sexta-feira, 20 de janeiro de 2012

[Crônica] Luiz Sávio de Almeida. Bicas. Minas Gerais. Cinema, carnaval, namoro e a professora do preconceitrio rides again


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ALMEIDA, Luiz Sávio de. Bicas. Minas Gerais. Cinema, carnaval, namoro e a professora do preconceitrio rides again
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A namorada vestida de baiana

Eneida pergunta sobre a namorada. Não sei como tudo começou, apenas que havia namoro. Ela morava do outro lado da linha, um lugar onde nunca fui. Acho que da calçada do grupo se avistava a casa dela. Não sei quem eram os pais e nem como tudo começou; sei apenas que nos encontrávamos no cinema, dia de sábado (?), nas matinais. Falar em cinema, é preciso reduzir ao tamanho de Bicas, um quase nada de cidade àquela época. Dele, eu guardo recordação da paçoca que era vendida, um pacotinho cuidadosamente feito com papel de embrulho e na forma de cone. Eles eram cuidadosamente armazenados em um tabuleiro que um menino portava.

O que era namorar? A ingenuidade é algo extremamente fantástico. Namoro significava ela guardar lugar para mim no cinema e então eu me sentava e ficava ali, vendo o filme e conversando miolo de pote. Não sei se é verdade, mas penso que o cinema ficava vizinho a uma lanchonete, tinha somente uma bilheteria. Entrávamos, direita ou esquerda e me parece que não havia um corredor pelo centro: para acesso às filas, usávamos as laterais;

Ela sentava pelo centro e eu ia andar pela redondeza, meio pavão, meio numa dança animal limitada pela cultura prevalecente, pelo elemento civilizatório.  Fico pensando na solenidade do namoro e o que estaria significando guardar a cadeira. Um belo código deveria estar estabelecido com significado para o casal e para o público.  Publicamente, era um sinal de compromisso, pois ela deixava evidente que era comprometida, que alguém sentaria a seu lado e o sinal era simples: o assento encostado e, também, vez em quando ao sentir-se ameaçada, a mão na cadeira vazia.  De vez em quando um olhar e a hora de sentar era quando se dava a projeção.

Era assim, mas pegava-se na mão. Pelo menos, da minha parte, seria o gesto, mas audacioso. Ela era uma menina franzina, ligeiramente morena e restou como dois olhos extremamente bonitos. Mas não é do cinema, que a guardo nitidamente. É de outro lugar e para mim foi inesquecível. Não sei até  hoje,  a razão de ter ficado tão nítido na cabeça. Não sei se ela está viva, eu espero que sim; não sei se estando viva, lerá estas mal traçadas linhas. Vou dizer o nome por um simples motivo:  as coisas eram de uma natureza tão angélica que o segredo, este sim, seria pecaminoso.

Comecei a lembrar de uma musiquinha cantada pelo Paulinho da Viola: “Era dia de carnaval...” Exatamente em uma tarde de carnaval, em um baile vespertino foi que se deu o inesquecível. Era em um sobrado, um Clube: Bicas não sei o que lá. Ela estava vestida de qualquer-coisa.  Não posso definir se era uma baiana, mas tinha turbante e dançava meio a la Carmem Miranda com remexidos de mão e de quadris. Dançamos a tarde toda. Consigo vê-la, mas  não consigo ver a mim mesmo. A mãe deveria estar observando, sentada em algum lugar, com certeza orgulhosa da filha estar vestindo a fantasia que ela deve ter bolado e talvez confeccionado. O fundo musical, contudo, não se harmonizava com tanta insistência em dançarmos. Naquele carnaval, fez sucesso uma marchinha que falava sobre um gago:

É ou não é

Piada de salão?

Se acham que não  é,

Então não conto não!

Um sujeito que era gago

Procurou um botequim,

Chegou perto do gerente,

Outro gago bem ruim

E disse assim:

Eu tô, to, tô

Aonde é que tá, tá, tá?

Mas o outro gaguejou...

Chi! Trá, lá, lá, lá, lá

Eu não posso garantir que esta era a música,  mas foi ela que me ficou na cabeça ao me lembrar da Carmem Miranda a la biquense,  requebrando em minha frente no seu abafado de roupa de baiana feita para meia estação. Claro que a minha história não é tão romântica quanto a do beijo final em Casablanca, mas satisfaz.  O nome é Sheila e espero que esteja muito feliz. Seu noivo, marido, companheiro jamais a guardará como eu guardo: sambando numa tarde de carnaval.


Ainda a  pedagogia da opressão



As encrencas da professora com os potes de ódio reservados em casa, não terminaram, só que passaram a  muxoxos, mais baixo, sem a demonstração pública evidentíssima como eram as anteriores. Não sei mesmo o que aconteceu. É montada a festa da formatura do primário. E ela resolve que haja uma dança; uns meninos vestidos de pele-vermelha,  fantasia de índios americanos. Imaginem o surreal da composição. Bicas, Minas Gerais, Brasil. Somente a cabeça daquela Mestra poderia conceber o espalhafato de palco que seria meus colegas índios americanos a dançarem ao som do Jingle Bell  e realizando uma coreografia que era fundada nos passos de dança de guerra que aparecia nos filmes em que os heróis brancos americanos eliminavam sistematicamente os índios.

Ela queria me forçar a dançar de índio e deu-me um verdadeiro esporro baixo. Perguntou se eu conhecia a música e eu disse que não e a ideia dela foi simples: coisa de quem vinha das brenhas. Eu fiquei com cara de idiota e vontade de ir embora, pois já não era mais aluno dela. Já havia acontecido outro entrevero. Havia um álbum a ser preenchido por todos os formandos e o burro aqui foi o único que escreveu errado. Meu Deus do Céu, o mundo desabou e ela não se conteve; foi outra declaração da minha mais absoluta ignorância. Havia ódio e não duvido que ela babava. Terminei tendo que ir à sua casa, ficava numa transversal que dava para a praça da Matriz, para ver se concertava o erro. Haja burrice nordestina.

Vai então que sou mandado a uma missão, dentro do programa da festa. Eu teria que me transformar em gaucho, vestir bombacha e tudo mais e cantar rodando um  laço, acompanhado por um regional.  Lembro da música:



Quando adormeço, começo a rir

Eu sonho que vejo

Juntinho de mim a garoa  cair

E a cavalgada com seu laçador

Para os campos partir.



Neste sonho, vejo tudo

O que me encanta

É a gaúcha,

a rezar juntinho santa



Vai que eu entro no palco e começo a cantar. Olho para o regional e o maestro balança negativamente a cabeça.  Fico olhando para ele e tentando me ajustar ao que ele queria; finalmente ele balança a cabeça com um sim e um sorriso imenso no rosto. Ele havia sido testemunha das agonias em ensaios. Desta feita, quando terminei foi palma demais; muita palma. Olhei para baixo: o maestro batia e sorria para mim. Jamais esqueci do seu rosto ou inventei um para simbolizar a solidariedade. Não devo negar, que saí triunfante; mas nem falei com a madame, passei por ela como passaria na frente do Gargamel daquele antigo desenho que passava na Globo.

Havia um rapaz em Bicas que era considerado como um grande cantor, um tenor de nomeada biquense. Estudava no Ginásio. Não recordo o nome; ele morava na rua que dava direção ao sítio da Dona Manu. Cantou na festa e veio andando comigo pela rua, comentando quanto eu havia me saído bem. Despedimo-nos, pequei a lateral do grupo e ele continuou. Meus pais vinham atrás. Chegamos em casa, logo na entrada meu pai deu um tapinha na minha cabeça e disse: Venceu!

Depois disso, jamais procurei saber onde andava a Mestra, mas ela não sumiu da minha vida.  Continua presente da mesma forma a partir da qual me ensinou a vê-la:  a representação física da intolerância, a demonstração do professor que eu jamais me deveria ser.

Eu estou me lembrando agora, dos estudos sobre sociologia ou história da educação que passam por cima desses acontecimentos, para se aterem ao que vou chamar de grandes variáveis: a classe, o estado, e coisas semelhantes. Fico pensando um pouco, na history from bellow de Thompson. Há uma relação direta de vida entre a educação que recebi naquele grupo escolar e o modo de ser professora daquela senhora. É claro que ela não esgotava o grupo, mas é claro que ela somente existia por ter permissão para existir e estava, sem dúvida, calçada pelo poder.

Não sei o nome dela, não quero saber. Posso contrastar com uma figura de professora, da qual jamais esqueci. Era uma mulher franzina, carregando luto fechado, deveria ser viúva. Ensinava canto orfeônico e trabalhos manuais. Deveria ser pobre, e ganhar uma migalha de nada por mês como professora. Parece que era Beatriz, o seu nome. Bisonha, mas honesta no seu relacionamento. Eu gostava dela; sabia me tratar, não desdenhava dos meus trabalhos manuais. Ainda hoje, não sei o que é traçar uma linha reta. Com ela eu aprendi e jamais esqueci o hino do Ginásio Francisco Peres. Apendizado muito importante da minha vida. Diz o hino: “Nossa escola nos dá o ensino, de que carecem os nossos misteres...” Será? A escola é a vida. Aquela senhora me ensinou bem mais do que o seu be-a-bá mal enunciado. Quem tinha razão era minha mãe. Você vai encontrar muitas pessoas iguais a ela.






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