é que ha de mais em destaque em Maceio, na administração do estado, no corpo consular, nos serviços federaes aqui installados e na organisação da edilidade que ali não estavam, ostentando a linhas das casacas irrepreenciveis de permeio com as fardas dos militares mais graduados e as toilettes de rigor das damas mais respeitaveis e das senhorinhas mais famosas e gentis de nossa sociedade




Acta da quarta Assembleia Geral da AssoCiação Comercial de Maceió 17 de Agosto de 1868



Presidencia do Sr. G. W. Wucherer 



As doze horas do dia assumio o Snr. Presidente a cadeira e procedeo o secretario a chamada e verificou-se achar-se presente o nº de vinte e trez assionistas, e por tanto declarou o Snr. Presidente continuada a Assembleia Geral; pelo que, expor que se havia a tractar da mudança do salão desta associação para Jaraguá, fim para que havia sido convocada desta assembleia, visto que se havia por tanto essa mudança na ultima Assembleia Geral, quando a direcção de semelhante proposta para esta Assembleia, e portanto que hia por a votação e discução a mudança do dito salao, por (____?____) secreto e devendo os Snres. assionistas que fossem do parecer que o salao ficasse em Maceió depositaram na urna essa palavra, e os que fossem de parecer que devia se mudar para Jaraguá depositassem a palavra Jaraguá, prossedida a votação, foi verificando que forao depozitados na urna dez bilhetes com a palavra Jaraguá e treze com a palavra Maceió, ficando consigentemente aprovado que a dita sala continuará a permanecer em Maceió. E por ficar assim rezolvido Eu Candido Venancio dos Santos, secretario lavrei a presente Acta na qual assignei com o Snr. Presidente e mais assionistas Presentes:

G. W. Wucherer

Presidente

Candido Venancio dos Santos

- Secretario

Manoel Martins de Vasconcellos

Director

José Virginio T. de Araujo 

director 

João Antonio Monteiro 




Acta Quinta D’Assembleia Geral extraordinaria da Associação Commercial de Maceió em 6 de Junho de 1869.

Servindo de Presidente o secretario da mesma Candido Venancio dos Santos 



As onze horas do dia acima assumio a cadeira da presidencia o secretario Candido Venancio dos Santos, por não haver comparecido o presidente  nem o vice presidente, e sendo este o terceiro dia para o qual se tem convocado a presente Assembleia extraordinaria, e podendo portanto julgar-se a mesma constituida com o numero dos socios presentes na forma do art. 26 do estatuto que rege essa Associação, declarou o Secretario servindo de Presidente aberta a sessão. Verificou-se acharem-se presentes os Snres socios, Thesoureiro João d’Almeida Monteiro,   Manoel de Vasconcellos Junior, José Joaquim de Oliveira,  Vasconcellos e Moraes, Borstelmann e cia, Vasconcellos Barboza  e Torres, Joaquim de Souza Ferreira, Antonio Teixeira de 2Aguiar e o Secretario Candido Venancio dos Santos.

O Secretario servindo de presidente; passou a ler a exposição seguinte:

 - Senhores – Cumpre dar vos a razão para  que foste convidados para esta reuniao da Assembleia Geral extraordinaria, foi pela mesma que é o Medico a caza  do infermo, isso é, para que cure o mal que ameassa a nossa comparação. Antes porem d’apresentar vos qual

seja o mal de que vos venho falar, cumpre dizer vos alguma cura, afim de que vos, compenetrados da importancia d’um estabelecimento dessa ordem cursis com zello a sua conservação. A nossa Associação, é o vinculo que representa o nosso commercio, qual quer reclamação em suplica enderessada ao governo (__?___), seus delegados por intermedio della, tem incontestavelmente mais força e prestigio do que sendo enderessada individualmente, visto que o que parte de uma Associação é expressão de um corpo colectivo, e quando imensas outras utilidades não houvessem essa só bastaria para cultuar em vosso espirito, que axas esclarecido comprehenderá milhormente a importancia e utilidade desta comparação, do que eu o poderia explicar, portanto não proseguireis em vol-a demonstrar. 

Quanto ao mal que vai solavando a nossa Associação, passo a vol-a apontar. Snres sabis que nenhum estabelecimento se poderá manter, sem que a sua receita (___?____) as suas despezas, e quando essas excedem a quella, duplicadamente, nenhum equilibrio sera pussivel.  É esse o estado presente de nossa Associação. De cento e tantos socios com quem contavamos, resta-nos apenas o limitado numero de vinte e tantos que contribuem regularmente com suas mensalidades. Reduzinda a receita mensal a quarenta e tantos mil reis, para fazer face as despezas de trinta do aluguel d’uma caza, quarenta  de ordenado de um caixeiro, assignaturas dos jornaes da capital,  Rio de Janeiro, Pernambuco e Bahia, coloca este estabelecimento  em circunstancias de serem precisas medidas acertadas para a conservação de sua existencia. É pois para que cureis de semelhante estado que foste convidado para essa reunião.

Snres, a Associação commercial de Maceió, não deverá continuar dessa forma deixal-a baquear por falta de recursos de que podeis dispor, seria alem de que um cazo inteiramente virgem, um grande dezar para o nosso commercio, cuja a ideia somente seria bastante para vos emvergonhar. A nossa Associação devidamente fundada com licença do governo Geral, não deve ser considerada como uma sala de dança de mininos, que cai por qualquer leviandade, não, ella devera ser mantida e conservada a todo custo, sendo que sejao necessarios sacrificios [...]


O TESOURO DA ASSOCIAÇÃO COMERCIAL DE MACEIÓ
Benedito Ramos
São as dimensões superlativas do Palácio do Comércio, sede da Associação Comercial de Maceió, desde 1928, que traduzem o sentido da riqueza consoante ao aparente fausto. O fausto que se celebra no instante de sua inauguração, capaz de inebriar o jornalista  que divulgou a matéria no dia seguinte, domingo, 17 de julho de 1928, no Jornal de Alagoas.      A empolgação do cronista, ainda hoje, reflete o panorama social e econômico da capital alagoana. Foi o apogeu do comércio que permitiu a construção de um prédio de 3.589 m² no mais insinuante estilo neoclássico tardio. Mas depois de 83 anos, o Palácio do Comércio, inaugurado pomposamente naquela noite memorável, já foi restaurado uma vez e, mesmo assim continua a exibir sem pudor algum, as mesmas marcas do tempo que o degrada. A Associação Comercial de Maceió possui uma imensurável riqueza materializada em documentos que não só atestam sua própria história, como dos seus integrantes e mais ainda:  da construção do próprio Estado de Alagoas. Não seria demais dizer que o maior tesouro da entidade seja sua história.
REGISTROS PRESERVADOS
Manter 145 anos de história, desmontada como peças de um quebra-cabeça, que se completa agora página a página, em seus 11 livros de atas pode parecer linear ao pesquisador, caso esta história não se intercalasse nos apontamentos dos Livros de Matrículas dos sócios, nos convênios para fiscalização do algodão e do açúcar, na coleção de telegramas trocados com a Inglaterra e mais uma dezena de livros de estatísticas da movimentação portuária. Mais ainda, se o pesquisador for buscar informações nas Fallas da Província. Coincidentemente muitas informações destes relatórios se repetem nas atas da Associação e em alguns casos são representações da entidade junto ao governo, como pedidos para a construção das Pontes de Embarque e do Riacho Maceió, ligando Jaraguá a capital, implantação de linha ferroviária e estradas para escoamento da produção. A partir da República esta relação irá aparecer na coleção de leis e decretos do governo, até 1946, que faz parte do acervo do Museu do Comércio de Alagoas.
Os livros de atas iniciam em 22 de julho de 1866, quando os comerciantes se reuniram para fundar a Associação Comercial de Maceió, mas curiosamente, um convênio para fiscalização de toda a logística algodoeira foi firmado no mesmo dia, e mesmo antes de oficialmente existir uma associação. Razão pela qual estes dois livros se intercalam com as atas das reuniões da chamada Junta de Direção. Diferente das Atas de Assembleias, realizadas ordinariamente todo ano ou extraordinárias a qualquer tempo, o fato é que estes documentos revelam seu cotidiano, assim como seus atores principais, aqueles diretamente ligados ao comércio de algodão. Pelo menos no princípio era assim. E, praticamente, nos doze primeiros anos de sua existência a Associação exerceu uma marcação segura em cima deste mercado.
E, só mais tarde vamos ver os produtores de açúcar criando o mesmo sistema. O que não impede, apesar dos cuidados, alguns registros de fraudes, inclusive com pagamento de multas pelo preposto da entidade. E, diga-se de passagem, que as multas eram recolhidas ao Hospital da Caridade e não a nenhum beneficiário do convênio, inclusive sua interveniente, a Associação Comercial de Maceió. Em tudo isso é importante ressaltar, já naquela época, o avanço na sistematização da logística algodoeira, ministrada pelo teor de tais convênios, que mais tarde veio completar-se com a presença de uma comissão, formada pelos próprios consócios, todos do mesmo ramo, que analisavam cada situação nova, inclusive a qualidade do produto, para assim, num colegiado, decidirem o melhor.
Indubitavelmente, um livro que nos chama a atenção: é o Registro de Matrícula dos Sócios, que como qualquer outro, no gênero, ele elenca os participantes da entidade desde seu ingresso e assinala inclusive, a sua saída, seja por razão pessoal, estatutária ou por falecimento. Neste ultimo caso, não encontramos em nenhum momento, alguma nota de pesar, ou qualquer outra informação além da expressão: “falecido” e em alguns casos a data. Esta regra parece abranger a todos, sem distinção, a ponto do próprio fundador passar incólume numa lista coletiva sem outra anotação, além de “falecido”.
Os telegramas, mas do que qualquer outro documento, enseja a relação da província, a partir de 1874, com o restante do mundo. Sua utilização é o que se apresenta de mais avançado para o terceiro quartel do século XIX. Isto porque além das informações dos mercados do algodão, açúcar e outros gêneros, com as devidas cotações de preço, o texto se expande tratando dos principais acontecimentos políticos, sociais e econômicos do Brasil, das Américas, da Europa e do restante do mundo. O serviço de telégrafo funcionava como um correspondente no exterior trazendo as principais notícias, entre  aquelas que teriam algum reflexo no mercado. Outro detalhe importante para o mercado era a posição dos navios cargueiros e os portos onde estavam atracados. Isto permitia cada praça vislumbrar uma previsão de remessa das mercadorias nos trapiches, ou de recebimento das importações.
          Levando-se em consideração que a implantação do sistema telegráfico no Brasil iniciou em 1852, o aproveitamento dessa forma de comunicação à distância teve bastante efeito no comércio para o exterior, chegando, inclusive, a criar uma linguagem própria traduzindo o humor do mercado. Algumas expressões como: mercado frouxo, Assucar quieto, mercado firme, mercado calmo, algodão calmo, algodão bastante animado, mercado em férias, aparecem com frequência deixando evidente que este tipo de comunicação, rapidamente, havia se adaptado ao colóquio das bolsas de mercadorias. 
      Quanto ao que poderíamos chamar de noticiário, este evidencia os acontecimentos mais importantes, enfatizando o país de origem, sem  fazer distinção entre as informações do mercado, como podemos ver no texto datado de 27 de outubro de 1874.
      Devemos lembrar que quando da implantação do telégrafo em Maceió, a Associação chegou a solicitar a instalação de um aparelho em sua sede, o que nos parece foi, parcialmente, atendido quando o local escolhido ficou o endereço da Rua Sá e Albuquerque, ali permanecendo durante 45 anos.
O RESGATE DA HISTÓRIA
Entre os seus 145 anos de existência da Associação Comercial de Maceió e 83 da construção de sua sede o Palácio do Comércio, passaram 31 presidentes, desde José Joaquim de Oliveira até José Geminiano Acioli Jurema, muita documentação envelheceu e se perdeu. Mesmo assim o que restou ainda é uma preciosidade. Os primeiros livros de atas, nem todas as entidades do gênero, contemporâneas ou precedentes possuem. Com os demais documentos nos debruçamos sobre a memorável história da instituição, que mesmo assim permanecia obscura, na sua escrita antiga e rebuscada, desde os idos de 1866. Foi graças a uma pareceria com a BRASKEM e um convênio com a Universidade Federal de Alagoas que iniciamos a transcrição paleográfica destes documentos. O trabalho iniciou há um ano e meio com a contratação de duas estagiárias do curso de História e ainda deve perdurar por mais dois anos.
T odo o material transcrito até agora já está digitado e  disponível ao pesquisador através do site: https://sites.google.com/site/mucomal/ assim como pode ser fornecido ao pesquisador, diretamente na Coordenadoria de Ação Cultural e Social da Associação, no Palácio do Comércio.
A metodologia utilizada na transcrição permite ao pesquisador confrontar o texto transcrito com o livro original, em caso de dúvida. A transcrição marcada linha a linha com o número da respectiva página oferece maior credibilidade ao documento transcrito. E por sua vez a transcrição seja impressa ou digital evita que o pesquisador toque os livros originais que são manuseados com luvas.
É transcrição desta documentação, juntamente com as pesquisas até agora empreendidas e difundidas pela entidade colocam o Palácio do Comércio num lugar de destaque na preservação da História Econômica de Alagoas. E, com certeza nenhuma obra no gênero estará completa se esta bibliografia documental não fizer parte da pesquisa. Afinal, não há como negar que o desenvolvimento do Estado tenha passado soberbamente pelos trapiches do bairro de Jaraguá. E, sem dúvida alguma a ancestralidade do associativismo nas Alagoas promoveu uma parceria entre a iniciativa privada e o Governo Estadual. A Associação Comercial de Maceió, esteve ativa e presente quando nenhuma estrutura aduaneira existia e assim permaneceu até quando o governo provincial preencheu esta lacuna. Hoje, após este trabalho, que apenas se inicia é possível dizer e comprovar esta tese de que a iniciativa privada foi gestora do seu destino econômico e fazendo com que o capital mercantil prosperasse a ponto de se construir um Palácio no gênero da sede da Associação Comercial de Maceió.



quarta-feira, 18 de janeiro de 2012

[HISTÓRIA: MUSEU: COMÉRCIO: ASSOCIAÇÃO COMERCIAL: MACEIÓ: ALAGOAS] Benedito Ramos..MUSEU DO COMÉRCIO DE ALAGOAS – A REALIZAÇÃO DE UM SONHO





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RAMOS, Benedito. Museu do Comércio de Alagoas – A realização de um sonho. Tribuna Independente. Maceió, 18 set. 2011 . Contexto.
http://www.blogger.com/blogger.g?blogID=8820169997764778745#editor/target=post;postID=4036388933515586806
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Um pequeno bilhete sobre uma Associação

Sávio de Almeida



          A Associação Comercial de Maceió mantém dois museus e Contexto vai visitá-los, a partir de um texto de Benedito Ramos, Coordenador de Ação Cultural e Social da entidade.  Contexto parabeniza a instituição pela iniciativa; muitas outras entidades poderiam estar no mesmo caminho, ajudando a valorizar o que nos pertence como herança e como atualidade. Contexto publica  em anexo, parte de um relatório com menções à economia de Alagoas para o ano de 1868.  É de notar a preocupação da entidade com a guerra do Paraguai e com o desempenho do algodão e do açúcar, mercadorias que eram fundamentos essenciais da geração da renda e produto da economia provincial, distintas em seus processos de acumulação, mas interligadas em um mesmo  e único processo econômico e político em andamento na formação histórica.
            A  Presidência da Associação Comercial entrou em parceria com Contexto e solicitou a publicação de material sobre os museus e  sobre a documentação que  a entidade pode disponibilizar para a pesquisa, o que está sendo redigido, também, pelo Benedito Ramos. É intuito de Geminiano Jurema publicar esta documentação no primeiro semestre do próximo ano. Aproveitaremos a oportunidade para adiantarmos textos sobre a formação histórica de Alagoas, utilizados como notas de aula no Mestrado sobre Dinâmica do Espaço Habitado (UFAL) e um deles trata da Associação Comercial.





MUSEU DO COMÉRCIO DE ALAGOAS – A
 REALIZAÇÃO DE UM SONHO

Benedito Ramos

INTRODUÇÃO

Quem vê o Palácio do Comércio não pode imaginar que alguma outra entidade tenha tanta participação na história de Alagoas como a Associação Comercial de Maceió que ali  reside desde 1928, quando o prédio foi inaugurado, após cinco anos de construção. A existência  da Associação remonta a 22 de julho de 1866, quando alguns comerciantes se reuniram, sob a liderança de José Joaquim de Oliveira, no salão da Antiga Sociedade Dramática Particular Maceioense, para planejarem a fundação de uma associação. Três meses depois, em 7 de setembro de 1866 estavam realizando a primeira assembleia, com 100 participantes, sendo que pelo menos 46 eram do ramo algodoeiro.

Restaurado em 1999, o prédio foi aberto ao público em 2000 com a promessa de uma participação também nos destinos culturais de Alagoas. De lá para cá, dois museus foram criados: o de Tecnologia do Século 20 e o Museu do Comércio de Alagoas. Este último estava prometido havia 81 anos, um sonho do presidente Homero Galvão, a quem coube inaugurar o Palácio do Comércio na memorável noite de 16 de junho de 1928.

A promessa de criação do museu do comércio ficou adormecida até 2000 quando a Associação contratou um Coordenador de Ação Cultural e Social, para criar e administrar o espaço que se destinaria ao público visitante. Havia um compromisso neste sentido, com o Banco Interamericano de Desenvolvimento – BID, após a restauração. A biblioteca surgiu primeiro, quando foi renovada com duas doações importantes de acervo: do escritor, advogado, membro da Academia Alagoana de Letras e Instituto Histórico, Paulo de Castro Silveira e do Industrial Maurício Gondim. A formação desta biblioteca com mais de 4 mil volumes e, cerca de 30 mil títulos, sobretudo de autores alagoanos, tem sido acrescida de outras doações importantes, como a do advogado Floriano Ivo Junior e agora, recentemente, do Engenheiro Químico, Luiz de Medeiros Novaes, cuja contribuição ao setor sucroalcooleiro veio preencher uma lacuna na demanda das pesquisas sobre esse tema. A biblioteca de Novaes, após inventariada faz parte, separadamente, das estantes do Museu de Tecnologia do Século 20, juntamente com outras contribuições nesta área.

A vocação do Palácio do Comércio como local de exposições surgiu logo no princípio de 2000 quando abrigou o acervo do Museu Théo Brandão, enquanto o prédio daquele Museu estava sendo restaurado. Outras exposições, inclusive a do acervo da pinacoteca da Caixa Econômica e do Museu Histórico Nacional estiveram no seu salão principal. Mas paralelamente começou a ser feita uma verdadeira campanha no sentido de buscar entre os comerciantes e população um acervo destinado a criação do Museu do Comércio. Não demorou muito e havia uma sala cheia de máquinas e equipamentos, computadores antigos, telefones, rádios e tudo o que podia compor uma bela exposição de tecnologia, mas nada que pudesse inspirar um circuito museológico destinado ao comércio. E foi o que aconteceu. Alguns meses depois estava sendo inaugurada a exposição temporária “Tecnologia do Século 20”, que recebeu a participação da coleção de máquinas fotográficas antigas, do acervo particular do fotógrafo e jornalista José Ronaldo. A mostra terminou e foi criado o Museu do mesmo nome, até por conta da importância que teve o século 20 no desenvolvimento tecnológico que inspirou o terceiro milênio.

Mesmo sem museu o comércio era representado por uma sala contígua à Biblioteca, onde ficavam os móveis administrativos da antiga Associação Comercial de Maceió, com as escrivaninhas altas os livros de estatísticas, mesas de trabalho, estantes e alguns outros retirados do uso ainda hodierno. Era um escritório-museu que bem representava as atividades do início do século na entidade.

Outra contribuição importante veio da exposição realizada em 2005 com tema: Jaraguá – História e Urbanidade. Foi nesta ocasião que muitas imagens importantes foram ampliadas e plotadas. Algumas ainda hoje fazem parte do Museu do Comércio de Alagoas, como a foto da inauguração do prédio e a reunião que decidiu a sua construção.

A FORMAÇÃO DO MUSEU DO COMÉRCIO

         Para cumprir o desejo do presidente Homero Galvão, o Museu do Comércio ainda deveria ser criado. No entanto, o tema parecia muito amplo para o desenvolvimento de um circuito num dos pavilhões laterais, composto por quatro salas. Não havia porque abordar o comércio primitivo ou a história dos fenícios. O mundo ocidental, sobretudo as Américas tinham iniciado sua relação com a Europa por conta do comércio. Foi a busca do caminho marítimo para as índias que motivaram as viagens de Vasco da Gama em 1498 e de Pedro Alvares Cabral em 1500. Enfim a busca das especiarias para atender ao mercado europeu seria o mote perfeito para iniciar o circuito da Sala Novo Mundo. Nela o visitante percebe não só a situação política de Portugal, através de suas bandeiras como a trajetória administrativa da colonização, numa cronologia marcada pelas datas dos acontecimentos mais importantes. Dois mapas ampliados da Capitania de Pernambuco mostram Alagoas, já representada pelo seu principal rio – O São Francisco e suas duas lagoas Mundaú e Manguaba. A Capital Santa Maria Magdalena das Alagoas do Sul, juntamente com Porto Calvo e Penedo aparecem nas reproduções das gravuras, assim como na cartografia, de autoria de Franz Post, que acompanhou Maurício de Nassau durante a invasão holandesa.

Continuando o circuito chega-se à Sala Comércio e Desenvolvimento a partir da ação pirata no contrabando do pau-brasil, seguindo pelo tráfico de africanos até a transferência da Família Real Portuguesa e criação do Reino Unido do Brasil a Portugal e Algarves. É com a presença de Dom João VI que o comércio brasileiro começa a ser sistematizado. Até então todas as exportações eram feitas diretamente a Corte Portuguesa e com a abertura dos Portos o Brasil é livre para negociar com outros mercados. É nesta ocasião que são criadas as Juntas de Comércio. Uma coleção de decretos, leis, alvarás, cartas régias e editais faz parte de um acervo disponível ao pesquisador, no próprio museu.

A independência do Brasil é marcada pela nova bandeira da nação brasileira e o início do primeiro e segundo império. Uma rica iconografia mostra a família real e o Imperador em tamanho natural. Mais adiante as inovações tecnológicas que transformam o antigo engenho em usina, onde a primeira delas, a Usina Brasileiro é mostrada juntamente com seu fundador o Barão de Vandesmet, juntamente com sua família.

De forma muito tímida a indústria têxtil aparece através da imagem da Fábrica União Mercantil, fundada por José Antônio de Mendonça, o Barão de Jaraguá. No entanto, em pesquisa recente, observamos que a participação do algodão na economia de Alagoas tem uma importância vital, a ponto de motivar a própria criação da Associação Comercial de Maceió,  razão pela qual, brevemente estaremos corrigindo este favoritismo ao setor açucareiro.
Ainda nesta sala, considerando a cronologia do circuito, aparece a fundação da Associação Comercial de Maceió, cuja ata da primeira assembleia abre a sala seguinte, em letras graúdas, junto ao retrato de seu fundador José Joaquim de Oliveira. Uma pequena vitrine protege a memória da entidade em pequenos objetos, documentação, cartas, pena, mata-borrão e primeiras edições do estatuto da entidade.

A sala seguinte é da Associação Comercial de Maceió, reservada a guardar os móveis de expediente, com suas escrivaninhas, birô, cadeiras e livros de estatística da entidade. Ao entorno uma mostra iconográfica dos acontecimentos que marcaram a vida da Associação, como as fotografias ampliadas, da inauguração do Palácio do Comércio, a reunião de 17 de maio de 1921, que iria defender a construção do edifício, assim como o banquete oferecido a Getúlio. Tem-se, também,  a fotografia de Mons. Capitolino de Carvalho, senador da província e  que no exercício do governo estadual, sancionou Lei  que permitiu a retenção de 100 réis por volume exportado,  para fins da construção da sede da Associação. E esteve presente na festa de inauguração do Palácio, onde ocupou lugar de honra, à cabeceira da mesa, junto com Álvaro Paes e Costa Rego, dois outros governadores de Alagoas. Também em imagem original, está o presidente Antônio de Melo Machado que se tornaria deputado da Constituinte no Governo Getúlio Vargas.

Uma coleção de moedas mostra ao visitante as mudanças do padrão monetário de réis para cruzeiro. E ainda uma curiosidade: as moedas utilizadas dentro dos limites dos engenhos ou usinas de açúcar, para compra nos chamados “barracões”.

Dois outros retratos marcam o espaço: o primeiro do fundador, num desenho a pastel, realizado pelo artista Rosivaldo Reis e outro do segundo presidente, o comendador Manoel de Vasconcelos, sócio do Barão de Jaraguá, na Fábrica União Mercantil, pintado em Paris no Atelier de Vienot e Morriset, juntamente com dois outros retratos em tamanho natural, do Imperador Pedro II e do Visconde de Sinimbu, os dois últimos colocados na Galeria dos Presidentes no terceiro piso.

É nesta sala, onde ficam guardados os 11 livros de ata da Associação Comercial de Maceió, a partir de 1866. Hoje estes livros estão sendo transcritos, digitados e colocados a disposição do pesquisador, graças a uma parceria entre a Braskem, Associação e Universidade Federal de Alagoas, com a participação de duas estagiárias do curso de história, com conhecimento de paleografia. Esta ação tem permitido a Coordenadoria de Ação Cultural reescrever a história da entidade e conhecer documentos importantes como a coleção de telegramas para Liverpool, principal praça importadora do algodão alagoano, desde 1874, após a implantação do telegrafo na cidade. Outros documentos importantes são os livros de registro das exportações e importações realizadas, este último com revelações inéditas sobre a vida social, através dos produtos que chegavam aos empórios da capital.

A última sala, denominada Jaraguá, representa na sua iconografia a evolução da sociedade e da urbe, profissões ou trabalho junto aos principais trapiches ou ao comércio local. Um quadro plotado em larga escala faz uma cronologia do bairro a partir de 1611. É uma sala destinada a atender pesquisadores. Para isso existe uma mesa monumental cercada por cadeiras antigas, sempre personalizadas com o símbolo da entidade. Uma coleção de Leis e Decretos do Governo Republicano está exposta sobre uma grande escrivaninha, também a disposição do pesquisador.

BIBLIOTECA, PESQUISA E PUBLICAÇÕES

      Colocar a Associação Comercial de Maceió em sintonia com a Universidade Federal de Alagoas, faculdades e escolas, promovendo e incentivando a pesquisa sobre economia regional, tem sido uma tarefa gratificante. A maioria dos professores e pesquisadores desconhecia o acervo, bibliográfico, documental e iconográfico da entidade. Depois a ausência de formalidades no atendimento, a facilitação do acesso às obras, mesmo as consideradas raras. Para os documentos antigos sempre é oferecido luva de tecido e local apropriado para consulta, assim como a possibilidade do pesquisador agendar sua bibliografia antecipadamente. Enfim o fornecimento de imagens digitalizadas, textos e livros digitais de bibliotecas importantes como: Biblioteca Nacional de Portugal, Biblioteca Nacional, USP, Instituto Camões e outras. Tudo pode ser cedido gratuitamente através de arquivo digital.

No início de 2011 foi lançado o primeiro número do encarte O PALÁCIO, com oito páginas em papel jornal, formato A4, com aparência dos antigos jornais tipográfico da década de 1950. Já na sexta edição, hoje inscrito no Instituto Brasileiro de Informação em Ciência e Tecnologia, o encarte tem como linha editorial a publicação de artigos de cunho científico, notadamente na pesquisa histórica, preferencialmente de alunos e professores, privilegiando os temas regionais e o Bairro de Jaraguá. Esta publicação tem o apoio de diversas empresas que garantem com seus anúncios a tiragem mensal de 1500 exemplares, durante o ano inteiro.

Alguns trabalhos de pesquisa realizados por alunos da UFAL, no Palácio do Comércio estão publicados, assim como diversas contribuições de intelectuais alagoanos. Com uma distribuição garantida, a partir da remessa dos boletos de pagamentos dos associados, também aos anunciantes que recebem uma cota mensal de 10 exemplares, havendo ainda circulação entre alguns equipamentos culturais como: Casa do Patrimônio (IPHAN), Arquivo Público, Museu Théo Brandão, Fundação Municipal de Ação Cultural, Secretaria Municipal de Turismo, Academia Alagoana de Letras, Instituto Histórico e Geográfico de Alagoas, UFAL e outras entidades. O encarte também pode ser encontrado na recepção do Palácio do Comércio, na Rua Sá e Albuquerque, 467 em Jaraguá.

A instituição também admite voluntários, nas áreas de biblioteca, arquivo, pesquisa e paleografia, através de contrato temporário, com a garantia de certificação de sua passagem pelo setor. Hoje a entidade possui cinco funcionários,  dois deles na biblioteca e três no setor de pesquisa.

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 Um documento e tópicos sobre a vida das Alagoas em 1868


Relatório da Junta de Direção da Associação Commercial de Maceió. Apresentado à Assembleia Geral em 22 de Julho de 1868.
(Grafia conforme consta no documento)

[...]

Situacção Commercial

[...] a prolongação de guerra [...] com a Republica do Paraguay [...] tem concorrido para a paralização do commercio em geral, e esta Provincia tem-se rescentido, como é natural [...]. A baixa do cambio nas praças do Rio de Janeiro e Pernambuco com quem temos estreitos relações commerciais, tem feito e continua a fazer grande mal ao commercio pelo panico e paralização que d’ahi tem originado: não tem porem havido fallencia.

Agricultura

Apesar da Falta de braços escravos de que a Agricultura há muito rescente, e [...] de braços livres que tem sido tirados para a guerra, é vos lisongeiro dizer-vos que a produção agricola da provincia não tem diminuido, principalmente garanto os dois ramos da cultura mais importantes que temos – algudao e assucar – [...].

Algudão 34

A entrada [...] foi superior a dos annos anteriores. [...]  Este genero continua a merecer boa reputação nos mercados extrangeiros depois da instalação da Inspeção Commercial, porque pelas ultimas cotações tem elle estado superior em preços ao da Bahia, sendo digno de louvar o empregado do commercio, que tem sabido corresponder a confiança n’elle depositada.

[...]

Estabelecimento de Credito

O único que existe é a Caixa Commercial o qual tem limitado suas tranzações, dando todavia a um accionista o devidendo  6% por semestre. Sua acções porem sem motivo plausivel estao com desconto de 10 a 15% .

Companhia União Mercantil

Esta companhia [...] axa-se  bem montada e trabalha regularmente. consome annualmente cerca de 2:530 arrobas de algudão, produzindo pouco mais ou menos  7024 pessas com 175:581 varas de panno de diversas qualidades apropriado principalmente para roupa de escravos, e para saccas de assucar. É para extranhar que o panno desta fabri- ca não tenha muito consumo nesta Provincia, sendo quase toda exportada para Pernambuco onde tem prompta extracção, sendo até preferido por sua qualidade as de algumas outras fa bricas do paiz, que para hali é exportado. Esta companhia não tem ainda dado devidendo a nois accionistas porque tem sido seos lucros empregado em obras e machinas, verão porque suas acçoes soffrem desconto nesta praça.

Via Ferrea e Navegação entre Maceió e o Pilar, e Porto de Desembarque

A facilidade das vias de communicação e transportes é inconstetavelmente um grande elemento do progresso para a vida commercial.  É por isso que nos congratulamos em vos annunciar que o grito da locomotiva já se faz ouvir nesta cidade, e que dentro em poucos dias teremos o (?) do vapor a espancar a velha rotina de navegação da Lagoa Manguaba. A companhia Bahiana de Navegação a Vapor com quem o Governo tinha contratado a navegação da Lagoa Manguaba e uma via Ferrea urbana, q ligasse o porto de Jaraguá a esta cidade, e ao Trapiche da Barra, já realizou parte do seo contracto abrindo ao tranzito publico a secção da via ferrea de Jaraguá e Maceió, e e dentro e pouco o fará o Trapiche da Barra. O vapor que tem de sulgar as aguas d’aquella Lagoa brevidamente sahirá do estalleiro e principiará a funcionar: é questão de dias. Enquanto a Ponte de Desembarque em Jaraguá ainda não tem principio, tendo aquella Companhia obtido um praso para reliazar este grande melhoramento.

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