sexta-feira, 20 de janeiro de 2012

[Crônica] Luiz Sávio de Almeida. Bicas. Minas Gerais. Cinema, carnaval, namoro e a professora do preconceitrio rides again


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ALMEIDA, Luiz Sávio de. Bicas. Minas Gerais. Cinema, carnaval, namoro e a professora do preconceitrio rides again
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A namorada vestida de baiana

Eneida pergunta sobre a namorada. Não sei como tudo começou, apenas que havia namoro. Ela morava do outro lado da linha, um lugar onde nunca fui. Acho que da calçada do grupo se avistava a casa dela. Não sei quem eram os pais e nem como tudo começou; sei apenas que nos encontrávamos no cinema, dia de sábado (?), nas matinais. Falar em cinema, é preciso reduzir ao tamanho de Bicas, um quase nada de cidade àquela época. Dele, eu guardo recordação da paçoca que era vendida, um pacotinho cuidadosamente feito com papel de embrulho e na forma de cone. Eles eram cuidadosamente armazenados em um tabuleiro que um menino portava.

O que era namorar? A ingenuidade é algo extremamente fantástico. Namoro significava ela guardar lugar para mim no cinema e então eu me sentava e ficava ali, vendo o filme e conversando miolo de pote. Não sei se é verdade, mas penso que o cinema ficava vizinho a uma lanchonete, tinha somente uma bilheteria. Entrávamos, direita ou esquerda e me parece que não havia um corredor pelo centro: para acesso às filas, usávamos as laterais;

Ela sentava pelo centro e eu ia andar pela redondeza, meio pavão, meio numa dança animal limitada pela cultura prevalecente, pelo elemento civilizatório.  Fico pensando na solenidade do namoro e o que estaria significando guardar a cadeira. Um belo código deveria estar estabelecido com significado para o casal e para o público.  Publicamente, era um sinal de compromisso, pois ela deixava evidente que era comprometida, que alguém sentaria a seu lado e o sinal era simples: o assento encostado e, também, vez em quando ao sentir-se ameaçada, a mão na cadeira vazia.  De vez em quando um olhar e a hora de sentar era quando se dava a projeção.

Era assim, mas pegava-se na mão. Pelo menos, da minha parte, seria o gesto, mas audacioso. Ela era uma menina franzina, ligeiramente morena e restou como dois olhos extremamente bonitos. Mas não é do cinema, que a guardo nitidamente. É de outro lugar e para mim foi inesquecível. Não sei até  hoje,  a razão de ter ficado tão nítido na cabeça. Não sei se ela está viva, eu espero que sim; não sei se estando viva, lerá estas mal traçadas linhas. Vou dizer o nome por um simples motivo:  as coisas eram de uma natureza tão angélica que o segredo, este sim, seria pecaminoso.

Comecei a lembrar de uma musiquinha cantada pelo Paulinho da Viola: “Era dia de carnaval...” Exatamente em uma tarde de carnaval, em um baile vespertino foi que se deu o inesquecível. Era em um sobrado, um Clube: Bicas não sei o que lá. Ela estava vestida de qualquer-coisa.  Não posso definir se era uma baiana, mas tinha turbante e dançava meio a la Carmem Miranda com remexidos de mão e de quadris. Dançamos a tarde toda. Consigo vê-la, mas  não consigo ver a mim mesmo. A mãe deveria estar observando, sentada em algum lugar, com certeza orgulhosa da filha estar vestindo a fantasia que ela deve ter bolado e talvez confeccionado. O fundo musical, contudo, não se harmonizava com tanta insistência em dançarmos. Naquele carnaval, fez sucesso uma marchinha que falava sobre um gago:

É ou não é

Piada de salão?

Se acham que não  é,

Então não conto não!

Um sujeito que era gago

Procurou um botequim,

Chegou perto do gerente,

Outro gago bem ruim

E disse assim:

Eu tô, to, tô

Aonde é que tá, tá, tá?

Mas o outro gaguejou...

Chi! Trá, lá, lá, lá, lá

Eu não posso garantir que esta era a música,  mas foi ela que me ficou na cabeça ao me lembrar da Carmem Miranda a la biquense,  requebrando em minha frente no seu abafado de roupa de baiana feita para meia estação. Claro que a minha história não é tão romântica quanto a do beijo final em Casablanca, mas satisfaz.  O nome é Sheila e espero que esteja muito feliz. Seu noivo, marido, companheiro jamais a guardará como eu guardo: sambando numa tarde de carnaval.


Ainda a  pedagogia da opressão



As encrencas da professora com os potes de ódio reservados em casa, não terminaram, só que passaram a  muxoxos, mais baixo, sem a demonstração pública evidentíssima como eram as anteriores. Não sei mesmo o que aconteceu. É montada a festa da formatura do primário. E ela resolve que haja uma dança; uns meninos vestidos de pele-vermelha,  fantasia de índios americanos. Imaginem o surreal da composição. Bicas, Minas Gerais, Brasil. Somente a cabeça daquela Mestra poderia conceber o espalhafato de palco que seria meus colegas índios americanos a dançarem ao som do Jingle Bell  e realizando uma coreografia que era fundada nos passos de dança de guerra que aparecia nos filmes em que os heróis brancos americanos eliminavam sistematicamente os índios.

Ela queria me forçar a dançar de índio e deu-me um verdadeiro esporro baixo. Perguntou se eu conhecia a música e eu disse que não e a ideia dela foi simples: coisa de quem vinha das brenhas. Eu fiquei com cara de idiota e vontade de ir embora, pois já não era mais aluno dela. Já havia acontecido outro entrevero. Havia um álbum a ser preenchido por todos os formandos e o burro aqui foi o único que escreveu errado. Meu Deus do Céu, o mundo desabou e ela não se conteve; foi outra declaração da minha mais absoluta ignorância. Havia ódio e não duvido que ela babava. Terminei tendo que ir à sua casa, ficava numa transversal que dava para a praça da Matriz, para ver se concertava o erro. Haja burrice nordestina.

Vai então que sou mandado a uma missão, dentro do programa da festa. Eu teria que me transformar em gaucho, vestir bombacha e tudo mais e cantar rodando um  laço, acompanhado por um regional.  Lembro da música:



Quando adormeço, começo a rir

Eu sonho que vejo

Juntinho de mim a garoa  cair

E a cavalgada com seu laçador

Para os campos partir.



Neste sonho, vejo tudo

O que me encanta

É a gaúcha,

a rezar juntinho santa



Vai que eu entro no palco e começo a cantar. Olho para o regional e o maestro balança negativamente a cabeça.  Fico olhando para ele e tentando me ajustar ao que ele queria; finalmente ele balança a cabeça com um sim e um sorriso imenso no rosto. Ele havia sido testemunha das agonias em ensaios. Desta feita, quando terminei foi palma demais; muita palma. Olhei para baixo: o maestro batia e sorria para mim. Jamais esqueci do seu rosto ou inventei um para simbolizar a solidariedade. Não devo negar, que saí triunfante; mas nem falei com a madame, passei por ela como passaria na frente do Gargamel daquele antigo desenho que passava na Globo.

Havia um rapaz em Bicas que era considerado como um grande cantor, um tenor de nomeada biquense. Estudava no Ginásio. Não recordo o nome; ele morava na rua que dava direção ao sítio da Dona Manu. Cantou na festa e veio andando comigo pela rua, comentando quanto eu havia me saído bem. Despedimo-nos, pequei a lateral do grupo e ele continuou. Meus pais vinham atrás. Chegamos em casa, logo na entrada meu pai deu um tapinha na minha cabeça e disse: Venceu!

Depois disso, jamais procurei saber onde andava a Mestra, mas ela não sumiu da minha vida.  Continua presente da mesma forma a partir da qual me ensinou a vê-la:  a representação física da intolerância, a demonstração do professor que eu jamais me deveria ser.

Eu estou me lembrando agora, dos estudos sobre sociologia ou história da educação que passam por cima desses acontecimentos, para se aterem ao que vou chamar de grandes variáveis: a classe, o estado, e coisas semelhantes. Fico pensando um pouco, na history from bellow de Thompson. Há uma relação direta de vida entre a educação que recebi naquele grupo escolar e o modo de ser professora daquela senhora. É claro que ela não esgotava o grupo, mas é claro que ela somente existia por ter permissão para existir e estava, sem dúvida, calçada pelo poder.

Não sei o nome dela, não quero saber. Posso contrastar com uma figura de professora, da qual jamais esqueci. Era uma mulher franzina, carregando luto fechado, deveria ser viúva. Ensinava canto orfeônico e trabalhos manuais. Deveria ser pobre, e ganhar uma migalha de nada por mês como professora. Parece que era Beatriz, o seu nome. Bisonha, mas honesta no seu relacionamento. Eu gostava dela; sabia me tratar, não desdenhava dos meus trabalhos manuais. Ainda hoje, não sei o que é traçar uma linha reta. Com ela eu aprendi e jamais esqueci o hino do Ginásio Francisco Peres. Apendizado muito importante da minha vida. Diz o hino: “Nossa escola nos dá o ensino, de que carecem os nossos misteres...” Será? A escola é a vida. Aquela senhora me ensinou bem mais do que o seu be-a-bá mal enunciado. Quem tinha razão era minha mãe. Você vai encontrar muitas pessoas iguais a ela.






[CRÕNICA] Luiz Sávio de Almeida. Os grandes amigos também morrem







Dia oito de janeiro de 2012

quinta-feira, 19 de janeiro de 2012

[SERTÃO: ECONOMIA: PECUÁRIA LEITEIRA: QUEIJO: MAJOR IZIDORO: ALAGOAS] Ariadne Aguiar Vitório Mendonça. Da cozinha da casa de fazenda às fabriquetas de queijo: traços da cultura artesanal no semi-árido nordestino



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MENDONÇA, Ariadne Aguiar Vitório. Da cozinha da casa de fazenda às fabriquetas de queijo: traços da cultura artesanal no semi-árido nordestino. O Jornal. Maceió, 7 dez. 2008. Espaço. 
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Umas poucas palavras
Luiz Sávio de Almeida






Espaço vai à zona rural e visita o semi-árido das Alagoas em busca do que está acontecendo no âmbito dos pequenos laticínios que subsistiram por anos e anos na rotina, mexida pela introdução da idéia de mercado ou adequação às normas que pretendem renovar a produção, sistematizando-a e interferindo nos ganhos do produtor ao dar-lhe possibilidade de presença no universo do consumo     "modernizado". A idéia prevalecente é que a saída        para mercado necessariamente rearticula as chamadas formas tradicionais, modo de ser que não se enquadra no universo das transformações que estão sendo articuladas.

As interferências no que é chamado – grosso modo - de sertão (categoria elástica sobre as terras no oeste profundo do estado) e mas especificamente sobre uma área conhecida como bacia leiteira, vem estabelecendo novos padrões de relacionamento na estrutura da produção leiteira, fazendo coexistir uma mescla de circunstâncias que passa pelo empreendimento de natureza capitalista até mesmo articulado à cadeia internacional, pelo empreendimento que se refere ao sistema cooperativo e pela pequena produção rural. O dito progresso não perdoa a produção tradicional e, obrigatoriamente, a desloca sob argumentos que se delineiam dentro do escopo de mercado, onde aparecem um guisado de lucratividade, competitividade e por aí segue o rosário desenvolvimentista centrado nas atualizações das estruturas produtivas.

Tudo isto termina por interferir no cotidiano queijeiro da região do semi-árido alagoano, gerando modificações que terminam, obrigatoriamente, incidindo sobre o espaço construído e sua forma tradicional de ocupação, matéria da preocupação direta de Ariadne cujo trabalho passa por esta discussão e leva-nos a uma indagação mais profunda: o que está acontecendo no sertão? Como a pecuária leiteira vai vivendo sob novos aportes do capital? Como o estado chega ou não chega lá? Quais as formas de mercado que começam a afetar o universo da produção Este seu artigo foi desenvolvido para uma disciplina que ministro no mestrado da FAU e ela tem como título A Formação do Espaço Alagoano. Esta matéria publicada foi vista pelo orientador de sua dissertação, Professor Dr. Alexandre Márcio Toledo. Os nomes de  informantes e estabelecimentos são fictícios.


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O que faz Ariadne!

Arquiteta e urbanista, professora da Escola Agrotécnica de Satuba, mestranda DEHA-UFAL cuja pesquisa desenvolve-se em torno da caracterização das tipologias das queijarias no município de Major Izidoro-AL.
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Depois de séculos de ocupação com a atividade pecuária, a região do semi-árido de Alagoas transforma-se de forma lenta e fragmentada, sobretudo a partir das imposições do mercado de laticínios, feitas através dos órgãos governamentais de regulamentação. As formas características das queijarias vão se deslocando gradualmente para espaços anexos às casas, ao mesmo tempo que surgem novas formas e modos de divisão do trabalho. É possível identificar o processo de alterações nestes espaços, que revelam a dinâmica do processo social e podem ser entendidas como expressões de mudança no local. Essas transformações foram analisadas em 12 das 57 unidades de produção queijeira existentes no município de Major Izidoro, que detém a maior quantidade deste tipo de estabelecimento rural no estado.

As queijarias surgem como estratégia de aproveitamento do leite, que é caracterizado como produto perecível. Dadas as condições de acesso aos centros consumidores dificultadas pela distância e condições de transporte, o leite torna-se inviável se vendido in natura. Segundo Andrade (1986, p.165), "o leite no sertão só tem valor comercial in natura nas proximidades das grandes cidades, sendo transformado em requeijão e em queijo ncoalho nas fazendas mais distantes". Ainda segundo o mesmo autor (1986, p.165), ao vaqueiro cabia a administração da fazenda, e também as atividades relativas à criação, conduzindo o gado para as pastagens, recolhendo-o no final da tarde; cabia-lhe, inclusive, a ordenha das vacas, enquanto a "sua família se encarrega da fabricação, por processos rotineiros, do queijo e da coalhada".

Essa atividade era desenvolvida especialmente pelas mulheres e tinha a função de abastecimento familiar, conforme se pode entender a partir de texto de Barroso (1930, p.180), em seu livro "Terra de Sol", datado do início do século XX, quando realça a posição feminina no contexto da produção doméstica, assinalando as tarefas que eram executadas: "a mulher do sertão cuida da casa, faz o queijo, ajuda na colheita e no plantio dos roçados.

Como seria de esperar, as construções das habitações dos trabalhadores das fazendas eram simples, em face, inclusive, da insegurança quanto à fixação no local. Até mesmo as sedes das fazendas não possuíam os investimentos em materiais, acabamentos e mobiliário, por exemplo, que ocorriam nas sedes das fazendas das zonas canavieiras, se bem que deve pesar, neste contexto, a desigualdade de renda presente nos dois locais de produção. Os proprietários sertanejos, via de regra, não residiam nelas, deixando ao vaqueiro  a administração.






Era nas cozinhas dessas habitações, principalmente na do vaqueiro, que se produziam os derivados do leite, como o queijo tipo manteiga, a conhecida "manteiga do sertão" e o queijo tipo coalho, que faziam parte do cardápio regional. De início, o queijo surge com o objetivo de consumo familiar, transformando-se com o tempo em atividade também comercial: “A cozinha acumula as funções de queijaria. Junto às trempes toscas ou aos grandes fogões de alvenaria, rente às prateleiras pejadas de louça grossa, encostada à parede de tacaniça, a gasta prensa de fazer queijo repousa numa aluvião de moscas que a cobrem, sussurrando (BARROSO, 1930, p.193).

Passado em torno de um século pode-se observar em algumas destas fazendas elementos que ainda permanecem presentes, como é o caso do uso da prensa de madeira e a grande quantidade de moscas, apesar das mudanças que ocorreram nos sistemas produtivos e nos padrões de consumo. Tais mudanças são significativas tanto nas construções das habitações quanto na forma de exploração dos derivados do leite como produto comercial, permitindo que as pessoas diversificassem as suas atividades, surgindo novas funções.

Do ponto de vista restrito da arquitetura, ocorreu uma adaptação da forma à função; do ponto de vista econômico a mudança aconteceu, sobretudo, ao se conferir valor de mercado aos derivados do leite. Este binômio forma-função é ressaltado por Hertzberger (1999, p.103) ao afirmar que "a forma é capaz de adaptar-se a uma variedade de funções e de assumir numerosas aparências, ao mesmo tempo que permanece fundamentalmente a mesma". Isso nos ajuda a discutir a natureza das mudanças ocorridas no fabrico do queijo; elas não  conseguiram alterar por completo o complexo da produção, apesar da mudança do espaço e das interferências na estrutura.

Em toda a região existe uma variedade de pequenas propriedades que possuem praticamente a mesma  estrutura, constando da habitação cercada de pequenas construções que dão suporte à criação de galinhas, porcos e gado, além da queijaria. A queijaria, por sua vez, pode ser classificada em uma espécie de escala que possui em um dos extremos a dependência da planta em relação à casa do queijeiro, e no outro extremo, o alcance da total independência, com um programa de necessidades previamente definido e planejado com suporte técnico, permitindo que todas as etapas da produção tenham um ambiente próprio a sua execução, como também apoio aos empregados. Esta variação se dá em relação ao tamanho das construções, à quantidade de ambientes e à quantidade e à qualidade dos produtos fabricados, enquanto a uniformidade da estrutura existe como repetição na utilização de arranjos espaciais relativos aos tipos de produção complementares da fazenda ou propriedade rural. Essas atividades estão presentes tanto nas mais simples propriedades, quanto naquelas que possuem um grau maior de organização e de investimentos, o que indica que esse tipo de estrutura faz parte de uma experiência vivida no cotidiano, com hábitos e costumes característicos do sertão nordestino.

Hoje a fabricação é realizada também por pessoas que não fazem parte da fazenda de gado, existindo várias atividades correlatas, como a compra,  a revenda e o transporte do leite, a posterior fabricação dos derivados, com  o ingresso da complexa figura do atravessador.Isso é percebido, por exemplo, observando-se a intrincada rede  de relações que tende a gerar novas divisões de trabalho, à medida que a produção aumenta e alcança mercados que atravessam as fronteiras na condição de produto tradicional do sertão nordestino, com valor regional consolidado ao longo do tempo.

Na prática, as relações não seguem um mesmo modo de lidar com a produção; embora façam parte de uma mesma categoria, existem situações particulares. O Sr. Manuel Silva junto com sua esposa Josefa e seus filhos ainda criança vivem em uma pequena propriedade rural a 13km da cidade de Major Izidoro, constando de uma casa que está conectada com as atividades produtivas, como a criação de galinha, de porcos, de algumas vacas e uma fabriqueta de queijo. Por causa do tamanho reduzido do espaço de fabricação   (aproximadamente  6m²), utiliza as dependências da casa para complementar o programa de necessidades da fabriqueta, tanto na cozinha para armazenamento dos  queijos na  geladeira e freezer, quanto  no banheiro e no terraço onde recebe as pessoas, que também é ocupado em parte por um tanque de refrigeração. Na sala de jantar, senta para organizar suas contas.

A  fabriqueta funciona com o leite  fornecido por algumas dezenas de pequenos produtores vizinhos. Manuel possui poucas cabeças de gado leiteiro, mas há alguns anos ele não as possuía, e começou neste ramo já enraizado na cultura local como revendedor de leite. O controle da produção de leite é feito com anotações diárias em uma caderneta, em que consta o nome ou apelido do produtor, o dia e o volume de leite recebido. Ele recebe 2.000 litros/dia, de 90 fornecedores; o leite fica armazenado no tanque de refrigeração cedido por uma cooperativa, localizado no terraço da sua residência. A maior parte do produto destina-se à venda para a cooperativa. Ele utiliza 800 litros/dia de leite para a sua fabriqueta de queijo. Sua fabriqueta não possui nome, nem registro dos órgãos fiscalizadores.

Um dos vizinhos que utiliza o tanque de resfriamento para vender o leite à cooperativa é o Sr. José Santana, que exerce em sua propriedade as mesmas atividades desenvolvidas na do Sr. Manuel. Sua fabriqueta tem dimensões semelhantes e localiza-se ao lado da sua casa. Ele recebe o leite de outros 20 pequenos proprietários. Apesar das semelhanças na configuração do espaço e nas atividades, eles não possuem os mesmos ideais em relação a projetos futuros: enquanto o Sr. Manuel começou a investir junto com outra pessoa na compra de um terreno para montar um laticínio nos moldes da legislação estadual, apesar das parcas condições financeiras, o Sr. José Santana, que possui um mercadinho na cidade, avalia que será melhor ampliar suas atividades no comércio, acreditando em prejuízos se continuar a fabricar queijo de forma clandestina, sujeitando-se aos riscos decorrentes tanto da baixa lucratividade da venda do leite e do queijo em relação aos custos de produção, quanto de ter seus produtos apreendidos nas barreiras fiscais durante o transporte para os locais de consumo.

Seguindo a escala de classificação  das queijarias, há aqueles que se encontram num nível intermediário, graças às melhorias empreendidas no espaço, em pessoal, em equipamentos e, conseqüentemente, na qualidade higiênica de seus produtos. Normalmente esses investimentos  são realizados sem a utilização de financiamentos bancários, com a venda de boa parte do plantel dos animais de criação da propriedade. O risco parece ser necessário diante das constantes ameaças dos órgãos controladores da atividade, embora se sintam prejudicados pela concorrência.

Um outro proprietário de fábrica  de queijo, o Sr. Aparecido Santos, diz que a exigência dos bancos de hipotecar  a propriedade, que não é só sua, para conseguir um financiamento, torna inviável qualquer empréstimo,  pois a ameaça de perder a terra representa um risco à sobrevivência de toda a família. As características simples das habitações e dos espaços de produção são preciosas enquanto valor sóciocultural. Aexistência dessas relações se dá de forma dinâmica, revelando possibilidades de desenvolvimento sustentável para a região, embora contrariem as regras atuais do capitalismo, com tendência às grandes corporações e à concentração produtiva.

Torna-se imprescindível, em qualquer tipo de intervenção local, o olhar individualizado sobre essas relações que de início parecem fazer parte de uma mesma categoria, mas que possuem nos seus fragmentos, ritmos e formas variadas de vida. É importante salientar que as fabriquetas surgem como uma possibilidade real de produção, fazendo parte de uma tradição em um meio natural que se mostra inadequado para a prática da agricultura tradicional, por causa das condições edafo-climatológicas. Há, portanto, necessidade de se ponderar as imposições que parecem intransponíveis sem um apoio governamental, ante o valor sócioeconômico e cultural dos pequenos estabelecimentos rurais.  O forte apelo à higiene e à qualidade dos produtos lácteos parece esconder razões que estão além da preocupação com a saúde do consumidor e que têm relação com a necessidade de expansão do consumo, querendo a todo custo abocanhar mercados tradicionais como a produção artesanal de queijo.


REFERÊNCIAS:
ANDRADE, Manuel Correia de. A terra e o homem no Nordeste: contribuição ao estudo da questão agrária no Nordeste. 5ª
ed. Ed. Atlas, São Paulo, 1986.
BARROSO, Gustavo. Terra de sol: natureza e costumes do Norte. 3ª ed. Livraria Francisco Alves, Rio de Janeiro, 1930.
HERTZBERGER, Herman. Lições de arquitetura. Trad. Carlos 






[URBANISMO: FAVELA: LIXO: MACEIÓ] Viviani Duarte AciolI. Lixo Lixo! Lixo?

















Umas poucas palavras

Luiz Sávio de Almeida


Vila Emater é conhecida como Favela do Lixão, referência direta aos restos de Maceió que são jogados no local, e aglutinam uma população a viver, em sua grande maioria, em torno da renda miúda que o lixo pode gerar. É renda para quem se deu ao aprendizado de agregar valor ao que foi declarado sem serventia numa atividade misteriosa fundada na capacidade incrível de subsistir, gerando  especialização profissional conhecida como catador, que termina por montar um espaço, e determina a necessidade da existência de formas de organização próprias.

A Favela do Lixão é, basicamente, uma população de catadores; mesmo que nem todos os habitantes vivam direto do lixo, a grande maioria dele subsiste, gerando a possibilidade de chamá-los de sociedade coletora, e vê-los subsistindo numa das formas mais perversas da vida humana. Esta sociedade coletora tem de se organizar para manter-se internamente e para ter relacionamento com a grande sociedade. É assim que vão aparecer as mais variadas formas de serviços internos, com suas rendas, seus limites, suas significações. São várias as formas de escrever sobre este problema. Uma delas é através do registro fotográfico.

Viviani Duarte passou oito meses visitando a área, duas vezes por semana trabalhando com as crianças, numa permanência em torno de 220 horas, dedicadas ao convívio, à observação, ao registro fotográfico. É deste registro que publicamos treze fotografias, três introduzindo emblematicamente a comunidade, e tudo terminando pela paisagem que demonstra o contraste entre os coletores urbanos e a grande maravilha da riqueza que é a orla. Achamos interessante publicar esta espécie de diário e partilhar as imagens com nossos leitores, possivelmente mostrando o que poucos conhecem.

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Viviani Duarte Acioli é graduada em Psicologia - CESMAC, Especialista em Psicologia da Educação - PUC/MG, Especilaista em Psicologia Clinica Hospitalar - UFAL, Especialista em Design Estratégico - FEJAL, Especialista em Psicologia Jurídica - FACHO. Tem formação em Arteterapia, é membro fundador e coordena o Fórum Permanente de Arte Educação de Alagoas, é professora da FALe da FAMA e como artista visual realizou exposições individuais e coletivas com  fotografia. É curadora da Galeria de Artes Visuais do Espaço Cultural do SESI.


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ACIOLI, Viviane Duarte. Lixo Lixo! Lixo?. O Jornal. Maceió,  01.fev. 2009. Espaço.
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LIXO LIXO! LIXO?

Viviani Duarte

Os olhos livres tornam único o sentido do momento, tão único quanto o piscar de olhos ou como a eternidade fixada na fotografia. Estes meus registros fotográficos mostram e revelam algumas situações encontradas por mim, no período em que visitei a comunidade da Vila Emater. A minha permanência deu margem a que eu olhasse o grupo e seu espaço. Fui identificando suas formas de organização, observando os serviços que estavam montados na caracterização daquela vida. Moradores da comunidade vivem e sobrevivem do lixo, e usam o que encontram de forma criativa e necessária.
Minhas fotos são um diário de minha permanência na comunidade e as explico a seguir:



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Foto 1
A simbologia do pássaro: o urubu, o verde, o coqueiro. O pássaro do lixo ou o lixo do pássaro?
Foto 2








A vila. O varal e o cotidiano que cria uma visualidade íntima quando a roupa sem seus corpos estão estendidas na rua, expostas ao público como uma cena sem personagens.





Foto 3 
O guardião. O cachorro que pode ser qualquer um mas estava aguardando ou guardando o que os outros nao quiseram?


Foto 4 a 8
A escrita fora dos padrões gramaticais e ortográficos oficiais, mas com códigos identificáveis por seus moradores. 




Foto 9
Comunicação. O mural que funciona utilizando ícones da mídia da cidade.


Foto 10
Comunicação. Como não existe numeração das casas, os moradores podem se identificar por seus nomes.

Foto 11
Espiritualidade. O centro religioso.  A fé explicitada com a liberdade de escolhas.
Foto 12
Lazer. Utilizando material tirado do lixo, na época da Copa do Mundo., bandeirinhas como em qualquer lugar que vai torcer pelo seu país.

Foto 13

Contraste. Em cima, o lixo produzido por quem
está abaixo, em suas casas seus apartamentos, e este lixo é
trabalhado por pessoas que vivem e sobrevivem deles.






quarta-feira, 18 de janeiro de 2012

[Violência: Homossexual::Criminalização: Cidadania] Luiz Sávio de Almeida. Um desabafo sobre a violência nesta inefável Alagoas





Um pequeno bilhete sobre a violência

Luiz Sávio de Almeida


Estamos trazendo uma pequena reflexão sobre a violência em Alagoas. É interessante estarmos tropicalmente e, segundo alguns,  em plena pos-modernidade,  convivendo com uma poderosa Esfinge de cor grega fosca: Decifra-me ou devoro-te.  O decifrar sob pressão da morte passou a ser um quadro estranhamente cotidiano nas Alagoas. Onde estará o nosso Édipo? No governo, em vilegiatura, em qualquer um de nós ou devemos esperá-lo como um salvador que anda preguiçoso?



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ALMEIDA, Luiz Sávio de. Um desabafo sobre a violência nesta inefável Alagoas. Tribuna Independente. Maceió, 13 set. 2011. Contexto.
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 Um desabafo sobre a violência nesta inefável Alagoas

Luiz Sávio de Almeida

É interessante notar uma situação aparentemente trivial; sempre que algo vai podre neste reino da Dinamarca, reaparece a cidadania agônica, aquela que somente é argumentada na hora das agonias públicas. De repente, aquele que é empobrecido durante toda sua vida, passa a ser visto como o cidadão que deve ser chamado para ajudar – como peça indispensável –, na resolução do problema, ou seja: trazer o miserável para o palco e dar-lhe significação cidadã, quem sabe, num verdadeiro exercício de destruição do próprio senso constitucional.
Foi assim na cólera: de repente, a pobreza era chamada a saber como defecar com eficiência pública, ela, diga-se de passagem, que jamais teve condições para ser eficiente na privada.  O trágico é que há razão neste chamamento por mais doloroso que seja, embora ele tenha que existir envelopado em um pedido de perdão: Perdoe Grota do Índio; perdoe! Sem tal exercício de humildade, muito pouco poderá ser feito, especialmente quando se tem o clima gerado por anos de omissão pública.  A chamada elite alagoana tem que se debruçar junto às casas mal ajambradas que ajudou a construir e convencer que pode carregar um propósito honesto.
O Estado precisa se fazer acreditar. Se a mudança se desse em um circuito fechado, de muito se poderia ter resolvido as mazelas do sistema. Um objetivo social que se funda numa ideia de equação já está desmanchado antes mesmo de começar. A mudança precisa apelar para uma mentalidade e essa é a única possibilidade de fazer com que as chamadas “políticas públicas” saiam de reuniões e cheguem como prática efetiva às áreas do povo.

Por onde anda o problema da violência

É preciso que se comece a discutir um elemento singelo: o problema da violência vem sendo matéria de discurso ou de  ações capazes de encaminharem um princípio de solução? Em outras palavras, nós gostaríamos que fosse vencido o quase-dilema-público: o cidadão tem mais medo do traficante do que confiança no Estado? Não tenho, no momento, qualquer dúvida em dizer que sim e então: o tráfico vira, a bem dizer, um poder paralelo a somar as misérias de todos nós?
A grande vantagem nossa, é que os traficantes estão aparentemente atomizados, parecendo não haver possibilidade de um extenso pacto territorial. O crack trouxe a figura de um novo tipo de traficância. No buraco de uma grota vive aquele que semeia o farto da miséria entre sua própria gente. A modernização da droga foi conseguida de uma forma inteligentemente perversa: a multiplicação do nocivo a menor custo. E isso possibilitou uma multiplicação ad infinitum, pulverizando os territórios de controle até um limite do impulverabilizável. Qual é tal limite? Possivelmente, trabalhar tal questão termine por nos levar a ponderar sobre os  fundamentos que assentam a política, a economia e gestão da droga.
 Por tal caminho, notar-se-á a existência de uma coluna dorsal; isto parece  óbvio, mas ela distribui os riscos e os resultados nos diversos territórios. Se isto for verdade ou uma hipótese que deva prosperar, onde a dorsal estaria locada nas Alagoas? Poderemos ver para além do traficante que mata por vinte mil réis? Haverá um capo dos capi, a estrategicamente dividir para governar? Será que o caos do tráfico é aparente? Será que não se tem uma direção assentada para seus rumos? Será que a estratégia do desenvolvimento de territórios particulares não é uma maximização operacional e confunde e tira o enfoque na estruturação da dorsal?

A economia criminosa

Se dermos ao termo crime um sentido mais elástico, entendendo como criminosos os fatos que violentam a democracia, o ilegal em Alagoas pode ser bem mais poderoso do que o legal?   O que poderíamos chamar de economia da transgressão ou da economia política da ilegalidade pode estar concorrendo com muito mais força e peso nos remansos da renda e do produto do que a afirmação da legalidade?  O que poderia acontecer com nossa economia, na medida em que se desse uma repentina honestificação das Alagoas? Imagine-se tudo somado: a droga, a sonegação de impostos, o engabelamento dos direitos do trabalhador, a sonegação previdenciária, a lebre levantada por inúmeras operações que já foram executadas pela Polícia Federal, o assalariamento do compadrismo, o débito para com os serviços públicos, a pirataria e mais e mais... Tudo somado deveria dar uma cifra espantosa e assumir uma proporção imensa sobre o valor do Produto Interno Bruto.
Como se pode verificar, a droga é apenas um elemento no conjunto da ilegalidade e a seu lado correm esses vícios que estão, a nosso ver, carcomendo tanto como o próprio crack e tomara que não se perca o foco sobre eles, sob o argumento da importância do crack.  O combate à droga passa, portanto, pela renovação do Estado. Ele tem que se fazer respeitar pela população e tudo começa, novamente, pela necessidade de ser convincente ao pedir desculpas, ao dizer batendo no peito três vezes: mea culpa, mea culpa, mea maxima culpa. Miserere nobis. Agnus Dei qui tollis peccata mundi, dona nobis pacem.  No arremedo de celebração que fizemos, está o caminho da integração, da comunitas a ser construída.  A droga para ser destruída requer um projeto de comunidade, requer um Estado e um povo andando no caminho da reconstrução. Comunidade não pode ser confundida com localidade. A consciência de que é possível ter-ser um mundo novo, é a essência da questão; mesmo que não se saiba como ele deva ser, tem-se que estar disposto a procurá-lo.

Alguns casos emblemáticos: o homossexual degolado

Alguns casos noticiados pela imprensa durante o mês de agosto são emblemáticos no que se refere à violência e o primeiro nos leva a pensar no risco que alguém corre ao ter uma vida homossexual em Alagoas. É o caso do Denilson professor e ator de teatro e homossexual assumido que terminou degolado.  Ele não é um caso fora do comum, é a repetição de anúncios e mais anúncios. Nossa vinculação com Denilson se deu durante sua participação em A Farinhada, onde fazia a personagem Chico Chalé.  Ele terminou vivendo o seu drama homossexual sem pescoço, numa brutalidade extraordinária.
Ser homossexual em Alagoas é situação de risco. Há uma intolerância fantástica percorrendo os estratos sociais e obrigando a que os gays adotem formas de vida que são perigosas, algumas das quais podendo ser fulminantes, mormente para os que vivem uma vida livre, construindo seus desafios pessoais.  A morte de Denilson cobra à consciência cívica de Alagoas, pede que se deixe os preconceitos de lado, que se entenda as diferenças como mais um motivo de aproximação e não de negação. Será que saberemos aprender com nossos mortos? Qual a razão de sermos tão perversos, ao ponto de negarmos a generosidade ao deixarmos o outro lançado na infâmia do preconceito?

Um segundo emblema: o tráfico esquartejante

Um segundo caso é diretamente ligado ao uso da droga e nos leva à dona de casa esquartejada no conjunto Carminha, onde, além da droga, entra o sórdido. Teria sido um recado da droga? Ela quer ser vista exatamente daquela forma? Para a droga mandar cometer aquele crime da forma como foi praticado, seria um desperdício de maldade. Ela sabe que é temida, sabe como resolve seus problemas, não seria estratégico provocar o sistema daquela forma: tiraram a senhora de dentro de casa, deram tiros, arrancaram o braço e anunciaram que ela era cabueta.
Será que a droga vai anunciando o terror? Pelo menos estamos diante de um sinal que permite a abertura da hipótese: é perigoso para ela deixar que isto aconteça no seio do seu próprio lupem.   O chefão pode perder o controle. Aqueles homens que mataram a senhora no Carminha, caso estivessem representando o tráfico na sua versão local, estariam obrigando o poder a agir de alguma forma inusitada e o Estado sentiu a necessidade de responder com algo de vulto, numa espécie de repetição alagoana do que foi o carioca do Alemão. Em outras palavras, a algo espetacular houve a necessidade de outro espetacular.  
A audácia do Carminha foi o traficante achar-se sem limite, e com a necessidade de mostrar um lado sádico do processo, que, pelo que conhecemos, não esteve tão escancarado antes. Daí: ou se dava uma resposta imediata, ou a sociedade mais uma vez procuraria o Estado e não acharia sequer o seu mínimo. Não vamos discutir se era necessário ou não, ocupar o Carminha. Jamais as autoridades que ordenaram a operação estariam de fuzarca pública. Mas acontece que o Estado ficou com outra batata quente na mão, à qual somente o iluminado do poeta pode ajudar a demonstrar: E agora José? O que faço com este Carminha que conquistei? Deixo, à guisa de ligação com o Estado, um soldado a trabalhar a chamada comunidade?
Nesta altura do campeonato, algum grupo tarefa já deveria ter sido constituído somando a área social do governo para um trabalho que tomando o Carminha como ponto, estivesse sendo irradiado para todo o complexo do Benedito Bentes. E isto somando as áreas municipal, estadual e federal.  Existe recurso? Sei lá! Alguém bastante objetivo diria: Se vire! Impossível não é! Neste caso de praticamente uma guerra urbana, antes de entrar tem que estar preparado para responder à angustiante questão: como ficar? Uma política de segurança tem que urgentemente saber como conquistar e como estar e, sem dúvida, ele não é apenas pensar na Polícia Comunitária, mas no desenvolvimento de área, melhoria mínima e essencial em seus níveis de vida e integrações urbanas.
A Polícia Comunitária não pode ficar como uma espécie de carteiro sem Correios. Existindo, deve ser lastreada com ações de Estado e com isso, a base do desenvolvimento social deve ser tomada como prioritária no Governo.  A arrancada da renda foi vista pela professora Ruth Cardoso e ampliada sensivelmente no Governo Lula com sua política de combate à fome: operar transferência de recursos, acesso a serviços, refazendo o perfil da pobreza deste país.

Um terceiro emblema: o crime na ESMAL

Muitas vezes saí exatamente por aquele mesmo portão com o seu Alfredo, algumas delas com José Malta Marques, querido amigo. Não era raro ficarmos conversando: Fátima Pirauá, Carlos Cavalcante, Dirceu, juízes e também amigos.  Malta Marques é Desembargador. Jamais, mas jamais mesmo, em tempo algum, passou pela minha cabeça que poderia estar na rota de tiros. Aliás, eu tinha confiança e muita, pois lá na frente do prédio estava uma espécie de atalaia policial, uma posição de vigilância de uma guarita; vizinho à direção que os tiros tomaram, estava uma espécie de Corpo de Guarda. Mas não era este fuzuê de segurança, o que me deixava tranqüilo. Agora vejo que era a sensação de o lugar ser inviolável, pois afinal de contas era uma escola e, por outro lado, uma escola especializada para atender a um dos maiores refinamentos de uma sociedade e que é seu corpo de juízes: Escola Superior da Magistratura de Alagoas. Ledo engano. Eu morreria sem saber que estava morrendo, da mesma forma como deve ter acontecido com o subtenente: morte de absoluta surpresa, quase inverossímil para quem morre.
É que o crime nivelou o espaço: ele não tem o sentido do que é público e do que é privado, quem sabe por pensar-se fora da sociedade civil e do Estado.  Por outro lado, os que atiraram no subtenente, jamais poderiam ter a ideia de que ali estava uma escola, ainda por cima superior, e ainda por cima da Magistratura. Pelo o que se sabe, o que interessava era a arma, um objeto a ser roubado como eles roubariam em qualquer situação. Então, para o crime, o espaço é homogêneo, enquanto nós temos, por dever constitucional, de pensarmos nas heterogeneidades: nós temos um daqui para ali e eles não têm o de lá para cá. Tanto faz para ele, que seja uma Escola Superior da Magistratura, que seja uma Escola Rosalvo Ribeiro, que seja um bar da subárea da orla, o carro do Denilson, a casa no Carminha...  Restam as expressões que aprendi, ao ler história em quadrinhos no meu tempo de menino: Pelas barbas do Profeta! Macacos me mordam!
Mais eruditamente, prefiro lembrar de Cícero e suas Catinilárias e a primeira ainda conservo na cabeça na ordem direta e indireta, uma das condições para passar no vestibular de Direito do meu tempo. Lúcio Sérgio Catilina deu trabalho e acho que o espírito dele anda solto nas Alagoas: Quosque tandem, Catilina, abutere patientia nostra. Tradução: Até quando enfim, Catilina, você vai ficar enchendo o nosso saco?  Quem responderá? Quem poderá falar em nome de Catilina?
Foi natural que o espanto chegasse ao Poder Judiciário; de uma hora para outra, ele que é um dos três poderes, viu-se na categoria de qualquer um, absolutamente posto na equalização que o universo do crime operacionaliza. O Estado vem sendo atingindo por todos os lados, até mesmo na corporação policial, pois são inúmeros os registros de presença de policiais em episódios criminosos. Alguns juízes vivem sob proteção; as escolas são roubadas e arrombadas, os Correios deixam de realizar trabalho por conta da senda dos carteiros. Somos todos um mundo estreitado pelo crime que vai do pequeno ao grandola.
E o cidadão vai sendo minado. Por exemplo, eu somente fico parado em um sinal de trânsito quando realmente é impossível romper a proibição de seguir.  Não confio, especialmente à noite, a partir das 20 horas.  De repente – e ainda como ilustração – recupero as regras que meu pai me havia ensinado, por conta de outras situações e que muitos de minha geração devem ter ouvido: Cuidado com esquina! Não dobre uma esquina de peito aberto, parta para o outro lado da rua! Cuidado com banca de revista! Nunca puxe arma; somente use se tiver coragem, mas pelo amor de Deus não teste; é preferível ser frouxo.
 E continuavam os anúncios da segurança paternal: O cemitério está cheio de valentão. Se desejar matar a cobra, esteja disposto a arrancar-lhe a cabeça, se não a arte do Cão aparece e a cobra pode se armar novamente contra você... Nisso misturo fala de pai com fala de tio e por aí seguia o aprendizado da sobrevivência e o arsenal de anos de experiência familiar e pública que passa por minha cabeça a todo o momento em que estou na rua nesta espécie de sempre alerta perverso a que somos obrigados a viver. Dois filhos já foram assaltados e mais de uma vez e vejo-me repetindo – esperando que sirva – para seus ouvidos a mesma poética que ouvi de meu pai ao dar-se trato sobre minha segurança pessoal.
É o próprio Estado que se vê vítima em seus serviços; uma Universidade Federal de repente encontra dois cadáveres em um dos seus campi; é uma Escola Rosalvo Ribeiro que de repente sente os tiros e morre seu vigilante. O crime desta forma parece estar em condições de conter o Estado Nacional, desalojar seus serviços e, também, interfere na organização da sociedade civil, traçando regras, pondo limites, cobrando ao cidadão pelo uso da via pública, tendo, portanto, o poder de taxar e ir construindo a sua própria legalidade ao, inclusive, manter seus tribunais e padrões de julgamento.
Às vezes penso que estou aumentando, carregando nas cores; eu jamais poderia dizer que se encontra nascendo um Estado paralelo, pois seria forçar a barra, mas sem dúvida sinto uma organização contraditoriamente amorfa e difusa, com o poder suficiente para ditar parâmetros de comportamento. É como se eu obedecesse bem mais ao crime do que o Estado, porque os seus sinais de segurança eu não encontro. Paro o carro olhando a rua, vendo as pessoas, pré julgando pela aparência, incorporando preconceitos e na verdade, eu me sinto avacalhado pelo crime como se eu estivesse criminalizado pela interferência e incidência que ele passou a ter no meu cotidiano.  Não me sinto tranquilo quando um filho sai à noite. Há um trato: se for demorar, telefona e me diz. Não quero saber onde está e nem com quem está; isso pertence a eles, mas quero saber se demorarão.
Cidadão e querido leitor: o que acontece com você e a violência? Será que você romanamente aceitaria uma Delenda Carthago transformada em Delenda  Droga, onde a palavra fica com pinta de primeira declinação: droga, droga, drogam, drogae, drogae, droga.  Bom, bem mais simples é  injuriar-se: Esta droga é uma droga!.