segunda-feira, 12 de dezembro de 2011

[BANCO DE IMAGEM: RIO DE SÃO FRANCISCO: GERAL] Um pingo do rio Sao Francisco(I)

O texto sobre as fotografias está da forma como foi redigido em campo,  logo após ter sido tirada a foto ou depois, à noite, quando as imagens do dia eram repassadas.



Um pingo do rio Sao Francisco
Luiz Sávio de Almeida

 Foto 1

      Este é um grande amigo. É o  Professor Dr. Chico, alergologista e Diretor da Faculdade de Medicina. Como todo e qualquer mortal, tem preguiça e caiu no sono, perdendo a beleza das margens, durante a segunda Opara ou Racha. Quem dorme não vê, mas Francisco sonha e é um poeta. É capaz de fazer muitos rios em sua cabeça, mas o rio São Francico, na certa, salvo absoluta magia, ele não está vendo. Ele nasceu na beirada do rio, lá  em cima para mais oeste. É um sertanejo. Escuto que não  se formou em Maceió. Foi para São Paulo e retornou.  Algum dia, pensava em dormir viajando, calçando sandálias de pescador? Somente quem sabe, é o meu amigo Francisco.  Depois eu conto o que ele fez comigo, por conta de uma vacina contra a gripe. Um homem que escapa dos atchins da alergia e escreve poemas, é, sem dúvida, um iluminado.



Fotos, 2, 3 , 4


Nem precisa comentar. A canoa é a mesma do meu tempo de menino. A vela tem o mesmo formato, mas não  é a mesma canoa e nem a mesma  vela. E nem o mesmo vento, no que basta olhar para o motor de rabeta.

Foto 5 

Quem reconhece a força das águas do rio?  A âncora? Ela seguramente segura com segurança. Mas a âncora nçao decide, ela é mandada e esta é uma âncora quatridente e singelamente repousando.  Parece que entre navegar e ancorar, a diferença é pouca. E se eu jogasse a âncora agora, o que aconteceria? Não sei. Deveria saber?


Foto 6

A escada é diferente da âncora. A escada fica sobre o azul e branco, enquanto a âncora fica sobre o verde. Ninguêm é capaz de subir e descer pela a âncora. Pela escada pobre. A escada é um caminho feito por duas ladeiras: uma que é subida e outra que é descida.


Foto 7

Já subi e desci o rio nesta barca. É a Zanata. O pessoal é gente fina, mas nunca vi tanta barata dentro de um barco. Saí do salão, pois não aguentava e fui dormir aí em cima, enrolado em um lençol velho ou, melhor dizendo, histórico. O  vento batia mesmo, mas me livrei do que poderia ser um baraticídio.

Fotos 8, 9

Eis a cara da Penedo, a mui leal e valerosa Vila. Quando eu era menino, cantava-se:

Penedo vai,
Penedo vem.
Penedo é terra
De quem quer bem!

Não esqueço de uma música que cantavam lá em casa. Parece que o compositor morava na Rua da Penha, numa casa verde.

Lindo berço dos poetas
E das artes sublime inspiração...
Do São Francisco és a Princesa
Cidade amor Penedo!

Esta, também, é a formosa Rua da Praia, montada com algodão e gado. Lá está o Hotel das vedetes.



Fotos 10, 11, 12

Os povos andam nas águas; todo mundo que mora nas beiras do rio, tem que ser anfíbio. Quem não nada como peixe e jacaré,  anda de alguma forma nas águas. O que pensam estes menino pendurados na janela? O que eles vêm? Sera que adivinham o fato de que não somos daqui? Eles andam na Valéria. Eu penso que Valéria deve ser filha ou esposa do dono da lancha.

 


Fotos 13, 14

 Esta é a minha velha e conhecida Carrapicho. Fica quase em frente a Penedo. Menino, eu brincava com os bois de barro que faziam no Carraócho, como as meninas brincavam com as panelas. Depois, fui diversas vezes, subir a ladeira, entrar nas casas pobres dos artesãos que moram ali, É interessante o monumental da Igreja, a bes casa a fazer uma das  esquinas da rua da ladeira. Contrastam e muito, com a sujeira do barro, os pés rodando o torno, os dedos fazendo formas do que era nada.



 




[BANCO DE IMAGEM] O começo do crepúsculo em Passagem



O texto sobre as fotografias está da forma como foi redigido em campo,  logo após ter sido tirada a foto ou depois, à noite, quando as imagens do dia eram repassadas.



O começo do crepúsculo em Passagem

 Luiz Sávio de Almeida



      Passagem é minha velha conhecida; mas, quando menino, sempre a vi de longe.  Via as lanchas sairem e voltarem, mas nunca atravessei o rio.  Houve uma época que meus pais íam muito. Faltava luz em Penedo e eles pegavam a lancha pra irem ao cinema do outro lado do rio. Somente fui à Passagem depois e adulto e ouvindo a falar de Neópolis,  uma palavra meio chata e até engrola um pouco a língua. Ela exige que a gente pense em um néo e em uma polis. Néo de novo, polis de cidade. Ela engana, faz a gente sentir-se  inteligente ao decifrá-la. Cidade Nova. Era uma cidade calçada na famosa fábrica de tecidos que aconteceu por lá.


      Penedo está ao fundo; na verdade eu não teria visto esta paisagem.. Aquele hotel não existia. Era, se não me engano, um sobrado. Derrubaram. Fizeram o Hotel São Francisco.  Corre uma urban legend engraçada. O dono do Hotel era muito rico e teria se chateado com vedetes de uma companhia que passou em Penedo. Elas diziam que a cidade não prestava, por não ter um Hotel. Aí, ele pegou dinheiro e fez uma obra monumental, uma imensa representação de um capital que já estava decadente. Macacos me mordam: a falência deveria estar prestes a bater, em face, inclusive, da crise têxtil. Macacos me mordam novamente: um dinheiro que fez falta.


     Hoje, as lanchas também não são as mesmas que vi. É de se ver a brancona turistosa, pensada para descer até a foz, pssando pelos canais e  caindo do manejos das marolas, dando o bordo antes que o mar começe a falar gosso.




     Até que deste ângulo, ela fica bonita. Salve a beleza. Acho que a foto foi na hora de uma preámar. O rio parece um piscina, sem marola, sem balançar canoa salvo pelo peso, algumas vezes, da refrega nas velas.


[HISTÓRIA E MEMÓRIA] Rua da Penha: vedetes, política e costumes



A rua da Penha: vedetes, política e costumes

Luiz Sávio de Almeida



A VEDETE E O PRESIDENTE


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A música rival de A Balzaquiana aparece com Francisco Carlos, El Broto e foi muito cantada na Penha. Curiosamente, os autores eram Luiz Gonzaga e Humberto Texeira. A palavra brotinho, segundo Ziraldo – com o significado que assumiu – vem de A Normalista de David Nasser. Chama atenção o espírito carnavalesco que o Seu Lula e Humberto Texeira conseguiram produzir. O brotinho aparece em outra marchinha: Sassaricando, cantada pela Virgínia Lane, as mais belas pernas do Brasil e bem conhecidas por Getúlio Vargas. A própria Virgínia contou seus 15 anos de amor com Gêgê e garantiu que estava no Catete no dia da morte dele, afirmando que ele jamais se matou. Durma-se com um tiro desse! Ela não era bonita, mas sem dúvida suas pernas eram um vestígio da primitiva Eva, embora que, na minha cabeça, Eva devia ser automodável, ora ficando belíssima ou dragão. Adão deve ter escolhido na hora certa e a Serpente foi a primeira cafetina do mundo. Se Adão tivesse mexido em Eva sem a interferência da Serpente, haveria pecado original?
 
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 Um dos grandes sucessos da vedete foi Sassaricando. Para mim, Sassaricando e a Chiquita Bacana são ícones de folia. A primeira faz surgir um verbo maravilhoso e sabe que todo mundo leva a vida no arame; a segunda, cria um poderoso ser a vestir-se com a casca de uma banana nanica e somente fazia o que o coração mandava. Resultado: para sassasaricar mesmo, somente uma Chiquita Bacana dita existencialista,palavra que nos versos é pessimamente utilizada, mas que ficou com formoso hit carnavalesco.Dessas revistas famosas, nada vi, mas sim as suas versões cinematográficas, conforme entendo que tenham sido as chanchadas. No entanto, cheguei a ver o grande Mesquitinha e acho que foi no Recreio no Rio, levado pelo meu pai que adorava o que vou chamar de burlesco, para não me referir a uma safadeza inteligente. Pois foi quando conheci o Mesquitinha e acho que eu já estava morando em Bicas, Minas Gerais, cidade perto do Rio de Janeiro.
 

 almanaquedahora.com.br


 



O interessante é que não me lembro de ter visto as chanchadas em Penedo. Na certa vi,  pois nomes como Grande Otelo e Oscarito não eram desconhecidos por mim: eram os dois maiores comediantes do Brasil. Mas eu forço e forço e o cinema nacional não aparece na cabeça. Não sou especialista, mas acho que na linguagem do cinema repete-se a concepção das revistas, especialmente no que era chamado de filme deCarnaval. Repito que não me lembro dele em Penedo, aliás, eu suponho recordar que filme nacional não era tão bem visto assim pela molecada, pois o negócio efetivamente era o cowboy e os seriados, passando  pelos piratas.

guiadoscuriosos.com.br







De Getúlio, lembro de sua ida à Rua da Penha, entrando numa casa verde que ficava em frente a do pai da Dona América. Era muita gente. Fiquei vendo da porta lá de casa; não me deixaram ir. Também me lembro da ida do Brigadeiro; esse, papai nos levou e tiramos até uma fotografia. Era o Brigadeiro Eduardo Campos. Foi no aeroporto em Penedo; não recordo do que fez na cidade. A fotografia ainda existe. Getúlio e Brigadeiro ficaram na minha cabeça, com suas candidaturas em 1950.



cineconhecimento.com



























 
Existia uma marchinha de Carnaval que falava no pirata da perna de pau. É uma gravação de 1947 com Nulo Roland e o compositor era o famoso João de Barro, o Briguinha. Lembro que se cantava contra o Gêgê uma paródia dessa música. Ouvi muito também o seguinte, mas pela rádio:

Borombombom, estourou o foguete
Borombombom,  o  Gêge tá no Catete!



As vedetes que me restaram
                                                             navarandacomlanynha.blogspot.com
Luz del Fuego

 






As vedetes ficaram famosas no teatro de revista e durante anos representaram padrões de desejos. Uma ultra famosa foi Luz del Fuego e ela realmente era merecedora e se fez presente no imaginário penedense da época. Foi em 1944 que começou a bailar com suas serpentes em um circo no Rio de Janeiro e é aí que começa a vedete. Belíssima, dominava a cena comseu tipo nacional. Irmã de um senador da República devia ser um calo no sapato político dele, especialmente depois que publica seudiário, deixando inúmeros inconvenientes expostos, escancarados. Ela tinha cabeça e enfrentava com suas propostas públicas; não era apenas uma vedete, mas uma vedete que atanazava. É uma figura que merece um belo estudo, mas sua vida era absolutamente podada pelas senhoras que viam o pudico ser levado no deboche. Ela terminou tragicamente morta na década de sessenta, já sem a riqueza, o prestígio e a beleza.

                                                                                               retrovamoslembrar.blogspot.com
Elvira Pagã


















                                                                                                                     todosossitespravc.blogspot.com
Mara Rúbia




 
Outra mulher de cuja existência se sabia, mas que não poderia por vias oficias tornar-se penedense, era a Elvira Pagã, dita a primeira mulher a usar biquíni no Rio de Janeiro, em Copacabana, 1950; Rainha do Carnaval no Rio de Janeiro, morreu meio caduca. Era uma turma de primeira linha, como Mara Rúbia e tantas outras, consideradas assim como o diabo em pessoa. Mas elas existiam como prova de que a luxúria se fazia nas fraldas de Penedo.

 



fernandomachado.blog.br


Não chegavam ainda a me atentar. A Companhia Walter Pinto me atentou pelos anos finais dos cinqüenta e começo dos 60, com as vedetes maravilhosas em espetáculos, por exemplo, na Festa da Mocidade do Recife. Títulos como Tem Bububu no Bobobo, É Xiquexique no Pixoxó não podem sair da lembrança. Walter Pinto alterou o teatro de revista que se esboça nos finais do século XIX, teatro que em grande parte e junto com as emissoras, será responsável na montagem de um cenário de profissionalização do músico brasileiro.




funarte.gov.br
O elenco do tem Xiquexique no Pixoxó


E voltando ao sebite

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Acho este termo sebite de propriedade espantosa. Quem já viu um sebite, sabe da propriedade de aplicá-lo à mulher amostrada, exibida. O sebite é frenético, jamais para; baixa e levanta, olha e desolha... Eu particularmente acho que é um belo pássaro, estando desaparecido como a garrincha, aquela espécie de casaca de couro pequena.

     Não se escuta mais o pitiguari. É a casaca de couro que, como fala a genial música de Rui de Moraes e Silva, cantada pelo Jackson do Pandeiro vive de combinação: Cantando as duas na telha. Mas a parte da saudade de pássaros será em outro lugar. Eu gosto de mexer com música. Entendo perfeitamente as recordações que faziam o
Lincoln Cavalcante publicar uma coletânea. Minha irmã tinha uma coleção de cadernos cheios de letras e mais letras.

    Aliás, a primeira letra de música que ficou na minha cabeça – não que eu me recordasse, mas pela história repetidamente contada por minha mãe – é dá influência da II Guerra Mundial, ela levando a uma fala particular sobre o amor. Foi cantada pelo Gilberto Alves pela Odeon. A letra era de Roberto Martins. Eu não estava em Penedo, mas em Pirapora (1944), Minas Gerais e esse era tempo mesmo de guerra:

Pra mostrar que braço é braço,
Eu conquistei Cecília
Enfrentei balas de aço,
Mas conquistei Sicília.

A guerra e meu nascimento

      Madrugada e tudo escuro, com o medo dos submarinos alemães atacarem; era o famoso blackout. Rua Mato Grosso, a casa ainda está em pé. Lá dentro, minha irmã, minha tia Nini, meu pai. Tio Lauro saiu no meio do escuro para buscar o médico: João
Azevedo. Tia Nini estava ali para ajudar a minha mãe: solidariedade de irmã. Chega o médico; situação feia. Sou arrancado a fórceps e ainda conservo a marca do ferro na testa. Já estava numa situação precária, quase roxo, e como se diz, a tripa enrolada no pescoço. O médico pega e não choro; é um custo e berro, ainda obstinado para viver. Entrei no mundo à custa de um fórceps. Olhei a vida durante um blackout.

     Quase que imediatamente fui colocado em um trem para Capela, assim que o resguardo da minha mãe permitiu. Passei um tempo sob os cuidados da Tia Nini e fui batizado na Matriz da Capela, tendo ela como madrinha, Tio Isaís como Padrinho, José Edson (filho da Nini) como padrinho e a Leda (filha), madrinha. Da forma como minha família pensava, eu fui entregue à responsabilidade da Tia Nini que passou a ser a Dindinha, modo como fui acostumado a tratá-la. Da Capela, voltei para Maceió e peguei um Ita com direção ao Rio de Janeiro e de lá para Pirapora foi de trem. Em suas memórias, meu pai conta sobre a viagem. Na volta, o navio era afundado. Guerra. Eu estive perto ao nascer no blackout, ao comer no mais absoluto escuro, ao andar no que foi afundado.
A doença do cai-cai

                                                                                  jinaldo.bloguepessoal.com
  
   Contava um amigo e sisudo cidadão, algo que deve ficar registrado e que faz parte da história miúda, daquele picado do dia-a-dia. E é sobre a guerra. Dizia ele que na área de Jaraguá aconteceu uma violenta transformação, com as tropas aliadas  acampando por lá. Segundo ele, a maioria de “americanos” era feita de filipinos e a tropa invadiu a região de Jaraguá, a tal ponto que até posto médico aliado havia na região.
                                                                                                        
   Com isso, aconteceu uma pesada interferência no mercado. A cotação de um programa em Jaraguá antes da minvasão era de vamos supor, Cr$ 10,000. A conquista faz aumentar desesperadamente o preço, colocando a população


nativa fora do páreo: o negócio agora era dollar e a vinte paus. Pronto; havia
Maceió sido atingida duramente em sua vida. Quem podia? Preço duplo e ainda
mais em dollar? Havia sido um golpe fatal na luxuria urbana. Então, houve
uma brilhante e inteligentíssima reação.



     Correu como um raio a notícia de que filipino transmitia uma doença chamada de cai-cai; era fatal, pior do que gonorréia, cancro duro, cancro mole e outros azares


do desregramento, artes do cão. E foi assim que a cai-cai interferiu e quem
fizesse programa com filipino estava marcada, que ninguém era tolo de se
arriscar. O nacional voltou ao mercado com o preço adequado ao seu tamanho
de renda.


     Não sei na realidade, como chamar a essa coisa que é a molecagem coletiva.


Alguém deveria tratá-la. Maceió é cheia disso. Aquilo surge e de uma hora para
a outra está em pleno uso, cutucando aqui, mexendo ali. A grande maioria é
feita por situações engraçadas, como, por exemplo, as histórias do Celite; elas
beliscavam o machismo alagoano, dando até confusão pesada, segundo se
dizia, na Rua do Comércio. Ela é fantástica e a meu ver contraria o repouso no
padrão, e mostra como tudo é possível nos limites de ser efetivamente provável,
por mais extraordinária que seja. Não seria possível caso inexistisse Maceió e
caso inexistisse um tempo de Maceió. Será que eu poderia dar a Maceió o nome
de espaço amostral, onde tudo seria possível e, então, liquidar com a ideia do
absurdo? Mas o que seria Maceió sem aquilo que não era ele e que permite que
ele seja? O que fica liquidado, em qualquer dos casos, é Maceió ou o absurdo?
Vamos cair fora da confusão, mas vou dizer uma coisa: eu jamais apostaria,
mesmo com todas as possíveis vantagens, que aconteceria o caso Celite em
Maceió.


Celite foi o pavor de muita reputação de macho em Maceió. Eram diversas as


abordagens, mas a coisa acontecia mais ou menos assim. O espírito de porco
chegava e dizia: “Olha, eu sou seu amigo e sou obrigado a contar um negócio que
vai deixar você ficar bravo!”. Em seguida perguntava: “Você conhece o Celite?”. A
resposta era não e o espírito de porco dizia: “Aquilo não vale nada; tava dizendo
que você sentava nas pernas dele!”.


Daí vinha o fio dessa, o fio daquela outra... O espírito de porco dizia: “Pois a


Rua do Comércio tá cheia, não sei quantas pessoas vieram me falar. Eu tinha
que te dizer!”. Lá vinha: “E onde esse cara tá, para eu dar-lhe um tiro nos
cornos!”. “Diz!”. E diziam que gente foi bater na casa São Luiz atrás de um
empregado chamado Celite e quase morre de raiva ao saber que Celite era a
marca de um vaso sanitário.


Termina a guerra; papai consegue transferência para Penedo. Como voltar? Havia um dono de teco-teco que vinha para estes lados. Chamava-se Euclides Paletó. Viemos praticamente por cima do rio. Chovia, teto encoberto; sem ver a terra, Euclides Paletó estava perdido. Decide descer, precisava ver onde se


encontrava, o combustível estava acabando.


Desce, olha, estávamos em cima da Paulo Afonso. Não sei como ele pousa. Dormimos por ali. No outro dia, levantamos vôo, chegamos a Penedo à tarde e de nada me lembro. Da viagem restam fotos, mas eu não lembro Fomos para o Hotel Brasil e logo subimos para uma casa no Cajueiro Grande, bem em frente ao Hospital. Somente quando vou para a Rua da Penha é que surge a real percepção de uma


rua.


Não deve ter sido fácil para minha mãe; o desacerto com papai deveria ser quase imediato. Ela vivia de se adaptar e sair. Foi levada para os sertões de Minas Gerais; mal arrumou, mal viajava, se bem que era para perto da família. Talvez pelo estilo de vida, os filhos da Dondon se uniam, procuravam estarem juntos. A tragédia da vida do meu pai, não deu tanta aproximação assim com sua família. Parte estava na baixada fluminense em Duque de Caxias, o pessoal da Donana, tinha gente em


Neves no Rio de Janeiro, tio Joel perdido pelo meio do mundo, tio Arlindo bem de vida no Recife, Tia Eluzanira casada com o Júlio Calixto na Igreja Nova, na região da Palmeira, acho que chegada para Quebrangulo.


Da parte da mamãe, Tia Lurdes, Tio Lourenço e a mãe deles se encontravam em


Arapiraca, depois de terem passado por Limoeiro de Anadia. Fim de ano, arranjava-se
uma forma de ir para a Capela, casa da minha avó, onde moravam Dindinha Nini e Dindinho Isaías. Acasa enchia; primo para todo lado. Tio Isaís era administrador de um engenho, parece que o Pitimiju e todos os dias montava em um cavalo, saía pela manha, depois voltava à tardinha. Sentava, tomava café, conversava bem pouco e se preparava para a jornada do dia seguinte. Tempos depois, ele larga a cana e vai plantar fumo na Lagoa do Peleve, depois de uma experiência que não deu muito certo: o sisal.

domingo, 11 de dezembro de 2011

[HISTÓRIA E FUTEBOL] PERDIGÃO, Lautheney. Cláudio Pacheco: um depoimento para a história




Esta matéria foi publicada no tablóide Contexto, jornal Tribuna Independente, Maceió, 11/12/2011


Um pequeno bilhete sobre futebol


Passado o mês de novembro, Lau e seu Museu voltam às páginas deste suplemento,  que  tem a finalidade de construir um  painel de visões sobre a sociedade alagoana.  Contexto precisa e muito do  Lau,  jornalista a quem admira de longa data  – bote tempo nisso, né Setton? –,  mesmo ele sendo  azulino de corpo e alma. Felizmente,  neste número, ele lembrou que CRB existe,  e assim Contexto se encontra em seu estado puro, devidamente dezazulizado.   

Ainda hoje, eu não sei, objetivamente, a razão de justificar-me como  CRB. Acho que tudo decorreu de uma graça conduzida pelo destino, tão angélica e sagrada quanto é ser tocado pela chama mágica  do rubro-negro, aquilo que identifica o meu amado e decantado  Clube de Regatas Flamengo, a aurora mundial do futebol, o por do sol da glória a renovar-se  pudica e simples, a noite inspirada do esporte, o dia da justiça final dos adversários vítimas dos mais fortes e inteligentes  pelotaços.

Amigo Lautheney, é pena, contudo, que a beleza das rivalidades tenha se tornado em coisa  feia,  pela violência do que ainda é, talvez erroneamente, chamado de torcida. Meu bom Lautheney, quando isso vai parar?   Amigo, pode escrever sobre o CSA novamente, quantas vezes desejar; aqui é livre, como deve ser livre a amizade.  Vamos nos encontrar e misturar as cores das bandeiras numa comemoração pela paz, cerimônia que bem poderia ser puxada pela Federação Alagoana de Futebol e, quem sabe, o exemplo partir de uma solenidade pública comandada pelas diretorias de nossos clubes. Seria um belo exemplo para nosso futebol.

Um abraço amigo para todos os legítimos torcedores azulinos. Eu prefiro um torcedor azulino decente, a um baderneiro que se possa dizer  CRB. Será que a Federação Alagoana promoveria o Dia da Paz?  Não importa se já fez algo neste sentido; o fundamental é água mole bata tanto em pedra dura até que fure.

Contexto pede humildemente, que a Federação Alagoana de Futebol pense no assunto.  Nossa! Seria uma belíssima cerimônia pela paz, contra qualquer indicação de violência. Lautheney, você que conhece mais de perto os homens, fala com eles.

Sávio de Almeida


Uma homenagem ao CRB


Professor Jaymeihgal.al.org.br
Contexto deseja homenagear a grande torcida regatiana.  E volta ao passado, buscando uma música composta por Tavares de Figueiredo, com letra do saudoso Professor Jayme d’Altavilla. É um  tango carnavalesco intitulado  Os Batutas do Cerrêbê.  Faz muito tempo que a música surgiu  e a sinalizo por volta dos anos vinte do século passado. Ninguém esqueça o que escreveu o Professor Jayme: o turuna é o cerrêbê! Fui procurar no pai dos burros, o que significa turuna:  valente, destemido, segundo o Houaiss.


 Não discuta, seu gabola, 
Que o turuna é o cerrêbê.
Depois do jogo da bola,
Meu nêgo, cadê você?  
                      
Melindrosa torcedora,
Tu me amarras,  perdição.
Fizestes um goal, vencedora,
Shootando em meu coração

Estribilho
Ai! Que bom” Ai!
O cateretê!
Ai! Que bom” Ai!
Dançar com você


 Me deixa seu pé de anjo,
Que no treno eu tiro a linha.
Eu com você não me arranjo,
Seu cara de almofadinha.

Futebol é coisa boa.
É mais doce que bangüê.
As moças das Alagoas
Torcem pelo cerrêbê.





Cláudio Pacheco: um depoimento para a 

história

Lautheney Perdigão




Lauttheney Perdigão
A Enciclopédia do Futebol Alagoano
http://cadaminuto.com.br



A estrada da vida


           Cláudio Moreira Pacheco é filho de Lafaiete Pacheco, o principal fundador do Clube de Regatas Brasil.  Nasceu em Maceió, no dia 19 de setembro de 1931. E como não poderia deixar de ser, Claudinho começou jogando no clube da Pajuçara. Com a camisa do CRB, ele começou a mostrar suas qualidades de um futuro craque. Não demorou muito e logo chegou ao time titular se consagrando bi campeão alagoano nos anos de 1950/1951. Era um jogador inteligente dentro e fora do campo. Seus movimentos eram rápidos e objetivos. Com o passar dos anos, seu futebol foi amadurecendo, ganhando mais cadência, habilidade e técnica refinada.

Em 1952, foi contratado pelo Esporte Clube Bahia e formou o chamado “esquadrão de aço” dos tricolores da Boa Terra. Foi campeão, destaque do time e convocado para a Seleção Baiana. Ainda defendeu o Sport Recife, Ferroviário do Ceará, Botafogo da Paraíba e encerrou sua carreira no Capelense em 1962, onde ajudou o clube do Dr. Horácio Gomes a ser Campeão Alagoano naquele ano. Quando ainda estava atuando pelo CRB, Claudinho jogou voleibol pelo Flamengo de Maceió.

           Depois de viver fortes emoções no esporte, deixou os gramados e continuou o mesmo moço simples e amigos de seus amigos. Hoje, aos 80 anos, vive na lembrança de todos aqueles que o viram jogar um futebol cadenciado e no melhor estilo. Seu depoimento está bem vivo nos arquivos do Museu dos Esportes.


Cláudio Pacheco
Museu dos Esportes

Os filhos de Lafayete Pacheco

          Três filhos de Lafaiete Pacheco jogaram futebol. Nos anos trinta, o zagueiro Bacurau participou do tetra campeonato conquistado pelo CRB. Nos anos cinqüenta, foi a vez de Claudinho que também foi campeão pelo clube da Pajuçara. Vetinho também foi campeão, mas pelo Ferroviário em 1954. Claudinho tinha orgulho do seu pai. Afinal, Lafaiete Pacheco foi o grande incentivador para a fundação do CRB, clube que ele defendeu com um amor acima do normal. O interessante é que mesmo quando Claudinho defendia o clube da Pajuçara, ninguém sabia desse detalhe. Somente depois um depoimento de Lafaiete ao Arquivos Implacáveis do Jornal Gazeta de Alagoas é que a história começou a ter um melhor colorido nas páginas dos nossos jornais e a torcida ficou sabendo a verda deira história do Clube de Regatas Brasil.

           Claudinho começou jogando nas peladas de ruas. Muitas vezes deixava de ir à aula para jogar futebol. Na Praça da Cadeia, havia jogos memoráveis entre o Águia Negra do Colégio Diocesano e o Monte Castelo que era o time local. Como morava no Poço, Claudinho jogava pelo Treze de Maio. Em 1948, já estava disputando o campeonato alagoano pelo juvenil do CRB. No ano seguinte, integrava o time principal dos alvirrubros. O bi campeonato foi conquistado por um time maravilhoso. Claudinho lembra com saudade: Bandeira. Cacau. Miguel Rosas. Walfrido Vieira. Cacará. Divaldo. Macedo. Laxinha. Dario. Carlos Santa Rita e ele mesmo, Claudinho. Os treinamentos eram realizados às seis horas da manhã, porque a grande maioria dos atletas trabalhava. A diretoria comparecia e Zequito Porto era o técnico que, ao logo dos anos, transformou-se no maior nome da história do clube. O Zé de Barros tomava conta do Estádio e era muito querido por todos os atletas. Depois do treino, lá estava Zé de Barros com o seu munguzá e pão com manteiga para os jogadores. Esses jogadores tinham amor pelo clube e a amizade dos dirigentes.


Seleção Alagoana de 1952
Museu dos Esportes

A devoção ao esporte

           Claudinho jogava de graça e ainda era sócio do clube. Isso lhe garantia certo privilégio, dando condições de entrar nas festas do CRB que eram realizadas nos salões do Clube Fênix Alagoano. Além da alegria em defender o clube do coração, ele tinha o reconhecimento de ser convocado para a Seleção Alagoana várias vezes. Ele viveu uma época em que os torcedores presenteavam seus ídolos com chapéus, guarda-chuvas, sapatos, camisas etc. Um tempo que, mesmo no dia de clássico, Claudinho e Dida, no domingo pela manhã, iam bater bola no campo da Faculdade até onze horas. Depois iam a pé até a praia do Sobral, tomavam banho e iam para casa. À tarde, no Mutange ou na Pajuçara, lá estavam Dida com a camisa do CSA e Claudinho com a do CRB. Também acontec ia que jogadores participavam da preliminar atuando pelo aspirante e, quando faltava um  titular, o atleta era escalado do time principal.

           Foi defendendo a Seleção Alagoana em 1952, que Jorge Gazar o enviou para o Esporte Clube Bahia. Claudinho foi, fez teste e ficou. O CRB recebeu apenas uma taxa de transferência, já que o atleta era amador. O primeiro contrato com o Bahia valeu para Claudinho doze contos de réis de luvas e um conto e quinhentos por mês mais o pagamento da pensão onde o atleta passou a residir em Salvador. Os dirigentes prometeram muita coisa e cumpriram tudo. Sua passagem pelo Bahia foi uma das coisas boas de sua vida. Fez amizades, ganhou títulos, foi ídolo e participou de um dos maiores times da história do clube que tinha uma excelente diretoria e uma fanática torcida.

A fase do supercampeonato baiano foi uma loucura. Claudinho levou o amigo Bandeira para o Bahia. O goleiro se transformou em uma barreira no gol do clube tricolor. Na decisão com o Vitória, foi o melhor jogador em campo e garantiu o título defendendo até pênalti. Claudinho e Bandeira foram convocados para a Seleção Baiana.  Eles eram como irmãos. Quando Bandeira foi entrar por um portão que não devia, um diretor não teve bons modos e puxou o goleiro de maneira grosseira. Houve uma discussão e Claudinho comprou a briga. Depois o Bahia não quis renovar o contrato com Bandeira e o companheiro resolveu reincidir o seu e retornar a Maceió.

            Voltando a Alagoas, Claudinho foi passar alguns dias em Recife na casa de uma tia. Dida queria levá-lo para o Flamengo. Estava tudo certo. Dida telegrafou para o amigo viajar e treinar na Gávea. Lafaiete Pacheco, ao invés de mandar o telegrama para a casa de sua irmã, enviou para o Sport Recife onde Claudinho estava, treinava e tentava acertar um contrato. Um diretor do Sport ficou com o telegrama. Somente depois de assinar com o clube pernambucano é que o craque alagoano soube da existência do telegrama de Dida. Ele nunca perdoou o diretor Galvão. O contrato com o Sport valeu para Claudinho trinta contos de luvas e quatro mil por mês e mais o pagamento do hotel onde passou a mora com outros alagoanos: Hélio Miranda, Carijó e Itamar Dengoso. Ele ficou três anos em Recife. Depois, foi para o Ferroviário do Ceará e para o Campinense.

Jogo contra o Velez em 1951
Museu dos Esportes

Um retorno a Maceió

           Já casado, resolveu retornar a sua terra. Estava com trinta e um anos de idade, tinha uma propriedade na cidade de Capela para tomar contar e ficar perto da sua família. Nessas alturas, o Capelense entrou na sua vida. Assinou contrato com Dr. Horário e ficou como técnico e jogador. A diretoria não interferia no seu departamento de futebol. Os jogadores eram amigos e ajudavam ao técnico. Logo depois da sua contratação, Dr. Horário chamou Claudinho e lhe entregou um pacote cheio de dinheiro para ele ir a Recife comprar todo material novo para o clube. O Presidente guardava o dinheiro em casa e deu liberdade para o treinador contratar os melhores jogadores do interior. Apenas Aguiar que tinha jogado no CRB  e Zé de Gemi que defendeu a seleção sergipana não eram do interior. A grande maioria era das Usinas de Alagoas e Pernambuco.

       A estreia de Claudinho no Capelense foi contra o CRB e uma decepção: CRB 6x1. Uma goleada. Ninguém reclamou de ninguém. Os treinos continuavam, o time foi se arrumando e, no final do campeonato, o Capelense foi campeão de 1962 vencendo a decisão contra os Estivadores. O trabalho foi tão bom que Claudinho foi convidado para ser o técnico da Seleção Alagoana que disputaria o Campeonato Brasileiro daquele mesmo ano. A Seleção era a base do Capelense. Conseguimos passar por Sergipe e, depois de empatar em Maceió, perdemos para os cearenses em Fortaleza. Para esse jogo, houve muitos problemas. A viagem para o Ceará atrasou. Em Recife, o avião somente saiu para Fortaleza no mesmo dia do jogo. A delegação alagoana chegou a tarde para jogar a noite. Os dirigentes da Federação Alagoana não tentaram adiar o jogo e nos sos atletas estavam sem condições ideais para enfrentar a Seleção Cearense.

           Claudinho foi convocado para a Seleção pela primeira vez em 1952, quando os alagoanos disputaram um Campeonato Brasileiro amador. Depois, ele foi convocado para a Seleção principal. Contra os sergipanos, aconteceu um jogo memorável. O jogo dos 163 minutos. Alagoas havia perdido em Aracaju. Precisava vencer no Mutange o jogo e a prorrogação. Claudinho lembra com certa emoção. Alagoas venceu o jogo por 2x1. Veio a primeira prorrogação e 0x0. Veio a segunda e novamente 0x0. Somente aos treze minutos da terceira prorrogação é que Laxinha assinalou o gol que garantiu vitória de Alagoas. Os jogadores estavam cansados, mesmo assim, festejaram no gramado uma das maiores vitórias do Futebol Alagoano. Um triunfo da garra e da vontade de vencer. E nada teria sid o possível se não fosse a ajuda da torcida. Depois perdemos para Pernambuco.


Esporte Clube Bahia 1952
Museu dos Esportes

As fortes emoções

           Todos nós sentimos fortes emoções ao longo de nossas vidas. No bi campeonato alagoano de 1951, o CRB conquistou o título vencendo o CSA na decisão. O futebol começava a lhe oferecer as primeiras emoções. Nesse mesmo ano, o CSA enfrentou o Vélez Sasfield da Argentina no Mutange e convidou alguns jogadores do CRB e, entre eles, estava Claudinho, que vestiu a camisa do clube azulino pela primeira vez. O jogo foi na véspera do Natal e o empate de 1x1 lhe rendeu uma gratificação de cinco mil réis. Claudinho lembra o jogo da Seleção Baiana contra o Botafogo do Rio.

          Foi uma das suas grandes atuações. Jogando de ponta direita, deu um show no grande Nilton Santos e ainda fez o gol da vitória baiana. Entre suas decepções, que foram poucas, ele cita quando t entou ser treinador do seu querido CRB. Em 1966, deixou Capela e voltou para Maceió. Tinha feito um grande trabalho no Capelense e poderia repetir no clube da Pajuçara. Logo que começou, sentiu que as coisas não eram como no seu tempo de jogador. Havia muitas dificuldades. O clube foi campeão em 1964 e aquela equipe estava se desfazendo.

        Os jogadores que ficaram, não tinham muito interesse em jogar. Certa vez, Aguiar, Paulo Nylon e Canhoto procuraram Claudinho e disseram que não podiam jogar. Cada um tinha um problema: dor de cabeça, contusão no pé e desenteria. Foram substituídos por Ademir, Beba e Silva que logo se tornaram titulares e grandes figuras do nosso futebol. O clube não tinha dinheiro para contratar e seu trabalho tinha de ser com os juvenis. Os dirigentes queriam aparecer, reclamavam contra os juvenis e não lhes davam apoio. Quando o time está mal, eles desaparecem. Então, Cláudio resolveu parar com o futebol e cuidar da sua vida fora dos gramados.

           Para Claudinho, o maior jogador que viu atuar foi o zagueiro Miguel Rosas. Era um espetáculo. Não dava pancada. Era inteligente e tirava a bola do adversário sem ele sentir. Claudinho se sentiu privilegiado em jogar ao seu lado. O melhor time foi o Esporte Clube Bahia de 1952. Um time que jogava por música. Cada um sabia o que fazer dentro de campo. O treinador era Gentil Cardoso que tinha tudo ensaiado. Ele sabia de tudo e dizia aos jogadores que não era da Seleção Brasileira porque era preto e não tinha olhos azuis. Jogando em Maceió, Claudinho nunca se concentrou.  Já no Bahia e no Sport, havia concentração. Com Gentil Cardoso, o pessoal somente ia para casa na segunda-feira. Concentração longa não é uma boa.


Dida, Cao, Larinha, Claudinho, Milton
Museu dos Esportes


Passos de vida

         A partir da sexta-feira a noite até q ue é bom. Ele acredita que o treinador tem muita influência no rendimento de uma equipe. Gentil Cardoso era realmente maravilhoso. Muitos jogos eram ganhos no intervalo quando ele conversava com seus atletas, consertando os erros e mostrando sua visão e como aproveitar as falhas do adversário. Com relação à arbitragem, ele destaca Waldomiro Breda, Cláudio Regis e Agustim Farrapeira. Em dezesseis anos de carreira como jogador de futebol foi expulso apenas duas vezes.

           No seu tempo de jogador no CRB, os dirigentes tinham os atletas como filhos. Chegavam a ir a suas casas para visitar seus familiares. Havia bastante afinidade entre dirigente e jogador. Hoje está tudo diferente. Tudo é profissional. Futebol virou comércio. Quando o time ganha, querem aparecer no rádio e na televisão. Quando o time perde, eles têm sempre um culpado: o técnico. No submundo do futebol, escondem-se muitos interesses e nisso, tudo pode acontecer. Sobre a rivalidade entre CSA e CRB, sempre existiu, mas somente dentro do campo. Fora dos gramados, todos eram amigos.

          Muitos estudavam no mesmo Colégio. Quando o CSA ganhava, Claudinho não aparecia na Praça Deodoro, porque a turma era azulina e caia em cima dele. Quando o CRB ganhava, a gozação era d ele e do Bandeira em cima da turma do CSA. Era uma época de diversos craques e pouco dinheiro. Diferente dos dias de hoje, muito dinheiro e poucos craques. Os jogos eram realizados no Mutange e na Pajuçara. No campo do CSA quando chovia, o gramado virava lama. Quando fazia sol, a grama ficava dura. No campo do CRB, nos intervalos dos jogos, os jogadores tinham que tirar as chuteiras e jogar a areia fora. Apesar disso, era gostoso jogar naquele tempo. Na imprensa, havia Luiz Alves, Aldo Ivo, Osvaldo Braga e outros que sabiam criticar. Faziam críticas construtivas. Existia uma crônica completa de todo o jogo. Hoje mudou. Existe mais espaço no jornal, no rádio e na televisão. Infelizmente, esses espaços são ocupados mais com o noticiário do futebol do Rio e de São Paulo.

           E Claudinho contou um detalhe de sua vida esportiva que poucos sabem. Ele participou ativamente do esporte amador, atuando pelo Flamengo de Maceió como jogador de vôlei e basquete. Com ele, jogavam outros craques do futebol: Carijó, goleiro do CSA; Dudu, goleiro do CSA; Arroxelas, do CRB; Geraldo, do América; Vetinho, do Ferroviário. As partidas eram disputadas na quadra de cimento da Polícia Militar. Para ele, o negócio era jogar. No gramado, na quadra, na praia ou em qualquer lugar. Tendo uma bola e um pedaço de chão, já era suficiente. Voltando ao futebol de campo, Claudinho sente saudade de jogadores com Bandeira, Miguel Rosas, Cacau, Divaldo, Castelar, Nezinho, Cão, Dida, Laxinha, Dario, Santa Rita e Miltom Mongôlo. Nunca ouviu falar em suborno no se u tempo de jogador. Talvez, porque a divulgação não tinha a mesma dimensão dos dias atuais.

           Claudinho afirma que valeu a pena ser jogador de futebol. Se pudesse, começava tudo de novo. Foram dezesseis anos de muitas emoções e poucas decepções. Fez diversas amizades douradoras e soube ser um profissional responsável. Ganhou algum dinheiro, gastou outro tanto, contudo ficou com alguma coisa. Aposentou-se como funcionário do Estado e, apesar de seus oitenta anos de idade, vive a vida que Deus reservou para ele.


Claudinho, Hélio Miranda, Dengoso, Carijó
Museu dos Esportes