domingo, 6 de maio de 2012

[Religião afro: Macumba nas Alagoas] Luiz Sávio de.Almeida. Meu velho diário e a macumba nas Alagoas (III)







ALMEIDA, Luiz  Sávio de. Meu velho diário e a macumba nas Alagoas (III). Tribuna Independente. Maceió, 18 mar. 2012. Contexto


Meu velho diário e a macumba nas Alagoas (III)

Luiz Sávio de Almeida


O nascimento de uma carta




Ao desistirmos de trabalhar teoricamente os tempos do Quebra, não resistimos e escrevemos uma pequena carta de amor que era destinada à Tia Marcelina. É fantástica a forma como recebeu a dignidade histórica,  como se deu a sua construção como símbolo de martírio e resistência. Ela tornou-se tão grande que sempre diversas tias e, maravilhosamente, a unidade Tia Marcelina.. Importa a Marcelina explicação, a Marcelina de uma história construída para ser a Tia Marcelina de todos nós. E isso foi sendo conseguido e montado, ao longo da história da religião.

Quando esta carta foi publicada pela primeira vez, o movimento negro estava começando a tomar vistas em Alagoas. Foi ano de 1987, na Revista do Departamento de Letras Clássicas e Vernáculas do CHLA da UFAL, por gentileza do Conselho Editorial que era composto pelas professoras Maria Denilda Moura, Vera Romariz e José Ubireval Alencar Guimarães. Na verdade, era uma motivação que nada tinha de científica, uma espécie de desabafo ou de encantamento, melhor dizendo.  E, também, uma forma de colocar Tia Marcelina em evidência, dar uma inflexão na história do Quebra, palavra que, à época,  tinha um sentido semelhante ao de quabra-quebra na atualidade.

Alguma coisa estava mudando em direção à religião negra; todo um contexto novo parecia estar se esboçando, na medida em que se pressupunha, também, o encaminhamento de uma nova consciência negra, mais aberta, demonstrada, desacanhada, encontrando-se em um espaço mais propriamente político. Interessante, é que no ano anterior a esta carta, aparecia – que eu conheça – um dos primeiros trabalhos de fundo acadêmico sobre o negro, viés religioso, que foi escrito por Marilu Gusmão e intitulado A Cura pela Umbanda em Maceió, publicado na revista Estudos, Departamento de Ciências Sociais, CHLA/UFAL, ano de 1986, mas possivelmente escrito em 1984/1985.  Marilu Gusmão foi – até quanto sei –  a primeira Mestra em Antropologia do Departamento de Ciências Sociais.

Não importa o viés que escolhe e sua conclusão; importa que elege o tema e empenha, nele, o seu saber à época valorizado, pelos raros mestres que existiam na universidade.  Aliás, recebe um prêmio fora do circuito acadêmico, espécie de cumprimento da cultura provinciana, posta na Academia Alagoana de Letras que lhe concede, por ele, o Prêmio Graciliano Ramos de 1985. Não existia e nem poderia existir, qualquer compromisso político da Marilu com o movimento negro.




Os pés estavam no senhorial e a ciência tomava o negro como objeto.  Não estava havendo um diálogo e nem participação. Ela toma um centro de Umbanda e lança uma pergunta e a responde perfunctoriamente. É impressionante a redução realizada em sua conclusão que surge abruptamente na categoria – mais do que clichê – do ópio do povo, numa recuperação de Lenine que jamais cabia no corpo do texto.  Soa esdrúxula. É uma escrita completamente por fora do povo da macumba. A Umbanda o que poderia facilmente ser estendida para a Quimbanda – segundo a divisão que se fazia entre os grupos à época em que eu me mergulhava na macumba – seria uma medicina alternativa que atenderia aos aflitos da baixa renda. É daí que ela deriva a noção do ópio leninista, num corpo teórico desligado do marxismo, mesmo com esta compenetração que se poderia lançar dentro do escopo teórico que é chamado de marxismo vulgar.

No tempo em que eu andava com o pessoal, o universo dos cultos afro era dividido nas categorias de Umbanda e Quimbanda e a grande distinção era se o grupo trabalhava ou não com sangue. Mexeu com sangue era chamado de Quimbanda, mesmo que não trabalhasse pelas canhotas. Eu me entusiasmava com a Quimbanda, mas pelas canhotas somente fui amigo de um.  Foi no nos anos sessenta, que andei escrevendo um pequeno texto sobre o terreiro do Luiz Marinho e minha tentativa era traçar uma ponte entre o terreiro e o leitor, quebrando as barreiras do preconceito. Suponho que seja a primeira matéria publicada em jornal em Alagoas, a partir de uma posição simpatizante ou de dentro do povo da macumba, a melhor dizer.

Uso amiúde a expressão povo da macumba.  O texto da carta é de 1987, o artigo sobre o Luiz Marinho foi de outubro de 1968. Faziam parte do mesmo contexto, apesar dos vinte anos de diferença. O artigo foi publicado pelo Correio de Maceió e eu sabia das conseqüências, especialmente, da valorização que iria ter o Luiz Marinho, pessoa a quem eu devotava grande estima. Estava grifada, publicamente, a expressão culto afro brasileiro sem qualquer condenação, pelo contrário era simpático e apresentava Exu à nobre sociedade alagoana. Tenho uma boa amizade com os exus, especialmente o Tiriri por uma banda e o Tranca Ruas por outra. Já vi u Exu Caveira de me arrepiar. Pois bem, mas quando o Luiz Marinho morre, após uma tentativa feita por sua esposa para manter a casa, o terreiro fecha as portas. Pois bem novamente, a ideia era publicar uma série, com diversos babalorixás e ialorixás.  Se eu não me engano, o terreiro do Luiz Marinho e muitos outros foi fotografado pelo Esdras Gomes. Se for verdade, ele é muito cuidadoso e deve ter material com ele.




Deve ser considerado que os primeiros esboços do movimento negro em Alagoas começam no ano de 1980 e ele  não se  associa à ideia do Quebra, mas á Serra da Barriga, Quilombo dos Palmares, Zumbi. E na verdade, a Serra começa a ser posta em evidência pelo trading turístico e pelo Projeto Rondon. A Universidade não assume um quilombo e um movimento negro; ela assume um pleito da indústria do turismo e depois vai ter de se integrar à convivência com lideranças negras expressivas no cenário nacional. Aí muda. Então, o nascimento do movimento negro projeta-se para fora e não para dentro. O Quebra era para dentro. O próprio NEAB vai ser criado nesta tendência para fora. O encontro do movimento negro com a história negra vai ser fundado no Quilombo dos Palmares, na sua grande expressão nacional. O Quebra passa ao largo. Posso estar errado, mas a evidência  do Quilombo vem caindo cada vez mais em expressão enquanto preocupação acadêmica e uma nova temática para o movimento, neste mesmo rumo da produção intelectual, vai sendo estabelecida e é nesse novo mundo a bem dizer orgânico que aparecem os textos do Rafael e do Daniel na escrita, bem como Siloé na filmografia. Concordando ou não concordando, gostando ou não gostando este é o tripé da produção sobre o Quebra, fora do mundo da macumba.

 São vinte anos entre o artigo e a carta, entre a carta e Contexto são mais vinte.  Estamos diante de mais ou menos quarenta anos da vida dos cultos, embora eu tenha me afastado e partido para uma nova gama de interesses. No entanto, na década de noventa do século passado fiz entrevistas sistemáticas em vinte terreiros, mas jamais trabalhei as informações, pretendendo publicá-las sem maiores comentários e com uma breve introdução ou, vez em quando, trazer alguma a Contexto para que se possa, no futuro, ter uma ideia de trajetória do processo dos centros. Fiz este trabalho auxiliado por dois estudantes, dos quais me lembro do nome: Patrícia e Erisvaldo. Acho que ambos eram do curso de jornalismo da UFAL. Depois aconteceram umas poucas gravações,  realizadas com a participação de estudantes de história como Clébio, Adriana e outros.

Ouvi falar da Tia Marcelina; mas a Marcelina é algo diferente da Tia Marcelina. Ela se construiu numa história cuja grande razão é a afirmação de uma identidade e é a função identidade que propõe o emblemático. São muitas as possíveis Tias Marcelina, mas elas todas são uma só, unidas no sentido histórico que foi sendo vestido sobre sua figura ao longo dos 100 anos de história pós-Quebra, 40 dos quais acompanhei, sistematicamente em, alguns períodos. A Tia Marcelina que emerge de dentro dos cultos passa por este processo.

 E de certa forma, a carta é uma espécie de contraponto ao famoso texto de Abelardo Duarte que versa sobre a chamada Coleção Perseverança. A carta pede um destaque à história negra. A Tia Marcelina jamais foi resgatada em escritos; além de a palavra resgate ser problemática teoricamente, ela somente poderia ser retomada pela própria memória da religião que a encontrando vai reafirmá-la como motivação de uma construção identitária na medida em que as tradições são fundadas. A Tia Marcelina sempre esteve por dentro, em evidência ou não; os seus encontros com escritos brancos são outra coisa, faz parte de outra história.




A Tia Marcelina que os cultos reverenciam é uma Tia Marcelina diferente da catalogada, da mencionada e, inclusive, da amada por mim. A história branca sempre tenta reduzir o Quebra a seus termos; Tia Marcelina não está e não pode estar fora da história onde o povo da macumba – magnífica expressão de Dona Maria do Acai, que baixa no terreiro do Manoel – a entende, a constrói e nela se consagra. Estudar como é este processo, seria uma bela tarefa. A Tia Marcelina pode ter tantas vidas quanto se deseje e quanto for necessário na demanda da unidade de consagração em uma memória que a requer e necessita. Não há que discutir.

É preciso começar a perguntar à religião, o que se entende por história, como a concebe e até mesmo como pensa sobre uma etnografia do tempo. Por aí, está a chave de se deixar Tia Marcelina ser tão poderosa que é a diversidade fundando a unidade. Que história o povo da macumba pensa para si e sobre ele mesmo? Lembro de minha inquietude quanto ao sentido da história para os índios. Eu dizia que eles têm seus próprios historiadores e que os formados na tradição saberiam encontrar o caminho de fazer a sua história. 

Lembro de um fantástico choque teórico que recebi, em um começo de noite no limpo do Ouricuri Kariri-Xocó. O Pajé Júlio dizia que eu tinha uma canela enterrada lá. De fato, há um determinado rancho em uma determinada localização e sempre fico sentado na calçada dele, e me entrego ao silêncio. O silêncio foi passando e ficando tarde. Eu estava com um grande amigo índio: Nunes. Decidimos cortar a mata pela estradinha do Ouricuri.  Ele disse: “Professor, o senhor precisa aprender a ouvir o silêncio!”. Olhei espantado, sentindo um quê de Castanheda na história. Eu tenho um grande respeito por tudo que é sagrado.

Eu me virei para o Nunes e disse: “Posso pegar uma folha para mim?”. Ele respondeu: “Pergunte ao espírito da mata, se ele deixar...”.  Então, eu procurei pelo espírito da mata e perguntei se podia pegar a folha. Senti que recebi a permissão. Nunes me aconselhou a andar com ela na carteira e assim fiz por meses, até que dei ao Dário Bernardes. Acho que sem ter muito que conversar, fiz uma pergunta e recebi uma resposta que me desconcertou. Perguntei a razão de gostar tanto de planta.  Ele então me despenca a cabeça: “Mas professor, o senhor não é historiador?”.  

Qual a ligação entre gostar de planta e ser historiador? Continuou: “O senhor quer um historiador maior do que aquele pé de angico, que fica na entrada do limpo? Ele sabe tudo sobre nós!”.   Comecei a ver quanto a minha história era um denada na vastidão das histórias e como o tempo tem as razões de sua própria cultura.  Foi fácil entender que o tempo é a partilha de relações e as relações podem ser vistas de formas diversas, por sujeitos diversos. A minha formação me impedia de entender a história exposta por um angico, instalado no limpo de um Ouricuri.

Existem histórias que se revelam, que se entendem por meios que não conheço e têm seu caminho próprio. É a história da Tia Marcelina.  Não importa se ele era magra, gorda, baixa, alta, se disse isto ou aquilo.  Importa que ela reine soberana na construção da memória e que seu nome é uma evocação do passado e uma confirmação do presente: existiu, existe e existirá o povo da macumba falado por Dona Maria do Acai. E Tia Marcelina a diversa na unidade tem sentido e explica: ela passou a ser um ente estruturante.

Do ponto de vista acadêmica, temos os mais diversos problemas com Tia Marcelina, Quebra e outros pretextos. No entanto, do ponto de vista do povo da macumba, ela está muito bem resolvida, restando ver se ela é uma referência do urbano de Maceió ou uma presença nas Alagoas. Mas isto tudo, é o próprio andamento da Tia Marcelina. Os setores ditos excluídos, marginalizados – termos que parecem uma ironia metodológica – resolvem-se.

Existe uma senhora chamada Lurdes, esposa do Moacir e que morava no Tingui, vizinho a São Sebastião, antigo lugar chamado Salomé.  O Tingui é um aldeamento Karapotó.  Dona Lurdes é uma mulher brilhante e matou muito bem a charada da história das etnias submetidas a vexame e talvez de todas elas, mesmo as não vexamadas. Lurdes deveria estar brilhando em grandes universidades; a ela devo dois grandes presentes. Um deles não interessa a este texto e é como se come saburica na folha da moqueca ou da jurubeba, com a pataca amarrando a moqueca. A outra foi a definição da história Karapotó, cheia de categorias que bem iluminariam o entendimento da história que constrói a Tia Marcelina.




É ler o que Lurdes tem a dizer, retirar as categorias e pensar numa história concebida sem esta ancoragem acadêmica que tanto faz a nossa cabeça. Disse a minha boa Lurdes: “A história dos Karapotó é uma história. Uma história bonita e interessante. Já de descendentes, bisavós, tataravós, de pai, de mãe... Vai passando de geração em geração. E cada um vai contando: meu avô me contava assim, assim, assim, assim... Meu bisavô me contava assim, assim, assim... Meu pai me contava assim, assim, assim... E cada um vai contando.”.





UMA LEMBRANÇA DE AMOR PARA TIA MARCELINA

Luiz Sávio de Almeida

SARAVÁ

  As palavras negro e escravo tentam uniformizar o que não podem; fomos gentes de todas as partes da África que foram açoitadas para estes brasis. Isto é um assunto muito falado. O Gilberto Freire (1978), na sua popular Casa Grande & Senzala, versou sobre o fato. Montou-se na mania do mapeamento que enfrentou a antropologia americana e, nisto, ficou de grande no relativismo de Mr. Herskovits. O nosso conterrâneo pilarense, o Dr. Arthur Ramos (1934) entrou na dança, terminando por subscrever o difusicionismo de Ellis com vistas à religião e danou-se a analisar a gente. Ainda foi bom, pois houve tempo em que éramos matéria de Medicina Legal. Existe é um monte de tese elaborada e quando em vez, um mestrando ou doutorando resolve escutar o tam-tam-tam do ingome. Tá vendo, TIA MARCELINA, como existe entendido na gente?


  Bom, minha TIA, todo mundo fala que por aqui, nesta antiga e celebrada Maçaió, predominou a tal da tradição iorubana, como a nossa linha de Orixás e, dentre eles, o nosso Xangô (Eiô! Cabecinha!), que terminou dando o nome à própria seita. Seita era como o velho e grande amigo Luiz Marinho, nas conversas arrastadas de sábado à tarde, chamava o grande conjunto de terreiros. Por seita, juntava quimbanda e umbanda; juntava as nações que existiam em nossa terra: gêge, ijexá...

  Com a licença da TIA, que sabe muito mais das forças da natureza, vivemos algumas fases diferentes. Quando a gente estava vindo, éramos todos malungos naquele navio; a gente que já era apartada apartou outra vez. Como é que se podia tentar viver, como antes? Que nada! Tivemos que passar por uma nova geografia, vestir a religião dos brancos; usar a religião dos brancos. E isto foi logo, pois lá nos Palmares já se comprovava. Depois, conseguimos nos universalizar pela baixa renda; as piruetas de pobres conseguiram montar as verdadeiras bases de uma religião nacional. É claro que foi acontecendo um afastamento, até que os pontos terminaram por um balbuciar de sons semelhantes aos das línguas dos avós, dos troncos. Hoje, a gente fala com o Orixá, por herança. A TIA talvez sentisse o que a gente sente, mas iria dizer que todo o mundo é analfabeto de pai e mãe.

  A pobreza sempre é obrigada a abrir o seu próprio espaço, e foi assim que montamos a quimbanda e a umbanda; foi assim que os Orixás tiveram a nossa história; os Pretos Velhos e os Caboclos, o Padre Cícero e o Cavaleiro de Bagdá, o Cigano e Buda sentado no Congá. Somos uma grande geração de santos. É a religião do pequeno assalariado, do vendedor de raspadinha, do despinicador de sururu, do menino do carrego, de todo um povo que se eterniza nas pobrezas desta Maceió. Já tem rico coçando o ouvido de babalorixá e as meninas de boa família, vivem de assanhamento nos dolorosos casos de amor. Religião mesmo é a nossa, de quem tem medo de levar piaba do santo.

  A TIA sabe que nunca a vida da seita foi pacífica nas Alagoas. Perseguição aqui, perseguição acolá. Por incrível que pareça, no ano de 1952, quando se realizava a IV SEMANA NACIONAL DE FOLCLORE, o Governo do Estado mandou perguntar se aquilo era religião, ou bagunça. Os participantes, através de Edison Carneiro e de Renê Ribeiro, tiveram a coragem de, pachorramente, responder, afirmando que era religião mesmo, com Direito Constitucional embutido e tudo o mais. Hum...Hum, hum! Já viu TIA?

Apesar das perseguições, que foram inúmeras, nenhuma teve o caráter sistemático e tal pompa e monta, quanto à desfechada pela SOBERANIA, nos mando de Clodoaldo da Fonseca e da execrável LIGA DOS REPÚBLICANANOS COMBATENTES, chefiada, como SANT’ANA (1986) anota, por um sargento que andou sendo ferido lá pelos lados de Canudos; perdeu uma perna. Hoje, para o que era, está uma beleza. E a morta mais assassinada, foi a minha querida e veneranda TIA MARCELINA.

A elite sempre tratou o Xangô como coisa de gente sem eira nem beira; ponta de rua. Por outro lado, a confusão entre santos latinos e Orixás deve, com certeza, ter roçado a inteligência da oficiosidade católica. O espiritismo, que estava se afirmando nas ALAGOAS, devia correr léguas e dizer que qualquer semelhança era mera coincidência. Ranços do positivismo deveriam identificar que estávamos, cruelmente, bárbaros e o racismo, este sim, corria desembestado.

  Acontece que, num esquisito passe de mágica, o Xangô dos locais afastados, foi colocado no centro do poder e macumbeiro foi catalogado como pertencente à hierarquia do Estado oligarca. A Soberania, num majestoso rasgo de insanidade, deu o toque de que o Xangô era a religião oficial do Estado de Alagoas, personificado na família Malta. Daí, as perseguições que foram realizadas, a destruição dos templos, prisões, espancamentos, mortes. Este período ficou conhecido como o QUEBRA e ainda estava presente na memória dos terreiros de Maceió, há uns vinte anos passados, quando conversávamos com Luiz Marinho, Joca, João e tantos que já se foram. Eles recontavam a história da perseguição, falavam das Iaolorixás humilhadas e das fugas que se procediam. ANACLETO, que tinha um terreiro na Rua de Santo Antônio, foi preso. Prisão que foi anunciada no Jornal de Alagoas de 27.02.1912. MARIA DA CRUZ, que parece ser a mesma identificada por DUARTE (1974), com um terreiro no FRECHAL DE CIMA, escapou. Varejaram Maceió e queriam varejar o interior. Talvez, TIA, o terreiro do ANACLETO ficasse na Ponta Grossa, na rua chamada Santo Antônio das Palhas. A Senhora lembra? Só tinham casa coberta de palha. Saudade daquele povo, em TIA?
  Os ingomes ficaram calados e muitos, juntos com os Ilus transformaram-se em fogo ardente, qual fogueira de São João. O Aleri ficou mudo e mudo, também, ficou o Adjá. O Xaxará de Omolu virou pagode; o pataxó de Oxalá ficou envergonhado.




Onde estava Mestre FELIX do terreiro da Rua do Amorim nº 11, em Jaraguá? Dr. ABELARDO DUARTE que, junto com THEO BRANDÃO, impediram que as relíquias deste tempo fossem para os Estados Unidos, figurar em Museu, onde estava o MANUEL GULEIJU? GULEIJU tinha o terreiro dele, pelos lados do Mutange. E MANUEL COUTINHO, com seu terreiro na Rua que hoje chamam de Dias Cabral? Isso, TIA, ficava na Rua do Reguinho. CHICO FOGUINHO, do Pernambuco Novo? E o JOÃO CATARINA do Trapiche da Barra, filho de MÃE QUITÉRIA do Gantois, na Bahia? E MANUEL DA LOLÓ, no Reginaldo? JOÃO FUNFUN e PAI AURÉLIO da Levada? ADOLFO, do Poço? Vivos, ou com força de encantados?

  O pau comeu, e feio! TIA MARCELINA tinha o terreiro dela na Praça Sinimbu. Segundo o JOCA falou uma vez, numa festa na casa do Celestino, ijexá, Jacintinho, tomando, um gole e outro de xequeté, o terreiro da TIA ficava na esquina vizinha ao Restaurante Universitário. Hoje, TIA, a senhora sabe que funciona uma Boutique? A Senhora se lembra, TIA, que seu sobrinho aqui, morou, justamente, onde era seu terreiro?

O João, preto velho, amigo de fé, morando naquelas ruinhas de Ponta Grossa, moço bom mas que trabalhava, também, pelas canhotas, foi quem contou. No meio da pancadaria toda, a TIA MARCELINA não aceitou fugir. Para onde? Distante de Axé? Longe dos filhos? A polícia veio com um monte de gente gritando. Entraram, todos, invadindo o terreiro e a TIA foi para o PEJI. Que melhor lugar, havia? Foi assassinada lá dentro, no PEJI, com o sangue correndo no meio da comida do santo. E a tia sustentou; a cada chute que levava do soldado, gemia para XANGÔ (ÊIÔ, CABECINHA!) a sua vingança e, no outro dia, a perna do soldado foi secando, até que ele mesmo secou todo. A Tia era velha, baixinha, franzina, um doce de côco de gente! Morreu...

Foram quatro artigos no JORNAL DE ALAGOAS ridicularizando tudo e, especialmente, a TIA MARCELINA; a bruxa miserável, feiticeira de fedor no sovaco. E no ano de 1916, nas edições de 27 a 29 de junho do mesmo Jornal, ainda se martelava contra ela, numa série de artigos: O MISTERIOSO CONCLAVE. Uns, mais eruditamente, dizem que a TIA MARCELINA morreu a golpes de sabre.

TIA MARCELINA; Coroa de DADÁ! DADÁ era o irmãozinho de Xangô (ÊIÔ! Cabecinha!).

Pegaram tudo aquilo; o que não queimaram, jogaram numa exposição de puro deboche. As peças foram da Liga para a PERSEVERANÇA e ficaram expostas à curiosidade pública, com os búzios da Costa jogados na intolerância. A PERSEVERANÇA ficava na Praça da Matriz e não, na Rua João Pessoa, onde hoje se encontra. Em 1913 o atual Centro Sportivo Alagoano jogou muito foot-ball no terreno da João Pessoa.  As peças foram para onde funcionam o Arquivo e a Biblioteca Pública. Depois, para a Rua João Pessoa, nos passos de uma estonteante via sacra. Mas, se fosse somente a exposição... Fizeram um bloco de carnaval, caracterizaram-se de filho e da filha, desfilando e fazendo algazarra com a fé. Foi assim. Foi assim, TIA MARCELINA morreu...


  Mas não se brinca impunemente com as forças da natureza, conforme o JOCA, fechando meu corpo, ensinou naquela sua risadagem de Exu. Ninguém desmancha a ordem do Orixá. Apesar de tudo, não conseguiram acabar com os terreiros. O QUEBRA aconteceu no mês de fevereiro de 1912.  No dia quatro de Agosto do mesmo ano, há uma denúncia do Jornal de Alagoas, pedindo que o povo tivesse cautela. Eis que os xangozeiros se faziam vivos e, desta feita, lá para os lados do cemitério novo. Maldosamente, a matéria dizia que se tratava de um antro de prostituição, para onde iam criadas de servir. Mas, quem vai ter força contra o Machado de Xangô (Eiô! Cabecinha!)? 


[Literatura Infantil: Produção em Alagoas] Simone Cavalcante. Literatura infantil: janelas abertas para um Brasil leitor










 Um pequeno bilhete sobre livros infantis

 

Contexto dedica sua edição de hoje aos livros infantis, em texto elaborado por Simone Cavalcante,  editora, escritora e jornalista, com mestrado em Estudos Literários pela Ufal. Simone produziu os programas Autoria e Caralâmpia, voltados à divulgação da literatura na TV Educativa de Alagoas. Autora dos livros: A cultura alagoana para crianças, Literatura em Alagoas, Os segredos da mata, Bob no país das verdurinhas, Ventania e o mapa do tesouro, e do audiolivro Histórias para ouvir e cantar.  De muito vem se dedicando à literatura infantil e dando contribuição à história de nossa literatura, além de ter-se dedicado ao estudo de Jorge de Lima. Vamos ler Simone,  pensar no que é dito sobre a importância da leitura para a  criança e saber do que se desenvolve em Alagoas nesta importante área cultural.

Sávio de Almeida


---------------------------------------------------------------------------------

CAVALCANTE, SimoneLiteratura infantil: janelas abertas para um Brasil leitor. Tribuna Independente. Maceió, 11 mar. 2012. Contexto.
---------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------










Literatura infantil: janelas abertas para um Brasil leitor

Simone Cavalcante


Há muitos obstáculos a transpor para que o livro se torne um artigo de fácil acesso, de presença constante na realidade da maioria das pessoas, tomando lugar na mesa do café, na cabeceira da cama, ou na prateleira da estante; atraindo o olhar para as vitrines das livrarias e dos sebos; ou motivando uma descontraída visita a biblioteca. Mas seria possível sonhar com um país de leitores?

Cada vez que alguém abre um livro, uma janela se abre nessa direção. Daí a importância de tornar a leitura um hábito presente no cotidiano de casa e sala de aula. Em contato com textos infantis e infanto-juvenis, as crianças e os jovens descobrem outros mundos abertos ao lúdico, à imaginação e à consciência de mundo. Os livros os transportam para reinos encantados e desencantados, onde podem habitar por alguns momentos e, dessa estada, experimentar as mais variadas sensações.


O texto literário possui, além do valor estético, outras dimensões abertas à exploração de cada leitor. O livro infantil, em especial, tem o privilégio de conter duas espécies de narrativa – a textual e a imagética – o que acentua seu potencial de exploração. É possível contar e recontar o enredo por diferentes trilhas sem a perda do elemento surpresa e das possibilidades de interpretação.

Mas ainda hoje, mesmo com seus desdobramentos, a literatura infantil sofre uma espécie de preconceito, sendo por vezes considerada uma escrita menor por alguns teóricos desavisados. Caminhando na contramão, esse segmento continua dando grandes saltos, tanto nos aspectos da autoria, riqueza textual e recepção – com o aparecimento de mais profissionais no mercado e a conquista de um maior número de leitores –, bem como no avanço de técnicas de produção (pop-ups, scanimations, recursos sonoros) capazes de atrair até mesmo os olhares e ouvidos daqueles mais distraídos.

No Brasil, quando se fala em livro infantil, salta do senso comum a figura de Monteiro Lobato. Sem sombra de dúvida, ele é um marco no ramo editorial, tendo assumido os papéis de escritor, editor e distribuidor, à frente de empreendimentos de sucesso como a Companhia Editora Nacional. Lobato soube captar as tendências mundiais, implantando métodos de produção novos para o país, como a adoção da capa ilustrada e a criação de uma grande rede de distribuição e circulação, formada por intelectuais, amigos e livreiros. Um desses métodos, por sinal curioso, era o envio de circulares para várias cidades, solicitando a políticos e pessoas conhecidas endereços de pontos de venda onde pudesse escoar sua produção. E do seu networking, nem mesmo o açougue escapava.

Se a personagem Narizinho tinha o nariz arrebitado, Lobato, seu criador, era dono de um bom faro editorial. Foi por suas mãos que surgiram várias coleções e séries de livros que lançaram seus autores no plano nacional. As séries infantis e didáticas tiveram um alcance estrondoso, sendo adotadas pelo sistema público e privado de ensino. Ainda hoje a obra desse escritor tem uma considerável repercussão, confirmada pela reedição de seus livros e pelos remakes de episódios para TV de O Sítio do Pica-pau Amarelo, baseados nos seus enredos. Aqui estão algumas demonstrações do potencial criador deste autor-símbolo, festejado todos os anos no Dia Nacional do Livro Infantil, 18 de abril, data de seu nascimento.   

Pensar a literatura infantil além de Lobato e do Dia do Livro é um exercício de abertura para a riqueza desse universo. Antes e depois dele, outros autores e autoras se lançaram ao ofício de escrever livros infantis e buscar formas permanentes de aproximação com o público, tomando, muitas vezes, caminhos desafiadores. É o caso, na atualidade, da escritora Lygia Bojunga que, depois de conquistar prêmios internacionais de peso no segmento infantil e juvenil (Hans Christian Andersen e Astrid Lindgren Memorial Award – ALMA), decidiu abrigar sua produção no selo Casa Lygia Bojunga. Quem sabe, talvez, cansada de um mercado editorial em que o autor parece ser quem menos recebe pelos direitos da criação.

A aventura de produzir livros para crianças continua febril como na época de Lobato. O Brasil é, hoje, uma referência nesse segmento literário, tendo um mercado interno bem movimentado por uma rede de editoras com alto grau de profissionalização e concentrada nas capitais e metrópoles, convivendo com uma produção independente distribuída em todo o território. É impressionante também a circulação de títulos fora do país, em traduções que percorrem vitrines de feiras internacionais, como a de Bolonha e Frankfurt. 

Seria impossível citar aqui todos os autores, mas talvez você, leitor, já tenha ouvido falar de nomes como Ana Maria Machado, Pedro Bandeira, Ruth Rocha, Elias José, Sylvia Orthof, Ziraldo, Tatiana Belink, Ângela Lago e Maurício de Sousa. Ao lado dessa lista canônica, outros autores despontam na cena nacional, afinal, o trem da história não pode parar. Lenice Pimentel, Jonas Ribeiro, André Neves, Cléo Busatto, Giba Pedroza, Celso Cisto, Almir Mota, Benita Prieto, Daniel Munduruku são alguns dos escritores que, tomando lugar no tabuleiro, formam uma nova conjuntura da literatura infantil brasileira. 




Contando a nossa história

Em Alagoas, embora incipiente em termos quantitativos e tecnológicos, a produção literária vem sendo conduzida pelas mãos de escritores e ilustradores com estilos diferentes de contar suas histórias. A produção atual está aberta a diferentes interpretações, fugindo do moralismo e do didatismo que por muito tempo povoaram boa parte da literatura brasileira e universal feita para crianças. 

Por aqui, a escrita de textos para os pequenos teve o caminho iniciado por nomes como Rosália Sandoval (Curso elementar de português, gramática infantil), Graciliano Ramos (A terra dos meninos pelados), Hildebrando de Lima (Lições do tio Emílio, pela Companhia Editora Nacional) e Judas Isgorogota (Um pirralho na floresta). Estes últimos eram, por sinal, muito amigos de Monteiro Lobato. No entanto, tendo esses autores consolidado sua trajetória em outros estados do Brasil, suas obras, à exceção dos escritos do Mestre Graça, ficaram, praticamente, desconhecidas pelas novas gerações.


Décadas depois, nos anos 90, surge um divisor de águas: a aparição da escritora Ruth Quintella. O conjunto de sua obra inaugura e melhor representa a fase contemporânea de nossa literatura infantil. Apesar dos cabelos brancos e do corpo franzino, ela vive numa inquietude permanente, utilizando a experiência adquirida ao longo do tempo como professora para disseminar o prazer de ler, assumindo, simultaneamente, os papéis de autora, ilustradora e contadora de histórias. 

Daí por diante, novos fios coloridos vão se tecendo na grande renda de palavras e imagens de nossa literatura. Com textos em forma de conto ou poesia, fazem parte dessa rede autoras como Fátima Maia, Luciana Fonseca, Cleo Soares, Socorro Cunha, Marijôse Albuquerque, Juanina Ribeiro, Claudia Lins, Regina Barbosa, Isvânia Marques, Maristela Pozitano, Sara Albuquerque, Eliana Maria, Adélia Souto, Luana Teixeira, Geisa Andrade, Leonardo Pimentel, Tiago Amaral, Ricardo Cabús, Luiz Alberto Machado, Diógenes Tenório, Daniel Libardi. 

Se no texto de literatura infantil as imagens também contam histórias, quem ilustra divide espaço de coautoria do livro nas dimensões visual e narrativa. E nesse sentido, é mais do que justo destacar ilustradores como Pedro Lucena, Weber Salles, Ddaniela Aguilar, Eduardo Menezes, Paulo Caldas, Yuri Ávila, Nataska Conrado, Wagner Bagetti, Vick, Claudio Jorge, Bruno Clériston, Thiago Oli, Chris K, Emanoel Melo, Jefesson Henrique e o Estúdio Alba. Em cada trabalho, eles buscam combinar seu conhecimento visual com o uso de diferentes técnicas e recursos – aquarela, pintura a lápis de cor, manipulação digital, acrílica sobre papel. 

Sem editoras comerciais, os autores independentes financiam sozinhos os custos de publicação do seu livro, e uma minoria consegue patrocínio em editais federais estaduais e empresas privadas. Parte dessa produção é absorvida pela Coleção Coco de Roda, mantida pela editora da Imprensa Oficial. Mas falta ainda uma política pública de promoção, aquisição e circulação de livros que, enraizada na educação, valorize as produções locais, regionais e nacionais.

Indo na contramão, organizações sem fins lucrativos como o Sesc desenvolvem cursos, oficinas e encontros literários. A ONG Oásis, com seu projeto Baú de Leitura, vem atuando com formação de contadores de histórias em Palmeira dos Índios e outros municípios do agreste. Em Maceió, a ONG Ideário realiza ações de leitura em grotas, enquanto, em  Piaçabuçu, o Ponto de Cultura Olha o Chico aposta nas rodas de contação. Essas instituições difundem o gosto pela leitura de textos infantis em áreas de vulnerabilidade humana ou em lugares com baixo acesso a equipamentos culturais. 

Ciente de sua responsabilidade social, a ONG Teteia, voltada para a formação cidadã, vem tomar lugar também na lista de instituições preocupadas com a leitura. Contando com o apoio do BNDES, do Banco do Nordeste e do Governo Federal, a organização abraçou o projeto Trem das dez – leitura a todo vapor, que consiste na distribuição de  caixas de leitura contendo dez livros de autoras e autores alagoanos e a realização de oficinas de contação de histórias e de capacitação sobre técnicas de leitura literária. 

Com a realização do projeto, no primeiro semestre deste ano, 3.500 exemplares de livros serão distribuídos gratuitamente para escolas públicas de Maceió e Marechal Deodoro. Fazem parte da caixa os livros: A casa da reinação, de Tiago Amaral, A bela bruxa Lilita, de Ruth Quintella, No reino de Bilinguindone, de Claudia Lins, O gato e o rato de Socorro Cunha, O sequestro de Chiquita, de Leonardo Pimentel, Uma bebê impossível - que saudade da vovó, de Luciana Fonseca, Ventania e o mapa do tesouro, de minha autoria, Tatibitati e os mitos da mata, de Fátima Maia e A galinha saudosa, de Ricardo Cabús. 

Além da circulação via projetos culturais, algumas produções circulam nas pouquíssimas livrarias de Alagoas e fora do Estado, quando recebem selos de editoras regionais e nacionais. Por outro lado, seja pela atuação individual dos autores ou pelo trabalho de educadores e distribuidores, parte dessa produção vem tomando, aos poucos, lugar nas salas de leitura e bibliotecas de escolas públicas e privadas.
Pelo sistema de adoções, muitos autores vêm incluindo seus livros nos planejamentos pedagógicos das escolas, havendo em abril uma grande concentração de convites para que participem de feiras literárias e bate-papos com as crianças. Mas o livro não deveria estar na escola e na vida como o pão de cada dia, servido durante todo o ano em projetos tomados de contação de histórias e visitas a biblioteca, a exemplo de ações como Lê pra mim?, Histórias da Tia Felícia e Leitor Nota 100. 


Se há livros, como formar mais leitores?

Para chegar às mãos dos pequenos leitores, o livro infantil percorre uma cadeia produtiva com várias etapas, impulsionada por ações como as políticas de aquisição e circulação do livro do Ministério da Educação (MEC), o Plano Nacional do Livro e Leitura (PNLL), os selos de recomendação da Fundação Nacional do Livro Infantil e Juvenil (FNLIJ) e os editais e concursos literários. Mas o acesso limitado e a falta de estímulo à leitura ainda são problemas a serem enfrentados para que a leitura literária se torne um hábito consolidado no país e, em Alagoas, particularmente. 

Se os programas do MEC para compra de livros funcionam como apregoam as propagandas governamentais, como saber de que modo esse acervo está sendo utilizado em sala de aula? Será que existem ações de leitura efetivas e sistemáticas, ou as bibliotecas continuam sendo fechadas a cadeado como depósito de livros? As crianças podem circular livremente nas salas e cantos de leitura, ou devem ficar lá na hora do recreio como punição pelo mau comportamento? O livro de ficção infantil tem espaço garantido nas prateleiras, ou dão lugar unicamente a textos didáticos? Os professores insistem em ensinar literatura como meio de exploração de aspectos da língua portuguesa ou como linguagem isenta de qualquer obrigatoriedade? 

Como diz o escritor Saramago, “Tudo no mundo está dando respostas, o que demora é o tempo das perguntas?”. Questionar a prática da cultura literária no ambiente escolar ajuda a compreender por que o ato de abrir um simples livro de contos de fada, folheá-lo e interpretá-lo, para muitos, parece ser algo distante ou trágico. Ao falar de livros infantis, a seleção dos melhores e mais apropriados conteúdos não caminha sem a discussão da forma como essas histórias tocam o imaginário e o repertório diferenciado de saberes dos alunos. 

A exploração de novos sentidos no conteúdo lido pela criança, a capacidade de alargar seu olhar para a relação da obra no tempo e lugar, a ligação dela ao fio do encantamento de uma história para toda a vida, dependem da condução de vários fatores. Um deles é preparar educadores e bibliotecários para o desafio da mediação de leitura. A Biblioteca Pública de Alagoas e de outros estados, apoiadas pelo Programa Nacional de Incentivo à Leitura (Proler), já vem realizando seminários e cursos nessa direção. O Sesc e grupos como a Trupe Gogó da Ema, Carochinhas e Trupe Navegantes, preocupam-se em difundir técnicas de contar histórias. 

Mas chama a atenção o fato de poucas universidades e faculdades apostarem na literatura infantil e juvenil como disciplina de curso. Afinal, sem os recursos da formação, como os educadores saberão empregar métodos cativantes para a conquista de novos leitores? E de modo mais absurdo, como justificar o fechamento de bibliotecas escolares para darem lugar a laboratórios de ciência, sala de aula e outros fins, como aconteceu, no ano passado, com a Biblioteca do Centro Educacional de Pesquisas Aplicadas (Cepa)?  

Daí a urgência de marcos regulatórios, como a criação de planos nacionais e leis estaduais de incentivo ao livro e à leitura, como o fez os estados da Paraíba, Pernambuco e Ceará. Dessa forma, escritores, leitores, editores, distribuidores, livreiros, educadores e agentes literários, terão mais força para cobrar dos governantes investimentos permanentes na área. A lei impede o fechamento de bibliotecas e motiva novas inaugurações; incentiva a formulação de projetos de leitura; e impulsiona a revisão de algumas metodologias ultrapassadas no cotidiano da escola pública e privada que, longe de contribuírem para a formação de novos leitores, criam um fosso entre as crianças e os livros.  

Enquanto as mudanças caminham, a pesquisa Retratos da Leitura no Brasil, do Instituto Pró-Livro, prestes a alcançar sua terceira edição ainda este mês, vem apontando alguns dados positivos nos últimos anos. Primeiro, é o fato de a leitura ser entendida como algo prazeroso para a faixa etária de crianças até seis anos de idade. Segundo é a influência das mães no gosto dos filhos pelos livros; às vezes, utilizando somente a oralidade como via, considerando que muitas delas nem concluíram os estudos. Ler ou contar de memória histórias dentro de casa, bem como investir em projetos sistemáticos de leitura na sala de aula, são passos decisivos para o ingresso da criança numa espécie de cidadania literária. 

Essa cidadania nada mais é do que o seu direito de ter acesso a livros, de ficção, sobretudo, em diferentes gêneros e suportes, do papel ao meio digital; de poder curtir momentos prazerosos de descoberta das histórias, sem se submeter a métodos tradicionais que insistem em associar literatura com exercícios de gramática ou a questionários limitadores, verdadeiros “purgantes” e “pílulas” que nem mesmo Jeca Tatu ou Emília, personagens famosos de Lobato, teriam coragem de provar. 

Se tem um vocábulo capaz de responder o que é literatura, seja para criança ou para adulto, é a palavra liberdade. E tudo leva a crer: a liberdade de escolha e interpretação de obras, a criação de leis efetivas, a convivência com os livros nos espaços da vida pública e privada, são janelas abertas para a democratização da leitura literária no Brasil.     



segunda-feira, 9 de abril de 2012

[HISTÓRIA DOFUTEBOL] PERDIGÃO, Lautheney. Depoimento para a história: Bastinho, um cartola diferente








PERDIGÃO, Lautheney. Depoimento para a história: Bastinho, um cartola diferente. Tribuna Independente. Maceio, 8 abr. 2012. Contexto.






DEPOIMENTO PARA A HISTÓRIA: Bastinho, um cartola diferente

Lautheney Perdigão


          José Sebastião Bastos, o Bastinho, nasceu na cidade de Fernão Velho no dias 12 de setembro de 1922. Casado com dona Gerba teve uma filha, Maria Dorotéia e um garoto Daniel que criava como seu afilhado. Formado na Faculdade de Direito de Alagoas, passou a maior parte de sua vida dedicada ao esporte, em particular, o futebol. Depois de ocupar vários cargos na Federação Alagoana de Desportos, foi eleito, pela primeira vez, presidente da entidade e ficou por dez anos. Tempos depois conseguiu voltar a dirigir o futebol, agora na Federação Alagoana de Futebol.

Bastinho e Aldo Ivo
          Na vida deste nosso personagem aconteceram coisas incríveis. Foi presidente da Federação Alagoana de Desportos sem nunca ter chutado uma bola. Foi comandante da Guarda Civil sem ter sido militar. Foi Diretor Administrativo do Serviço de Engenharia do Estado sem nunca ter sido engenheiro. Foi presidente da Colônia de Pescadores sem nunca ter lançado um anzol no m ar. Também, foi Vereador, Diretor do Serviço de Patrimônio do Estado. Dirigiu o Departamento de Educação Administrativo da Codeal. Chefe de Gabinete das Secretarias do Planejamento, Educação, Indústria e Comercio. Vice–Presidente da Confederação Brasileira de Futebol. Aposentou-se como Consultor jurídico do Estado.
          Bastinho é o desportista que mais tempo ocupou a presidência da Federação Alagoana de Futebol. Ele está na pequena lista dos dirigentes que são mais respeitados e admirados por todos. Nos momentos mais difíceis do nosso futebol, Bastinho estava sempre presente para servir de mediador. Muitas vezes teve que participar de reuniões com dirigentes dos tradicionais CRB e CSA e, com seus argumentos, reatar os laços de amizade entre os dois clubes. Era antes de tudo, um conselheiro. Sempre procurando os caminhos certos que são orientados por leis e regulamentos.
          Na década de cinqüenta Carlos de Miranda, que era Presidente do Tribunal de Justiça Desportiva, convidou Bastinho para ser suplente do TJD. Seu nome foi levado à consideração da Assembléia da Federação Alagoana de Futebol e aceito pelos clubes. A Federação, na época, era eclética. Além do futebol, tinha futebol de salão, voleibol, basquetebol, natação, xadrez, ciclismo e atletismo. Ficava num casarão na Praça Sinimbú, onde hoje se encontra o Tribunal Regional Eleitoral. Um mês depois Bastinho já era convocado para ser juiz efetivo em uma das vagas do TJD. Começou a se interessar pela legislação esportiva e acompanhar o dia a dia da Federação. Foi seu primeiro passo no esporte alagoano.

Bastinho, Havelange, Renan Rosas
          Em 1958, Ulisses Marinho que era o Vice-Presidente da Federação Alagoana de Desportos, foi convidado para ser Presidente do Esporte Clube Alagoas e deixou vago o cargo. Eraldo Calado, Diretor do Centro Sportivo Alagoano, indicou seu nome junto à Assembléia dos clubes para substituir Ulisses Marinho. O Presidente, Major Kleber Rodrigues, concordou e os clubes também. A subida foi rápida. No ano seguinte, o Major Kleber foi transferido para uma Guarnição Federal no Piauí. Bastinho assumiu a Presidência pela primeira vez. Em dezembro daquele ano foi candidato e eleito o novo Presidente da Federação Alagoana de Desportos. Ele não se esquece de muitos desportistas que conheceu no inicio dessa caminhada. Nomes que eram respeitados pela contribuição que davam ao esporte alagoano: Alexandre Dantas, Jair Galvão, Almachio de Oliveira Costa, do TJD, eram homens justos. José Crispim, grande amigo de Bastinho, foi seu Vice-Presidente até 1968, quando ele deixou a Federação pela primeira vez.
          E foi no seu ultimo ano como Presidente da Entidade que Bastinho teve que resolver um caso Capelense e Penedense. Depois de estudar o caso teve que decidir e, consciente, deu ganho de causa ao Capelense. Foi a primeira vez que um clube ficou contra Bastinho. Dirigentes do Penedense, inconformados, fizeram campanha apresentando o Presidente da Federação como inimigo dos clubes do interior. O que não era verdade. Nas gestões do Bastinho, passaram a participar dos campeonatos alagoanos os clubes interioranos com Capelense de Capela, ASA de Arapiraca, Rio Branco de Massagueira, CSE de Palmeira dos Índios e o próprio Penedense de Penedo. Nessa campanha, o CRB indicou o nome de Remi Maia, de Palmeira dos Índios, para Presidência da Federação. Bastinho perdeu sua primeira eleição. Entretanto, o tempo passou, ele ficou um pouco afastado da entidade, mas depois voltou a se candidatar e ganhou outras três eleições. Voltou a Presidência da Federação de 1985 a 1988 e 1991 a 1995 e no último mandato ficaria até 1999. Quando foi eleito um dos cinco Vice-Presidentes da Confederação Brasileira de Futebol, entregou o cargo para Raimundo Tavares, seu Vice-Presidente. 

Bastinho, Havelange, Nilo Floriano Peixoto
          Em 1966 aconteceu um fato que Bastinho gosta de relembrar. O Departamento de Árbitros era autônomo e dirigido pelo competente Moisés Silva. Na semana do clássico surgiu um problema. Nilo Floriano, Presidente do CSA, e Severiano Gomes, Presidente do CRB, não chegaram a um acordo para a escolha do arbitro da partida. Partiram para arbitro de outro Estado. Também não houve acordo. Estava criado o impasse. Bastinho reuniu Biano, Nilo e Moisés e colocou quinze árbitros alagoanos para um sorteio. O Presidente do CRB impugnou Manoel Amaro. Bastinho não aceitou e no sorteio deu Manoel Amaro. O CRB não compareceu a Pajuçara para enfrentar o CSA e perdeu os pontos. Apesar dos protestos dos dirigentes alvirubros, o Presidente da Federação se manteve firme. Entrou como apaziguador e tentou o equilíbrio. Como nado deu certo, teve que usar de energia para fazer cumprir o regulamento. O Departamento de Arbitro era autônomo e Bastinho ficou do lado do seu departamento.
          Entre os muitos recordes do Bastinho que Bastinho possui, um deles é imbatível. Ele é o único Presidente de Federação de Futebol do Brasil a ser empossado numa sala de despachos de um Palácio do Governo e com a presença de João Havelange, Presidente da FIFA. Somente o prestigio, a amizade e tudo de bom que fez ao longo de sua caminhada pelas estradas do esporte, fizeram com que Bastinho conseguisse realizar um sonho acalentado há muitos anos. Uma posse de alto nível, com a presença de muitas autoridades e o seu compadre Havelange.

          A amizade com João Havelange começou em 1959. Ele foi apresentado ao então presidente da CBD pelo Presidente da Federação Pernambucana de Futebol Rubens Moreira. Ali se consolidou uma amizade que se aprofundou entre as famílias e que perdurou até sua morte. João Havelange é padrinho de Dorotéia, filha do Bastinho. Aliás, ela fez seu curso de inglês na área de comunicação, na Suíça, onde está a sede da FIFA. Tudo patrocinado pelo padrinho. E não foi uma fineza de empréstimo. Foi fineza de cordialidade, de cavalheirismo, de fidalguia, de lealdade, de seriedade. Havelange não precisava do voto do Bastinho, nem Bastinho era eleitor da Fifa.
          José Sebastião Bastos tinha na sua casa uma sala de troféus que faz inveja aos grandes colecionadores. É o único Presidente de Federação que recebeu cinco bolas de ouro. Comendas de Beneméritos da CBD, CBF e da Federação Pernambucana de Futebol. Miniatura da Taça Jules Rimet conquistado no México e da Taça FIFA ganha nos Estados Unidos. Diversos diplomas de Beneméritos das Federações do Rio de Janeiro, Pernambuco, Rio Grande do Norte, Rio Grande do Sul, Espírito Santo, Brasília e Associação Alagoana de Imprensa. Cidadão Honorário de Arapiraca e Viçosa. Diplomas de bons serviços prestados ao esporte alagoano nos governos de Afrânio Lages e Divaldo Suruagy. Diplomas da Confederação Sul-Americana de Futebol pelos serviços prestados na Copa América em 1989. Muitos troféus e medalhas, Além de chefiar duas delegações da seleção brasileira de juniores que disputaram campeonatos Sul-Americano e mundial. Entre as muitas homenagens que recebeu Bastinho sempre lembrava com carinho daquela que teve no Museu dos Esportes no projeto Cantinho da Saudade.

         
 Sua indicação para Vice-Presidente da CBF partiu dos colegas Presidentes das lideradas pelos Estados do Nordeste. José Clarivaldo de Souza, Presidente da Federação Sergipana foi seu principal nome nessa indicação que foi seguida pelos demais dirigentes. Na Confederação Brasileira de Futebol ele poderia ajudar mais o futebol alagoano. Antes, Bastinho já tinha sido Diretor de Coordenação Regional da CBF. Era um relações publicas entre os Presidentes das Federações e o presidente da CBF. Durante dois anos esteve nesta função e realizou um excelente trabalho com os Presidentes que integravam o colégio eleitoral. E ele não esconde que João Havelange e Rubem Moreira foram os grandes dirigentes do futebol brasileiro.  Rubens Rodrigues Moreira foi um líder pela sua capacidade e lealdade. Rubem Moreira foi o amigo de todas as horas. Para Bastinho João Havelange é um homem de porte universal. Mas em qualquer que esteja ele sempre se lembrará o seu compadre. A amizade entre os dois nunca teve um arranhão. Foram amigos para sempre.
          Em 1967 José Sebastião Bastos, Presidente da Federação Alagoana de Desportos fez parte de uma Comissão designada pelo Governador Major Luiz Cavalcante para escolher o local para a construção do Estádio Estadual, o Estádio Trapichão. Juntamente com Nilo Floriano Peixoto, Presidente do CSA, Alcides Nascimento, Presidente do Estivadores, Abelardo Marinho, Presidente do Flamengo, engenheiro do DER e este cronista que ouviu o depoimento do nosso personagem de hoje tivemos várias reuniões até escolher o local onde foi construído o majestoso Rei Pelé.
          O projeto Gol Beleza que ajudou os clubes alagoanos por algum tempo teve o trabalho de José Sebastião Bastos. Ele esteve em Aracaju onde já existia o Gol Beleza e trouxe para Alagoas todos os detalhes do projeto. Conversou com o Governador Geraldo Bulhões que também gostou da idéia e em pouco tempo os clubes já estavam sendo contemplados com o novo projeto. O Gol Beleza foi lançado no Museu dos Esportes com a presença de presidentes dos clubes e muitas autoridades. Foi um bom período para o futebol alagoano. Os campos estavam sempre cheios e os clubes com dinheiro.
          Bastinhos também teve a sua colaboração na construção do Estádio Trapichão. Quando o Governador Luiz Cavalcante decidiu abraçar o projeto para a construção de um Estádio Estadual em Alagoas ele nomeou uma comissão para escolher o local onde poderia ser construído o Estádio. A comissão não deu certo e visando dar mais impulso ao seu desejo de construir o Estádio para registrar sua passagem pelo Governo de um desportista autêntico o
O Major resolveu nomear uma nova comissão. Apenas o engenheiro Antonio Araújo e Bastinhos foram reconduzidos. Os novos nomes foram: Nilo Floriano Peixoto, Alcides Nascimento, Abelardo Marinho e Lauthenay Perdigão. As quintas feiras a comissão se reunia e saia à procura de um local para o novo projeto do Governo de Luiz Cavalcante. 
          A morte não tem data nem hora para chegar. No final do ano passado recebemos a triste noticia do falecimento de Bastinhos. Ele se encontrava em Recife para fazer um tratamento e as coisas se complicaram. A pedido da família o velório do nosso amigo foi realizado no Museu dos Esportes. Assim, nada melhor que o Museu que fica do Estádio Trapichão para que os amigos pudessem dar o ultimo adeus a um dos maiores desportistas do nosso futebol. Era no Museu dos Esportes que Bastinhos teve alguns de seus grandes momentos. Ele foi homenageado no projeto Cantinho da Saudade. Foi uma noite das mais concorridas. Além das emoções daquela noite Bastinhos também participava de quase todas as homenagens que eram realizadas no Museu dos Esportes. Mais do que nunca José Sebastião Bastos faz parte dos arquivos do Museu. Ele se foi, mas ficou a saudade, a lembrança de um desportista que vai fazer falta ao futebol brasileiro.
Este é o José Sebastião Bastos, um cartola diferente. Um dirigente que conseguiu, ao longo dos anos, conquistar sólidas amizades entre os desportistas do Brasil inteiro e na sua terra sempre teve a admiração e o respeito da grande maioria dos alagoanos.

[HISTÓRIA DOFUTEBOL] ALMEIDA, Luiz Sávioi de. Um abraço no Bastinho









ALMEIDA, Luiz Sávio de. Um abraço no Bastinho. Tribuna Independente. Maceió, 08 abr. 2012. Contexto.


Um pequeno bilhete sobre Bastinho
Morreu Bastinho, um homem que marcou a história do futebol alagoano, como dirigente da Federação Alagoana de Desportos, depois de Futebol.  Contexto dá um abraço na família, em sua esposa, em sua filha de quem me lembro ainda pequena.
Sávio de Almeida


Um abraço no Bastinho

Luiz Sávio de Almeida

                Uma vez e faz certo tempo, estávamos conversando no Trapichão sobre a história do futebol em Alagoas. Lembro que a conversa resvalou para cartolas. A roda era Roberto Mendes, Toroca e mais uma pessoa de quem não me recordo. Parece que houve um acordo: o grande cartola de Alagoas foi o Bastinho. Vamos e venhamos: foram anos à frente da Federação, cerca de dez anos e profundamente integrado ao circuito nordestino de apoio a Havelange; inclusive havia uma grande ligação com Pernambuco, que, parece, cumpria a função de coordenação política dos interesses de Havelange no Nordeste.
                Quem lidou pessoalmente com Bastinho, sabe da sua habilidade afável, do modo como procedia na coordenação política do futebol, sempre abrindo espaços para conversações, para entendimento.  Na verdade, era um hábil negociador que traçou uma rede de alianças locais e, ao mesmo tempo, jogou com a moeda das suas ligações com Havelange, de quem era declarado eleitor e a quem sempre foi fiel.  Então, Bastinho demarcava sua posição pela sua vinculação nacional e seu comportamento mediador no desenvolvimento da política local do futebol. Ao lado dessas habilidades, Bastinho sempre foi pessoalmente honesto. Não conheço, durante anos de convivência, qualquer insinuação do nome do Bastinho ligado à corrupção. Jamais. Honesto sim!
                Futebol, em sua história, é muito forçado sobre a prática esportiva em si, pesando elementos como clubes, craques, as torcidas e ficando de lado um dos seus aspectos mais importantes: o desenvolvimento de sua política, a forma como se lida e consolida o poder no seio de suas hostes. De muito, a Federação Alagoana de Desportos merece um estudo acadêmico, uma espécie de verificação da caminhada da Coligação Esportiva para Federação Alagoana de Futebol. A Coligação já estava a demonstrar a complexidade da vida esportiva no Estado e a necessária insinuação de interesses.  A mudança para a Federação Alagoana de Desportos é de 1934, em plena consolidação de Vargas e não deve ter sido por coincidência que em 1932, Edgar de Góes Monteiro estivesse na Presidência da Coligação.
São poucos, contudo, os nomes de alta expressão política na vida local a estarem na presidência da entidade, pelo que podemos identificar. Bastinho sempre ocupou posições dentro do Estado, mas isto derivou bem mais de sua habilidade pessoal do que em razão de sua presidência que teve três períodos. O primeiro vai de 1961 até 1968, quando perde por negociação política urdida por Remy Maia que, por seu turno, vai ser sucedido por Orlando Gomes de Barros, Cleto Marques Luz e enfraquece com Heider Silveira, o que permite a Bastinho rearticular-se e cumprir o mandato de 1985 até 1988; volta em 1991 e vai até 1999 quando deixa para José Tavares, indo ocupar posição na CBF, sendo um Vice-Presidente da entidade.
Há um caminho do poder no futebol que vai do clube à Federação.  Como se dá o fortalecimento político para controle do clube; o que possibilita e como possibilita alguém tornar-se Presidente?  E como se negocia uma Presidência da Federação, praticamente colegiada? Como a Federação é vista pela massa de torcedores?  O time presidencia quando um dos seus de relevos é Presidente? Como se nota, há muito sobre o que escrever, na medida em que se deseje desvendar a caixa da política do futebol e da política no futebol, um universo sem dúvida complexo.
Bastinho é parte integrante desta história, estando na evidência ou nos bastidores, perdendo ou vencendo. Pelo que tudo indica, ao perder sempre preparava seu retorno e conseguia. Sabia, portanto, mais do que ninguém, manobrar as artes da política futebolística. E jamais se poderá pensar no encaminhamento do futebol alagoano sem passar por ele.  Estamos diante, portanto, de uma figura a ser tomada como exemplar. 
A minha grande aventura com o Bastinho faz muito tempo que aconteceu.  Saímos daqui para almoçar com o Pelé no Recife.  Eu não me lembro o que estava acontecendo no Recife e o almoço seria no Hotel São Domingos. Parece que eu estava com o Zé Lima. O restaurante estava cheio, mas o Pelé não foi; no entanto,  valeu a aventura
Vai lá Bastinho!