domingo, 6 de maio de 2012

[RELIGIÃO AFRO-BRASILEIRA: MACUMBA NAS ALAGOAS] Luiz Sávio de Almeaida.. Meu velho diário e a macumba nas Alagoas.








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ALMEIDA, Luiz Sávio de. Meu velho diário e a macumba nas Alagoas. Tribuna Independente. Maceió, 04 mar. 2012. Contexto.
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Meu velho diário e a macumba nas Alagoas (II)



Um pequeno bilhete sobre macumba nas Alagoas

 

 É uma pequena notícia de um tempo e do que restou dele em meu arquivo. O que e poderia dizer? Teria sido um tempo de perseguição e também de afirmação? Como é que a história vai se acumulando nos terreiros e como vai sendo a forma deles lidarem com o rastreamento do passado? Eu gostaria muito de saber como esta ideia de tempo é vista e compreendida pelos terreiros; penso, no mais que li, que, normalmente, o tempo é abstraído por um corte epistemológico que ancora o terreiro e nisso futuro e passado vão embora. Será que isso faz sentido? Bom, tá aí mais uma parte de um mero depoimento em cima de velhas anotações. As fotos foram tiradas na Festa de Iemanjá e são de nossa autoria.
Saravá que eu vou de banda!

Sávio de Almeida

 

Meu velho diário e a macumba nas Alagoas (II)

Luiz Sávio de Almeida


Um pouco sobre intelectuais 

 

 



A área da chamada ciência social demorou a ficar clara em Alagoas; e, em grande parte, isso somente aconteceu quando a Universidade ingressou na pós-graduação. Somente a partir daí, é que Alagoas vai conhecer a especialização de antropólogos, sociólogos e outras categorias, inclusive beneficiando-se de alguns profissionais que vinham de outros Estados e passam a incorporar a produção e discussão à nossa. Anteriormente, o intelectual provinciano espelhava-se no beletrismo e tendia à universidade enciclopédica. Na área social, destacavam-se o historiador e o folclorista. A história de um era a história do outro, o folclore de um era o folclore de outro.  A diferença estava simplesmente em ser bom ou não, mas a produção girava em torno do mesmo eixo.
História e folclore eram tudo e a síntese de tudo. Não estou minimizando o que foi produzido, estou somente pondo na mesa o fato de que tínhamos dois modos de saber da sociedade e o tom monocórdico de tratamento.   uma possibilidade de diferenciação em trabalhos de Sant’Ana e colocações relativas sobre método, aqui e ali, feitas  com um gosto naive, como se nota em  passagens de Theo Brandão. Nisso, dois outros nomes obrigatoriamente devem ser contemplados: Félix Lima Júnior e Abelardo Duarte. O forte do Félix era a percepção do cotidiano, a construção da crônica, o almofadinha e a priminha urbana, com o negro indo para o escaninho dos tipos populares e sempre tratados com afabilidade.  O forte de Abelardo Duarte era a tentativa de chegar às raízes. Essa diferenciação que ele vive dentro do conjunto é acompanhada pelo trato do negro, não importa o viés assumido.
Parece-nos imprudente afirmar que inexistiu produção sobre o negro; o que sempre existiu foi o negro na condição de uma temática periférica ou subordinada e não tratado como um sujeito político. Na verdade, contudo, a religião passou de raspão nesse conjunto. Continuidade do preconceito? Jamais se poderia seguramente afirmar tal coisa, mas jamais poderíamos deixar de considerar dois pontos básicos: em primeiro lugar, existem as opções pessoais de eleição de campos de investigação e, em segundo, a sociedade continuava escondendo o mundo religioso negro, até mesmo pelo fato de que a gente da macumba estava a viver submersa, a não ter presença marcante na sociedade civil por onde uma representatividade política se poderia fazer. A “ciência” não a pretendia descobrir, encontrar. O chamado Quebra já havia indicado a sua colocação no universo da barbárie. 






Sant’Ana em diversas situações trabalha o negro, mas preferencialmente na sua condição de escravo, situado portanto na ordem econômica da produção. Theo Brandão vê negro, mas especialmente no contexto do folguedo, dos contos: era o negro-folclore. Abelardo Duarte está bem mais próximo da questão religiosa, ele de fato, ensaia passos, mas sempre a arquitetura dos textos funda-se na perspectiva do folclore, fazendo parte da montagem de um campo científico próprio. O que seria folclore? No fundo, a ausência da especialização e a herança histórica do açúcar e que junto à história davam conta da sociedade e da cultura.
Talvez, como é de praxe, eu esteja sendo absolutamente simplista. Entendo que nenhum dos grandes folcloristas de Alagoas daquela época seria capaz de discutir, teoricamente, o campo, e ele, o campo, era uma imposição. Não é que não tivessem suficiência pessoal, mas havia uma severa falta de formação específica; então, a coleta era ótima e o trato ficava limitado, pois o marco teórico não era aprofundado; da geração da Escola de Viçosa, três eram médicos; Theo, José Maria e o Pimentel. Isso não implica em que existisse um mau trabalho; pelo contrário, Alagoa se representava muito bem no ambiente nacional do folclorismo, mas faltava-lhe a base antropológica e fundamentação historiográfica.
Via de regra e ressalvadas as exceções, os historiadores estavam presos ao heróico para a construção de uma história do exemplar, enquanto os folcloristas pagavam o preço de suas origens intelectuais e sociais, devendo ainda ser levado em conta que havia regra para validar o intelectual provinciano; ele deveria parecer com os demais, repetir a ordem emanada de um espelho posto em duas grandes instituições de notáveis, espécies de templo onde cabiam as sumidades – ditas “assumidades” no linguajar coloquial das Alagoas –, dentre os não muitos afeitos ao trato da inteligentzia.

As doenças do folclorismo





Uma velha anotação que realizei, informa sobre uma conversa que tive com o Theo Brandão na casa dele. Estava havendo um encontro e fui convidado para falar: a temática era algo como o Ciclo do Gado. Telefonei para o Theo, vi que estava disponível. Para testar se ele estava com tempo para perder comigo, eu sempre me anunciava no telefone como Pedro II. Se ele respondesse que era o Marechal Deodoro, iríamos conversar e eu sempre lucrava com isso. Eu disse que não sabia nada sobre ciclo e nem era vaqueiro para entender de boi; começamos a rir e a conversa foi derivando para o que me interessava.
Aí, o Theo Brandão foi audacioso: “Sabe de uma coisa, não fale sobre esse negócio não. Fale sobre nossa conversa”. Alinhamos o que passamos a chamar, talvez por influência dele que era médico, as cinco doenças do folclorista, coisa que parece havia sido tocada por um folclorista americano, do qual não recordo o nome, gente da UCLA. Dito e feito. Dei o recado com a empáfia afrontosa da juventude calçada pela autoridade do “mestre”. Nas doenças estavam o memorialismo e as atitudes de classe. A velha anotação me trouxe saudade, mas vou continuar lendo e comentando o que está no meu Diário sobre o assunto, em uma anotação sobre o que seria o folclorismo nas Alagoas.
O grande modelo do folclorista era dado pela escola de Viçosa, expressão que segundo me consta foi criada pelo Manoel Diégues Júnior em tom de brincadeira, mas que deve ser explorada em profundidade. Manoel Diégues Júnior nunca abandonou Alagoas, apesar de ter mudado daqui, como saíram Aurélio Buarque de Holanda, Jorge de Lima, Graciliano Ramos, Humberto Bastos... Uma vez, em jantar na casa do Diégues no Rio de Janeiro, perguntei a razão de ele ter ido para o sul e a resposta foi óbvia: oportunidade, não teria condições de viver em Maceió.
Anotei que a idéia do Doutor Diégues não era a existência de uma Escola de Viçosa, no sentido usual que o termo carrega acadêmico; era a de que os folcloristas se escolarizavam na Viçosa. Nada a ver com a educação formal; é uma imagem que leva à ideia de organicidade, escola como referência ao orgânico. Nunca conversei com o Doutor Diégues sobre isso e arrependo-me. Mas foi assim, que o assunto foi parar no meu Diário: o que se encontrava em evidência era a circunstância de Viçosa e que ela havia permitido a safra representada pelo Theo, pelo Zé Aloísio Vilela, pelo Doutor José Maria de Mello, continuadores de uma geração anterior de intelectuais, brutalmente confrontada por Otávio Brandão e possivelmente oriunda de Alfredo Brandão.
Jamais os componentes da Escola poderiam fugir do fato de serem Mello, Vilela e Brandão que plantou costados na mata. O lastro da Baixa Funda e outros estavam presentes e eles, os folcloristas, não escondiam essa vinculação açucareira e nem tinham razão para esconder. O Theo e o Doutor José Maria de Mello se urbanizariam, mas manteriam a ideia de uma raiz no rural da mata; Zé Aloísio continuaria agarrado nas canas da Boa Sorte (não sei se inventei o nome). O lastro do Doutor José Maria continuava como se pode ver nos seus trabalhos literários e sobre folclore. Era um homem afável, comedido, sério, desviado de uma carreira mais numerosa em livros pela atividade política, engenho e sua medicina. Era aparentado e amigo do meu pai. Certa feita, eu estava no Instituto Histórico e ele conversou um bom  tempo sobre este relacionamento.
Nessa circunstância, ser folclorista era bem mais do que trabalhar o que se considerava dentro da área do folclore; era uma indicação que remetia à mata, ao açúcar, á Baixa Funda, Boa Sorte...  Eram espelhos, a gente olhava para eles como verdadeiros exemplos e não posso esquecer o terno branco de linho que o Doutor José Maria gostava de usar, engomado, passado, vinco nas calças, tudo emoldurando um sorriso simpático. Além do mais, todos eles eram acolhedores, não se furtavam à rapaziada, apesar de gente da Academia Alagoana de Letras, do Instituto Histórico e Geográfico de Alagoas. Gente consagrada, de alto prestígio social e cultural.
Como se fosse um passe de mágica e por serem espelho, Boa Sorte e associados arrastavam a todos nós que não tínhamos outra opção para estudar Alagoas: folclore. Não posso deixar de dizer sobre minha expectativa, quando pelas mãos do Theo fui ser membro da Comissão Alagoana de Folclore, coisa ainda do tempo do Doutor Renato de Almeida e do Vicente Salles, gente do Pará que havia ancorado na Comissão Nacional de Folclore e com quem passei a manter contato constante, época em que conheci e papeava com o Edson Carneiro, eu ainda molecote, menino que não havia tirado o cheiro da urina.
Então, a circunstância de Viçosa invadia o anseio da molecoreba que via e podia conviver com os grandes. No meu caso, ainda havia o peso da herança dos Almeidas da Capela; meus pais a não deixarem de lado as origens rurais na cabeça do filho. Então, pra mim, foi um encontro pessoal, o mergulho no folclore. Theo andou lendo Redfield e começou a falar de comunidade folk e coisas afins. Falava de Chã Preta e esse foi meu primeiro destino: mergulhar em Chã Preta, lá pelos lados do Cavaleiro, subida bem após a Baixa Funda quando ainda havia ladeira a considerar, carro bambeando na lama a quase derrapar para o precipício. Chã Preta era a continuidade de Viçosa e de lá surgia um extraordinário Professor Pedro Texeira, costados na Medina, filho de Seu Al e que se considerava um homem folk. Andei muito na Medina e por toda Chã Preta, acompanhado às vezes pelo Netinho, chafurdando no engenho do Benedito, conversando com os povos daquelas bandas. Devo imensamente ao Theo e ao Professor Pedro Texeira.
Essas coisas lidas no velho Diário (todos os dias continuo a escrita, vício que aprendi com o meu pai) falam um pouco do que era o universo intelectual nas Alagoas do meu tempo de menino e, se a gente pensar direitinho, tudo interferia no campo dos estudos das religiões afro-brasileiras.
Pelo que deve ser notado, o folclore era uma espécie de terra sem fronteira, possivelmente, pelo fato de que nascia no vácuo de uma tradição antropológica nas Alagoas. Apesar dessa abertura, ele envolvia o seleto que se lastreava, dentre outros pontos, nas origens do próprio estudo do folclore no Brasil, tradição de Silvio Romero, João Ribeiro e outros pais fundadores. Pelo que entendo, o folclore é anterior à antropologia no Brasil. Por outro lado, em razão derivada em grande parte das ligações históricas, tinha-se a procura pelas origens das manifestações (como eram chamadas) folclóricas, dando-se o comparativismo e privilegiando-se Portugal e o que nele se fazia naquilo que era chamado, à época, de etnografia do além-mar e necessariamente bisonha. Acredito que ao folclore se incorporava basicamente o senso ibérico.






O mais importante, contudo, é que privilegiava o quadro agrário, que transparece na existência de uma Escola de Viçosa. Aí, pontos devem ser considerados, já que estamos falando de macumba. Em primeiro lugar, convém lembrar que a macumba era vista no urbano e não no rural. É claro que era difundida no território, mas as referências eram sempre urbanas, pelo menos, conforme anotei; em segundo lugar, havia um sacrário onde estava a religiosidade católica apostólica romana e tudo passava a girar em torno dela, usando-se a interessante expressão: catolicismo de folk. Nesse contexto da religiosidade, jamais poderia ser construído uma religião afro-brasileira-folk. Semelhante ao isolamento policialesco havia o isolamento teórico, a não constituição de um campo, matéria tão a gosto dos intelectuais rigorosos e ciosos, aos quais invejo pela tanta ciência que conseguem.
Aprisionado pelo preconceito, perseguido e desamparado de campo de investigação, somente poderia acontecer o que se deu. Theo reclamava negligenciamento; nas minhas velhas anotações está escrito impossibilidade. Somente quando Maceió adquire o quadro urbano de hoje, quando, inclusive, aparece o negro como movimento, é que se pode pensar em modificações. A quebra do círculo passa pela Marilu de Gusmão, embora episódico. Do século passado, há material na literatura de Pedro Nolasco Maciel; em nosso século é no contexto do período em que se escuta a queixa do Theo, que ai aparece um texto chamado “Tambores de Ponta Grossa” (citado de cabeça e, portanto passível de equívoco) de Lindalvo Lins e não conheço algo mais, embora, seguramente, deva existir.
Voltando ao início, não tenho qualquer intenção de chegar a conclusões. Penso, apenas, que dei uma contribuição e que ela poder ser instigante com a relação ao tema. Há um grande espectro que se abre sobre o assunto, indo da construção da sociedade ao campo científico. No entanto, muito deve ser pesquisado. Acredito que as anotações velhas e amareladas tenham contribuído com alguma coisa. Continuamos sabendo de nossa posição: o cerco ao afro-brasileiro era global.

Os registros da Federação

 



É necessário esclarecer o universo: estamos diante de associados de uma organização chamada Federação dos Cultos Afro-Brasileiros de Alagoas. Nada pode garantir, embora a hipótese caiba, sobre estarmos diante de uma amostra efetivamente representativa do conjunto dos cultos nos finais da década de sessenta do século XX. Gostaria que durante toda a leitura desta parte do meu Diário, esse fato estivesse evidente. No entanto, desejo afirmar que os dados sugerem um quadro possivelmente colado às características do conjunto; devem ter algum nível de representatividade.
 Então, o texto do Diário, suas anotações, deve ser entendido como abertura de pistas, informações sugestivas sobre o universo a partir do que se pode observar em cima de uma simples listagem de endereços. Recordo-me que fui ajudado, na coleta dos endereços, por dois estudantes de medicina: Terezinha e Júlio. Agradecido agora, como deveria ter agradecido antes, caso eu realmente tivesse estudado o assunto. A listagem era preparatória para que eu fosse visitar e entrevistar os diversos centros. Não foi possível.

A geografia urbana dos cultos

 



Lins (com quem convivi) que era jornalista penso que do Jornal de Alagoas, percorreu inúmeros terreiros de Maceió. Sabia que eles funcionavam nos mais diversos bairros da cidade, mas frisava a concentração na Ponta Grossa.  De fato, dizia-se que na sexta-feira, os sons dos toques tomavam conta do bairro. Na realidade, conforme anotei, em diversas ruas da Ponta Grossa se tinha os terreiros em culto, mas eles se universalizavam pelas áreas pobres da cidade. Não se escondiam e nem podiam; o traçado urbano os enfiava no meio das casas. A Ponta Grossa, o Prado, o Vergel do Lago englobavam cerca de 31% (n=185) dos casos, formando o que poderia ser considerado como o complexo Sul do Xangô em Maceió.
Essa concentração ocupava uma imensa área da cidade, mas os bairros de maior densidade xangozeira eram Ponta Grossa, Ponta da Terra, Prado, Bebedouro, Jacintinho e Vergel do Lago. A porção norte era xangozeiramente menor. Eles se destacam, o que deve decorrer, em parte, do tamanho e da densidade de ocupação. O fato é que se poderia ouvir toque por todos aos cantos, nos dias normais, nos dias de festa, nas Salvas de Exu que sempre eram ditas perigosas. Uma boa Salva de Exu é impressionante e hoje, no peso da Umbanda, a Pomba Gira, seu Zé Pilintra, Tranca Rua dão as cartas.
Aliás, tenho amizade com o Zé Pilintra e com o Tranca Rua, mas tenho, também, amizade com o nagô do Tiriri, parebetile de nanan, Exu Tiriri! É a amizade com os homens.  Anotei a participação em duas dessas salvas, onde baixavam os mais diversos Exús atrás de cabeças, dando preocupação aos Pais e Mães de Santo - expressões nem sempre bem recebidas pelos Ialorixás e Babolorixás -, além de abrirem margem para a possibilidade de uma intervenção policial pela cachaça que um Zé Pilintra entorna. Um deles quis se engraçar comigo, certa feita, cheio de cana, mas eu saí de banda que não sou besta e soube reconduzir a conversa, levando as baforadas de um charuto na cara. Foi o Tranca Rua, depois um bom amigo quando viu que eu não reagia, mas não esfriava.
 Parece-nos possível afirmar que a Federação espalhava a sua atuação e que apesar de estar sediada na Ponta Grossa, conseguia atuar em toda a cidade de Maceió, além de ter alguns poucos inscritos em outros Municípios. O número de entidades do interior era estatisticamente insignificante.
Fora um único no Jacintinho, justamente o Ijexá do Celestino, eu frequentava a porção Norte, talvez pelo fato de que a maioria dos amigos morava naquela parte da cidade, talvez pela concentração, talvez por ser o local da sede da Federação ou por conta da junção em todo ou em parte desses elementos. Pelo Diário, a minha intenção era familiarizar-me com uma área central dos cultos, esperando que ali estivesse refletindo o geral da cidade. Demorava-me mais no terreiro do Luiz Marinho, pois objetivava conhecer um núcleo a chamar-se Nagô em maior profundidade, para sair comparando e perguntando. São anotações dessas perguntas e dessas comparações que se encontram perdidas. Luiz Marinho achava que eu era Filho de Santo do terreiro dele e eu nunca contradisse. Jogou os búzios e me deu Xangô de frente (Eiô, Cabecinha).
Tabela  1: Distribuição dos terreiros pelos Bairros de Maceió

Bairro
Absoluto
%
Alto do Céu
4
2
Alto do Feitosa
2
1
Areais
1
1
Bebedouro
19
10
Bom Parto
2
1
Bomba
1
1
Coréia
8
4
Cruz das Almas
1
1
Farol
8
4
Feitosa
1
1
Fernão Velho
3
2
Garça Torta
1
1
Jacintinho
17
9
Jaraguá
6
3
Jatiúca
3
2
Levada
1
1
Mutange
1
1
Não consta
1
1
Pinheiro
2
1
Poço
4
2
Ponta da Terra
22
12
Ponta Grossa
23
12
Prado
21
11
Reginaldo
4
2
Riacho Doce
3
2
Tabuleiro do Pinto
1
1
Tabuleiro dos Marins
9
5
Tabuleiro Novo
1
1
Trapiche da Barra
4
2
Vergel do Lago
13
7
Total
187
100


O nome do Informante foi estragado pelo tempo, não dá mais para ler: Fulano, diz que o nome certo seria Zelador”. Há uma interrogação. “Zelar?”. O argumento básico era que Santo não tinha Pai ou Mãe e mesmo se tivesse, eles se julgariam imperfeitos para ocuparem a posição. Estava anotado, também, que tudo poderia derivar do costume associado à carga densa em significado que as palavras Mãe e Pai continham.  Ainda estava anotado:  “Parece que Pai de Santo é uma expressão mais propriamente de fora da seita do que de dentro. É verdade que dentro da seita se fala em meu Pai e minha Mãe, mas não me lembro de, internamente, ter registrado Pai de Santo, Mãe de Santo. Aliás, a palavra Santo é católica em natureza. Isto significa, quem sabe, uma remessa a um sagrado, uma relação mais atemporal, abstrata. Existe, também, a possibilidade de pensar sobre uma redução à estrutura familiar: a inauguração de uma nova família, novos laços de parentesco, o parentesco pelo sagrado”.  Bom, foi o que encontrei anotado no Diário.




[Religião afro: Macumba nas Alagoas] Luiz Sávio de.Almeida. Meu velho diário e a macumba nas Alagoas (III)







ALMEIDA, Luiz  Sávio de. Meu velho diário e a macumba nas Alagoas (III). Tribuna Independente. Maceió, 18 mar. 2012. Contexto


Meu velho diário e a macumba nas Alagoas (III)

Luiz Sávio de Almeida


O nascimento de uma carta




Ao desistirmos de trabalhar teoricamente os tempos do Quebra, não resistimos e escrevemos uma pequena carta de amor que era destinada à Tia Marcelina. É fantástica a forma como recebeu a dignidade histórica,  como se deu a sua construção como símbolo de martírio e resistência. Ela tornou-se tão grande que sempre diversas tias e, maravilhosamente, a unidade Tia Marcelina.. Importa a Marcelina explicação, a Marcelina de uma história construída para ser a Tia Marcelina de todos nós. E isso foi sendo conseguido e montado, ao longo da história da religião.

Quando esta carta foi publicada pela primeira vez, o movimento negro estava começando a tomar vistas em Alagoas. Foi ano de 1987, na Revista do Departamento de Letras Clássicas e Vernáculas do CHLA da UFAL, por gentileza do Conselho Editorial que era composto pelas professoras Maria Denilda Moura, Vera Romariz e José Ubireval Alencar Guimarães. Na verdade, era uma motivação que nada tinha de científica, uma espécie de desabafo ou de encantamento, melhor dizendo.  E, também, uma forma de colocar Tia Marcelina em evidência, dar uma inflexão na história do Quebra, palavra que, à época,  tinha um sentido semelhante ao de quabra-quebra na atualidade.

Alguma coisa estava mudando em direção à religião negra; todo um contexto novo parecia estar se esboçando, na medida em que se pressupunha, também, o encaminhamento de uma nova consciência negra, mais aberta, demonstrada, desacanhada, encontrando-se em um espaço mais propriamente político. Interessante, é que no ano anterior a esta carta, aparecia – que eu conheça – um dos primeiros trabalhos de fundo acadêmico sobre o negro, viés religioso, que foi escrito por Marilu Gusmão e intitulado A Cura pela Umbanda em Maceió, publicado na revista Estudos, Departamento de Ciências Sociais, CHLA/UFAL, ano de 1986, mas possivelmente escrito em 1984/1985.  Marilu Gusmão foi – até quanto sei –  a primeira Mestra em Antropologia do Departamento de Ciências Sociais.

Não importa o viés que escolhe e sua conclusão; importa que elege o tema e empenha, nele, o seu saber à época valorizado, pelos raros mestres que existiam na universidade.  Aliás, recebe um prêmio fora do circuito acadêmico, espécie de cumprimento da cultura provinciana, posta na Academia Alagoana de Letras que lhe concede, por ele, o Prêmio Graciliano Ramos de 1985. Não existia e nem poderia existir, qualquer compromisso político da Marilu com o movimento negro.




Os pés estavam no senhorial e a ciência tomava o negro como objeto.  Não estava havendo um diálogo e nem participação. Ela toma um centro de Umbanda e lança uma pergunta e a responde perfunctoriamente. É impressionante a redução realizada em sua conclusão que surge abruptamente na categoria – mais do que clichê – do ópio do povo, numa recuperação de Lenine que jamais cabia no corpo do texto.  Soa esdrúxula. É uma escrita completamente por fora do povo da macumba. A Umbanda o que poderia facilmente ser estendida para a Quimbanda – segundo a divisão que se fazia entre os grupos à época em que eu me mergulhava na macumba – seria uma medicina alternativa que atenderia aos aflitos da baixa renda. É daí que ela deriva a noção do ópio leninista, num corpo teórico desligado do marxismo, mesmo com esta compenetração que se poderia lançar dentro do escopo teórico que é chamado de marxismo vulgar.

No tempo em que eu andava com o pessoal, o universo dos cultos afro era dividido nas categorias de Umbanda e Quimbanda e a grande distinção era se o grupo trabalhava ou não com sangue. Mexeu com sangue era chamado de Quimbanda, mesmo que não trabalhasse pelas canhotas. Eu me entusiasmava com a Quimbanda, mas pelas canhotas somente fui amigo de um.  Foi no nos anos sessenta, que andei escrevendo um pequeno texto sobre o terreiro do Luiz Marinho e minha tentativa era traçar uma ponte entre o terreiro e o leitor, quebrando as barreiras do preconceito. Suponho que seja a primeira matéria publicada em jornal em Alagoas, a partir de uma posição simpatizante ou de dentro do povo da macumba, a melhor dizer.

Uso amiúde a expressão povo da macumba.  O texto da carta é de 1987, o artigo sobre o Luiz Marinho foi de outubro de 1968. Faziam parte do mesmo contexto, apesar dos vinte anos de diferença. O artigo foi publicado pelo Correio de Maceió e eu sabia das conseqüências, especialmente, da valorização que iria ter o Luiz Marinho, pessoa a quem eu devotava grande estima. Estava grifada, publicamente, a expressão culto afro brasileiro sem qualquer condenação, pelo contrário era simpático e apresentava Exu à nobre sociedade alagoana. Tenho uma boa amizade com os exus, especialmente o Tiriri por uma banda e o Tranca Ruas por outra. Já vi u Exu Caveira de me arrepiar. Pois bem, mas quando o Luiz Marinho morre, após uma tentativa feita por sua esposa para manter a casa, o terreiro fecha as portas. Pois bem novamente, a ideia era publicar uma série, com diversos babalorixás e ialorixás.  Se eu não me engano, o terreiro do Luiz Marinho e muitos outros foi fotografado pelo Esdras Gomes. Se for verdade, ele é muito cuidadoso e deve ter material com ele.




Deve ser considerado que os primeiros esboços do movimento negro em Alagoas começam no ano de 1980 e ele  não se  associa à ideia do Quebra, mas á Serra da Barriga, Quilombo dos Palmares, Zumbi. E na verdade, a Serra começa a ser posta em evidência pelo trading turístico e pelo Projeto Rondon. A Universidade não assume um quilombo e um movimento negro; ela assume um pleito da indústria do turismo e depois vai ter de se integrar à convivência com lideranças negras expressivas no cenário nacional. Aí muda. Então, o nascimento do movimento negro projeta-se para fora e não para dentro. O Quebra era para dentro. O próprio NEAB vai ser criado nesta tendência para fora. O encontro do movimento negro com a história negra vai ser fundado no Quilombo dos Palmares, na sua grande expressão nacional. O Quebra passa ao largo. Posso estar errado, mas a evidência  do Quilombo vem caindo cada vez mais em expressão enquanto preocupação acadêmica e uma nova temática para o movimento, neste mesmo rumo da produção intelectual, vai sendo estabelecida e é nesse novo mundo a bem dizer orgânico que aparecem os textos do Rafael e do Daniel na escrita, bem como Siloé na filmografia. Concordando ou não concordando, gostando ou não gostando este é o tripé da produção sobre o Quebra, fora do mundo da macumba.

 São vinte anos entre o artigo e a carta, entre a carta e Contexto são mais vinte.  Estamos diante de mais ou menos quarenta anos da vida dos cultos, embora eu tenha me afastado e partido para uma nova gama de interesses. No entanto, na década de noventa do século passado fiz entrevistas sistemáticas em vinte terreiros, mas jamais trabalhei as informações, pretendendo publicá-las sem maiores comentários e com uma breve introdução ou, vez em quando, trazer alguma a Contexto para que se possa, no futuro, ter uma ideia de trajetória do processo dos centros. Fiz este trabalho auxiliado por dois estudantes, dos quais me lembro do nome: Patrícia e Erisvaldo. Acho que ambos eram do curso de jornalismo da UFAL. Depois aconteceram umas poucas gravações,  realizadas com a participação de estudantes de história como Clébio, Adriana e outros.

Ouvi falar da Tia Marcelina; mas a Marcelina é algo diferente da Tia Marcelina. Ela se construiu numa história cuja grande razão é a afirmação de uma identidade e é a função identidade que propõe o emblemático. São muitas as possíveis Tias Marcelina, mas elas todas são uma só, unidas no sentido histórico que foi sendo vestido sobre sua figura ao longo dos 100 anos de história pós-Quebra, 40 dos quais acompanhei, sistematicamente em, alguns períodos. A Tia Marcelina que emerge de dentro dos cultos passa por este processo.

 E de certa forma, a carta é uma espécie de contraponto ao famoso texto de Abelardo Duarte que versa sobre a chamada Coleção Perseverança. A carta pede um destaque à história negra. A Tia Marcelina jamais foi resgatada em escritos; além de a palavra resgate ser problemática teoricamente, ela somente poderia ser retomada pela própria memória da religião que a encontrando vai reafirmá-la como motivação de uma construção identitária na medida em que as tradições são fundadas. A Tia Marcelina sempre esteve por dentro, em evidência ou não; os seus encontros com escritos brancos são outra coisa, faz parte de outra história.




A Tia Marcelina que os cultos reverenciam é uma Tia Marcelina diferente da catalogada, da mencionada e, inclusive, da amada por mim. A história branca sempre tenta reduzir o Quebra a seus termos; Tia Marcelina não está e não pode estar fora da história onde o povo da macumba – magnífica expressão de Dona Maria do Acai, que baixa no terreiro do Manoel – a entende, a constrói e nela se consagra. Estudar como é este processo, seria uma bela tarefa. A Tia Marcelina pode ter tantas vidas quanto se deseje e quanto for necessário na demanda da unidade de consagração em uma memória que a requer e necessita. Não há que discutir.

É preciso começar a perguntar à religião, o que se entende por história, como a concebe e até mesmo como pensa sobre uma etnografia do tempo. Por aí, está a chave de se deixar Tia Marcelina ser tão poderosa que é a diversidade fundando a unidade. Que história o povo da macumba pensa para si e sobre ele mesmo? Lembro de minha inquietude quanto ao sentido da história para os índios. Eu dizia que eles têm seus próprios historiadores e que os formados na tradição saberiam encontrar o caminho de fazer a sua história. 

Lembro de um fantástico choque teórico que recebi, em um começo de noite no limpo do Ouricuri Kariri-Xocó. O Pajé Júlio dizia que eu tinha uma canela enterrada lá. De fato, há um determinado rancho em uma determinada localização e sempre fico sentado na calçada dele, e me entrego ao silêncio. O silêncio foi passando e ficando tarde. Eu estava com um grande amigo índio: Nunes. Decidimos cortar a mata pela estradinha do Ouricuri.  Ele disse: “Professor, o senhor precisa aprender a ouvir o silêncio!”. Olhei espantado, sentindo um quê de Castanheda na história. Eu tenho um grande respeito por tudo que é sagrado.

Eu me virei para o Nunes e disse: “Posso pegar uma folha para mim?”. Ele respondeu: “Pergunte ao espírito da mata, se ele deixar...”.  Então, eu procurei pelo espírito da mata e perguntei se podia pegar a folha. Senti que recebi a permissão. Nunes me aconselhou a andar com ela na carteira e assim fiz por meses, até que dei ao Dário Bernardes. Acho que sem ter muito que conversar, fiz uma pergunta e recebi uma resposta que me desconcertou. Perguntei a razão de gostar tanto de planta.  Ele então me despenca a cabeça: “Mas professor, o senhor não é historiador?”.  

Qual a ligação entre gostar de planta e ser historiador? Continuou: “O senhor quer um historiador maior do que aquele pé de angico, que fica na entrada do limpo? Ele sabe tudo sobre nós!”.   Comecei a ver quanto a minha história era um denada na vastidão das histórias e como o tempo tem as razões de sua própria cultura.  Foi fácil entender que o tempo é a partilha de relações e as relações podem ser vistas de formas diversas, por sujeitos diversos. A minha formação me impedia de entender a história exposta por um angico, instalado no limpo de um Ouricuri.

Existem histórias que se revelam, que se entendem por meios que não conheço e têm seu caminho próprio. É a história da Tia Marcelina.  Não importa se ele era magra, gorda, baixa, alta, se disse isto ou aquilo.  Importa que ela reine soberana na construção da memória e que seu nome é uma evocação do passado e uma confirmação do presente: existiu, existe e existirá o povo da macumba falado por Dona Maria do Acai. E Tia Marcelina a diversa na unidade tem sentido e explica: ela passou a ser um ente estruturante.

Do ponto de vista acadêmica, temos os mais diversos problemas com Tia Marcelina, Quebra e outros pretextos. No entanto, do ponto de vista do povo da macumba, ela está muito bem resolvida, restando ver se ela é uma referência do urbano de Maceió ou uma presença nas Alagoas. Mas isto tudo, é o próprio andamento da Tia Marcelina. Os setores ditos excluídos, marginalizados – termos que parecem uma ironia metodológica – resolvem-se.

Existe uma senhora chamada Lurdes, esposa do Moacir e que morava no Tingui, vizinho a São Sebastião, antigo lugar chamado Salomé.  O Tingui é um aldeamento Karapotó.  Dona Lurdes é uma mulher brilhante e matou muito bem a charada da história das etnias submetidas a vexame e talvez de todas elas, mesmo as não vexamadas. Lurdes deveria estar brilhando em grandes universidades; a ela devo dois grandes presentes. Um deles não interessa a este texto e é como se come saburica na folha da moqueca ou da jurubeba, com a pataca amarrando a moqueca. A outra foi a definição da história Karapotó, cheia de categorias que bem iluminariam o entendimento da história que constrói a Tia Marcelina.




É ler o que Lurdes tem a dizer, retirar as categorias e pensar numa história concebida sem esta ancoragem acadêmica que tanto faz a nossa cabeça. Disse a minha boa Lurdes: “A história dos Karapotó é uma história. Uma história bonita e interessante. Já de descendentes, bisavós, tataravós, de pai, de mãe... Vai passando de geração em geração. E cada um vai contando: meu avô me contava assim, assim, assim, assim... Meu bisavô me contava assim, assim, assim... Meu pai me contava assim, assim, assim... E cada um vai contando.”.





UMA LEMBRANÇA DE AMOR PARA TIA MARCELINA

Luiz Sávio de Almeida

SARAVÁ

  As palavras negro e escravo tentam uniformizar o que não podem; fomos gentes de todas as partes da África que foram açoitadas para estes brasis. Isto é um assunto muito falado. O Gilberto Freire (1978), na sua popular Casa Grande & Senzala, versou sobre o fato. Montou-se na mania do mapeamento que enfrentou a antropologia americana e, nisto, ficou de grande no relativismo de Mr. Herskovits. O nosso conterrâneo pilarense, o Dr. Arthur Ramos (1934) entrou na dança, terminando por subscrever o difusicionismo de Ellis com vistas à religião e danou-se a analisar a gente. Ainda foi bom, pois houve tempo em que éramos matéria de Medicina Legal. Existe é um monte de tese elaborada e quando em vez, um mestrando ou doutorando resolve escutar o tam-tam-tam do ingome. Tá vendo, TIA MARCELINA, como existe entendido na gente?


  Bom, minha TIA, todo mundo fala que por aqui, nesta antiga e celebrada Maçaió, predominou a tal da tradição iorubana, como a nossa linha de Orixás e, dentre eles, o nosso Xangô (Eiô! Cabecinha!), que terminou dando o nome à própria seita. Seita era como o velho e grande amigo Luiz Marinho, nas conversas arrastadas de sábado à tarde, chamava o grande conjunto de terreiros. Por seita, juntava quimbanda e umbanda; juntava as nações que existiam em nossa terra: gêge, ijexá...

  Com a licença da TIA, que sabe muito mais das forças da natureza, vivemos algumas fases diferentes. Quando a gente estava vindo, éramos todos malungos naquele navio; a gente que já era apartada apartou outra vez. Como é que se podia tentar viver, como antes? Que nada! Tivemos que passar por uma nova geografia, vestir a religião dos brancos; usar a religião dos brancos. E isto foi logo, pois lá nos Palmares já se comprovava. Depois, conseguimos nos universalizar pela baixa renda; as piruetas de pobres conseguiram montar as verdadeiras bases de uma religião nacional. É claro que foi acontecendo um afastamento, até que os pontos terminaram por um balbuciar de sons semelhantes aos das línguas dos avós, dos troncos. Hoje, a gente fala com o Orixá, por herança. A TIA talvez sentisse o que a gente sente, mas iria dizer que todo o mundo é analfabeto de pai e mãe.

  A pobreza sempre é obrigada a abrir o seu próprio espaço, e foi assim que montamos a quimbanda e a umbanda; foi assim que os Orixás tiveram a nossa história; os Pretos Velhos e os Caboclos, o Padre Cícero e o Cavaleiro de Bagdá, o Cigano e Buda sentado no Congá. Somos uma grande geração de santos. É a religião do pequeno assalariado, do vendedor de raspadinha, do despinicador de sururu, do menino do carrego, de todo um povo que se eterniza nas pobrezas desta Maceió. Já tem rico coçando o ouvido de babalorixá e as meninas de boa família, vivem de assanhamento nos dolorosos casos de amor. Religião mesmo é a nossa, de quem tem medo de levar piaba do santo.

  A TIA sabe que nunca a vida da seita foi pacífica nas Alagoas. Perseguição aqui, perseguição acolá. Por incrível que pareça, no ano de 1952, quando se realizava a IV SEMANA NACIONAL DE FOLCLORE, o Governo do Estado mandou perguntar se aquilo era religião, ou bagunça. Os participantes, através de Edison Carneiro e de Renê Ribeiro, tiveram a coragem de, pachorramente, responder, afirmando que era religião mesmo, com Direito Constitucional embutido e tudo o mais. Hum...Hum, hum! Já viu TIA?

Apesar das perseguições, que foram inúmeras, nenhuma teve o caráter sistemático e tal pompa e monta, quanto à desfechada pela SOBERANIA, nos mando de Clodoaldo da Fonseca e da execrável LIGA DOS REPÚBLICANANOS COMBATENTES, chefiada, como SANT’ANA (1986) anota, por um sargento que andou sendo ferido lá pelos lados de Canudos; perdeu uma perna. Hoje, para o que era, está uma beleza. E a morta mais assassinada, foi a minha querida e veneranda TIA MARCELINA.

A elite sempre tratou o Xangô como coisa de gente sem eira nem beira; ponta de rua. Por outro lado, a confusão entre santos latinos e Orixás deve, com certeza, ter roçado a inteligência da oficiosidade católica. O espiritismo, que estava se afirmando nas ALAGOAS, devia correr léguas e dizer que qualquer semelhança era mera coincidência. Ranços do positivismo deveriam identificar que estávamos, cruelmente, bárbaros e o racismo, este sim, corria desembestado.

  Acontece que, num esquisito passe de mágica, o Xangô dos locais afastados, foi colocado no centro do poder e macumbeiro foi catalogado como pertencente à hierarquia do Estado oligarca. A Soberania, num majestoso rasgo de insanidade, deu o toque de que o Xangô era a religião oficial do Estado de Alagoas, personificado na família Malta. Daí, as perseguições que foram realizadas, a destruição dos templos, prisões, espancamentos, mortes. Este período ficou conhecido como o QUEBRA e ainda estava presente na memória dos terreiros de Maceió, há uns vinte anos passados, quando conversávamos com Luiz Marinho, Joca, João e tantos que já se foram. Eles recontavam a história da perseguição, falavam das Iaolorixás humilhadas e das fugas que se procediam. ANACLETO, que tinha um terreiro na Rua de Santo Antônio, foi preso. Prisão que foi anunciada no Jornal de Alagoas de 27.02.1912. MARIA DA CRUZ, que parece ser a mesma identificada por DUARTE (1974), com um terreiro no FRECHAL DE CIMA, escapou. Varejaram Maceió e queriam varejar o interior. Talvez, TIA, o terreiro do ANACLETO ficasse na Ponta Grossa, na rua chamada Santo Antônio das Palhas. A Senhora lembra? Só tinham casa coberta de palha. Saudade daquele povo, em TIA?
  Os ingomes ficaram calados e muitos, juntos com os Ilus transformaram-se em fogo ardente, qual fogueira de São João. O Aleri ficou mudo e mudo, também, ficou o Adjá. O Xaxará de Omolu virou pagode; o pataxó de Oxalá ficou envergonhado.




Onde estava Mestre FELIX do terreiro da Rua do Amorim nº 11, em Jaraguá? Dr. ABELARDO DUARTE que, junto com THEO BRANDÃO, impediram que as relíquias deste tempo fossem para os Estados Unidos, figurar em Museu, onde estava o MANUEL GULEIJU? GULEIJU tinha o terreiro dele, pelos lados do Mutange. E MANUEL COUTINHO, com seu terreiro na Rua que hoje chamam de Dias Cabral? Isso, TIA, ficava na Rua do Reguinho. CHICO FOGUINHO, do Pernambuco Novo? E o JOÃO CATARINA do Trapiche da Barra, filho de MÃE QUITÉRIA do Gantois, na Bahia? E MANUEL DA LOLÓ, no Reginaldo? JOÃO FUNFUN e PAI AURÉLIO da Levada? ADOLFO, do Poço? Vivos, ou com força de encantados?

  O pau comeu, e feio! TIA MARCELINA tinha o terreiro dela na Praça Sinimbu. Segundo o JOCA falou uma vez, numa festa na casa do Celestino, ijexá, Jacintinho, tomando, um gole e outro de xequeté, o terreiro da TIA ficava na esquina vizinha ao Restaurante Universitário. Hoje, TIA, a senhora sabe que funciona uma Boutique? A Senhora se lembra, TIA, que seu sobrinho aqui, morou, justamente, onde era seu terreiro?

O João, preto velho, amigo de fé, morando naquelas ruinhas de Ponta Grossa, moço bom mas que trabalhava, também, pelas canhotas, foi quem contou. No meio da pancadaria toda, a TIA MARCELINA não aceitou fugir. Para onde? Distante de Axé? Longe dos filhos? A polícia veio com um monte de gente gritando. Entraram, todos, invadindo o terreiro e a TIA foi para o PEJI. Que melhor lugar, havia? Foi assassinada lá dentro, no PEJI, com o sangue correndo no meio da comida do santo. E a tia sustentou; a cada chute que levava do soldado, gemia para XANGÔ (ÊIÔ, CABECINHA!) a sua vingança e, no outro dia, a perna do soldado foi secando, até que ele mesmo secou todo. A Tia era velha, baixinha, franzina, um doce de côco de gente! Morreu...

Foram quatro artigos no JORNAL DE ALAGOAS ridicularizando tudo e, especialmente, a TIA MARCELINA; a bruxa miserável, feiticeira de fedor no sovaco. E no ano de 1916, nas edições de 27 a 29 de junho do mesmo Jornal, ainda se martelava contra ela, numa série de artigos: O MISTERIOSO CONCLAVE. Uns, mais eruditamente, dizem que a TIA MARCELINA morreu a golpes de sabre.

TIA MARCELINA; Coroa de DADÁ! DADÁ era o irmãozinho de Xangô (ÊIÔ! Cabecinha!).

Pegaram tudo aquilo; o que não queimaram, jogaram numa exposição de puro deboche. As peças foram da Liga para a PERSEVERANÇA e ficaram expostas à curiosidade pública, com os búzios da Costa jogados na intolerância. A PERSEVERANÇA ficava na Praça da Matriz e não, na Rua João Pessoa, onde hoje se encontra. Em 1913 o atual Centro Sportivo Alagoano jogou muito foot-ball no terreno da João Pessoa.  As peças foram para onde funcionam o Arquivo e a Biblioteca Pública. Depois, para a Rua João Pessoa, nos passos de uma estonteante via sacra. Mas, se fosse somente a exposição... Fizeram um bloco de carnaval, caracterizaram-se de filho e da filha, desfilando e fazendo algazarra com a fé. Foi assim. Foi assim, TIA MARCELINA morreu...


  Mas não se brinca impunemente com as forças da natureza, conforme o JOCA, fechando meu corpo, ensinou naquela sua risadagem de Exu. Ninguém desmancha a ordem do Orixá. Apesar de tudo, não conseguiram acabar com os terreiros. O QUEBRA aconteceu no mês de fevereiro de 1912.  No dia quatro de Agosto do mesmo ano, há uma denúncia do Jornal de Alagoas, pedindo que o povo tivesse cautela. Eis que os xangozeiros se faziam vivos e, desta feita, lá para os lados do cemitério novo. Maldosamente, a matéria dizia que se tratava de um antro de prostituição, para onde iam criadas de servir. Mas, quem vai ter força contra o Machado de Xangô (Eiô! Cabecinha!)? 


[Literatura Infantil: Produção em Alagoas] Simone Cavalcante. Literatura infantil: janelas abertas para um Brasil leitor










 Um pequeno bilhete sobre livros infantis

 

Contexto dedica sua edição de hoje aos livros infantis, em texto elaborado por Simone Cavalcante,  editora, escritora e jornalista, com mestrado em Estudos Literários pela Ufal. Simone produziu os programas Autoria e Caralâmpia, voltados à divulgação da literatura na TV Educativa de Alagoas. Autora dos livros: A cultura alagoana para crianças, Literatura em Alagoas, Os segredos da mata, Bob no país das verdurinhas, Ventania e o mapa do tesouro, e do audiolivro Histórias para ouvir e cantar.  De muito vem se dedicando à literatura infantil e dando contribuição à história de nossa literatura, além de ter-se dedicado ao estudo de Jorge de Lima. Vamos ler Simone,  pensar no que é dito sobre a importância da leitura para a  criança e saber do que se desenvolve em Alagoas nesta importante área cultural.

Sávio de Almeida


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CAVALCANTE, SimoneLiteratura infantil: janelas abertas para um Brasil leitor. Tribuna Independente. Maceió, 11 mar. 2012. Contexto.
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Literatura infantil: janelas abertas para um Brasil leitor

Simone Cavalcante


Há muitos obstáculos a transpor para que o livro se torne um artigo de fácil acesso, de presença constante na realidade da maioria das pessoas, tomando lugar na mesa do café, na cabeceira da cama, ou na prateleira da estante; atraindo o olhar para as vitrines das livrarias e dos sebos; ou motivando uma descontraída visita a biblioteca. Mas seria possível sonhar com um país de leitores?

Cada vez que alguém abre um livro, uma janela se abre nessa direção. Daí a importância de tornar a leitura um hábito presente no cotidiano de casa e sala de aula. Em contato com textos infantis e infanto-juvenis, as crianças e os jovens descobrem outros mundos abertos ao lúdico, à imaginação e à consciência de mundo. Os livros os transportam para reinos encantados e desencantados, onde podem habitar por alguns momentos e, dessa estada, experimentar as mais variadas sensações.


O texto literário possui, além do valor estético, outras dimensões abertas à exploração de cada leitor. O livro infantil, em especial, tem o privilégio de conter duas espécies de narrativa – a textual e a imagética – o que acentua seu potencial de exploração. É possível contar e recontar o enredo por diferentes trilhas sem a perda do elemento surpresa e das possibilidades de interpretação.

Mas ainda hoje, mesmo com seus desdobramentos, a literatura infantil sofre uma espécie de preconceito, sendo por vezes considerada uma escrita menor por alguns teóricos desavisados. Caminhando na contramão, esse segmento continua dando grandes saltos, tanto nos aspectos da autoria, riqueza textual e recepção – com o aparecimento de mais profissionais no mercado e a conquista de um maior número de leitores –, bem como no avanço de técnicas de produção (pop-ups, scanimations, recursos sonoros) capazes de atrair até mesmo os olhares e ouvidos daqueles mais distraídos.

No Brasil, quando se fala em livro infantil, salta do senso comum a figura de Monteiro Lobato. Sem sombra de dúvida, ele é um marco no ramo editorial, tendo assumido os papéis de escritor, editor e distribuidor, à frente de empreendimentos de sucesso como a Companhia Editora Nacional. Lobato soube captar as tendências mundiais, implantando métodos de produção novos para o país, como a adoção da capa ilustrada e a criação de uma grande rede de distribuição e circulação, formada por intelectuais, amigos e livreiros. Um desses métodos, por sinal curioso, era o envio de circulares para várias cidades, solicitando a políticos e pessoas conhecidas endereços de pontos de venda onde pudesse escoar sua produção. E do seu networking, nem mesmo o açougue escapava.

Se a personagem Narizinho tinha o nariz arrebitado, Lobato, seu criador, era dono de um bom faro editorial. Foi por suas mãos que surgiram várias coleções e séries de livros que lançaram seus autores no plano nacional. As séries infantis e didáticas tiveram um alcance estrondoso, sendo adotadas pelo sistema público e privado de ensino. Ainda hoje a obra desse escritor tem uma considerável repercussão, confirmada pela reedição de seus livros e pelos remakes de episódios para TV de O Sítio do Pica-pau Amarelo, baseados nos seus enredos. Aqui estão algumas demonstrações do potencial criador deste autor-símbolo, festejado todos os anos no Dia Nacional do Livro Infantil, 18 de abril, data de seu nascimento.   

Pensar a literatura infantil além de Lobato e do Dia do Livro é um exercício de abertura para a riqueza desse universo. Antes e depois dele, outros autores e autoras se lançaram ao ofício de escrever livros infantis e buscar formas permanentes de aproximação com o público, tomando, muitas vezes, caminhos desafiadores. É o caso, na atualidade, da escritora Lygia Bojunga que, depois de conquistar prêmios internacionais de peso no segmento infantil e juvenil (Hans Christian Andersen e Astrid Lindgren Memorial Award – ALMA), decidiu abrigar sua produção no selo Casa Lygia Bojunga. Quem sabe, talvez, cansada de um mercado editorial em que o autor parece ser quem menos recebe pelos direitos da criação.

A aventura de produzir livros para crianças continua febril como na época de Lobato. O Brasil é, hoje, uma referência nesse segmento literário, tendo um mercado interno bem movimentado por uma rede de editoras com alto grau de profissionalização e concentrada nas capitais e metrópoles, convivendo com uma produção independente distribuída em todo o território. É impressionante também a circulação de títulos fora do país, em traduções que percorrem vitrines de feiras internacionais, como a de Bolonha e Frankfurt. 

Seria impossível citar aqui todos os autores, mas talvez você, leitor, já tenha ouvido falar de nomes como Ana Maria Machado, Pedro Bandeira, Ruth Rocha, Elias José, Sylvia Orthof, Ziraldo, Tatiana Belink, Ângela Lago e Maurício de Sousa. Ao lado dessa lista canônica, outros autores despontam na cena nacional, afinal, o trem da história não pode parar. Lenice Pimentel, Jonas Ribeiro, André Neves, Cléo Busatto, Giba Pedroza, Celso Cisto, Almir Mota, Benita Prieto, Daniel Munduruku são alguns dos escritores que, tomando lugar no tabuleiro, formam uma nova conjuntura da literatura infantil brasileira. 




Contando a nossa história

Em Alagoas, embora incipiente em termos quantitativos e tecnológicos, a produção literária vem sendo conduzida pelas mãos de escritores e ilustradores com estilos diferentes de contar suas histórias. A produção atual está aberta a diferentes interpretações, fugindo do moralismo e do didatismo que por muito tempo povoaram boa parte da literatura brasileira e universal feita para crianças. 

Por aqui, a escrita de textos para os pequenos teve o caminho iniciado por nomes como Rosália Sandoval (Curso elementar de português, gramática infantil), Graciliano Ramos (A terra dos meninos pelados), Hildebrando de Lima (Lições do tio Emílio, pela Companhia Editora Nacional) e Judas Isgorogota (Um pirralho na floresta). Estes últimos eram, por sinal, muito amigos de Monteiro Lobato. No entanto, tendo esses autores consolidado sua trajetória em outros estados do Brasil, suas obras, à exceção dos escritos do Mestre Graça, ficaram, praticamente, desconhecidas pelas novas gerações.


Décadas depois, nos anos 90, surge um divisor de águas: a aparição da escritora Ruth Quintella. O conjunto de sua obra inaugura e melhor representa a fase contemporânea de nossa literatura infantil. Apesar dos cabelos brancos e do corpo franzino, ela vive numa inquietude permanente, utilizando a experiência adquirida ao longo do tempo como professora para disseminar o prazer de ler, assumindo, simultaneamente, os papéis de autora, ilustradora e contadora de histórias. 

Daí por diante, novos fios coloridos vão se tecendo na grande renda de palavras e imagens de nossa literatura. Com textos em forma de conto ou poesia, fazem parte dessa rede autoras como Fátima Maia, Luciana Fonseca, Cleo Soares, Socorro Cunha, Marijôse Albuquerque, Juanina Ribeiro, Claudia Lins, Regina Barbosa, Isvânia Marques, Maristela Pozitano, Sara Albuquerque, Eliana Maria, Adélia Souto, Luana Teixeira, Geisa Andrade, Leonardo Pimentel, Tiago Amaral, Ricardo Cabús, Luiz Alberto Machado, Diógenes Tenório, Daniel Libardi. 

Se no texto de literatura infantil as imagens também contam histórias, quem ilustra divide espaço de coautoria do livro nas dimensões visual e narrativa. E nesse sentido, é mais do que justo destacar ilustradores como Pedro Lucena, Weber Salles, Ddaniela Aguilar, Eduardo Menezes, Paulo Caldas, Yuri Ávila, Nataska Conrado, Wagner Bagetti, Vick, Claudio Jorge, Bruno Clériston, Thiago Oli, Chris K, Emanoel Melo, Jefesson Henrique e o Estúdio Alba. Em cada trabalho, eles buscam combinar seu conhecimento visual com o uso de diferentes técnicas e recursos – aquarela, pintura a lápis de cor, manipulação digital, acrílica sobre papel. 

Sem editoras comerciais, os autores independentes financiam sozinhos os custos de publicação do seu livro, e uma minoria consegue patrocínio em editais federais estaduais e empresas privadas. Parte dessa produção é absorvida pela Coleção Coco de Roda, mantida pela editora da Imprensa Oficial. Mas falta ainda uma política pública de promoção, aquisição e circulação de livros que, enraizada na educação, valorize as produções locais, regionais e nacionais.

Indo na contramão, organizações sem fins lucrativos como o Sesc desenvolvem cursos, oficinas e encontros literários. A ONG Oásis, com seu projeto Baú de Leitura, vem atuando com formação de contadores de histórias em Palmeira dos Índios e outros municípios do agreste. Em Maceió, a ONG Ideário realiza ações de leitura em grotas, enquanto, em  Piaçabuçu, o Ponto de Cultura Olha o Chico aposta nas rodas de contação. Essas instituições difundem o gosto pela leitura de textos infantis em áreas de vulnerabilidade humana ou em lugares com baixo acesso a equipamentos culturais. 

Ciente de sua responsabilidade social, a ONG Teteia, voltada para a formação cidadã, vem tomar lugar também na lista de instituições preocupadas com a leitura. Contando com o apoio do BNDES, do Banco do Nordeste e do Governo Federal, a organização abraçou o projeto Trem das dez – leitura a todo vapor, que consiste na distribuição de  caixas de leitura contendo dez livros de autoras e autores alagoanos e a realização de oficinas de contação de histórias e de capacitação sobre técnicas de leitura literária. 

Com a realização do projeto, no primeiro semestre deste ano, 3.500 exemplares de livros serão distribuídos gratuitamente para escolas públicas de Maceió e Marechal Deodoro. Fazem parte da caixa os livros: A casa da reinação, de Tiago Amaral, A bela bruxa Lilita, de Ruth Quintella, No reino de Bilinguindone, de Claudia Lins, O gato e o rato de Socorro Cunha, O sequestro de Chiquita, de Leonardo Pimentel, Uma bebê impossível - que saudade da vovó, de Luciana Fonseca, Ventania e o mapa do tesouro, de minha autoria, Tatibitati e os mitos da mata, de Fátima Maia e A galinha saudosa, de Ricardo Cabús. 

Além da circulação via projetos culturais, algumas produções circulam nas pouquíssimas livrarias de Alagoas e fora do Estado, quando recebem selos de editoras regionais e nacionais. Por outro lado, seja pela atuação individual dos autores ou pelo trabalho de educadores e distribuidores, parte dessa produção vem tomando, aos poucos, lugar nas salas de leitura e bibliotecas de escolas públicas e privadas.
Pelo sistema de adoções, muitos autores vêm incluindo seus livros nos planejamentos pedagógicos das escolas, havendo em abril uma grande concentração de convites para que participem de feiras literárias e bate-papos com as crianças. Mas o livro não deveria estar na escola e na vida como o pão de cada dia, servido durante todo o ano em projetos tomados de contação de histórias e visitas a biblioteca, a exemplo de ações como Lê pra mim?, Histórias da Tia Felícia e Leitor Nota 100. 


Se há livros, como formar mais leitores?

Para chegar às mãos dos pequenos leitores, o livro infantil percorre uma cadeia produtiva com várias etapas, impulsionada por ações como as políticas de aquisição e circulação do livro do Ministério da Educação (MEC), o Plano Nacional do Livro e Leitura (PNLL), os selos de recomendação da Fundação Nacional do Livro Infantil e Juvenil (FNLIJ) e os editais e concursos literários. Mas o acesso limitado e a falta de estímulo à leitura ainda são problemas a serem enfrentados para que a leitura literária se torne um hábito consolidado no país e, em Alagoas, particularmente. 

Se os programas do MEC para compra de livros funcionam como apregoam as propagandas governamentais, como saber de que modo esse acervo está sendo utilizado em sala de aula? Será que existem ações de leitura efetivas e sistemáticas, ou as bibliotecas continuam sendo fechadas a cadeado como depósito de livros? As crianças podem circular livremente nas salas e cantos de leitura, ou devem ficar lá na hora do recreio como punição pelo mau comportamento? O livro de ficção infantil tem espaço garantido nas prateleiras, ou dão lugar unicamente a textos didáticos? Os professores insistem em ensinar literatura como meio de exploração de aspectos da língua portuguesa ou como linguagem isenta de qualquer obrigatoriedade? 

Como diz o escritor Saramago, “Tudo no mundo está dando respostas, o que demora é o tempo das perguntas?”. Questionar a prática da cultura literária no ambiente escolar ajuda a compreender por que o ato de abrir um simples livro de contos de fada, folheá-lo e interpretá-lo, para muitos, parece ser algo distante ou trágico. Ao falar de livros infantis, a seleção dos melhores e mais apropriados conteúdos não caminha sem a discussão da forma como essas histórias tocam o imaginário e o repertório diferenciado de saberes dos alunos. 

A exploração de novos sentidos no conteúdo lido pela criança, a capacidade de alargar seu olhar para a relação da obra no tempo e lugar, a ligação dela ao fio do encantamento de uma história para toda a vida, dependem da condução de vários fatores. Um deles é preparar educadores e bibliotecários para o desafio da mediação de leitura. A Biblioteca Pública de Alagoas e de outros estados, apoiadas pelo Programa Nacional de Incentivo à Leitura (Proler), já vem realizando seminários e cursos nessa direção. O Sesc e grupos como a Trupe Gogó da Ema, Carochinhas e Trupe Navegantes, preocupam-se em difundir técnicas de contar histórias. 

Mas chama a atenção o fato de poucas universidades e faculdades apostarem na literatura infantil e juvenil como disciplina de curso. Afinal, sem os recursos da formação, como os educadores saberão empregar métodos cativantes para a conquista de novos leitores? E de modo mais absurdo, como justificar o fechamento de bibliotecas escolares para darem lugar a laboratórios de ciência, sala de aula e outros fins, como aconteceu, no ano passado, com a Biblioteca do Centro Educacional de Pesquisas Aplicadas (Cepa)?  

Daí a urgência de marcos regulatórios, como a criação de planos nacionais e leis estaduais de incentivo ao livro e à leitura, como o fez os estados da Paraíba, Pernambuco e Ceará. Dessa forma, escritores, leitores, editores, distribuidores, livreiros, educadores e agentes literários, terão mais força para cobrar dos governantes investimentos permanentes na área. A lei impede o fechamento de bibliotecas e motiva novas inaugurações; incentiva a formulação de projetos de leitura; e impulsiona a revisão de algumas metodologias ultrapassadas no cotidiano da escola pública e privada que, longe de contribuírem para a formação de novos leitores, criam um fosso entre as crianças e os livros.  

Enquanto as mudanças caminham, a pesquisa Retratos da Leitura no Brasil, do Instituto Pró-Livro, prestes a alcançar sua terceira edição ainda este mês, vem apontando alguns dados positivos nos últimos anos. Primeiro, é o fato de a leitura ser entendida como algo prazeroso para a faixa etária de crianças até seis anos de idade. Segundo é a influência das mães no gosto dos filhos pelos livros; às vezes, utilizando somente a oralidade como via, considerando que muitas delas nem concluíram os estudos. Ler ou contar de memória histórias dentro de casa, bem como investir em projetos sistemáticos de leitura na sala de aula, são passos decisivos para o ingresso da criança numa espécie de cidadania literária. 

Essa cidadania nada mais é do que o seu direito de ter acesso a livros, de ficção, sobretudo, em diferentes gêneros e suportes, do papel ao meio digital; de poder curtir momentos prazerosos de descoberta das histórias, sem se submeter a métodos tradicionais que insistem em associar literatura com exercícios de gramática ou a questionários limitadores, verdadeiros “purgantes” e “pílulas” que nem mesmo Jeca Tatu ou Emília, personagens famosos de Lobato, teriam coragem de provar. 

Se tem um vocábulo capaz de responder o que é literatura, seja para criança ou para adulto, é a palavra liberdade. E tudo leva a crer: a liberdade de escolha e interpretação de obras, a criação de leis efetivas, a convivência com os livros nos espaços da vida pública e privada, são janelas abertas para a democratização da leitura literária no Brasil.