domingo, 3 de junho de 2012

[História do Futebol] Lautheney Perdigão. . DEPOIMENTO PARA A HISTÓRIA: Eduardo Bezerra Montenegro – Dudu







PERDIGÃO, Lautheney. DEPOIMENTO PARA A HISTÓRIA: Eduardo Bezerra Montenegro – Dudu. Tribuna Independente. Maceió, 03 jun 2012, Contexto. 

Um pequeno bilhete sobre futebol

Lauthenay Perdigão traz uma nova contribuição para a história do futebol alagoano, com este material sobre Dudu. Ele tem sido um colaborador incansável. Contexto agradece e ao mesmo tempo chama atenção para a importância do Museu dos Esportes.  Lauthenay é o responsável por um grande acervo de informações e material sobre nosso futebol;  merece ser elogiado e reconhecido por todos nós. Tudo se deve à sua determinação e disciplina ao longo de anos; ele jogou futebol, foi jornalista, radialista e um homem apaixonado por um Museu que criou e está aí, prestando serviços sem grandes ajudas do poder público ou da iniciativa privada. Contexto sente orgulho ao poder estar com ele vez em quando, trazendo  depoimentos que foram coletados sobre pessoas que marcaram nosso futebol.

Sávio de Almeida



Lautheney  (esquerda) e Dudu


DEPOIMENTO PARA A HISTÓRIA: Eduardo Bezerra Montenegro – Dudu 

Lautheney Perdigão         
                        

 Eduardo Bezerra Montenegro nasceu no dia 22 de setembro de 1924, na Rua Guedes Gondim, 224. Sendo o caçula da família, Dudu era diferente dos demais irmãos. Sua infância foi relativamente fácil, e quase sem nenhuma preocupação. Com isso, procurava se divertir o máximo possível. No seu tempo de garoto, nunca foi matriculado em qualquer Colégio. Assim, não fez nem o curso primário. Porém, não deixou de estudar. Seus pais o entregaram a um professor particular. Dudu nunca esqueceu o nome do seu bom mestre: professor Veras.

Foi na Rua Santa Maria que apareceu um futuro craque de bola. No começo ele era o dono da bola. Já aos sete anos, Dudu mostrava o seu espírito de liderança. Mandava no time e ficava de fora. O tempo foi passando e ele se apaixonou pela posição de goleiro. Sempre jogou no gol, posição que para Dudu era fácil, apesar da grande responsabilidade. Ele sabia que, para vencer como goleiro, precisava de habilidade e sorte. Aos dezessete anos de idade, Eduardo ingressava no Andaray, clube que disputava a segunda divisão do Campeonato Alagoano. Corria o ano de 1941 e Dudu era reserva do segundo time. Esperou pela grande oportunidade que não demorou. Um ano depois já era titular substituindo Tonho. Nesse mesmo ano, apareceu como a grata revelação da temporada. Os jogos do campeonato da segunda divisão eram  disputados no campo do Vergel do Lago que era famoso pelas muitas partidas disputadas e o número de torcedores presentes. O time do Andaray era muito bom e tinha em seu plantel jogadores como Mercí, Roberto, George, Nivaldo Yang Tay, Alziro e outros.

Em 1943, Dudu brigou com dirigentes do Andaray e se transferiu para o Oceano, clube que também disputava o Campeonato da segunda divisão. Era uma equipe de ponta na disputa do título da competição. A estréia do novo goleiro do Oceano foi exatamente contra o Andaray. Antes do jogo, seus antigos dirigentes fizeram a maior gozação afirmando que iam fazer um monte de gols naquele jogo. Dudu ficou furioso e prometeu dar o troco dentro do campo. Veio o esperado clássico, o Oceano venceu por 5x0 e Dudu fechou o gol da sua equipe. O Andaray não se conformou e pediu revanche. Nova derrota. Agora por 5x3 com seu novo goleiro fazendo defesas espetaculares e impressionando aos torcedores pelo seu estilo de jogo. Nesse mesmo ano, o Oceano disputou o Campeonato Alagoano da primeira divisão. Na estréia venceu o C omércio por 3x1 e Dudu continuava melhorando a cada jogo.


1946 - Ariston, Dudu, Miguel


No ano seguinte, houve uma fusão entre Oceano e Andaray. Dessa fusão nasceu o América Futebol Clube, agremiação que durante alguns anos foi à sensação dos Campeonatos que participou. A cor de sua camisa era branca e verde. Carlos Miranda, um conceituado médico e grande desportista, era o Presidente. Jorge Assunção, seu Diretor de Esportes. E foi no América que Dudu começou a ser mais notado por suas defesas elegantes, sua maneira sempre gentil de tratar a todos, fossem companheiros ou adversários. Com isso, ele passou a ser respeitado e admirado por todos. Em 1945, os americanos, que tinham em Dudu uma das grandes figuras da equipe, chegaram ao Vice-Campeonato depois de uma manobra dos bastidores deu o título para o Santa Cruz no jogo contra o Comércio, que entregou os pontos para o clube do  exército. Em 1946 foi um ano especial para Dudu. O América não foi bem, mas atrapalhou o CRB e garantiu o título para o Barroso depois de um empate com o Clube da Pajuçara em 1x1. O time americano era bom: Dudu. Crispim e Nivaldo Yang Tay. Toledo. George e Dirson. Fausto. Raul. Joãozinho. Ferreira e Zé Cruz.

 O prestígio do goleiro era tanto que, quando havia amistosos com equipes de outro Estado que vinha jogar em Maceió, Dudu era sempre chamado para reforçar as equipes alagoanas. Quando jogava pelo América, Dudu nunca teve muita sorte contra o time do Comércio equipe que disputava os campeonatos alagoanos. Em um desses jogos o goleiro foi atingido violentamente pelo atacante Cão e teve que deixar o campo com um profundo corte na cabeça. Depois, cenas lamentáveis aconteceram entre os jogadores dos dois times. O companheiros de Dudu reagiram à violência do atleta do Comércio. Fora do campo, o médico do América fez um curativo no ferimento do goleiro e el e voltou com a cabeça enfaixada.

Agüentou apenas poucos minutos em campo. Desmaiou e os americanos continuaram a partida com apenas dez jogadores. Poucas vezes em nosso Estado, um time teve um conjunto tão homogêneo quanto o do América. Fazia gosto jogar naquela equipe. Apesar da pouca experiência e da falta de sorte sobrava raça, vontade e amor pela camisa que vestia. Na sua maioria eram estudantes com vontade de brilhar no nosso futebol. Muitos jogadores surgiam como verdadeiras revelações.  O trio defensivo: Dudu. Nivaldo Yang Tay e Dirson era o ponto alto do time.

1946 / Entrando em campo contra os baianos


Como todo jogador, Eduardo tinha uma ambição em sua vida: jogar na Seleção da sua terra. Ele não era diferente dos outros e vibrou quando viu seu nome na lista para a Seleção de Franz Gaspar que disputaria o Campeonato Brasileiro. Além de Dudu, outros dois goleiros  foram convocados: Zé Binga e Humberto. O Campeonato Alagoano foi suspenso para que a Seleção começasse os seus treinamentos. Humberto se machucou e saiu da Seleção. No seu depoimento, Eduardo Bezerra Montenegro confirmou que esta foi um das mais bem preparadas Seleções de todos os tempos. O Presidente da Federação era Dr. Paulo Neto e o Diretor de Esportes, o professor Mário Broad. Houve mais de um mês de concentração no Quartel do 20º BC. Havia harmonia entre dirigentes e atletas. Apenas Baiano do Barroso e Barthô do CSA f oram desligados por indisciplina. O nosso personagem se destacava a cada treino e jogo amistoso. Zé Binga também atuava muito bem.

 O treinador Franz Gaspar preferiu colocar Dudu como titular no primeiro jogo contra os sergipanos, jogo este que perdemos por 2x1. Mesmo assim, Dudu e o sergipano Cacetão foram as grandes figuras do jogo. O segundo jogo em Maceió foi ganho pelos alagoanos por 1x0 nos noventa minutos e por 1x0 na prorrogação. Classificados, saímos para enfrentar os baianos em dois jogos em Salvador. Dudu com faringite ficou mais uma vez de fora. Dr. Paulo Neto chegou a internar o goleiro tentando recuperá-lo, mas não foi possível. Perdemos de 5x2 com o goleiro Zé Binga sem culpa nos gols. No segundo jogo, no Estádio da Graça, perdemos de 1x0. Dudu voltou ao time titular e, segundo a imprensa baiana, foi a maior figura da partida. Foi, talvez, a maior atuação do goleiro alagoano em sua carreira de atleta. Depois do jogo Bahia e Vitória se interess aram pelo concurso do Dudu. Alguns dirigentes estiveram no Hotel Meridional para conversar com o goleiro que preferiu ficar em Maceió. Aqui estavam sua família, seu emprego e seus amigos. Dudu sempre lembrava com saudade daquela seleção. Havia união e uma amizade que continuou mesmo depois que os alagoanos perderam para os baianos. Ele cita nominalmente os jogadores: Alziro, Miguel Rosas, Ariston, Castelar, Nezinho, Fausto, Bequinho, Zé Maria, Oscarzinho, Fumaça, Zé Binga, Poty, Baiano e Nivaldo Yang Tay.

Em 1947, o Américo não disputou o Campeonato e Dudu foi para o CRB. Não teve sorte. Adoeceu logo depois de disputar os primeiros jogos e foi obrigado a ficar fora das quatro linhas por muito tempo. A fim de se tratar foi para o Rio de Janeiro onde foi submetido a longo tratamento. Completamente recuperado, retornou a Maceió um pouco gordo e fora de atividade esportiva há muito tempo. No ano seguinte, o Américo voltou a disputar o Campeonato e Dudu retornou aos gramados para defender seu querido clube alviverde que foi campeão do torneio, jogando com: Dudu. Crispim e Nivaldo Yang Tay. Fontino. Zoró e Ivon Cordeiro. Hélio Lobo. Louro. Adávio. Torres e Lenine. A sorte não estava do seu lado. Logo nos primeiros jogos fraturou os menisculos e resolveu desistir do futebol. Ficou apenas disputando o voleib ol pelo Flamengo , clube que ajudou a fundar na Praça Deodoro. Somente em 1950 é que Dudu se encheu de coragem e foi se operar no Recife com Dr. Barros Lima. Dois anos depois por insistência do Dr. Alfredo Ramiro Bastos foi defender o CSA. Disputou o primeiro turno do Campeonato e perdeu apenas uma partida para o Alexandria. Achava que não estava no melhor de sua forma. No período parado, engordou e achou que era o momento de largar o futebol. Nesse ano, o CSA foi Campeão e o time do primeiro turno formou com: Dudu. Bem e Mogi. Oscarzinho. Zanélio e Neu. Cão. Biu Cabecinha. Dida. Edgar e Dengoso.

América


Apesar de não querer jogar mais, sua carreira foi encerrada com uma grande decepção. Ainda vinculado ao CSA, Dudu foi convidado pelos dirigentes do Esporte Clube Alagoas para participar de um amistoso contra o Santa Cruz de Recife. Ele não aceitou, porque sabia que estava fora de forma. Os dirigentes tricolores insistiram e, para colaborar com os amigos, Dudu aceitou. Du du foi o goleiro do Esporte Clube Alagoas naquele amistoso. Quando o Santa Cruz fez dois gols, ele foi substituído por Pirilo. Decepcionado e achando que foi injustiçado, parou de verdade. Dudu sempre foi amador. Nunca assinou contrato com nenhum clube.

Deixando as quatro linhas do granado Dudu continuou trabalhando no futebol. Começou treinando equipes juvenis. Como havia feito com o juvenil do América, quando foi campeão em 1947, passou a orientar a equipe do Deodoro. Foi nessa equipe da Praça Deodoro que Dudu revelou jogadores que logo defenderam grandes clubes alagoanos e até a nossa Seleção. Atletas como Zé Luiz, Boleado, Bá, Lula Monstrinho e outros que se destacaram, mas preferiram os estudos. Quando treinou o Ouricuri, time da Usina do mesmo nome, o clube fez uma boa campanha no Campeonato Alagoano de 1959. Depois aceitou ser técnico do CSA. Organizou o departamento técnico do clube. Melhorou os vestiários azulinos dando higiene e limpeza àquele lugar. Armou  uma boa equipe que chegou a ser Campeão Alagoano de fato em 1960. Entretanto, o CSA perdeu o título nos tribunais esportivos. Apesar dos esforços e tudo que fez pelo clube, os dirigentes começaram a interferir no seu trabalho que era vitorioso. Decepcionado, resolveu se afastar de tudo. Na sua despedida, chegou a se emocionar junto com seus comandados.

Em 1963 foi para o Estivadores que era uma das grandes equipes do nosso futebol. Um plantel com jogadores contratados no futebol pernambucano como Arcanjo, Barbosa, Bibiu, Maurício e Canhoteiro. Apesar do bom time, o clube não tinha campo para treinar, em compensação tinha problemas financeiros e má vontade de alguns jogadores. Canhoteiro queria mandar e escalar o time. Com tantos problemas, mais uma vez Dudu resolve parar. Como técnico de profissionais, sentiu na pele a força maligna da ingratidão, da falta de reconhecimento e do desamor ao esporte. E ele que pensava que o esporte servia apenas para fazer amigos.  Deixou tudo. Tinha que cuidar de seus afazeres como bancário. Era no Banco Econômico da Bahia onde ele ganhava o dinheiro para sustentar sua família. Para todos aqueles que conheceram Dudu, são unânimes em afirmar que foi um grande goleiro, disciplinado e, acima de tudo, honesto com seus dirigentes, companheiros e adversários.

Edu em 1952

 Eduardo Bezerra Montenegro, o Dudu, se destacou no esporte alagoano não somente pelas grandes qualidades de verdadeiro craque, como também pelo cavalheirismo, disciplina, honestidade e lealdade. Era um verdadeiro gentleman. Profundo conhecedor das coisas do futebol, logo cedo começou a treinar equipes de juvenis. Sua dedicação, sua vontade de acertar e seu entusiasmo pelas coisas do esporte, faziam com que seus comandados criassem amor pela camisa que vestiam. A estrela que brilhou para Dudu como goleiro, nunca acendeu como treinador. Quando treinava suas equipes de juvenil se transformava em um verdadeiro paizão. Até problemas financeiros e de doença na família de seus atletas ele procurava resolver junto a seus amigos.

Dudu jogou numa época do futebol autêntico, sem influência das bolinhas, sem interesses financeiros e com muito amor à camisa que vestia. Por ter sido um puro de espírito e de coração. Por ser um verdadeiro desportista. Por sua dedicação ao desporto alagoano, de sua terra e de sua gente, o Governador Divaldo Suruagy lhe dedicou o título de Comendador do Esporte de Alagoas. Para Dudu, tal distinção o envolveu numa auréola de orgulho e o fez tornar a crer, que o esporte, realmente, é um  meio para fazer amigos e que dentro dele, apesar dos pesares, ainda existe desportistas autênticos e leais, exclusivamente por causa deles, os desportos ainda subsistem.

Trazendo no sangue, de berço, o amor aos desportos, Eduardo, ao abandonar o futebol, partiu para um sonho que até então parecia irrealizável: levantar o amadorismo em Alagoas. E de sua grande amizade com inúmeras personalidades do desporto alagoano da época, conseguiu fundar o Flamengo Esporte Clube, tradicional agremiação da famosa Praça Deodoro, clube que já nasceu Campeão no vôlei, basquete e futebol de salão. E dentro de suas raízes estritamente amadoristas, Dudu se entusiasmou na posição de atleta, conseguindo se transformar em um dos melhores cortadores do voleibol. E o Flamengo se tornou uma legenda de sucessos e glórias, arrastando sempre um numeroso público aos seus jogos e elevando o amadorismo a alturas nunca antes atingidas. Aqueles mais velhos lembram de Dudu atuando como “corta dor” da equipe de voleibol do Flamengo. E tudo começou com a quadra sendo marcada na calçada da Praia da Avenida que ficava defronte onde hoje é a sede do clube Fênix Alagoana. Dudu era um daqueles que preparavam a quadra para os jogos.

Flamengo em 1951

Eduardo Bezerra Montenegro, dito assim, esse nome pode nada significar para a juventude de hoje que acompanha o futebol. Mas a verdade é que, o dono desse nome em época distante, já foi um dos maiores ídolos da história do futebol em Alagoas.

Dudu aponta Miguel Rosas como o maior jogador que viu atuar. Afirma que o zagueiro foi um extraordinário craque de bola. Na seleção de 1946 o nosso goleiro jogou ao lado do mestre Miguel. Era uma tranqüilidade para todos seus companheiros de equipe. E foi nesse mesmo ano que Dudu conheceu aquele que pode se classificado como seu melhor treinador: o húngaro Franz Gaspar. Era o técnico do CRB e comandou a melhor seleção alagoana de todos os tempos. Apesar de ter um bom plantel e dificuldade de se comunicar com seus atletas Franz Gaspar sabia como comandar. Dudu aprendeu muito com ele e quando foi trabalhar como técnico se utilizou do aprendizado que colheu no tempo da seleção de 1946. No setor da arbitragem aponta Agustim Farrapeira como um bom arbitro. Também tinha Waldomiro Brêda. Eram árbitros qu e a grande maioria dos dirigentes e jogadores confiavam. Para escalar os melhores jogadores que viu atuar Dudu teve dificuldade. Cada craque tem sua época, seu momento. Com a nossa insistência resolveu fazer a sua seleção: Bandeira, Ariston e Miguel Rosas. Poty. George e Tomires. Milton Mongôlo. Bequinho. Dida. Oscarzinho e Fumaça. 

E em um sábado de carnaval quando muitos já estavam se divertindo, caindo na farra por conta da folia carnavalesca, nós ficamos em casa cuidando de atualizar nossos arquivos. E foi assim que recebemos a triste notícia do falecimento do meu amigo Dudu. Com o impacto da informação, parece que sentimos os tamborins pararem de tocar, as vozes dos cantores se calarem, os foliões fazerem um minuto de silêncio para homenagear Eduardo Bezerra Montenegro. Meu pai sempre me dizia: “Fazer amizade é fácil. O difícil é saber mantê-la”. Nossa amizade com Dudu durou mais de quarenta anos. Com ele aprendi muito. Ensinamentos no esporte e na vida. Com ele conheci os caminhos corretos para viver com dignidade. Ele me mostrou que as grandes amizades são os maiores tesouros que temos em nossas vidas. Mais vale um a grande amizade do que dinheiro no Banco, dizia Dudu. Infelizmente, a morte não tem hora para chegar. É uma dor sem remédio. Fica apenas a saudade e a eterna lembrança de uma figura querida por todos.




[Religião: Protestantiismo] Luiz Sávio de Almeida. Protestantismo em Alagoas: a intermediação cristã







Um bilhete sobre um missionário metodista nas Alagoas

          Ainda não chegamos diretamente em Kidder, mas chegaremos. Esperamos que as notas sejam úteis para fomentar a necessidade de ser discutida uma história protestante nas Alagoas. Das que publicamos, como já dissemos, constam textos de um diário que mantemos e onde se encontram parágrafos esparsos sobre o protestantismo em Alagoas.
Sávio de Almeida



 Protestantismo em  Alagoas: a intermediação cristã

Luiz Sávio de Almeida

COMEÇANDO A CONVERSA

      Jamais a sagração de um homem deixa de conferir-lhe poder; tem poder o padre e tem a sua contrapartida de beata; tem poder o pastor e todos os que o rodeiam e saem da massa dos fieis. O senso do pastor é exatamente solenizado com sua estrutura de acólitos, como tem o babalorixá, yalorixá ou pajé.  É como se o chamado sacerdócio necessitasse de uma espécie de entronização de corte, na medida em que se dá a  situação do pastoreando, babalorixando, padreando, freiolando, yalorixando, verbos especiais e ligados ao modo religioso na estrutura cultural. Mal comparando, poder-se-ia pensar numa espécie de sociedade de côrte ou pelo menos de seu mundo de cortejo.
 É como se o teatral litúrgico se projetasse numa eterna solenização com seus temas e tramas ligados ao cotidiano das igrejas; claro que o missionário, aquele que trazia notícias de um novo mundo, estava cercado e buscava a consolidação da  vida de um grupo. Socialmente, ele era o homem da grande pregação, aquele que conhecia os caminhos  e veredas, evidência das sendas a levarem a Deus, sempre certos de que faziam parte de uma verdade que lhes fora reservada, na medida em que foi construída a ideia de suas próprias salvações.  Na vinda protestante, como já frisamos anteriormente, estava sendo pregado um novo modo de ir à salvação, de romper com a velha ideia de uma igreja assentada nas marcas coloniais.
Deve ter acontecido uma imensa amarração entre o poder e o missionário. E daí se começa a institucionalização e um mando, que muitos não desejam ver. Não é uma subordinação de mero cunho econômico, como se o dinheiro estivesse corrompendo as consciências: o ajuste era bem mais largo e mais profundo pois ele era quem sabia o modo de ser crente e deve ter havido um grande desconforto cultural entre o que se encontravam no rumo do ser salvo e aqueles infernizados pelas práticas anti-cristãs. A salvação católica era solenizada de uma forma complexa, a salvação protestante de modo simples, mais direto.

A SUBSTITUIÇÃO

      No pensamento popular, devemos recordar o poder dado ao sacerdote católico. Como exemplo,  não importa se era acreditado ou não, mas se o padre não encontrasse a Aleluia, o mundo se acabava. Ouvi isso muitas vezes, quando era menino, ao lado de um deboche que ultrapassava as Trevas, com  a malhação de Judas e de um pequeno dito que  ouvi repetido: Aleluia, aleluia, a comida no prato e a farinha na cuia!. Era a Aleluia rompendo a Treva, recompondo o ciclo litúrgico e do cotidiano que se voltava para o prosaico da cuia.
No mínimo, o saber de onde estava a Aleluia, dava ao padre uma intimidade com os  mistérios: ele sabia onde estava a vida  do mundo. Não seria fácil substituir por um  pastor, de uma hora para outra  rearrumar o sagrado e nem de esperar uma passagem significativa de sacerdotes católicos para a nova ordem. As passagens sempre seriam tomadas como marcos emblemáticos de vitória. O sagrado tinha seu lastro nas Alagoas profundas, codificando o comportamento do vigário colado e do encomendado, e de toda a legião de instrumentos associativos e de controle movidos pela  Igreja Católica.
Um padre era um trunfo ao fazer o que se chamaria de apostasia.  É o  caso de Antônio Teixeira de Albuquerque – no âmbito batista – ,  bem como o de José Manuel da Conceição, no campo presbiteriano. Pelas informações de Oliveira (2003), Antônio Teixeira de Albuquerque casou no Recife em 1878;  Rockwell     sendo oficiante.  Este John  Rockwell Smith  – presbiteriano – parece iniciar a  saga missionária  em Alagoas,  tendo sofrido vexames  pelos lados da Rua do Comércio em 1874, conforme se lê em Geier (2008).  O Antônio Teixeira de Albuquerque  transfere-se  para o Rio de Janeiro (Igreja Metodista do Catete)  no ano de 1879;   em 1880 vai para Piracicaba e será  batizado, ingressando na Igreja Batista.  Dois anos após, estará fundando a 1º Igreja de Salvador, de acordo  com Silva e Silva (2008). Ele desenvolverá um trabalho essencial para os batistas, conforme avaliação de Silva (1999), em interessante texto sobre o protestantismo no contexto afro-brasileiro de Salvador. Antônio Teixeira de Albuquerque era alagoano e nascido em 1840 em Maceió, tendo falecido em 1887. O ex-padre (circa 1884) escreveu um texto intitulado Três razões por que deixei a Igreja de Roma.


OS  CAMINHOS MISSIONÁRIOS


      O fato é que pelos finais do Século XIX, as principais  denominações estarão instaladas no Brasil conforme referem  Gouveia e Mendonça (2008). Instaladas, no caso, é um termo forçado; já havia sido penetrada a brecha no controle do catolicismo sobre o estado ou do estado sobre o catolicismo, coisas diferentes, mas faces da mesma moeda. A maioria dos trabalhos que li, tende a não lidar bem – claro que a meu ver  –  com a questão histórica denominacional, e, por esta razão,  o contexto do cotidiano é esmaecido. Os grandes lances políticos são atrativos para os que buscam a discussão do poder, enquanto que os confessionais deslocam a história para a salvação. 
Houve uma severa polêmica para que se desse o trabalho missionário na América Latina em geral e no Brazil em particular. A primeira experiência teria sido na Patagônia, década de trinta do século XIX.  O que estava em jogo eram as missões para África e Ásia, mundo de ausência de uma tradição cristã. Posteriormente é que vai ser aceita uma área do mundo que estava esquecida como palco de salvação e é justamente aí, que reside a natureza do choque que se estabelece com o confronto que vai acontecer. O processo seria diferente da celeridade de penetração protestante na Europa, pois as circunstâncias sociais, econômicas e políticas eram outras. Enquanto o protestantismo debatia-se na Europa, houve a paz católica nas colônias, habilitando ingressar na complexidade entre infraestrutura e cultura, de uma forma diferente do caminho ideológico e político que se deu na área européia.

A VIRULÊNCIA

Em uma análise realizada em 1842, Balmes via o caminho do confronto europeu, a capacidade de resistência e de incremento protestante, levando-nos a passar pela estruturação do capitalismo; a história da estruturação deste capitalismo na Europa e nas colônias é diferente e, novamente, tem-se as grande condicionantes presentes no sistema. Dentre elas, a conhecida tese da interligação entre variabilidade e erro. Acontece, contudo, que as diferenças denominacionais (a variação) jamais pesariam efetivamente no jogo político, pois oficialmente e no jogo do profundo nacional sempre em construção, as variações efetivamente não existiam pois estamos diante do monocórdico católico.  Havia uma unidade a ser combatida, tanto no espaço teológico formal quanto no informal.
O nível europeu de controvérsia chegava a passar por extrema virulência na escrita, como a adotada, por exemplo, na França por Seguir (1862), intitulado “Prelado Romano e Canónigo del Capítulo Imperial de S. Dionísio”.  E é interessante o tom que utiliza para falar das virtudes de sua obra, quase como se fosse daquelas correntes que costumavam circular: aconteceu tal coisa na Venezuela, tal coisa com a mulher de Putifar... Dava-se a necessidade de demonstrar a importância de seu texto mais pelos resultados que promulgava,  do que pela discussão dos argumentos. Na verdade as razões se repetem ao longo da bibliografia. A Igreja se colocava como agredida e em defesa, o que a livrava para um sem fim de perseguições, enquanto o protestantismo se posicionava por um ataque permanente mas em campo minado. Esta era a natureza da porfia e no caso alagoano, ela deve ter começado incipientemente com os primeiros ingleses e depois ter ganho em vulto, devagar

RAÍZES PROTESTANTES

      È difícil querer radicar o protestantismo brasileiro, no sentido de assentar suas raízes nas invasões colonial e mercantil dos franceses e holandeses.  Nem mesmo seria de rigor pensar nos bolsões evangélicos provocados com a importação da mão de obra e colonização agrícola; ele se instala em um estagio do capital na atualização das estruturas do Império que começam seus fundamentos nos anos 50 do século XIX e, acontece de fato, quando o termo missão assume relevo, procurando fundar sistematicamente o processo de quebra da hegemonia católica e este processo vai acontecer em torno de 130 anos, quando varia a própria composição política brasileira, talvez sendo nos impasses entre a Igreja Católica e os Militares que se abra o maior espaço para o protestantismo junto ao poder na década de sessenta.  São raro os momentos de confronto deles com os protestante e mais raros ainda na medida em que trabalha no nível das instituições.

INFORMES SOBRE ALAGOAS

      Neste contexto,  Alagoas será atingida no século XIX, mas o registro é  extremamente parco e de difícil acesso. Possivelmente são os batistas, aqueles que realizaram maiores esforços no sentido de construir uma história, mas há de se convir que são eleições pessoais, são casos esporádicos e ao longo de existência do protestantismo em Alagoas não se formou um interesse efetivo de grupo na produção intelectual sobre o processo que se viveu em Alagoas.  Há o que se pode chamar de antiguidade evangélica em Alagoas; por exemplo,  os presbiterianos estariam com igrejas em 1887, tanto em Maceió quanto em Pão de Açúcar, ambas fundadas por John Rockwel Smith e José Primênio, segundo material do Instituto Presbiteriano Mackenzie. 
Estamos com mais de um século e pouco ou quase nada é discutido.  Existe,  em trabalhos que li e alguns sobre Alagoas, o que entendi como um problema: a carga da herança missionária e os informes circulando em circuito que pode chegar ao viés de uma história personalizante. Claro que não se pode anular a igreja missionarizada,  mas o extremo consiste em fundar  uma regra-de-três histórica e que termina por retirar a efetiva representatividade do local;  afinal de contas, tanto ou mais do que o bode estrangeiro sofria o bode local na edificação de sua Igreja.
  É claro que a figura missionária  é  chave,  mas centrá-la pode tender  a deslocar  o eixo do sujeito histórico que é a congregação ou a comunidade de fé;  aquilo que fundamenta a idéia de Igreja é a existência  de comunidade, pessoas que se repartem gerando aquilo que é comum. Não assumindo desta forma o processo, jamais o historiador poderá chegar aos fundamentos do cotidiano, e jamais se encontrará o verdadeiro sujeito do processo. Sem isto desaparece a possibilidade de uma história, pois some o povo que se fez evangélico. Onde a figura do missionário é fundamental, está no grande jogo político armado.
De fato, haveria a necessidade tática de aproximação ao poder de mando e ocorre  a entrada protestante, a nosso ver,  no  aproximar-se do jogo do mando imperial e avantajar-se no  jogo do  mando do poder local, onde efetivamente se daria o cotidiano ou a presença na sociedade do protestantismo. Eram formas de poder ligadas às estruturas de mando, que teriam significações táticas absolutamente diferentes.  No que tange ao imperial, havia a possibilidade de articulação com conservadores e liberais. Entenda-se que a expressão americano transforma em homogênea uma situação heterogênea chamada Estados Unidos da América, especialmente quando se aplica àquela época quando o país vai marchando, inexoravelmente, para a divisão entre norte e sul, o que atinge suas igrejas; em grande parte  nós estamos diante de uma vinda sulista, no que veja-se o destino, podem ter pesado as  noticias sobre Alagoas, justamente a partir de Kidder. Sem dúvida o livro de Kiddder circulava também pelo sul, conforme se pode ler em Carl A. Youngblood em seu ensaio cujo título é sugestivo:  Sonhos do Exílio: Confederados Norte Americanos no Brasil. O texto era conhecido no sul dos Estados Unidos e talvez tenha ajudado a pensar a reconstrução de um mundo nos trópicos. O escravismo brasileiro não seria afrontado. 
Estamos diante de um contexto confederado a buscar uma forma de reproduzir-se, agora, vendo o espaço  tropical, inclusive, pelo Império ter sido ligado aos confederados. Escreve Adamovicz em seu  texto de doutoramento baseando-se em Dawnsey (2008: 48)  cujo livro sobre a imigração foi publicado em 1995 no Alabama: “Após a derrota dos Confederados, [...] um grande número de americanos sulistas descontentes [...] decidiu deixar os Estados Unidos. O governo brasileiro que havia sido aliado dos Confederados [...]...”  Jamais estaríamos dizendo, contudo,  que vieram com a intrínseca e exclusiva finalidade de reproduzir  o modelo sulista, a sociedade da plantation feita em torno de Deus, como se dava na plantation brasileira catolicamente administrada.
O que não se pode negar  são as possibilidades de afinação entre o algodão sulista (que sofreu com a guerra), a posição do Império ao lado Confederado, a necessidade da economia imperial solver seus problemas de fluxo de força-de-trabalho,  implementando a colonização estrangeira e encontrando a evidência religiosa, por exemplo, de uma pobreza européia que, salvo a italiana, não seria obrigatoriamente católica. A religião de estado teria que transigir com o processo de geração de renda.  E esta era uma brecha.
 Aliás, continuando a ligação com momentos políticos e econômicos, convém considerar a vinda de D. João VI e as conseqüências da chamada  abertura dos portos e com isso, imediatamente, estamos diante da Igreja Anglicana. As brechas permitiam o estabelecimento de cunhas, mas não a institucionalização. A Constituição gerava duas situações: a pública com templos e a privada. O estado ficava católico e a casa poderia ser protestante.  A institucionalização protestante vai passar pela busca do espaço público, por fazer-se evidente, mas isto não se distanciaria dos momentos básicos da formação histórica brasileira que estariam na escravidão e no capitalismo, elementos contextuais fundamentais.
Há de se ver os problemas batista nos Estados Unidos em 1845, os problemas metodistas  em 1844. Nota-se como as igrejas não  podem ser afastadas das vicissitudes históricas, justamente pelo fato de serem comunidades e a vida-de-fora não se isola da vida-de-dentro. Um indivíduo não é calvinista por ser comerciante e nem é comerciante por ser calvinista, mas  jamais este mesmo indivíduo ao ser um acontecimento  deixaria de ser um calvinista-comerciante e um comerciante-calvinista e estas duas condições podem   estar plenamente em tensão,    daí  cindir-se a Igreja. A mesma cisão parece que vai acontecer na Igreja Presbiteriana no ano de 1857. Há uma revisão do encontro entre abolição e protestantismo no Brasil  escrita em  Andrade (2002) que informa sobre este andamento.
 A vinda de americanos do sul não demarca uma igreja necessaramente  escravista e até se darão encontros abolicionistas. A mesma Andrade afirma que 1884 será um ano de evidente inflexão, mencionando matérias em o Novo Mundo e Imprensa Evangélica de caráter plenamente anti-escravista. Ela cita Boanerges recordando o pastor presbiteriano Eduardo Carlos Pereira e a série de artigos por ele escritos contra o instituto da escravidão.  É ainda Andrade quem menciona um dado importante: ideologicamente havia a proposta  que ligava atraso à escravidão e, então, de certo  modo, amenizamos a afirmativa,  os protestantes  estariam em condição de se argumentarem como representantes da mudança. 
Como se nota, a existência de um campo religioso no sentido de Bourdieu  demanda a contextualização do sagrado ou, como na construção do espaço no sentido de Milton Santos,  incide o histórico do sagrado. Neste campo, sem dúvida, lida-se com  a legitimidade e, portanto, com  a legitimação;   ou, propondo a questão de outra forma,  com o processo de tornar-se e ser legítimo.  Deste modo, não é possível que este processo  deixe de implicar numa negociação constante de fatores de legitimidade e ela se dá na rede das relações sociais e nas redes do poder: formalizado ou não.
Os passos vão sendo dados aos poucos, aproveitando-se até momentos maçônicos, sem que acontecesse qualquer pacto conhecido; a forma da prevalência católica por via do estado era o que unia uma forma de contraposição no sagrado, onde vai juntar-se  o espiritismo.  Ainda na junção, note-se que a hierarquia católica passa a nutrir expectativas  quando  a vinda dos confederados –  ameaça – , ao seguirmos os informes e comentários de Rodrigues (2008).  O fato é que se havia uma derivação conservadora, acontecia também uma derivação liberal e aí aparece a associação entre Tavares Bastos e Flechter e, possivelmente, o espírito do próprio Imprensa Evangélica.
Esta relação com a estrutura da sociedade leva Santos (2008) – em seu doutoramento – a propor que, ao estudar a inserção do protestantismo em Pernambuco, demonstra-se a existência de luta ideológica e não confessional.  Sua tese é que não se tinha a questão confessional como a base, mas o modo de ver a organização da sociedade e, aí, todo um universo de construção do social e de produção ideológica se pronuncia.  Evidentemente, jamais o ideológico poderia estar ausente e é impossível separar o mundo confessional do ideológico; são formas interligadas e acontecimentos integrados.

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[Religião: Protestantismo] Luiz Sávio de Almeida.O protestantismo: minhas lembranças e o discurso sobre as almas.




_________________________________________________________________________________ALMEIDA, Luiz Sávio de.  O protestantismo: minhas lembranças e o discurso sobre as almas. Tribuna Independente. Maceió,  20 Mai. 2012. Contexto. 
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Um bilhete sobre católicos e protestantes na construção das  Alagoas

Continuamos as notas sobre o protestantismo. Há um jogo inevitável entre a memória e a leitura,  no caso destes artigos; somamos anotações de um diário, com anotações de leituras. Desejo oferecer o pequeno texto, ao saudoso Aurélio Viana cujo papel na vida política alagoana não foi ainda trabalhado; ofereço também à Igreja Batista do Pinheiro que pode ou não concordar com as coisas que digo, mas na certa respeitará como respeita a todos; aos meus colegas dos tempos do Colégio XV de Novembro em Garanhuns, época em que estive um tanto quanto semi-presbiterianizado.

Sávio de Almeida




O protestantismo: minhas lembranças e o discurso sobre as almas

LUIZ SÁVIO DE ALMEIDA



Quando criança tive dois encontros com o protestantismo. O primeiro falava de minha avó na Capela, gente do Apostolado da Oração e que abrigava,  em sua casa,  crentes que estavam sendo apupados e perseguidos mesmo. Dondon não admitiu em frente da sua residência, que se violentassem pregadores batistas e  foram abrigados e espalhados os “linchadores”, conforme história que  circula em nossa copiosa  crônica familiar.

Tomando a Capela como motivo, é possível dizer da universalidade da perseguição articulada por autoridades paroquialescas e pelo pacto de dominação. Imagine-se o que seria todo este processo do ponto de vista da psicologia popular! Afinal de contas, quem iria aceitar a ineficiência de seus anos de preparo para a salvação? Todo um caminho para chegar ao Reino de Deus estava jogado fora. E, na verdade, surgiam, neste contexto,  sujeitos tidos como impertinentes, caboclos levantando para contestar potentados, mais uma demonstração do caráter inovador do ingresso protestante. Isto poderia ser considerado como rebelião,  pois o povo estaria sendo tentado a  prescindir da parafernália suntuosa católica, presente, por exemplo, na performance dos irmãos de opa, da morte visitada com cruz alçada, nas libras de velas derramadas e por ai seguiriam os ritos e rituais populares ou oficiais do catolicismo, dando conta da vida depois da morte.

Quem é esse caboclo para ficar afirmando de que tudo era engodo e que jamais –  por aquele meu modo usual de brigar com o diabo no meu caminho para Deus – , seria impossível  colocar os pés no paraíso?  Era possível sentir um “Você sabe com quem está falando?” Um caboclo afrontando o sagrado ao dizer que santos somos nós?  Havia uma subversão no ator religioso e na sua fala; no seu conjunto, a religião protestante acaboclava nas Alagoas as veredas da salvação,  apesar das origens branca.  É de parecer um paradoxo: a origem branca acaboclando. É a subversão que o protestantismo sai perdendo ao longo do tempo na sua vivência junto ao nosso agrarismo ou quem sabe, uma subversão com fortes limites e teve de render-se ao sistema? Belo ponto a ser discutido.

 O acaboclar estava representando a dessacralização imediata do mando político que resguardava a fundamentação católica; o sagrado escapava da mão sacerdotal da hierarquia na  relação religiosa com o agrarismo e se fazia até mesmo por gente de ponta de rua,  gente longe do quadrilátero do território urbano do poder onde sempre estaria a Matriz tendente a ser monumental. E mais, era uma pregação cabocla que estava aqui e ali, multiplicando pontos territoriais de contato na luta pela conquista, nesta espécie de guerrilha das salvações.

Isto incomodava severamente ao agrarismo, calcado na sua base de poder local. Dondon – a minha avó –  apesar da sua proveniência da ”nobreza” capelense, por tropeços de vida era pobre e demonstrava, por outro lado,  que o agrarismo tinha brechas a serem forçadas. É neste sentido que sua história foi chamada pelo texto desta anotação em nosso  diário. Quantas famílias viram e sentiram situações semelhantes? Inúmeras? Ainda se pode ter copiosa referência de perseguições aos bodes, amainadas  na década de sessenta.  Uma aluna minha, levantou casos dentro de sua igreja e eram inúmeros. Li e admirei seu trabalhop. Não sei que destino o material tomou. Eu havia aconselhado a traçar uma relação entre o que estava acontecendo de perseguição, enquanto as histórias pessoais de salvação aconteciam. A aluna era de primeira linha, sempre apostei no seu futuro;  lembro dela, mas o plano não foi adiante. Caso eu não esteja enganado, ela pertencia à Assembleia de Deus. Faz tempo.

A CRENTE NA PORTA DA MINHA CASA

Uma segunda anotação em diário, refere-se à  Penedo. Procuro por minha mãe e ela estava conversando na calçada. Era com uma senhora, baixa, morena clara, cabelo comprido; a imagem eu guardei.  Nada entendi da conversa. Perguntei quem era: “É uma crente, meu filho. Ela não acredita em santo e nem em Nossa Senhora”. E minha mãe arrematou: “Ela diz que santos somos todos nós!”. Para quem havia terminado de fazer  a primeira comunhão, estava ali a essência de um pecado mortal pois agredia à fé católica até o último fio de cabelo.  Era uma sensação que passaria por qualquer um, a quebra de toda uma patronagem celebrada com oragos e protetores, dentre eles o anjo da guarda, “meu zeloso protetor que a ti me confiou a piedade divina” e que deveria me guardar e iluminar.

O próprio cotidiano do protestantismo atingia e colocava o sistema em salvaguarda, era no público que ele pisava ao estar nas ruas de Capela e do Penedo, resignificando a passagem dos tempos de vida naqueles urbanos. Um acinte: desestruturava uma hagiologia e uma Senhora que tinha um mês de devoção evidente,  o Mês de Maria onde se passava confirmando a Cova da Iria. No fundo, a conversa era simples e ela dizia à minha mãe: “Moça, o que você aprendeu está tudo errado1.  O que vale, Dona Maria, seu exército de frades, padres, monges,  freiras, irmandades?”. Absolutamente nada: negava-se, portanto, a base do sagrado de toda uma formação histórica e isto era subversão, deixava todo o poder de orelha em pé.

É bode quem tem bigode

Minha terceira experiência foi mais profunda; fui durante três anos  aluno interno de um colégio presbiteriano. Entre ser interno no Diocesano ou no Quinze de Novembro, ambos em Garanhus, meus pais não hesitaram e embarquei de mala e cuia para o Quinze. Ali tive convivência constante com missionários americanos e candidatos ao Ministério. A idéia de uma pedagogia avançada e trabalhada pelos presbiterianos cai por terra, mas esta é outra história; muitos do que escrevem sobre a educação deveriam consultar o por baixo do processo pedagógico, quase no viés  thompsiano das falas vindas por uma “history from bellow”, este lugar social tão dificilmente palmilhado. As gentes do Bellow são normalmente trocadas por gentes de cima.  Deixando a sociologia ou história da educação de lado, nesta anotação o que importa é a ligação do que vivi e a rede de relações naquele internato, uma composição a bem dizer impossível de escola laica e confessional ao mesmo tempo, funcionando como espécie de seminário menor, com os Candidatos convivendo conosco.

Tocava a campa, com pouco mais vinha o banho e o café quando então orávamos, sempre com um Candidato ao Ministério falando, treinando a interlocução com Deus. Para que se entenda esta pedagogia avançada, cada mesa de refeitório tinha seu próprio Censor, cada quarto tinha seu Censor e todos os censores dos quais me lembro eram  Candidatos ao Ministério, em primeiro treinamento para ser pastor. Interessante ter um sacerdote se iniciando na posição de Censor, mas deixemos a tal pedagogia moderna em suspenso, matéria de um trabalho especial que comecei a escrever como se fosse apontamento para uma tese de doutorado,  quando estava na Michigan State University para uma disciplina chamada “A terceira cultura”.

Dez horas da manhã, um pequeno culto com todo o XV de Novembro reunido, oração, fala de missionário, esposa de missionário a tocar piano e vamos ao hinário, aos coros, corinhos e hinos: O nome do Senhor deve ser exaltado.  Em tal rotina de cânticos e orações, terminei por praticamente decorar o hinário e aprendia, sem saber, muitas melodias brancas dos Estados Unidos, daquelas dolentes e solitárias nas pradarias dos filmes de cowboy. Eram hinos e músicas que jamais passariam pelos tons e harmonias de nossa cultura. O protestantismo litúrgico era exótico. Era preciso trazer para aqui, os fatos da América; lá sim, estava criado um mundo encantado de enlevamento litúrgico e deveria ser posto na terra brasileira, cujo baticum estaria empestado do som afro-pecaminoso,  indígena-tupan e branco-chapa-católico.

Vez em quando pintava uma reunião social, quando se juntavam  o internato masculino e o feminino, além de alguns convidados.  E se dançava a  carrocinha pegou três cachorros de uma vez... Por uma espécie de deboche das probabilidades, esta música foi gravada pelo Carequinha e espantei-me quando a ouvi, pois ficou fincada no substrato religioso de minha cabeça; outra,  era a história do chapéu com três bicos. Depois que passei a ver musicais americanos e a prestar mais atenção ao que ocorria,  eu estava country e no mais bizarro estilo da branquitude americana, numa superposição do wasp ao meu acaboclamento: white, anglo saxon,  protestant, umas das  principais indicações de direcionamento para a  direita política americana.  O fato era que se tinha um chapéu puritano e o desconhecimento do chapéu de palha. My hat has three corners, trazia a modo do século XVIII, aquele chapéu a procurar a forma de um triângulo, contra o senso de circunferência a cobrir a cabeça que estaria em todo o território dos sertões dos garanhuns.

A única exceção que vi, no sentido do acaboclado nordestino sendo mantido –  e decorei a música –, foi um dia em que, em cima de um caminhão passamos por dentro da cidade de Garanhuns em festiva marcha para um piquenique, boys and girls  cantando alto a pequena vingança protestante numa sacudida musiquinha que Luiz Gonzaga bem poderia ter gravado:

 É bode, é bode, é bode
Quem tem bigode,
Quem tem cavanhaque é bode!
O seu fulano, que é dono do pagode,
Ele brinca sem dinheiro
Mas não brinca sem bigode!
Oi!

Ora, jamais a palavra pagode corresponderia ao vocabulário presbiteriano e jamais estaria sendo utilizada somente para deixar a rima redonda. Ele dizia que havia a fuzarca e um dono, mas o que aparece é o deboche do nordestino em face do oiiiiiiiiiiii final. Não se gostou do bode; ele  ficou atravessado numa região de tradicional missão presbiteriana e local de funcionamento do Colégio XV de Novembro, comemoração protestante da República, onde se teve uma alforria legal. Em torno de um século da visita apressada de Kidder, o panorama do protestantismo havia mudado, mas ainda não estava calçado na normalidade da vida. Era suficiente para causar a fundação de um complô, era suficiente para uma resposta na década de 50, mas vai precisar de urbanização e mudança na arena política, e ele que foi uma força a bem dizer inovadora, tendeu para uma posição de direita ou conservadora. Em torno de 120 anos se esclarece qual o grande caminho político, salvo algumas raras  exceções, a ideologia política foi comprometida com o status quo, aquilo que nos começos dos combates esteve sendo afetado por Kidder.

Um orientador ligado ao batista e  à missão

Outra experiência foi na Michigan State University. Meu orientador chamava-se Ted Ward, um homem capaz, amigo. Ele foi emeritus do Departamento de Educação da Estadual de Michigan e, posteriormente, membro da Trinity Evangelical Divinity Scholl. Eu estava interessado no que se chamava de non-formal education e ele era dos melhores no que se tratava  de non-formal theological education. Convivemos largo tempo, aprendi e sou grato. Aliás, um de seus livros foi traduzido para o português e publicado pela JUERP, editora de grupo batista.

Era aberto e um de seus princípios era básico nas suas proposições quanto às missões: respeito à cultura. Uma das leituras recomendadas era sobre o que chamava de true believer. Tive uma imensa dificuldade para entender e traduzir a expressão mas notei que   talvez a base do fundamentalismo estivesse por ali,  pois se tratava  não da possibilidade de um verdadeiro crente,  mas do acreditador: aquele que tem a profissão de acreditar e de repetir o mesmo mote de sua crença de modo exaustivamente continuado. É esta diferença entre o verdadeiro crente e o acreditador que me aproxima, sobremaneira, da Igreja Batista do Pinheiro em sua composição atual, um passo absolutamente distanciado dos tempos de Kidder, do complô maximalista, do crente na porta da casa da minha avó e da crente na porta da minha casa, do bode de Garanhuns e um ganho em direção à integração cultura e salvação, onde o universo do poder é claramente desbastado, de uma forma muito mais rica do que se poderia fazer com o corpo de encíclicas que calçam a chamada Doutrina Social da Igreja.

A busca pela salvaguarda social fez com que o protestantismo em Alagoas tendesse ao conservador e mesmo à direita como já anotei. É proverbial o caso do vereador Guilherme Falcão que militou no PMDB em 1982 e passou para o Partido Socialista Brasileiro (ao qual pertenci e com o qual ainda mantenho ligações) por volta de 1985. A pressão foi forte para que ele deixasse o partido por conta de posições à esquerda.  Ele saía ou ficaria mal na comunidade da Igreja, conforme me disse e faz muito tempo, andando ali pelos lados do Parque Gonçalves Ledo. Há, também, o conhecido caso do Ricardo Coelho.


UM RINGUE NA BASE CULTURAL

No fundo, estamos lidando com a forma da representação realizada pelos protestantes e a resposta da descaracterização dada pela reação católica: uma tensão de natureza dialética; ela se transmite, automaticamente, para as bases da chamada cultura popular e para o que chamarei de Alagoas profunda, as Alagoas de suas próprias razões, da intimidade do seu cotidiano, resistente à mudança, presa à tradição e tridentina por excelência embora com universo próprio que refaz o princípio da romanização sem controles e maniqueísta com fórmulas estabelecidas para padronizar a ideia de verdade e de mentira, de bem e de mal. Uma Alagoas do agrarismo, à qual o novo do protestantismo termina por se justapor e dialogar e estar em relação constante.

É nesta Alagoas profunda que vamos situar a tensão e escolher um caminho: a chamada literatura de cordel, composta por folhetos de feira. Como estaria posta a figura do protestante e a figura do crente?  Este tipo de literatura é solidificado pelos finais do século XIX no nordeste (Curran; 1991)  e passou a veicular  valores, razões, argumentos de uma forma que atingia, sobremaneira, às faixas pobres e rurais especialmente do Nordeste brasileiro. Claro que há todo um rastro europeu, ibérico, português, mas a que nos importa,  de modo enfático, é a que se estabelece no Nordeste e um dos precursores dessa safra é o paraibano Leandro Gomes de Barros com produção pelos finais da segunda metade do século XIX.
Basicamente, a poética estava ao lado da Igreja Católica nesta porfia pelo sagrado e bem que se poderia ter o dedo da hierarquia interessada em sedimentar a hostilização com relação aos princípios religiosos dos protestantes. O folheto respondia de modo direto ao que o mercado pedia e, nesse caso, era a severa condenação e o conjunto da literatura, o seu corpus na realidade, cobria o que vou chamar de enunciado da nova-seita, estruturada o mais das vezes quase sempre numa figura comum, em local usual do povo.  A tática da Igreja foi atingir o protestante por cima nas hierarquias sociais e atacá-lo, profundamente, na via do cotidiano
Era uma oralidade em pregação, tomando o poeta como o seu veiculador; na realidade, o poeta recuperava os valores que circulavam e os transmitia às vezes na montagem de uma porfia, ou desafio, como era usual, inclusive, nos encontros de tocadores de viola. Evidentemente, estava adredemente montado o aceno do vencedor em um modo padrão de ritmo a viabilizar uma participação de quem o escuta e o lê, em termos até mesmo de memorização, conforme Abreu (1999) ressaltou. A tendência do folheto era a de falar de dentro e é interessante entender o traço de nivelamento entre forma, autor e público, o que, em parte, está destacado em  Curran (idem) e enfocado por  D’Olivo (2010).
É em sua forma de articular desafio, cena comum e o estigma que o cordel deve ter sido uma matéria chave de transmissão da visão católica em radicalização contra a protestante. Não fosse desta forma, perderia a simetria e até mesmo, a veia conservadora que sempre tendeu a  demarcá-lo. O crente seria no contexto do cordel,  o crente oficial retrabalhado pelo imaginário nas ligações existentes dentro da Alagoas profunda, a deep Alagoas.
 Era ela quem estaria sendo fustigada, sinal da renovação que seria o protestantismo mas que, necessariamente, não tinha raiz e, sobretudo, negava a que seria estruturante do processo da vida religiosa. Como se integrar dentro deste universo da raiz – que jamais seria a sua –, das estruturas profundas, seria o desafio que o protestantismo iria ter, encontrar ganhos de apoio, viabilidades de integração com a sociedade, poder, portanto, viver, sobreviver e crescer nas Alagoas rasa, a do dia a dia acontecendo mas fundada na profunda, a das grandes marcas estruturais e isto iria desde a situações mais frívolas como a moda, o se vestir, até situações de maior vulto como pactos de natureza política, até mesmo partidária, tudo isto dentro de um contexto de urbanização constante e de celebrações junto ao poder.

A IGUALDADE NO SISTEMA

O folheto de feira que tornava o Padre Cícero e Frei Damião santos, jamais poderia abrigar o anti-canonização, nem mesmo pela via da força romana isto foi conseguido, no que se tem a Beata Maria de Araújo como exemplo. O que pode parecer frase de efeito na realidade não é: o profundo era profundo mesmo, difícil de ser extirpado e a consagração do Padre Cícero, o nosso Padrinho era um contrato de patronagem irrompível. O que era capaz de negar Roma, estaria mais do que habilitado a negar Lutero, ao qual figurativamente nos referimos, por ser alvo principal da contra-reforma.
Estamos diante do que vamos chamar de a porfia por escrito e que iria traduzir a porfia verbal, a disputa na fala. As Santas Missões estariam nos folhetos, como estariam, também, a própria hierarquia estabelecida na figura de padres que estavam a paroquiar, incluindo, na ação,  todo o complexo ideológico agrupado no universo do que era chamado de pasto espiritual, uma preocupação de duplo significado pois estava no estado e na própria religião. Havia uma unidade nas Alagoas profundas, nas estruturas de base, formadoras, corporificadoras de expectativas e comportamentos e de uma Igreja Católica rígida em seus dogmas e cheia de modos sociais e político de ser.
A Santa Missão era bem mais do que uma mera pregação, era toda uma ordem de solenidade para a salvação e ia das obras ditas pias, até ao espetáculo das fogueiras a queimarem o pecado, como se pronuncia Maia (1991). São extraordinários os relatos de Fr.  Apoloni de Todi,  que  missionava desde os finais do século XVIII, o verdadeiro festejo, os mistérios dos acontecimentos e a geração das obras junto com o casamento dos amancebados. São relatos postos em Lisboa (1835) e mostram o tom espetaculoso da fé.

OS FOLHETO DE FEIRA

Um bom exemplo dessa porfia é dada em um folheto ainda da década de cinquenta e que em 1956 estava em sua segunda edição – houve uma terceira edição em 1970 e uma sexta em 1979 –, sendo da lavra do famoso Rodolfo Coelho Cavalcante,  alagoano de Rio Largo –, tendo nascido em 1919. O folheto era intitulado A discussão do Padre com a protestante.  Rodolfo Coelho Cavalcante não tinha compromisso, devendo ter sido ligado ao espiritismo, com um folheto extremamente simpático ao Chico Xavier. Bom, ali estava a mulher protestante em lugar público, a pregar a Palavra de Deus, esperando um trem e nisso começa a briga com o Padre. O primeiro argumento da crente dizia respeito à Bíblia Sagrada, propondo, portanto, que a Igreja Católica não poderia tornar-se salvadora, rebatendo o Padre que havia afirmado as excelências católicas:

Minha filha, qual a crença
Na terra mais soberana,
Do que a Igreja Católica
Apostólica Romana?
Só a Santa Igreja salva
Neste mundo a alma humana!

Para a crente, nem a Igreja salvava e nem se fundamentava na Bíblia e menciona especialmente a questão do Papado que, segundo ela, nunca havia acontecido a sagração de Pedro como Papa. A crente então ataca justamente a plataforma de baixo da cultura religiosa e deve ter sentido o peso da última fala do Padre: A senhora sendo cega,/Peça a Jesus e veja!
 Ela rebate:

O senhor assim graceja
Com seu erro doutrinário.
Esse negócio de missa
Confissão e rosário
Não passa de inovações
Da Igreja, seu Vigário.

A discussão então evolui para um ponto central da discussão: a existência de uma Bíblia falsa. A investida protestante de querer o pais lendo a Bíblia,  levava à fala de que se fundamentava em Bíblia falsa. Perrone (1856) falava em Bíblia truncada  ou corrompida, e esta argumentação seria usual. Não era, portanto, dito que estavam errados – onde a discussão se estabeleceria – mas que estavam em falsidade e, portanto, nem havia o que discutir e sim determinar a mentira, o crime. Não se estava diante de um adversário, mas de algo criminoso a ser combatido, inclusive com o rigor, por  existir uma religião de estado que a tudo controlava. O início da institucionalização dos protestantes  (nova seita, crente e  bode não são mais palavras correntes) levará a uma tática composta por três elementos básicos: a)  montagem de foco, onde seriam estruturados núcleos; b)  contato político em busca das brechas no sistema e c) evitar o confronto aberto, iniciando à base da distribuição de material impresso e Bíblias, modo  essencial de conflito: o domínio das fontes do sagrado.
Este conflito irrompe no texto do poeta alagoano com a seguinte fala da crente:

Toda Bíblia é uma só
De fácil penetração
Para aquele que Jesus
Lhe promete Salvação
Bíblia falsa isso é conversa
Da sua religião!

Era a afronta completa; uma mulher do povo tinha a veleidade de discutir com um sacerdote, completa subversão do sistema e tudo em um lugar público, na plataforma de uma estação.  No fundo se tratava de uma subversão local e como tudo indica, ainda pelos anos cinquenta, o protestantismo se constituía em fator desta subversão:

Onde a senhora aprendeu
Por certo teologia
Para andar pregando ao povo
Sem a menor teoria?

A crente tinha pesados argumentos, era topetuda  e entra em um dos redutos fundamentais da religião profunda das Alagoas:

Falando agora em Maria
Que é que seu Padre me diz!
Quem foi ela aqui na terra?
Quero que seja feliz!
Se é filósofo responda
Já que sou uma aprendiz!

Praticamente, todo o folheto vai delineando a impossibilidade de um diálogo entre ambos pois os campos se encontravam irremediavelmente divididos:

Eu não quero discutir
Com mulher, que não convém
Quanto mais uma protestante
Que não respeita ninguém
Se eu gostasse de briga
Seria crente também.

Pode o senhor se zangar
Mas a verdade não nego
Sou crente, tenho direito
Para todo mundo prego
O Evangelho de Cristo
Que no coração carrego.

Credo em cruz, eu te arrenego
Disse o Padre nesta hora
O trem nisto ia chegando
Vi o Padre cair fora
E aí a crente cantou
O seu hino e foi embora.

Extremamente virulento foi Antônio Araújo Lucena – já falecido e nascido em Cajazeiras na Paraíba – com seu folheto intitulado O Pastor que virou Bode:

Um bode preto retinto
Já foi visto no sertão
Durante a segunda guerra
E naquela ocasião
Foi quando o dito pastor
Andou causando terror
Em quase toda a nação.

Seria um copioso inventário do que se teve produzido sobre o tema nos folhetos de feira, demonstrando o quanto perdurou o combate ao nova seita que seria obrigado a transitar politicamente e assim legitimar-se. A legitimação é um processo de fazer-se aceito e nisso a qualidade política aproximou-se das Alagoas profundas, salvo raras diferenças como a do saudoso amigo Aurélio Viana que se somou à esquerda democrática no arrebentar do Estado Novo, e a quem deixo um abraço afetuoso com estes pedaços do meu arquivo pessoal.